A Impressão de Deus
 

Miguel Gaspar (DN 13/10/2006)
 


Na Alexandria de Ptolomeu, no século III, 72 judeus tra­duziram o Antigo Testa­mento para o grego, produ­zindo o Septuaginat. Diz-se que os 72 tradutores fixa­ram 72 traduções absolutamente idênticas. A igualdade entre os textos foi atribuída à providência divina e considerada uma pro­va da existência desta.

12 séculos mais tarde, o alemão Johannes Gutenberg precisou apenas de uma má­quina para imprimir, em três anos, 300 edi­ções da Bíblia em latim. Um copista teria necessitado de 20 anos para copiar uma só. Uma explosão informacional arrancou nes­se ano de 1455: o livro reproduzido meca­nicamente foi o primeiro objecto produzi­do em série da História e por causa dele nasceu uma revolução cultural e política. O livro configurou a mentalidade do ho­mem do Renascimento como o Messenger está a transformar uma geração moderna. Devemos à criatividade intelectual do canadiano Marshall McLuhan (e do me­nos conhecido professor deste, Harold In-nis) esta percepção de que, em toda a His­tória e não apenas na era da técnica, as tecnologias da informação desempenha­ram um papel significativo. Para a escola de McLuhan, foram determinantes: o meio é a mensagem ou seja, o significado dos media é a forma como a mudança que introduzem na comunicação altera a so­ciedade.

O livro impresso, diz-nos o autor de A Galáxia Gutenberg (1962), possuía uma ma­gia, semelhante à do Septuaginato: também aqui todos os exemplares eram iguais. Mes­mo se muito livros impressos da época fos­sem depois copiados à mão ou possuíssem espaços para o proprietário fazer as suas próprias transcrições.

A tecnologia realizara um passe de má­gica. Perante o livro fielmente igual à sua cópia, nascia uma nova visão do mundo: agora, cada indivíduo possuía um ponto de vista, o seu próprio ponto de vista. O acto solitário de ler e de partilhar, a noção de que existem outros leitores, destrói, diz McLuhan, os laços tribais e liberta os na-cionalismos. É neste clima que, em 1517, a Reforma de Lutero destrói a unidade da Igreja. Na verdade, a reforma foi a primei­ra revolução de leitores de toda a História. A Bíblia foi o best-seller de todos os tem­pos e pode dizer-se que é um produto avant la lettre das “indústrias culturais”. Isso mostra, sublinha McLuhan, como a mentalida­de do Renascimento era ainda profunda­mente medieval. Impressa, a Bíblia assume a sua forma moderna. Mas o seu estatuto de bestselleré sintoma de uma época de mu­dança governada pelas ideias do passado medieval.

Todos os exemplares de cada edição eram iguais entre si. Mas não todas as Bíbi-lias. A partir de 1452, com a queda de Cons-tatinopla, chegam ao Ocidente as versões gregas da Bíblia. A comparação desta com o texto latino acentua a tendência para re­correr à Bíblia para contestar a autoridade papal, as escrituras latinas e a escolástica. A Reforma protestante e a Contra Refor­ma católica resultam de um conflito me­dieval numa sociedade pré-moderna.

McLuhan sintetiza com mestria este conflito, em UnderstandingMedia (1964): através do livro impresso, o Renascimento misturou a Antiguidade e a Idade Média e dessa confusão resultou o mundo moder­no. Lei de McLuhan: o primeiro conteúdo de um media é o media anterior; o livro im­presso continha os valores do livro manus­crito. Até 1700, diz o canadiano, publica­ram-se muito mais obras antigas (clássicas, nomeadamente) do que obras novas.

No entanto, houve textos novos que mar­caram talvez tanto quanto a velha Bíblia. Como o Elogio da Loucura, do católico Erasmo, que inventava o saber no femini­no, saber do desejo, da imprevisibilidade, da inspiração. Era também um manifesto em favor do ponto de vista, individual con­tra a autoridade do escolástico. Sinais de um tempo em que a mulher estava de volta ao mundo, após a reclusão medieval. O Re­nascimento não traria ideias diferentes das medievais, mas introduzia práticas novas, como o casamento dos sacerdotes.

A ascese medieval dava lugar a um ho­mem novo, voltado para o Mundo. O cris­tianismo, católico e protestante, repen­sou-se em termos que nos influenciam até hoje, nomeadamente no plano da educa­ção: nasce aqui a distinção da criança e do adolescente face ao adulto.

Foi o livro sozinho quem fez tudo isto? Prefiro pensar que a tecnologia não deter­mina a cultura: condiciona-a. No século de­pois de Gutenberg, a Inquisição institucio­nalizava uma nova prática relativa ao livro, o fogo redentor (também aplicável ao pro­prietário do livro). O meio pode ser a men­sagem, mas não é por isso que a mensagem passa a ser uma coisa simples.