|
Pacheco Pereira
Público 08 Setembro 2007
Um livro de Andrew Keen tem suscitado uma grande
discussão na comunicação social internacional e na rede. O livro ainda não
foi traduzido em português, mas o seu título e subtítulo não enganam
ninguém: o Culto do Amador - Como a Internet dos dias de hoje está a matar
a nossa cultura. É um livro panfletário e simplista, escrito para chocar,
mas as questões que lá são levantadas são importantes e cada vez mais
presentes, até porque são uma versão nova de problemas muito antigos
potenciados numa dimensão que, essa sim, é nova. O livro de Keen não foi o
primeiro e certamente não será o último sobre o assunto vindo do lado dos
"apocalípticos" das novas tecnologias, para usar a terminologia de Eco.
Pode-se até esperar um filão polémico de livros sobre este tema, porque os
efeitos de "matança da nossa cultura", usando o título de Keen, são sérios
e só se podem agravar nos tempos mais próximos. O catastrofismo é uma
longa tradição do pensamento ocidental, principalmente nas mudanças do
século, mas lá porque é cíclico e porque as coisas nunca correram tão mal
como se anunciava, nem por isso, nada nos garante que, desta vez, não
corram mesmo muito mal.
A tese de Keen é que múltiplos aspectos do nosso saber e da nossa cultura
milenar (refere-se essencialmente à cultura do Ocidente) estão a ser
postos em causa pela potenciação que as novas tecnologias associadas à
rede estão a dar à ignorância presumida de saber, ao "amador" que pensa
que pode competir com o profissional (seja jornalista, seja crítico
literário, seja cientista, seja especialista de qualquer área do saber),
apenas porque pode livremente e sem edição colocar num blogue o que lhe
vem à cabeça; pela erosão do direito de autor pela pirataria generalizada
na rede, com o consequente desinvestimento em produtos culturais caros
(por exemplo a produção de CD com um grande investimento em estúdio e
qualidade da gravação); pela vulgarização do plágio; pela impossibilidade
de no mundo digital se "autenticar" a verdade, com o crescimento da
virtualidade da Second Life em detrimento da primeira, etc, etc. O mundo
obscuro dos avatars, das identidades virtuais em rede, não apenas deu um
teatro tão gigantesco como eficaz às pulsões criminosas, desde a "fraude
nigeriana" até ao phishing, passando pela pedofilia, como permitiu outro
tipo de fraudes intelectuais como seja a falsificação artificial dos
contadores de audiências dos blogues, os truques para se colocar bem uma
página nos motores de busca, as falsas notas em blogues cujo objectivo é
promover produtos pela sua citação, ou seja, toda uma série de práticas
que fora da rede seriam consideradas enganadoras e fraudulentas e
controladas pela lei e pela regulação. Keen mostra com exemplos como é
possível moldar a realidade em rede usando os comentários anónimos,
desenvolvendo formas anónimas de campanhas ad hominem, usando mil nomes de
caixa de comentário em caixa de comentário, marcando temas e pessoas tidas
como "inimigas", ou autopromovendo-se com elogios que se fazem passar como
sendo de terceiros.
Ou seja, a rede é o Oeste selvagem, sem lei e sem ordem, e é nessa escola
que milhões de jovens se iniciam sem terem um mínimo de know how para
saberem distinguir entre a ciência e a charlatanice, sem conhecerem os mil
e um truques que pululam em linha, e, quando os conhecem, praticam-nos sem
qualquer padrão de moralidade, entrando em esquemas que cá fora seriam
considerados do domínio da fraude. O reclame que as associações produtoras
e distribuidoras de filmes, vídeos e DVD fazem passar antes das sessões de
cinema ou do visionamento de um filme em casa, em que se coloca a questão
de como é que uma pessoa que nunca sonharia roubar uma televisão, ou um
vídeo numa loja, o faz através de um download ilegal, é uma tentativa um
pouco desesperada de explorar essa contradição. A facilidade com que estas
práticas se generalizaram na rede (são hoje já habituais em Portugal e
penetraram na blogosfera) mostra como existe uma indiferença, complacência
e mesmo colaboração activa com o seu carácter fraudulento.
A este assalto, que podíamos chamar "moral", de dissolução de regras e
comportamentos éticos valorizados no mundo real, mas ignorados e
hostilizados em rede, acresce que o "culto do amador" legitima uma
degradação acentuada dos critérios de qualidade de muitas actividades que
implicavam ou um saber especializado, normalmente resultado de muitos anos
de estudo e trabalho, ou de uma prática profissional extensiva. É o caso
da utopia do "jornalismo dos cidadãos", dentro da crise mais geral da
comunicação social de referência, cuja leitura é substituída por uma
"cultura de blogues", dispersa, opinativa, pouco rigorosa, extremista e de
"causas", mais intolerante do que a imprensa tradicional, mas que cada vez
mais funciona como fonte noticiosa e como pedagogia do debate público. É
também o caso da Wikipédia, talvez o melhor exemplo da perda de critérios
de rigor e qualidade, a favor de uma ideologia utópica do homem comum, das
massas, escrevendo por tentativa e erro, uma enciclopédia colectiva. A
Wikipédia tem conhecido nos últimos tempos uma séria crise de
credibilidade, mas continua a servir como referência para as mesmas
multidões que em linha não sabem distinguir a astronomia da astrologia.
Todos estes exemplos e outros representam problemas reais e que se tem
vindo a agravar, mas que Keen retira do seu contexto social, o que não
permite perceber o que se passa e nos empurra para uma visão maléfica das
novas tecnologias, face às quais nada mais haveria a fazer do que queimar
as máquinas, como os ludditas faziam aos teares mecânicos. O pano de fundo
daquilo que critica Keen são mudanças sociais profundas, que se tem vindo
a dar nas sociedades industriais nos últimos 150 anos, mas que ganharam
velocidade de cruzeiro depois da II Guerra Mundial: aquilo que se pode
chamar o advento da sociedade de massas, assente no consumo generalizado
de bens materiais (electrodomésticos, automóveis, casas nos subúrbios,
etc.) e "espirituais" (férias baratas, rádio, televisão, imprensa
popular). A pulsão igualitária e demagógica das massas, aquilo que
antigamente se chamava a "psicologia das multidões", de facto varre muito
dos quadros da cultura e saber tradicional, que julgam e com razão ser
elitista. O "culto do amador" é apenas um dos sinais dessa tábua rasa
demagógica que está de facto a "matar a nossa cultura" tal como a
conhecemos. Se tudo ficar por aqui, caminha-se para uma nova barbárie.
A crítica de Keen e de outros "apocalípticos" falha ao menosprezar o
enorme adquirido que se deu nestes mesmos 150 anos, a verdadeira revolução
social, que permitiu a muitos milhões de pessoas, que viviam dominadas
apenas pelo seu trabalho brutal e pela cultura "folclórica" tradicional,
aceder a consumos que nunca tiveram e passar a ter voz em áreas que sempre
lhes estiveram vedadas, seja como audiências de televisão, seja em estudos
de mercado, seja em sondagens, seja comprando e votando. O efeito dessa
voz cria uma enorme perturbação, degrada tudo, simplifica, confunde, mas,
ao alterar sem retorno os equilíbrios elitistas do passado, gerou novas
condições de democraticidade, competitividade e criatividade que também se
verificam na rede.
Não sei até que ponto se encontrará um qualquer equilíbrio que trave o
lixo demagógico que hoje enche tudo impante da sua nova voz tecnológica e
salve a "nossa cultura", mas não posso, em nome dessa mesma "cultura",
deixar de valorizar o acesso de milhões à porta de um mundo em que habita
o "espírito", mesmo que assustado com tanta confusão. Historiador
|