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Anabela Campos
Público 02 Julho 2007
A Portugal Telecom (PT) gasta anualmente cerca de 160
milhões de euros com o salário dos nove mil trabalhadores que ao longo dos
últimos anos saíram da operadora para a pré-reforma ou com suspensão de
contrato, um valor equivalente a quase 40 por cento do montante pago aos
colaboradores no activo.
Os nove mil trabalhadores que o grupo PT tem em casa fazem parte do
universo da PT Comunicações (PTC), empresa detentora da histórica rede de
cobre e que herdou os trabalhadores dos TLP e da Marconi, empresas
absorvidas em vésperas da privatização do operador de telecomunicações
nacional, no ano de 1994.
Os pré-reformados da PT recebem entre 80 e 100 por cento dos salários que
auferiam na altura em que aceitaram sair da empresa e têm direito às
actualizações anuais recebidas pelos trabalhadores no activo. O mesmo se
passa com as suspensões de contrato, um mecanismo que permite aos
trabalhadores da PTC (com contratos anteriores a 1997), ex-TLP e
ex-Marconi sair do grupo com benefícios iguais aos da pré-reforma, mesmo
sem reunir as condições para o efeito: ter 50 anos de idade e 30 de
serviço ou 55 anos de idade e 25 de serviço.
Os trabalhadores da PTC beneficiaram de condições especiais criadas ao
abrigo do Decreto-Lei 324, criado em 1997 no âmbito da privatização da PT,
destinadas a quem saísse dos quadros da operadora entre 1997 e 2005. Uma
lei que acabou por ser usada por milhares de trabalhadores, e por um
alargado número de altos quadros e administradores do grupo, que acabaram
por se reformar alguns anos antes de atingirem os 65 anos, como Miguel
Horta e Costa (ex-presidente da PT e actual vice-presidente do BES
Investimento), Iriarte Esteves, Mata e Costa (actual administrador dos
CTT), Graça Baú, Paulo Nordeste (PT Inovação) e, entre outros, Monteiro de
Lemos.
A PT não esclarece quantos dos 9000 trabalhadores são pré-reformados e
quantos estão em suspensão de contrato. Mas a comissão de trabalhadores já
admitiu em tempos que cerca de 4000 serão suspensões de contrato,
afirmando que mais recentemente têm saído muitas pessoas da operadora com
menos de 55 anos.
Descontos nos impostos
A PTC, fornecedora das chamadas de rede fixa, Internet ADSL e mais
recentemente da IPTV, tem actualmente mais trabalhadores suspensos e com
pré-reforma do que colaboradores no activo: 7043 no final do primeiro
trimestre de 2007, prevendo a empresa reduzir mais, pelo menos, 600
pessoas até ao final deste ano. Em 2006, a PTC gastou com a remuneração
dos trabalhadores no activo 271,9 milhões de euros.
Segundo dados avançados em 2006 pela comissão de trabalhadores, a PT
planeava entre 2006 e 2008 reduzir o quadro de trabalhadores em cerca de
2500 pessoas, operação com um custo estimado de 625 milhões de euros.
Além do gasto com os salários dos trabalhadores em pré-reforma e com
suspensão de contratos, a PTC tem ainda de colocar o respectivo
complemento de reforma no Fundo de Pensões. Aliás, a operadora afirma
gastar actualmente, em média, cerca de 300 mil euros por cada trabalhador
que sai da empresa, um custo que tem vindo a subir paulatinamente. Em 2005
e 2006, a operadora gastava entre 250 mil e 270 mil euros por trabalhador.
Apesar dos muitos milhões gastos com a saída de milhares de trabalhadores
- um processo que acelerou a partir de 2000 -, a PTC consegue reduzir o
impacte negativo nas contas, uma vez que ao ter mais custos com os
colaboradores acaba naturalmente por pagar menos impostos. Além disso, tem
também conseguido usufruir de alguns benefícios fiscais por esta via, num
valor que a empresa não quantifica. O grupo PT, recorde-se, esteve isento
de pagamento de impostos durante quatro anos e até 2006, graças sobretudo
a um crédito fiscal conseguido devido à assunção de elevado montante de
prejuízos na operadora brasileira Vivo, onde tem uma parceria com a
espanhola Telefónica. A operadora recomeçou a pagar impostos apenas em
2006: na ordem dos 90 milhões de euros.
Os gastos da PTC com trabalhadores não se ficam, no entanto, pelos custos
com os colaboradores no activo (271 milhões de euros) e em casa (160
milhões de euros), a operadora consome alguns recursos com a contratação
de serviços em outsorcing. A operadora recorre muitas vezes a outsorcing
para trabalhos nas áreas de instalação, manutenção e reparação, como, por
exemplo, avarias, substituições de cabos. Trabalhos que são feitos por
empresas como Visabeira, Siemens, Alcatel Lucent e a construtora CME. Ou
seja, na prática há uma duplicação de custos, uma situação que tem
merecidas críticas da comissão de trabalhadores, uma vez que pressiona as
contas da empresa e prova de alguma forma que algumas saídas não se
justificam.
A PT não quis dizer ao PÚBLICO quanto gasta anualmente com outsorcing,
custo registado na rubrica fornecimentos e serviços externos, cuja parcela
ascendeu a 210 milhões de euros em 2006. Esta rubrica inclui, além do
outsorcing, os gastos com água, luz e gás, entre outros.
Henrique Granadeiro, presidente da PT, afirmou na altura em que tomou
posse e durante o tempo da pendência da OPA da Sonaecom que pretendia
acabar com a cultura de desperdício na PT, nomeadamente na área do
outsorcing, sector que pretendia reestruturar e reduzir. Porém, até ao
momento, ainda não mexeu neste dossier.
Em vigor entre 1997 e 2005, o Decreto-Lei 324 de 1997, criado na sequência
da privatização da PT no Governo de António Guterres, previa a atribuição
de uma bonificação de 20 por cento do cálculo das pensões em relação ao
tempo de serviço, para os subscritores da Caixa Geral de Aposentações.
Este regime especial de aposentação era acessível aos trabalhadores com 30
anos de serviço e 50 anos de idade ou aos trabalhadores com 25 anos de
serviço e 55 de idade.
O presidente da PT, Henrique Granadeiro, tinha pensado reestruturar o
outsorcing para acabar com os desperdícios
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