| A Impressão de Deus |
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12 séculos mais tarde, o alemão Johannes Gutenberg precisou apenas de uma máquina para imprimir, em três anos, 300 edições da Bíblia em latim. Um copista teria necessitado de 20 anos para copiar uma só. Uma explosão informacional arrancou nesse ano de 1455: o livro reproduzido mecanicamente foi o primeiro objecto produzido em série da História e por causa dele nasceu uma revolução cultural e política. O livro configurou a mentalidade do homem do Renascimento como o Messenger está a transformar uma geração moderna. Devemos à criatividade intelectual do canadiano Marshall McLuhan (e do menos conhecido professor deste, Harold In-nis) esta percepção de que, em toda a História e não apenas na era da técnica, as tecnologias da informação desempenharam um papel significativo. Para a escola de McLuhan, foram determinantes: o meio é a mensagem ou seja, o significado dos media é a forma como a mudança que introduzem na comunicação altera a sociedade. O livro impresso, diz-nos o autor de A Galáxia Gutenberg (1962), possuía uma magia, semelhante à do Septuaginato: também aqui todos os exemplares eram iguais. Mesmo se muito livros impressos da época fossem depois copiados à mão ou possuíssem espaços para o proprietário fazer as suas próprias transcrições. A tecnologia realizara um passe de mágica. Perante o livro fielmente igual à sua cópia, nascia uma nova visão do mundo: agora, cada indivíduo possuía um ponto de vista, o seu próprio ponto de vista. O acto solitário de ler e de partilhar, a noção de que existem outros leitores, destrói, diz McLuhan, os laços tribais e liberta os na-cionalismos. É neste clima que, em 1517, a Reforma de Lutero destrói a unidade da Igreja. Na verdade, a reforma foi a primeira revolução de leitores de toda a História. A Bíblia foi o best-seller de todos os tempos e pode dizer-se que é um produto avant la lettre das “indústrias culturais”. Isso mostra, sublinha McLuhan, como a mentalidade do Renascimento era ainda profundamente medieval. Impressa, a Bíblia assume a sua forma moderna. Mas o seu estatuto de bestselleré sintoma de uma época de mudança governada pelas ideias do passado medieval. Todos os exemplares de cada edição eram iguais entre si. Mas não todas as Bíbi-lias. A partir de 1452, com a queda de Cons-tatinopla, chegam ao Ocidente as versões gregas da Bíblia. A comparação desta com o texto latino acentua a tendência para recorrer à Bíblia para contestar a autoridade papal, as escrituras latinas e a escolástica. A Reforma protestante e a Contra Reforma católica resultam de um conflito medieval numa sociedade pré-moderna. McLuhan sintetiza com mestria este conflito, em UnderstandingMedia (1964): através do livro impresso, o Renascimento misturou a Antiguidade e a Idade Média e dessa confusão resultou o mundo moderno. Lei de McLuhan: o primeiro conteúdo de um media é o media anterior; o livro impresso continha os valores do livro manuscrito. Até 1700, diz o canadiano, publicaram-se muito mais obras antigas (clássicas, nomeadamente) do que obras novas. No entanto, houve textos novos que marcaram talvez tanto quanto a velha Bíblia. Como o Elogio da Loucura, do católico Erasmo, que inventava o saber no feminino, saber do desejo, da imprevisibilidade, da inspiração. Era também um manifesto em favor do ponto de vista, individual contra a autoridade do escolástico. Sinais de um tempo em que a mulher estava de volta ao mundo, após a reclusão medieval. O Renascimento não traria ideias diferentes das medievais, mas introduzia práticas novas, como o casamento dos sacerdotes. A ascese medieval dava lugar a um homem novo, voltado para o Mundo. O cristianismo, católico e protestante, repensou-se em termos que nos influenciam até hoje, nomeadamente no plano da educação: nasce aqui a distinção da criança e do adolescente face ao adulto. Foi o livro sozinho quem fez tudo isto? Prefiro pensar que a tecnologia não determina a cultura: condiciona-a. No século depois de Gutenberg, a Inquisição institucionalizava uma nova prática relativa ao livro, o fogo redentor (também aplicável ao proprietário do livro). O meio pode ser a mensagem, mas não é por isso que a mensagem passa a ser uma coisa simples.
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