Do Capitalismo para o Digitalismo
Aliás, é por demais evidente que a nova esfera do
trabalho assenta na automatização do trabalho repetitivo com
degradação do assalariamento. Há cada vez menos mercadorias baseadas
no tempo de trabalho, dado que o seu valor está, na vida actual,
subordinado ao conhecimento nelas incorporado.
Vêm estas observações a propósito de um livro controverso que apela
ao debate público («Do Capitalismo para o Digitalismo», de Fernando
Penim Redondo e Maria Rosa Redondo, Campo das Letras, Novembro de
2003), em que os autores se propõem contribuir para reajustar o
pensamento marxista de modo a reabilitar o projecto comunista,
actualmente desacreditado.
Reflectindo sobre a realidade portuguesa, os autores recordam-nos
que o número de “não operários” não pára de crescer e que são menos
de 30 por cento os assalariados que podem ser classificados como
operários.
Entrou no domínio do grotesco supor que há condições para manter um
quadro praticável da luta de classes quando cada vez mais
trabalhadores assalariados estão perante um patrão que é um
representante do Governo e não um empresário privado. Isto
remete-nos para a questão de, para muitos assalariados, existir um
sério condicionamento das possibilidades de organização sindical e
da reivindicação laboral. De acordo com um certo pensamento da
esquerda, impõe-se apreciar estas “disfunções” para descobrir formas
de compatibilização entre o marxismo e o digitalismo (recorde-se que
no novo modo de produção o valor se baseia não no tempo de trabalho
mas no “conhecimento incorporado” através do trabalho).
DIGITALISMO VERSUS CAPITALISMO
Digitalismo significa captura, armazenamento,
tratamento e difusão da informação necessária à produção de
conhecimento. Decorrente do digitalismo, emergiu uma nova formação
económica e social com um novo modo de produção e uma nova base
material. O trabalho deixou de ser repetitivo e passou a pautar-se
pela indeterminação e pela imprevisibilidade.
Tais especificidades obrigam a repensar a teoria do valor, uma das
bases do marxismo. Agora, é o conhecimento que determina o valor de
troca e não a duração do trabalho, como acontecia no paradigma
industrial. Aliás, as decisões actuais dos consumidores repercutem
expectativas da sociedade do conhecimento.
A reconciliação do marxismo com o digitalismo será possível graças
ao conhecimento, desde que se venha a determinar um cenário de
superação do capitalismo sob a forma de projectos cooperativos em
que todos participem na qualidade de trabalhadores cooperantes. Tal
exigirá a renovação da teoria viabilizadora de uma alternativa da
produção no contexto da sociedade estruturada nas tecnologias da
informação e comunicação.
OUSAR TEORIZAR O MARXISTA DIGITALISTA
A maioria dos trabalhadores (65 por cento em
Portugal e 75 por cento nos EUA) é hoje constituída por quadros,
especialistas e técnicos que manipulam directamente informação.
Impõe-se ultrapassar a distinção feita por Marx entre trabalho
produtivo e trabalho improdutivo. Os autores propõem que a
mais-valia seja calculada não no fim de cada dia mas no fim do ciclo
económico das mercadorias, ou seja, estabelecendo-se um valor de
troca baseado em conhecimento. Trata-se do desafio que os autores
promovem sob a consigna “especialistas de todos os saberes,
uni-vos!”.
As propostas de «Do Capitalismo para o Digitalismo» representam uma
corajosa análise que convida à discussão pública, neste tempo de
ultraliberalismo triunfal. A social democracia e o comunismo não
podem ignorar que as potencialidades técnicas da sociedade digital
convocam formas de reatamento teórico, independentemente das
convicções dos autores. Enfim, um ensaio que merece a discussão na
praça pública, até porque o digitalismo é irreversível.