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CARLA
GUERRA
DN, 18 Maio 2007
O cidadão da "nova classe social" alemã não passa
fome, tem um tecto, carro e tem sempre dinheiro na carteira para gastar. É
desempregado e beneficiário do sistema social do Estado. Estes novos
"luxos", em especial para os alemães da ex- República Democrática Alemã,
são recentes para quem abandonou forçosamente os seus postos de trabalho,
mas a nível material estão sempre assegurados. A "desindustrialização"
está a gerar uma nova classe de cidadãos improdutivos na Alemanha,
considerados como "intrusos" sociais.
Hans e Birgit personificam o retrato comum de um casal desempregado, perto
dos 50 anos, e que vivem de forma desafogada com subsídios estatais. Ambos
trabalhavam numa das fábricas do antigo regime, mas com a queda do Muro
chegou o desemprego e a desertificação.
Ambos são beneficiários do sistema social, do qual recebem um subsídio de
desemprego de 750 euros mensais cada um, abono de família de 150 euros por
cada filho até estes completarem 18 anos, e têm ainda direito a um
subsídio de arrendamento. O orçamento mensal ultrapassa os 2000 euros numa
família considerada pobre na actual Alemanha, que mais não é do que uma
vítima das circunstâncias económicas e políticas.
Sociólogos alemães, que se dedicam ao fenómeno, traçaram um retrato geral
destas famílias: assistem em média a cinco horas por dia de televisão,
bebem e fumam muito, são grandes consumidores de fast food, a formação
escolar abrange os estudos básicos, não têm interesse em aprender mais,
vivem de ajuda social e em datas de eleições são os que mais contribuem
com votos em partidos políticos extremistas, como o Partido Nacional
Democrático (NPD) ou os Republicanos.
Os mesmos estudos revelam que esta nova classe social surgiu há uma década
em países industrializados como a Alemanha, onde a economia moderna pouco
tem para oferecer a quem não tem conhecimentos académicos. À medida que a
globalização avança, esta nova classe social cresce na mesma proporção.
O jornalista da revista Der Spigel Gabor Steingart analisa o tema em
profundidade num livro que já é best-seller: Alemanha - o Declínio de Uma
Superstar, em que explica que o sistema social alemão está a transformar
as pessoas que beneficiam da protecção do Estado em grandes monopolistas.
"Esta realidade é uma faca de dois gumes, os consumidores vítimas do
sistema são os que mais contribuem para que a produção de bens continue a
ser feita em países de mão-de-obra barata; no Lidl, Aldi ou Karlstad é
possível comprar electrodomésticos ou abastecer a despensa por poucas
dezenas de euros, o que importa quem fabrica se é barato?"(...) "Para quê
comprar uma máquina de lavar mais cara produzida em Nuremberga num ritmo
de 38 horas semanais com salários justos, se se pode obter o mesmo feito
em Taiwan ou na China, onde as horas de trabalho são longas e os salários
miseráveis?" questiona no seu livro.
Steingart não poupa o sistema capitalista e afirma que "quem pensava que
uma economia de mercado seria o passo final na história da economia é
forçado a admitir que é um erro colossal; o mercado e o sistema financeiro
deste sistema têm provocado o desaparecimento gradual da segurança social
dos cidadãos".
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