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Diogo Vasconcelos
Público 20 Setembro 2007
É na nova geração de banda larga que se joga muita da
competição internacional no domínio da inovação
Hoje, há um bilião de pessoas em todo o mundo com acesso a Internet. As
redes de banda larga de nova geração, a ubiquidade das redes sem fios, os
conteúdos criados pelos utilizadores, oferecem novas possibilidades de
inovação social, e representam novos desafios para o sector público. Ora,
ao falarmos de mudança neste domínio, devemos refutar a ideia simplista de
assumir o "e-government" como um mero "tornar electrónicos" os serviços
públicos. O novo desafio é explorar novas formas de juntar conhecimento e
recursos dispersos, provenientes do sector privado, do sector social e do
sector público, para dar resposta a desafios de natureza pública. Mais do
que de eGov deveremos falar de "Connected Government".
Há evidentemente muito a fazer ainda na utilização da tecnologia a fim de
se melhorar a distribuição dos serviços públicos. Isto requer cada vez
mais que se tenha uma abordagem mais alargada. Assim, a par da utilização
da tecnologia como instrumento para melhorar processos, abre-se,
igualmente, a oportunidade e o espaço para mudar o tipo e a natureza das
próprias organizações envolvidas na distribuição dos serviços públicos,
bem como para explorar serviços mais personalizados e quiça
produzidos/participados pelos cidadãos que deles precisam.
No mundo em rede, o valor deixou de estar na hierarquia, na velha lógica
do "comando e controlo" e passou a estar na orquestração e na colaboração
para uma finalidade comum. Com as novas redes e tecnologias colaborativas
(a chamada web 2.0), o poder passou a estar também nas pontas, deixou de
estar apenas no centro. Este novo paradigma oferece uma nova forma de
pensar o papel, a função e a performance do sector público, obrigando a
uma mudança de abordagem que abre caminhos a novas formas de participação
e colaboração por parte dos cidadãos - anteriormente assumidos como
destinatários mais ou menos passivos de iniciativas públicas pensadas e
concretizadas centralmente. Dar mais poder e assegurar mais colaboração
por parte dos cidadãos deve ser uma prioridade na transformação do sector
público. Os projectos lançados nos últimos anos por uma organização não
governamental (MySociety) com o apoio do Governo inglês, são excelentes
exemplos, esta semana apresentados em Lisboa pelo seu fundador, Tom
Steinberg.
A Europa só poderá concretizar o desígnio da Estratégia de Lisboa se
conseguir incluir todos os cidadãos nesta dinâmica de acesso e valorização
do conhecimento. Cerca de um terço dos cidadãos europeus ainda não tem
acesso à Internet.
A nova geração de banda larga tem que ser encarada como a plataforma para
uma nova forma de funcionamento do sector público. Trata-se de pôr as
pessoas e as comunidades no centro de redes de conhecimento, inovação,
serviço, confiança e criatividade. É na nova geração de banda larga que se
joga muita da competição internacional no domínio da inovação e,
consequentemente, o nível de competitividade e de coesão social e
territorial que cada região/país consegue atingir. A Suécia, o Japão, a
Coreia e a Finlândia são os países com Internet mais rápida no mundo.
Hoje, os japoneses acedem já a 100 Mbps (dez vezes a média europeia) em
banda larga simétrica, por apenas 22 dólares mensais, o que faz do Japão o
país com menor preço por Mbps de toda a OCDE. Isto está a permitir
massificar serviços inovadores e de grande valor, como a telemedicina, a
custos muitísimo acessíveis.
A disseminação de iniciativas emblemáticas certamente acelerará muito o
processo. Um exemplo paradigmático está a arrancar na Alemanha. Trata-se
de "Germany 115" - a criação de um número telefónico para todos os
serviços públicos alemães, nacionais, regionais e locais. Este novo canal
de atendimento, acessível a qualquer pessoa, vai implicar profundas
mudanças no interior do próprio sector público, ao exigir uma enorme
capacidade de simplificação de procedimentos, de colaboração e de
coordenação. "Germany 115" devia ser declinado em cada um dos 27
Estados-Membros. Seria fantástico se cada um dos 500 milhões de europeus
pudesse aceder aos seus serviços públicos - ou aos serviços de um qualquer
outro Estado-membro - através de um simples número de telefone. E teria um
fortíssimo efeito mobilizador, de milhares de agentes de mudança do sector
público, em todos os países da União Europeia. Pelo seu simbolismo,
relevância e impacto, este serviço integrado estaria para o eGov como o
euro está para o mercado único ou como o Erasmus está para a mobilidade
estudantil.
Há muitas áreas em que a Europa, através das suas instituições, pode dar
um contributo muito significativo para esta evolução. Destaco três:
Directiva Serviços; vida independente dos seniores; mudança climática.
O objectivo da Directiva Serviços é criar um verdadeiro mercado interno
dos serviços até 2010. Trata-se de permitir que um cidadão europeu possa
efectivamente prestar serviços em qualquer outro Estado-membro. Ora, tal
só se concretizará na prática, se as formalidades necessárias ao exercício
da sua actividade se puderem realizar por via electrónica, de forma
totalmente não discriminatória, independente de localização geográfica ou
país de origem, em cada um dos 27 países da União Europeia. Este objectivo
ambicioso coloca a fasquia da transformação e integração das próprias
administrações públicas europeias num nível sem precedentes. Estamos a
três anos do objectivo e há ainda muito trabalho a fazer.
No que diz respeito à promoção da qualidade de vida dos mais seniores, tem
que se ter presente que o envelhecimento da população europeia é um dos
mais graves problemas com que a União Europeia se confronta. O modelo
tradicional de apoio à terceira idade passa pelo acolhimento dos mais
velhos em "centros" tantas vezes impessoais e distantes das suas
comunidades. A tecnologia pode mudar esta realidade e trazer uma nova
esperança para os mais idosos, ao permitir que possam optar por continuar
a viver independentes, nas suas casas e nas suas comunidades, sem
necessidade de mudaram para "centros de Terceira idade". Algumas
experiências piloto, já no terreno, de "casas inteligentes", comprovam-no.
Ligadas a redes de banda larga, dotadas de sensores e de equipamentos
médicos, nestas casas inteligentes, pode-se acompanhar os movimentos dos
mais idosos, monitorizar o seu estado de saúde e alertar familiares sempre
que necessário, permitindo-lhes simultaneamente manter o seu espaço e
independência. Eis uma área estratégica para a Europa.
O Presidente da Comissão Europeia assumiu (e bem) a liderança mundial
europeia no combate aos efeitos da mudança climática. Está na hora de
convocar a inovação tecnológica para esse desígnio fundamental dos nossos
tempos. Director e Distinguished Fellow, Cisco (Londres)
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