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O Comité Central
procedeu a um primeiro exame e balanço, em linhas gerais, quer da acção
do Partido desde a realização do XV Congresso, em Dezembro de 1996,
quer dos complexos e exigentes desafios que o Partido deverá enfrentar
num futuro próximo.
Em resultado dessa análise, que inclui naturalmente indicações e
preocupações há muito existentes mas, em alguns casos, tornadas mais
visíveis pelos resultados das eleições autárquicas, o Comité
Central propõe a todos os militantes e organizações do Partido o
desenvolvimento de um vasto movimento de reflexão, debate, tomada de
decisões e adopção de medidas, visando dar um novo e vigoroso
impulso à concretização de orientações definidas no XV Congresso
que se consideram essenciais para a dinamização, renovação e
maior eficácia política da organização e intervenção do PCP, e
para a ampliação da sua influência na classe operária e nos
trabalhadores, na sociedade portuguesa.
I
Uma perspectiva mobilizadora e combativa de afirmação,
crescimento e dinamismo do Partido
1.
O Comité Central decide promover um esforço consistente e empenhado
para, a todos os níveis da organização partidária, e tendo como
ponto de partida um movimento geral de realização de assembleias
das organizações e reuniões de militantes e de organismos,
reanimar e renovar processos de trabalho e de funcionamento, e
identificar as deficiências e insuficiências que mais afectam a acção
do Partido. Trata-se de, na base indispensável e determinante da
mobilização, da reflexão, da experiência e das opiniões de todo o
colectivo partidário, apurar e definir as orientações e medidas que
mais favoreçam o objectivo central de rasgar uma perspectiva
mobilizadora e combativa de afirmação, crescimento e dinamismo do
Partido, que seja sustentada por sua maior e melhor presença e intervenção
na sociedade portuguesa.
2. Neste sentido, o Comité Central propõe
que, de forma integrada, complementar e indissociável, sejam
consideradas de imediato como grandes áreas de reflexão, intervenção
e decisão prioritárias:
-
orientações e
medidas de revigoramento e rejuvenescimento da organização do
Partido, de alargamento da sua base militante e de maior
responsabilização dos militantes visando um maior enraizamento
e intervenção das organizações de base nas lutas, problemas e
aspirações das classes e camadas sociais, dos sectores
profissionais e das comunidades onde se inserem, e favorecendo,
assim, o fortalecimento das organizações sociais e das lutas de
massas;
-
desenvolvimento,
nos diversos planos de intervenção e frentes de trabalho, de novas
linhas de iniciativa política que favoreçam uma mais forte
afirmação do PCP como partido de luta e partido de projecto,
como partido dotado de uma estratégia integradora da sua intervenção
política e social, como partido firmemente empenhado em impulsionar
a agregação de forças, energias e aspirações democráticas e de
esquerda, que é indispensável para a concretização de uma
alternativa progressista à mera alternância entre PS e PSD na
realização da política de direita;
-
medidas de
fortalecimento e renovação da capacidade de direcção no Partido,
com destaque, entre outros aspectos, para a melhoria da coordenação
política e planeamento da intensa e diversificada actividade do
Partido, uma maior e mais dinâmica elaboração e projecção das
suas propostas e do seu projecto, a adopção de linhas de trabalho
e medidas concretas que, tendo em conta as prioridades, ajudem ao
avanço do Partido nas regiões, zonas e sectores de menor influência,
a formação ideológica dos quadros, a dinamização e maior difusão
do «Avante!» e, em geral, da imprensa do Partido, a criação de
condições para a melhoria do trabalho do Comité Central.
3.
Na área da organização partidária, o Comité Central propõe-se
dinamizar a concretização das orientações traçadas pelo XV
Congresso:
-
um forte impulso
à renovação e rejuvenescimento das organizações e estruturas
partidárias onde, a par da procura de novas adesões, devem ser
tomadas medidas para a integração orgânica de jovens militantes,
de mulheres e dos camaradas que nos últimos anos vieram ao Partido,
bem como uma maior atenção ao papel, acção e reforço da JCP;
-
um plano de acção
para o reforço da organização e intervenção junto dos
trabalhadores, com medidas concretas, meios e quadros, linha de
luta reivindicativa e iniciativa política, no sentido das conclusões
da Conferência Nacional realizada em Novembro de 1994;
-
um criativo e
diversificado trabalho de organização e iniciativa política para
elevar a militância e valorizar o papel do militante. Militância
que deve significar o assumir pelos comunistas o seu Partido. Militância
que traduza e dinamize um aprofundamento da democracia interna e uma
persistente procura de formas de trabalho orgânico e político, que
incentivem uma participação activa dos membros do Partido. Militância
que, a par do reforço do quadro de funcionários com tarefas de
organização, alargue o assumir de responsabilidades por camaradas
não funcionários, libertando assim forças para tarefas mais
exigentes, designadamente em disponibilidade e mobilidade dos
quadros. Militância que deve significar o crescimento do núcleo
activo do Partido, que neste processo deve também ser mais
rigorosamente conhecido e quantificado em balanço de organização;
-
um grande e
empenhado movimento de revitalização das estruturas de base do
Partido. O Comité Central decide lançar um movimento geral e
planificado de Assembleias das organizações de base. Movimento que
deve partir de uma identificação rigorosa em cada organização
regional dessas estruturas - as células por local de trabalho, por
local de residência ou por sector socioprofissional. Uma identificação
que, tendo em conta a divisão administrativa do País, não a siga
mecanicamente, antes seja capaz de concentrar massa militante,
quadros e meios adequados aos objectivos e funcionamento de uma
organização de base. Assembleias que, procurando ser amplamente
participadas devem realizar-se sem formalismos, constituindo espaços
abertos de reflexão, debate e tomada de decisões. Assembleias que,
quando electivas, devem realizar a eleição dos organismos
dirigentes que, por sua vez e nos termos estatutários, «devem
distribuir tarefas entre os seus membros». Nessa responsabilização
individual, deve incluir-se a possibilidade da escolha/eleição, no
âmbito do organismo, do ou da camarada que vai coordenar e
dinamizar o funcionamento do colectivo, no quadro dos princípios
estatutários. Assembleias para determinar respostas, para definir e
dinamizar iniciativas, para reforçar a organização dos comunistas
portugueses, para um reposicionamento crítico da célula como «alicerce
e o elo fundamental da ligação do Partido com a classe operária,
com os trabalhadores, com as massas populares», e «suporte
essencial para promover, orientar e desenvolver a luta e a acção
de massas».
No sentido de uma
profunda revalorização e impulso ao funcionamento das organizações e
organismos de base, o Comité Central manifesta a vantagem na participação
e/ou integração da generalidade dos quadros do Partido nas organizações
e organismos de base, procurando-se assim um mais completo e integral
aproveitamento do enorme capital de experiência política e o simultâneo
enriquecimento de muitos quadros.
4. No movimento geral de assembleias e
reuniões de militantes e de organismos, são pontos importantes, o
questionamento sobre o estado e modo da relação política das organizações
e dos comunistas com as populações, com os colegas de trabalho e
vizinhos; sobre a sua intervenção nas colectividades, nas associações
culturais ou desportivas; sobre o papel e trabalho dos comunistas no
exercício do poder local ou em associações de classe; sobre a batalha
das ideias, de informação e esclarecimento que travamos (ou não
travamos) nesta empresa, nesta rua, neste bairro, nesta freguesia ou
cidade, pelos objectivos programáticos ou mais imediatos do PCP, contra
o descrédito e desvirtuamento do regime democrático e da acção política,
e o abstencionismo cívico e eleitoral. O questionamento sobre a forma
de estar e de agir dos comunistas nas lutas dos trabalhadores e das
populações, nos movimentos sociais e cívicos.
Em particular, uma grande atenção deve ser dada à reflexão e à
tomada de medidas para o aproveitamento do enorme potencial de intervenção
política e de reforço do Partido, que constituem os milhares de cidadãos
e cidadãs que, como independentes, participaram nas listas CDU nas
recentes eleições autárquicas, e com os quais devem ser encontradas
formas mais ou menos regulares de contacto para a coordenação e
desenvolvimento de trabalho nas autarquias e na defesa dos interesses
populares.
5. Ainda no decurso do primeiro semestre
deste ano, o Comité Central procederá a um balanço das medidas
adoptadas e do debate realizado no Partido e das principais contribuições
que tenham sido obtidas para o prosseguimento e aprofundamento de direcções
de trabalho cruciais para o reforço da influência social, política e
eleitoral do PCP e do seu papel na democracia portuguesa.
II
Uma orientação estratégica clara e afirmada:
um projecto de esquerda e de poder,
para um novo rumo democrático
1.
Apesar da derrota dos partidos da direita nas legislativas de Outubro de
1995, e do facto de socialistas e comunistas terem passado a dispor da
maioria dos lugares na Assembleia da República, as possibilidades que
então podiam ter-se aberto para a concretização de uma viragem democrática,
no sentido da esquerda, da situação nacional, não tiveram qualquer
expressão devido às opções tomadas pelo PS.
O Governo PS, tendo embora introduzido alterações de estilo e mudanças
de orientação em alguns aspectos sectoriais, manteve, inalteradas as
principais políticas que vinham sendo conduzidas pelos governos
anteriores. Prosseguiu o ataque a direitos dos trabalhadores e uma política
de repartição da riqueza desfavorável aos trabalhadores e às camadas
da população mais desfavorecidas. Acelerou o processo das privatizações,
inclusive de empresas públicas fornecedoras de serviços e bens
essenciais (EDP, PT, etc.). Promoveu novas medidas de descaracterização
do regime democrático, designadamente através da revisão
constitucional. Manteve a política externa e uma política de integração
europeia caracterizada pela subordinação dos interesses nacionais aos
das principais potências e aos dogmas neoliberais do grande capital
financeiro. Estas orientações foram facilitadas pelo facto de o PS ter
tido uma votação que o levou muito próximo da maioria absoluta.
A estratégia das forças de direita, protagonizada na primeira linha
pelo PSD, evidencia-se com crescente nitidez. Por um lado, essas forças
acompanham as opções fundamentais do Governo do PS, que correspondem,
em grande medida, às suas. Mas, por outro lado, movem-se de forma
activa com o objectivo de reagrupamento de um bloco à direita e de
capitalização por parte da direita do descontentamento social e da
frustração que alastram em amplos sectores sociais, com correspondência
política no eleitorado do centro e da esquerda.
2. O Comité Central adverte ser previsível
que, com a aproximação das eleições legislativas, o PS e o PSD
procurarão cada vez mais aprisionar os eleitores na falsa opção entre
manter o PS no governo, com uma política de direita, e o regresso da
direita ao governo.
E desde já sublinha que, neste quadro, a acção, a intervenção e a
iniciativa política do PCP devem ter como grande eixo unificador o
objectivo de favorecer que se amplie a compreensão e consciência de
que é possível uma alternativa progressista e de esquerda à alternância
entre PS e PSD na realização de uma política no essencial semelhante,
e que será o reforço da influência eleitoral do PCP (e uma diferente
correlação de forças entre o PCP e o PS) que melhor inviabilizará
tanto uma reabilitação eleitoral da direita como a continuação da
actual política do PS, e que mais favorecerá uma verdadeira
alternativa democrática e uma nova política.
3. É neste quadro e circunstâncias que as
eleições legislativas e europeias, previstas para o próximo ano,
tendem a exercer uma influência cada vez mais determinante na vida
nacional. Marcam a fase de intensificação da vida política e social
em que o País já entrou. Podem comportar especiais dificuldades
ligadas ao avanço de linhas de descaracterização do regime democrático
constitucional que o PS e o PSD estão procurando impor. Apresentam
acrescidas exigências e renovadas possibilidades de intervenção aos
comunistas e a todos os restantes sectores e sensibilidades de esquerda.
E, associadas à luta popular de massas, recolocam, não só a
necessidade mas a possibilidade e a importância da criação de condições
para uma inflexão, no sentido da esquerda, do rumo político nacional.
O Comité Central reafirma que o PCP está fortemente empenhado em
fortalecer, ampliar e enriquecer a sua intervenção, enquanto partido
dotado de um projecto político transformador e portador de uma
contribuição essencial para uma alternativa de esquerda, mas, ao mesmo
tempo recusa deixar-se aprisionar e dissolver numa «vida política»
crescentemente marcada pelo espalhafato, pela superficialidade, pelo
artificialismo e pelo efémero, antes sustentando que a sua escolha é,
de há muito, a da intervenção e acção políticas, próximas dos
problemas e preocupações dos cidadãos, mobilizadora das suas
iniciativas e lutas, agregadora das aspirações a nova política.
Particulares responsabilidades e exigências se colocam, por isso, aos
comunistas e ao seu Partido, nas diversas frentes de intervenção e de
luta.
Sem prejuízo da ulterior fixação de orientações especificamente
destinadas à participação nos actos eleitorais do próximo ano, o
Comité Central aponta, desde já, sem prejuízo de outros temas, o
necessário aprofundamento e desenvolvimento de cinco grandes linhas
para a sua intervenção política:
1ª - Contribuir para a afirmação de uma esquerda e de um projecto
que suporte a perspectiva, a possibilidade e a luta pela concretização
de um novo rumo democrático para Portugal. Esta contribuição, no
quadro da intensificação da luta social e de uma forte afirmação do
PCP, através da sua voz e das suas propostas, envolve igualmente uma
forte disponibilidade de abertura e de empenho do PCP, para participar
num alargado e genuíno processo de diálogo e de debate, à esquerda,
susceptível de estabelecer pontes e de construir convergências que
contribuam para viabilizar um projecto de poder. Um processo respeitador
da pluralidade das expressões e das diferenças, que reuna
individualidades, sectores e sensibilidades políticas que se situam
criticamente em relação às orientações neoliberais, mobilizador e
envolvente de movimentos e forças sociais e culturais diversas, com
particular atenção para a participação da juventude e das mulheres.
E permanentemente aberto à participação directa dos cidadãos.
2ª - Prosseguir a afirmação do PCP como oposição de esquerda,
combativa, consequente e responsável. A contraposição de
propostas de política alternativa, de esquerda, às orientações de
inspiração neoliberal adoptadas pelo Governo, constitui por isso um
contributo essencial do PCP - que importa potenciar ainda mais - para
todo o debate político e das ideias. Fundamental para a abertura de
alternativas políticas reais, que sustentem os interesses dos
trabalhadores e de sectores sociais muito amplos, e que promovam os
interesses nacionais, no actual quadro comunitário e global em que
necessitam de ser activamente afirmados. Neste contexto, o PCP continuará
a confrontar e desafiar o PS relativamente a importantes promessas não
cumpridas, constantes do «Contrato de Legislatura» e do «Programa
Eleitoral».
3ª - Defender activamente uma política de desenvolvimento e de
emprego, com direitos, com uma justa repartição do rendimento nacional
e a defesa e preservação do ambiente. Uma política que defenda e
valorize a produção nacional e estimule a dinamização do mercado
interno. O PCP empenhar-se-á em lutar pela melhoria dos salários,
reformas e outras prestações sociais, pelas 40 horas e combaterá os
privilégios à finança e às actividades especulativas, e defenderá
uma nova política fiscal, prosseguirá o seu combate ao crescente
domínio do poder económico sobre o poder político e à privatização
de empresas e serviços públicos, e intensificará a luta por um
sector público forte e renovado e por serviços públicos de qualidade.
4ª - Sustentar a realização de reformas democráticas nas áreas
da educação, saúde e segurança social, combatendo a
desresponsabilização do Estado nestas áreas e o crescente negocismo
privatizador e lutando pela melhoria de funções públicas e de prestações
sociais essenciais para o nível e qualidade de vida e o futuro dos
portugueses.
5ª - Lutar por um novo rumo para a construção europeia, por uma
Europa de paz, cooperação e «coesão económica e social», por uma
Europa de nações soberanas e iguais. O PCP juntará os seus esforços
em convergência com outros partidos comunistas, forças de esquerda e
progressistas a nível da União Europeia, na luta pelo emprego, pela
redução do horário de trabalho, pelo nivelamento por cima das
conquistas sociais e na luta contra o tráfico de droga e da
toxicodependência.
III
Uma confiante intervenção política e de massas
junto dos trabalhadores e das populações
1.
Na sequência dos resultados das eleições autárquicas, foi
desencadeada uma intensa e articulada ofensiva que, no plano político e
ideológico, tem procurado deturpar, caricaturar e denegrir aspectos
essenciais da orientação da intervenção e do posicionamento político
do PCP.
Essa ofensiva tem procurado, nomeadamente, apresentar o PCP como um
partido que faria do PS o seu «inimigo principal» e adoptaria, perante
o partido do Governo, uma atitude de intransigência e de recusa ao diálogo,
que praticaria uma oposição cega e sistemática em relação à política
do Governo e que, supostamente desprovido de um projecto e de propostas
construtivas, estaria meramente acantonado na defesa de interesses
sociais muito limitados.
O Comité Central salienta que tais acusações são frontalmente
desmentidas pela orientação e acção do PCP, destinam-se a promover
uma flagrante inversão de responsabilidades que proteja e absolva o PS,
e representam novas expressões da fracassada ambição de arrastar o
PCP para a cumplicidade com uma política cujas opções e eixos
fundamentais sempre combateu.
O Comité Central considera oportuno recordar que os sucessivos
entendimentos com a direita (ora com o PP, ora com o PSD, ora com
ambos), que têm viabilizado as opções políticas fundamentais do
Governo PS, longe de resultarem de qualquer estado de necessidade face a
uma pretensa intransigência ou rigidez do PCP, antes resultam de uma
escolha estratégica há muito feita pela direcção do PS, em estrita
correspondência com o real conteúdo da sua política.
O Comité Central considera oportuno recordar que, sem prejuízo de uma
firme demarcação face à política global do PS (essencial não apenas
do ponto de vista do respeito pelos compromissos eleitorais do PCP, mas
também para frustrar uma provável manobra da direita no sentido de vir
a responsabilizar «a esquerda» e, portanto, também o PCP, pelo
fracasso do Governo PS), o PCP nunca hesitou em se associar e concorrer,
muitas vezes com os votos dos seus deputados, para a aprovação de
medidas pontualmente positivas propostas pelo Governo ou pelo Grupo
Parlamentar do PS, como foi o caso recente do Projecto de Lei sobre a
IVG.
O Comité Central considera oportuno recordar que, como foi sublinhado
no XV Congresso do PCP, e é sublinhado pelos factos, o que melhor
define a atitude do PCP na sociedade portuguesa é, aos mais variados níveis
de intervenção, o seu profundo empenho construtivo na solução dos
problemas do povo e do País, a incomparável generosidade e dedicação
que coloca ao serviço dos interesses populares, o seu rico património
de luta e reflexão sobre as grandes questões e problemas da sociedade
portuguesa, a constante contribuição dos seus militantes para o
fortalecimento das organizações sociais, a obra valiosa que há vinte
e dois anos realiza no poder local, a sua qualificada intervenção no
Parlamento Europeu e na Assembleia da República, bastando lembrar a
este respeito que, em sucessivas legislaturas, é quase sempre o PCP
quem, com um relativamente diminuto número de deputados, apresenta um
maior número de iniciativas legislativas, visando dar resposta a
sentidos anseios e preocupações dos portugueses.
2. A construção de uma alternativa é
reconhecidamente um processo exigente e complexo. Exigirá uma sensível
alteração da actual correlação de forças sociais e políticas.
No abrir de caminhos para a alternativa continuam a pesar como
factores incontornáveis, a força e amplitude dos movimentos e lutas
sociais e o acerto e intensidade da intervenção política do PCP, na
resposta aos problemas actuais da sociedade portuguesa, à política do
Governo, aos posicionamentos dos restantes partidos.
É nesse sentido que o Comité Central apela à intensificação dos
movimentos e lutas dos trabalhadores e das massas populares, em torno de
problemas que quotidianamente os afectam, na exigência de uma nova política,
como factor determinante para resistir à política de direita, alcançar
a satisfação das reivindicações e abrir caminho a uma alternativa. O
movimento sindical unitário, as comissões de trabalhadores, as associações
de agricultores, de intelectuais, de estudantes, as colectividades e
outras estruturas associativas e organizações sociais desempenham,
neste processo, um papel fundamental.
Simultaneamente, o Comité Central considera da maior importância
proceder a um aprofundado exame da situação social, da intervenção
nas presentes circunstâncias dos diversos movimentos sociais e dos
problemas das organizações que os suportam, das perspectivas que se
abrem ao desenvolvimento das lutas de massas, e das orientações e da
actividade dos comunistas que intervêm nesta esfera. Em
conformidade, decide dedicar uma futura reunião a esses objectivos.
3. No contexto da actual situação política,
e representando tarefas políticas de grande importância no ano em
curso, o Comité Central destaca a necessidade da intensificação da luta
por objectivos concretos e imediatos, e contra decisões e projectos
particularmente gravosos anunciados pelo Governo.
Assim, é essencial o desenvolvimento da luta dos trabalhadores por aumentos
salariais dignos, pelas 40 horas, em defesa da contratação
colectiva, contra os despedimentos e a precarização das relações
laborais, contra perigosas alterações da legislação de trabalho; dos
estudantes e de docentes, contra a lei do financiamento do ensino
superior público; dos professores, pais e estudantes, contra a imposição
de uma lógica empresarial que põe em risco as escolas públicas do
ensino básico e secundário e em defesa da sua direcção e gestão
democráticas; das mulheres, contra discriminações e pela concretização
da igualdade em todas as esferas da vida; dos reformados, pela melhoria
das pensões, nomeadamente pela elevação significativa das mais
degradadas; das populações, pela exigência de medidas efectivas de
combate à toxicodependência, ao tráfico de droga e ao branqueamento
de capitais; e sublinha a urgência de se ampliar a oposição popular
às privatizações, designadamente de empresas prestadoras de
serviços públicos essenciais, e aos escandalosos aumentos de preços
que estão a induzir.
A curtíssimo prazo, será necessário travar uma árdua batalha contra
os projectos do PS e do PSD de alterarem, em sentido antidemocrático, a
legislação eleitoral, designadamente a respeitante às eleições
legislativas, de modo a imporem a criação de círculos uninominais,
cujo único real objectivo é o de pressionarem os eleitores no sentido
da concentração de votos apenas no PS e no PSD, procurando diminuir a
votação e a representação parlamentar do PCP.
O Comité Central, sublinhando a vantagem em que, vencendo as manobras
dilatórias do PS, fique finalmente aprovada e entre em vigor a lei da
criação das Regiões Administrativas no continente, considera,
entretanto, indispensável que se alargue a consciência de que é por
exclusiva responsabilidade do PS que, com alta probabilidade, poderá
estar comprometida a concretização desta importante reforma democrática
na presente legislatura. Com efeito, primeiro ao ligar a regionalização
ao processo de revisão constitucional, depois ao ceder ao PSD na exigência
de um referendo sobre uma reforma que está há 22 anos consagrada na
Constituição, de seguida ao fazer depender o referendo da actualização
dos cadernos eleitorais, por via da absurda e ilegítima exigência de
participação de 50% dos eleitores no referendo sobre a regionalização
- todos os comportamentos e atitudes essenciais do PS têm sido no
sentido de complicar e inviabilizar, na prática, o processo de criação
das regiões administrativas. É, assim, inteiramente legítimo
reafirmar a prevenção há muito feita pelo PCP de que o núcleo mais
responsável da direcção do PS há muito tempo que desistiu desta
reforma, e de que, nesta matéria, todos os esforços do PS estão
concentrados apenas em encontrar um bode expiatório, ou em
responsabilizar outros, pelo incumprimento desta sua destacada promessa
eleitoral.
Em matéria de integração europeia, o Comité Central declara
ser completamente inaceitável pelo nosso País o conteúdo da chamada
Agenda 2000, que visa estabelecer o enquadramento político-financeiro
do alargamento aos países do Leste da Europa. Pelos limites ao
crescimento da despesa comunitária que estabelece, pela proposta de
reforma dos fundos estruturais que contém, incluindo a exclusão da
Região de Lisboa e Vale do Tejo do objectivo 1, e pelas reformas da Política
Agrícola Comum (PAC) e da Política Comum das Pescas que propõe, a
Agenda 2000 significará, segundo estudos de insuspeitas instituições,
que Portugal será, com o alargamento, o mais prejudicado dos actuais
membros da União Europeia.
O Comité Central chama a atenção para que, quanto à adesão de
Portugal à moeda única, toda a estratégia do Governo se baseia na
sua apresentação como um facto consumado, ideia que as anunciadas
campanhas de propaganda, em preparação a nível nacional e comunitário,
procurarão consolidar ainda mais fortemente, como forma de impedir o
debate alargado das suas reais consequências e travar o avanço das
reservas e da oposição que um tal passo já hoje suscita em largos
sectores da opinião pública nacional.
É, entretanto, indispensável ampliar a denúncia e o desmascaramento
do «referendo-fraude» que o PS e PSD anunciam sobre «matéria
europeia» (ao proporem uma pergunta destituída de qualquer eficácia e
desonestamente redigida para obter um «sim» esmagador), e prosseguir a
exigência de um referendo em que o povo português se possa pronunciar
sobre as questões mais relevantes que, de facto, estão em causa -
designadamente a participação de Portugal na moeda única e a sua
sujeição ao Pacto de Estabilidade.
O PCP considera, entretanto, completamente inaceitável qualquer ideia
de realização de dois referendos na mesma data (designadamente sobre
regionalização e matéria europeia), como pretendem o PS e o PSD -
numa demonstração clara de que não estão interessados em garantir
condições de clareza e seriedade ao exercício da soberania popular.
Como tarefa política especialmente urgente, o Comité Central salienta
a importância de, com confiança, se desenvolver um vasto movimento de
opinião democrática, no sentido de exigir a votação final da lei
aprovada pela Assembleia da República em 4 de Fevereiro, despenalizando
a interrupção voluntária da gravidez em certas condições, e
denunciar a vergonhosa combinação feita entre a direcção do PS e o
PSD para a realização de um futuro referendo sobre este tema, combinação
cujo único resultado prático imediato seria o de paralisar a aprovação
final da lei, defraudando as expectativas legitimamente criadas de um
avanço positivo na solução de um grave problema que afecta as
mulheres portuguesas, e desprestigiando, de forma ostensiva, a própria
Assembleia da República.
Finalmente, condenando o seguidismo do Governo face aos EUA, o PCP
prosseguirá a luta contra o envolvimento de Portugal na escalada
agressiva contra o Iraque, apelando ao desenvolvimento de um
diversificado movimento de oposição e protesto.
4. O Comité Central procedeu a uma
primeira abordagem das linhas gerais do plano de trabalho e calendário
de iniciativas do Partido em 1998, as quais perspectivam uma intensa
e diversificada intervenção do PCP.
Desse conjunto, o Comité Central chama a atenção, pela sua importância,
para as múltiplas iniciativas de comemoração do 77º aniversário
do Partido (com destaque para o comício a realizar no Pavilhão dos
Desportos, em Lisboa, a 7 de Março), para as iniciativas sobre o
significado dos 150 anos do Manifesto Comunista e para a já
anunciada realização da Festa do «Avante!», a 4, 5 e 6 de
Setembro.
O Comité Central sublinha a especial importância de as comemorações
do 25 de Abril e do 1º de Maio constituírem uma forte
afirmação dos ideais e valores progressistas e da luta pelos
interesses e direitos dos trabalhadores e do povo português.
*
* *
No ano em que se
completam 150 anos sobre a publicação do Manifesto do Partido
Comunista - documento marcante de uma nova perspectiva revolucionária
de transformação social e de libertação humana e impulsionador de um
grande movimento de ideias, de combates e de lutas da classe operária,
dos trabalhadores e dos partidos comunistas que mudou o rumo da história
da humanidade - o PCP, convicto da força, da grandeza e da vitalidade
dos seus valores e ideais, aberto para a vida e para o futuro, empenhado
em afirmar, enriquecer e projectar a sua identidade e o seu projecto de
democracia e socialismo para Portugal, tudo fará para continuar a
honrar, e cumprir ainda melhor, as suas responsabilidades nacionais e
internacionalistas de grande força da liberdade, da democracia e do
progresso social, aos serviço dos trabalhadores, do povo e do País.
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