|
UMA EMPRESA do Canadá lançou este mês o seu primeiro projecto nascido de
contribuições «on-line». A Prezzle, uma «start-up» que quer elevar a um
novo patamar de experiência a oferta de «e-cards» e prendas «on-line», é
uma ideia apresentada, votada, testada e construída pelo membros da
comunidade agrupada pela Cambrian House, empresa que fornece a plataforma
que permite estruturar as diferentes tarefas e distribui-las por uma
multidão.
Muitas lojas da web trabalham já com o conceito de cheque-oferta em
formato digital - nesta versão trata-se de um código que é adquirido
«on-line» e enviado por correio electrónico. A Prezzle, em
www.prezzle.com, trabalha com as ofertas digitais da Amazon, iTunes e
Sephora, entre outras. A diferença é que refina a experiência: ao
contrário dos «e-cards» convencionais, o destinatário não pode abrir a sua
«prezzle» antes da data que o remetente escolher.
Apresentada assim, a ideia parece boa. Mas a maioria das boas ideias não
chega a ver a luz do dia. O que torna a Prezzle diferente é o facto de
assentar num novo conceito de trabalho que dá pelo nome de
«crowdsourcing». Desde a ideia à produção passando pelo debate e pelos
testes de aperfeiçoamento, todos os passos foram dados, não por uma equipa
financiada por capital de risco, mas por uma comunidade de interessados,
vindos das mais diversas áreas, que contribuíram com os seus talentos a
troco de pontos que poderão mais tarde - se a ideia tiver grande sucesso -
converter em acções e depois em dólares.
O termo «crowdsourcing» foi inventado por dois jornalistas da revista
americana «Wired» para título de um artigo sobre esta nova fonte de
trabalho barato. «Deslocalizar o emprego para a Índia e a China é tão
2003», é a frase de abertura do artigo «The rise of crowdsourcing», que no
número do passado mês de Junho descrevia assim o fenómeno: «uma nova fonte
de trabalho barato, gente comum usando os seus recursos disponíveis para
criar conteúdo, resolver problemas, até mesmo investigação e
desenvolvimento». Podemos aceitá-lo como uma forma de «outsourcing», onde
vai buscar metade do nome (a outra metade vem de «crowd», multidão em
inglês), na medida em que entrega tarefas a trabalhadores externos,
remunerados por valores muito abaixo do mercado. Isto é possível porque na
Internet «habitam» pessoas com «ciclos livres», isto é, disponibilidade de
tempo e de recursos informáticos, para quem é atractiva a hipótese de
engordar o orçamento doméstico com trabalho tarefeiro, dentro ou fora dos
seus campos profissionais e de hóbis. Uma multidão de trabalhadores antes
inacessível por causa da geografia e que os mecanismos de pesquisa da rede
podem, em segundos, materializar em torno de uma tarefa ou mobilizar para
um projecto.
A palavra descreve outras formas de trabalho em rede, nem todas elas
remuneradas. O «software» de código livre, de que o sistema operativo
Linux é o exemplo mais conhecido, assenta também nessa forma de produção
em que um exército de programadores trabalha, nas mais diversas partes do
mundo, para um objectivo comum, sendo que cada membro ou pequeno grupo
escolhe geralmente a tarefa que vai executar. Muito adiantados estão
também serviços de publicação de fotografias de amadores, que ameaçam o
tradicional negócio dos bancos de imagens oferecendo preços baixos, quando
não mesmo a gratuitidade - assentando o seu modelo de negócios na
publicidade exibida nos «websites».
|