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Francisco Jaime Quesado
Público 29 Janeiro 2007
As conclusões da edição deste ano do Fórum de Davos
não podiam ser mais evidentes. A nova agenda discutida à volta do lema
"The Shifting Power Equation" não deixa margens para dúvidas relativamente
à urgência de equilibrar com convicção as tendências de evolução no
optimismo pretendido no crescimento económico. Se as "vozes dos líderes"
partilham dessa pretensa consensual "ideia estratégica", já não é tão
claro que a "voz das pessoas" sintonize de forma assumida a dimensão do
alcance deste novo paradigma.
É aqui que entra a "classe criativa". Compete a estes "actores de
distinção" um papel decisivo na "intermediação operativa" entre os que
estão no topo e os que estão na base da pirâmide. Só com um elevado
"índice de capital intelectual" se conseguirá sustentar uma participação
consistente na renovação do "modelo social" e na criação de plataformas de
valor global sustentadas para os diferentes segmentos territoriais e
populacionais. Portugal não pode ignorar a dimensão única deste desafio
que o futuro agora encerra.
A mensagem de Richard Florida é mais do que nunca actual entre nós. A
"classe criativa" que se quer legitimar no tecido social português terá
que ser capaz de ganhar estatuto de verdadeiro "parceiro estratégico" do
desenvolvimento do país. Isso faz-se com "convergência positiva" e não por
decreto. Importa por isso, mais do que nunca, estar atento e participar
com o sentido da diferença.
A mensagem aí está, muito clara. Davos 2007 veio confirmá-lo. Na nova
agenda da globalização dinâmica o papel da "classe criativa" é essencial
para a capacidade sustentável das Nações manterem níveis de
competitividade adequados à sua matriz interna. Quem o não fizer, corre o
risco de perder terreno nesta agenda de mudança. Portugal não escapa à
regra. Em tempo de novas apostas, muito centradas no discurso dos factores
dinâmicos de competitividade, a "classe criativa", de que nos fala Richard
Florida, tem um papel essencial a desempenhar. Sob pena de se adiar para
sempre a ainda possível oportunidade de agarrar o futuro.
Os conhecidos baixos índices de "capital estratégico" no nosso país e a
ausência de mecanismos centrais de "regulação positiva" têm dificultado o
processo de afirmação dos diferentes protagonistas da "classe criativa".
Independentemente da riqueza do acto de afirmação individual da
criatividade, numa sociedade do conhecimento, importa de forma clara "pôr
em rede" os diferentes actores e dimensioná-los à escala duma participação
global nos nossos tempos. Apesar dos resultados de iniciativas como as
"Cidades e Regiões Digitais", vocacionadas para posicionar o território no
competitivo campeonato da inovação e conhecimento, falta uma estratégia
transversal.
Uma nova cultura social
A sociedade civil tem nesta matéria um papel central. A "classe criativa",
na sua diferença e no seu sucesso, é o resultado dum "tecido social" que
se pretende voltado para um futuro permanente. Os índices de absorção
positiva por parte da sociedade dos contributos inovadores da "classe
criativa" passam muito pela estabilização de condições estruturais
essenciais. Entre muitas, destacaríamos as seguintes:
- Cultura Empreendedora: A matriz comportamental da "população socialmente
activa" do nosso país é avessa ao risco, à aposta na inovação e à partilha
de uma cultura de dinâmica positiva. Dificilmente se conseguirá impor por
decreto uma"revolução empreendedora" e mesmo o aumento do desemprego, por
força da desindustrialização e emagrecimento dos serviços
públicos/privados, poderá não ser suficiente para suscitar uma
"autoreacção" das pessoas. - Cultura do Rigor: A falta de rigor e
organização nos processos e nas decisões, sem respeito pelos factores
"tempo" e "qualidade", já não é tolerável nos novos tempos globais. Não se
poderá a pretexto de uma "lógica secular latina" mais admitir o não
cumprimento dos horários, dos cronogramas e dos objectivos. Não cumprir
este paradigma é sinónimo de ineficácia e de incapacidade estrutural de
poder vir a ser melhor.
- Cultura da Cooperação: A ausência da prática de uma "cultura de
cooperação" tem-se revelado mortífera para a sobrevivência das
organizações. Na sociedade do conhecimento sobrevive quem consegue ter
escala e participar, com valor, nas grandes redes de decisão. Num país
pequeno, as empresas, as universidades, os centros de competência
políticos têm que protagonizar uma lógica de "cooperação positiva em
competição" para evitar o desaparecimento. Querer cultivar a pequenez e
aumentá-la numa envolvente já de si pequena é firmar um atestado de
incapacidade e de falta de crença no futuro.
- Cultura de Ambição: É doentia a incapacidade em definir, operacionalizar
e dinamizar a lógica de "capital social" do nosso país. Não é obviamente o
paradigma da inovação dos países da Europa Central, porque os índices
rating da competitividade estão em todas as análises aquém destes casos de
sucesso. O diagnóstico está feito há muito tempo. Mas também já não pode
ser, porque não é, a lógica do "low cost support" como referencial de
criação de emprego e de fixação de "capital social básico" no território.
- Cultura de Inovação: Desenvolvimento sustentável, aposta nas cidades,
criatividade dos diferentes segmentos da população, inovação empresarial
permanente, inserção nas redes globais: numa lógica de afirmação do país
no panorama internacional, o papel de alavancagem destes factores pode
revelar-se determinante. A diferença está na sua prática operativa
permanente, numa lógica de desígnio nacional.
A responsabilidade
dos actores
A consolidação do novo papel da "Classe Criativa" entre nós passa em
grande medida pela efectiva responsabilidade nesse processo dos diferentes
actores envolvidos - Estado, Universidade e Empresas. No caso do Estado,
no quadro do processo de reorganização em curso e de construção dum novo
paradigma tendo como centro o cidadão-cliente, urge a operacionalização de
uma atitude de mobilização activa e empreendedora da revolução do tecido
social. A reinvenção estratégica do Estado terá que assentar numa base de
confiança e cumplicidade estratégica entre os "actores empreendedores" que
actuam do lado da oferta e os cidadãos que respondem pela procura -
criatividade & inovação terão que ser aqui de forma sustentada as palavras
que garantem uma lógica de sustentabilidade nos resultados a médio prazo.
No caso da Universidade, ela tem que se assumir como um actor global,
capaz de transportar para a nossa matriz social a dinâmica do conhecimento
e de o transformar em activo transaccionável indutor da criação de
riqueza. Cabe-lhe o papel de fazer convergir sobre si a capacidade de,
através duma aposta cruzada permanente entre o conhecimento e a cultura,
ser responsável pela formação de verdadeiros cidadãos globais, os tais que
Portugal precisa para afirmar a sua dimensão estratégica e competitiva a
nível internacional. Quem sai da Universidade tem que dominar de forma
activa o capital comum do conhecimento e da cultura como peças centrais da
formação de portugueses capazes de actuar em segurança e criatividade num
mundo em permanente mudança.
Cabe naturalmente às empresas um papel mobilizador na afirmação da "classe
criativa" em Portugal. Pelo seu papel central na criação de riqueza e na
promoção de um processo permanente de reengenharia de inovação nos
sistemas, processos e produtos, será sempre das empresas que deverá
emergir o "capital expectável" da distinção operativa e estratégica dos
que conseguirão ter resultados com valor alavancado na competitiva cadeia
do mercado. Aqui a tónica tem mais do que nunca que ser pragmática, como a
recente viagem do Presidente da República à Índia mostrou. Convergência
operativa sinalizada em apostas concretas onde realmente vale a pena
actuar, selecção objectiva de sectores onde há resultados concretos a
trabalhar. * Colaboração
INTELI - Inteligência em Inovação
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