Do Capitalismo para o Digitalismo

- Notas e Citações

 
 

 

Nota 1

Ver Glossário de termos marxistas

 

Nota 2

Mas antes de passarmos, uma a uma, as ideias pelo crivo, é de realçar que, num certo e importante sentido, o pensamento de Marx, no seu conjunto, ainda está vivo.

Ainda vale a pena estudar as ideias fundamentais de Marx. Uma das razões para o fazer é a história do século XX. A influência de Marx, tanto na teoria como na pratica, é incomensurável. Há imensos aspectos do mundo actual e do actual mundo das ideias que não seríamos capazes de entender sem uma compreensão do pensamento de Marx,

ou pelo menos dos seus contornos básicos.”

Jonathan Wolff: PORQUÊ LER MARX HOJE ?; trad. Portuguesa, Livros Cotovia 2003, pp 115

 

 

Nota 3

“É  preciso debater, igualmente, a possibilidade de implementar variantes sistémicas ao capitalismo mediante a combinação de diversas formas de organização económica a

fim de constituir um todo estruturado coerente, isto é, um modo de produção diferente tanto do capitalismo como do socialismo. Tal possibilidade é insustentável à luz da teoria marxista dos modos de produção, de acordo com a qual projectos desse género poderiam derivar em formas dissimuladas, seja de capitalismo, seja de socialismo, porquanto:

a) tentar unificar num único princípio dinâmico várias normas essenciais de funcionamento da vida económica apenas pode levar à formação de um híbrido sem futuro, para além de introduzir uma duvida a que é preciso responder: admitido que

um princípio de organização social é superior aos restantes, porque não os elimina ou, em todo o caso, porque não se generaliza; b) assenta numa teoria idealista do Estado,

concebido como um órgão neutro do ponto de vista social, esquecendo a correspondência que se estabelece entre o nível político-administrativo e a estrutura económica da sociedade.”

Lôpez-Suevos, Ramom ; SOCIALISMO E MERCADO ; trad. Portuguesa, Campo das Letras, 1994, pp. 33

 

Nota 4

O capitalismo digital mercado tendo as redes como centro – suplantou o capitalismo seu antepassado (...)   Actualmente, como empregadoras de trabalhadores que laboram em cadeias de produção ligadas por redes informáticas, como anunciantes, e cada vez mais como educadoras, umas quantas empresas gigantes dominam não a economia mas também uma teia mais alargada de instituições envolvidas em novas produções de carácter social: negócios, sem dúvida, mas também educação institucional, política e cultura..

Dan Schiller: A GLOBALIZAÇÃO E AS NOVAS TECNOLOGIAS; trad. portuguesa, Editorial Presença 2002, pp 231; 233

 

Nota 5

 

“Em meados dos anos 90 – de acordo com os dados de Therborn – num só dia negociava-se em Londres uma quantidade de divisas equivalente ao PIB mexicano de um ano inteiro e os mercados financeiros internacionais tinham uma dimensão dezanove vezes maior que todo o comércio mundial de mercadorias e serviços. Estes números têm aumentado constantemente desde então.

Por seu lado Ramonet, numa recente conferência em Havana afirmou que 95% da actividade económica actual é de tipo financeiro. Estes 95% só existem no mundo virtual das ordens de compra e venda; trata-se de uma mera comunicação que se transfere pelas auto-estradas da informação, enquanto só 5% da economia é uma economia real. A produção, transporte e venda de coisas concretas só ocupa 5% da economia mundial enquanto o resto se refere simplesmente à compra e venda de valores ou de moedas.”

Marta Harnecker,  TORNAR POSSÍVEL O IMPOSSÍVEL, A ESQUERDA NO LIMIAR DO SEC XXI,  trad. portuguesa, ed. Campo das Letras, 2000; pag 135

 

 

Nota 6

Rodrigues, Maria João (coordenadora) ; PARA UMA EUROPA DA INOVAÇÃO E DO CONHECIMENTO ; ed. Celta Editora, 2000

Soares, Maria Cândida (coordenadora) ; PLANO NACIONAL DE EMPREGO 2002 ; ed. MSST, Departamento de Estudos, Prospectiva e Planeamento, 2002

 

Nota 7

“Em vez do motto  conservador “salário diário justo para um trabalho diário justo” [a classe operária] deverá inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: “Abolição do sistema de salários!”.

Karl Marx:  SALÁRIO, PREÇO E LUCRO; trad. portuguesa , Edições Avante, 1983;  Cap XIV, pag 80

 

 

Nota 8

“A tudo isto há que acrescentar a revolução informática que fez a sociedade contemporânea explodir, alterar a circulação dos bens e favorecer a nova economia e a mundialização. Esta ainda não fez cair todos os países do mundo numa sociedade única, mas leva à conversão de todos num único e mesmo modelo económico pela colocação em rede do planeta. Cria uma espécie de laço social liberal inteiramente constituído por redes, dividindo a humanidade em indivíduos isolados uns dos outros num universo hipertecnológico.

Ignacio Ramonet,  GUERRAS DO SÉCULO XXI -   NOVOS MEDOSNOVAS AMEAÇAS;  trad. portuguesa, Ed. Campo das Letras, 2002;  pag. 29

 

 

Nota 9

“Penso ter mostrado que as suas lutas pelo nível de salários são incidentes inseparáveis de todo o sistema de salários, que em 99 casos em 100 os seus esforços por elevar os salários são apenas esforços para manter o valor dado do trabalho e que a necessidade de debater o seu preço com o capitalista é inerente à sua condição de terem de se vender eles próprios como mercadorias. Cedendo cobardemente no seu conflito de todos os dias com o capital, certamente que se desqualificariam para o empreendimento de qualquer movimento mais amplo. Ao mesmo tempo, e completamente à parte da servidão geral envolvida no sistema de salários, a classe operária não deverá exagerar para si própria a eficácia últim a destas lutas de todos os dias. Não deverá esquecer que está a lutar com efeitos, mas não com as causas desses efeitos; que está a retardar o movimento descendente, mas não a mudar a sua direcção; que está a aplicar paliativos, mas não a curar a doença. Por conseguinte, não deverá estar exclusivamente absorvida nestas inevitáveis lutas de guerrilha que incessantemente derivam das investidas sem fim do capital ou das mudanças do mercado. Deverá compreender que, [juntamente] com todas as misérias que lhe impöe, o sistema presente engendra simultaneamente as condições materiais e as formas sociais necessárias para uma reconstrução económica da sociedade. Em vez do motto  conservador “salário diário justo para um trabalho diário justo” deverá inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: “Abolição do sistema de salários!”.

Karl Marx:  SALÁRIO, PREÇO E LUCRO; trad. Portuguesa , Edições Avante, 1983;  Cap XIV, pag 80

 

 

Nota 10

 

“Portanto o Estado não tem existido eternamente. Houve sociedades que se organizaram sem ele, que não tiveram a menor noção do Estado ou do seu poder. Ao chegar a certa fase de desenvolvimento económico, que estava necessariamente ligada à divisão da sociedade em classes, essa divisão tornou o Estado uma necessidade. Estamos agora a aproximar-nos com rapidez, de uma fase do desenvolvimento da produção em que a existência dessas classes não só deixou de ser uma necessidade mas se converteu num obstáculo à própria produção. As classes irão desaparecer, de um modo tão inevitável como no passado surgiram. Com o desaparecimento das classes desaparecerá inevitavelmente o Estado. A sociedade, reorganizando de uma forma nova a produção, na base de uma associação livre de produtores iguais, remeterá toda a máquina do Estado para o lugar que lhe há-de corresponder: o museu de antiguidades, ao lado da roca de fiar e do machado de bronze.”

F. Engels, A ORIGEM DA FAMÍLIA, DA PROPRIEDADE PRIVADA E DO ESTADO,  trad. brasileira, Ed. Vitória, Rio de Janeiro, 1964, pag. 139

 

 

“O Estado poderá desaparecer totalmente quando a sociedade tiver realizado o princípio “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”, isto é, quando os homens estiverem tão habituados a respeitar as regras fundamentais da vida em sociedade, e o seu trabalho se tiver tornado tão produtivo que eles trabalharão voluntariamente, segundo a sua capacidade.”

Lenine, O ESTADO E A REVOLUÇÃO, trad. brasileira, Ed. Vitória, Rio de Janeiro, 1961, pag. 117

 

 

Nota 11

 

Kondratieff, N. D. THE LONG WAVES IN ECONOMIC LIFE, in The Review of Economics Statistics, Vol XVIII, Nº6, 1935

 

Schumpeter, J. S.,  BUSINESS CYCLES: A THEORETICAL,  HISTORICAL AND STATISTICAL ANALYSIS OF CAPITALIST PROCESS”; ed. MacGraw-Hill, N. Y., 1939

 

 

Nota 12

 

Freeman, Chris. e Louçã, Francisco ,  AS TIME GOES BY – FROM THE INDUSTRIAL REVOLUTIONS TO THE INFORMATIONAL REVOLUTION, ed. Oxford University Press, 2001

 

Pérez, Carlota  ; STRUCTURAL CHANGE AND ASSIMILATION OF NEW TECHNOLOGIES IN THE ECONOMICAL AND SOCIAL SYSTEMS;  ed. Futures, 1983

 

 

Nota 13

 

Este livro estuda a emergência de uma nova estrutura social, manifestada sob diversas formas, que depende da diversidade de culturas e instituições existentes em todo o planeta. Esta nova estrutura social está associada a emergência de um novo modo de desenvolvimento, o informacionalismo, historicamente moldado pela reestruturação do modo capitalista de produção, no final do século xx.”

Castells, Manuel; A SOCIEDADE EM REDE ; trad. Portuguesa, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 2002, pp. 17

 

 

Nota 14

“O surgimento de um novo paradigma tecnológico implica numerosos processos interligados:  primeiro, o desenvolvimento de uma série de serviços: infra-estruturas, fornecedores especializados, serviços de manutenção, etc; segundo, uma adpatação “cultural” à lógica das novas tecnologias, tanto entre os engenheiros e empresários, como entre os vendedores e pessoal de serviço, e também entre os consumidores; terceiro,  a criação de condições institucionais que favoreçam a sua difusão: regras e regulamentações, formação especializada e educação. A estas considerações eu acrescentaria:  a forma concreta que adopta a luta de classes.”

Marta Harneker,  TORNAR POSSÍVEL O IMPOSSÍVEL, A ESQUERDA NO LIMIAR DO SEC XXI,  trad. portuguesa, ed. Campo das Letras, 2000; pag 98

 

 

Nota 15

Charles Babbage (1791-1871), matemático inglês, considerado o “pai da computação” pela sua invenção de máquinas automáticas de calcular capazes de produzir tabelas matemáticas, astronómicas e actuariais.

George Boole (1815-1864), matemático inglês, célebre por ter aplicado os métodos algébricos à lógica, incorporando-a assim nas matemáticas. Na sua obra An investigation into the Laws of Thougth on wich are founded the Mathematical Theories of Logic and Probabilities, apontava a analogia entre os símbolos algébricos e a representação das formas lógicas, iniciando assim a “álgebra de Boole” que encontrou a sua maior aplicação prática na comutação de circuitos e na construção de computadores.

 

Nota 16

“A difusão da técnica de impressão com os tipos móveis de Gutenberg trouxe a possibilidade de aumentar o número de livros disponíveis, fazendo descer, significativamente, os seus custos e facilitando o acesso aos mesmos.

Este conjunto de factos esteve na base de um corte radical com fortes impactos na estrutura politico-social da Europa e da maior parte do mundo: a Reforma Protestante,

Foi graças à imprensa que Lutero pode difundir eficazmente a tradução que fizera da Biblia para alemão.

Pela primeira vez, em séculos, os cristãos tinham acesso à palavra sagrada e aos ensinamentos religiosos, na sua própria lingua, possibilitando uma compreensão e uma visão totalmente diversa desta doutrina.

Permitiu igualmente a génese do movimento protestante, que conquistaria seguidamente uma grande adesão no Ocidente, levando, por sua vez, a Igreja Católica a reagir e a lançar a Contra-Reforma.

Deste modo, o contexto social e politico do continente, que começava a dominar o mundo, foi seriamente abalado, com evidentes repercussóes de âmbito global, e que haveriam de se reflectir nos séculos seguintes.

Naturalmente que o descontentamento e as divisões no seio da Igreja Católica e da cristandade seiscentistas existiam desde há muito, mas sem a imprensa, dificilmente as organizações protestantes teriam vingado de forma tão sustentada e eficaz.

Os subsequentes desenvolvimentos nela baseados, bem como a maior facilidade de acesso e de difusão do conhecimento, provocaram ainda um florescimento das ciências e do pensamento, inédito na Europa Ocidental, desde a queda do Império Romano, tendo mesmo funcionado como um facilitador da Revolução Industrial.

A emergência da imprensa constituiu, ela própria, uma verdadeira revolução, provocando cortes estruturais, de alcance superior aos efeitos imediatos mais visíveis.

No mesmo sentido, e expectável que a Revolução Digital venha a ter consequências tão inimagináveis actualmente, como teria sido para Watt, por exemplo, a penicilina ou o telefone.”

Raul Junqueiro,  A IDADE DO CONHECIMENTO, A NOVA ERA DIGITAL;  ED. Editorial Notícias, 2002;  pag. 25

 

Nota 17

O conceito DIGITAL, inventado por Boole, consiste na representação da informação utilizando apenas dois símbolos ou dígitos binários: “0” e “1”.

Fazendo uma analogia simples: Para escrever um texto em português usamos um conjunto de 23 símbolos ou letras; combinando-as segundo certas regras gramaticais podemos representar todas as palavras da nossa língua. Usando a representação digital, e seguindo também certas regras, bastam-nos 2 símbolos para o mesmo efeito.

Mas enquanto as letras do alfabeto apenas servem para escrever texto, os dígitos binários podem igualmente representar qualquer imagem ou som.

Na verdade, na medida em que a informação digital é hoje tratada por dispositivos electrónicos, em vez de “símbolos” será mais correcto falar de “estados”. Todo o dispositivo que possa assumir dois estados, por exemplo “aceso” ou “apagado”, está em condições para tratar informação digital. Por exemplo, uma simples lâmpada com um interruptor, num dado momento ou está acesa ou apagada e esses estados podem ser interpretados como “1” e “0” respectivamente.

Teòricamente, com uma lâmpada poderíamos compor e transmitir um texto. Tudo dependeria do seu tamanho e da velocidade de manipulação do interruptor! Na prática os dispositivos electrónicos têm circuitos que efectuam biliões de mudanças de estado por segundo.  Como todos podemos comprovar os nossos computadores pessoais apresentam-nos em fracções de segundo textos mais ou menos longos e imagens mais ou menos complexas que estão registados nas  memórias de armazenamento em enormes sequências de dígitos binários organizadas segundo certas regras, e que os processadores convertem em imagens ou frequências sonoras captáveis pelos nossos sentidos.

Esta extraordinária simplificação permite às máquinas lidar com informação complexa sem que essa complexidade afecte o rendimento; e é por isso que se tem verificado um aumento galopante da velocidade de processamento e da capacidade de armazenamento que não se traduz, antes pelo contrário, num aumento do preço dos dispositivos.

Outro aspecto muito importante da representação digital da informação é a sua fiabilidade, nomeadamente quando está em causa a transmissão à distância. É mais fácil garantir a exactidão de apenas 2 símbolos, mesmo que ocorrendo em grande numero, do que por exemplo a da infinidade de frequências sonoras de uma peça musical.

Sem a invenção da representação digital, não teria sido possível a explosão do acesso planetário à informação através das redes de computadores, e não se teriam registado os progressos científicos das últimas décadas.

No entanto, esta revolução iniciada no sec XIX, está longe ainda de ter esgotado as suas virtualidades e, tal como aconteceu com a invenção da imprensa, é previsível que acabe por provocar uma viragem profunda em termos de civilização.

 

Nota 18

Karl Marx,  O CAPITAL, Livro 1º, Tomo II, 4ª Secção, Cap 12;   trad. portuguesa , ed. AVANTE, pag 397;  401; 

Karl Marx,  O CAPITAL, Livro 1º, Tomo II, 4ª Secção, Cap 13;   trad. portuguesa , ed. AVANTE, pag 429; 447; 463

 

Nota 19

“A SAGRES vai investir 26 milhões de euros na “reciclagem” da actual garrafa de 33cl (...) É a resposta da Central de Cervejas aos estudos de mercado que condenaram a actual garrafa por não ter um único aspecto positivo. Segundo a Directora de Marketing da Centralcer, a garrafa que existe desde 1955 é vista como ultrapassada, barata, pesada, popular a remeter para o português atarracado da década de 50/60.  (...) O processo  de substituição estará concluído em Maio de 2004. (...) A operação implica a substituição de 35 milhões de garrafas.”

Jornal EXPRESSO, 29/3/2003

 

 

Nota 20

 “Depara-se-nos aqui outro interessante fenómeno. Uma máquina tem, p. ex., o valor de 1000 lib. esterl. e desgasta-se em 1000 dias. Neste caso, 1/1000 do valor da máquina passa diariamente dela própria para o seu produto diário. Simultaneamente, ainda que com força vital decrescente, a máquina total opera constantemente no processo de trabalho. Vê-se portanto que um factor do processo de trabalho, um meio de produção, entra totalmente no processo de trabalho, mas apenas em parte no processo de valorização. A diferença entre processo de trabalho e processo de valorização reflecte-se aqui nos factores objectivos, na medida em que o mesmo meio de produção, no mesmo processo de produção, conta totalmente como elemento do processo de trabalho e apenas parcialmente como elemento da formação de valor.”

Karl Marx,  O CAPITAL, Livro 1º, Tomo I, 3ª Secção, Cap 6;   trad. portuguesa , ed. AVANTE, pag 234

 

Nota 21

Os parágrafos a seguir citados são apenas  exemplos  do desfazamento histórico que referimos:

 

“Qual é, então, a relação entre valor e preços de mercado ou entre preços naturais e preços de mercado? Todos sabeis que o preço de mercado é o mesmo para todas as mercadorias do mesmo género, ainda que as condições de produção possam diferir para os produtores individuais. O preço de mercado expressa apenas o montante médio de trabalho social necessário, em condições médias de produção, para fornecer o mercado de uma certa massa de um certo artigo. É calculado sobre o total de uma mercadoria de um certo tipo”.

(...)

“É suficiente dizer que se a oferta e a procura se equilibrarem, os preços de mercado das mercadorias corresponderão aos seus preços naturais, isto é, aos seus valores, tal como são determinados pelas quantidades respectivas de trabalho requerido para a sua produção. Mas, a oferta e a procura tem constantemente de tender a equilibrar-se uma a outra, ainda que só o façam compensando uma flutuação por outra, uma subida por uma queda e vice versa. Se, em vez de se considerar apenas as flutuações diárias, se analisar o movimento dos preços de mercado durante períodos mais longos como, por exemplo, o Sr. Tooke fez na sua History of Prices  — verificar-se-á que as flutuações dos preços de mercado, os seus desvios relativamente aos valores, as suas subidas e descidas, se neutralizam e compensam umas às outras; de tal modo que exceptuando o efeito dos monopólios e algumas outras modificações que tenho agora de deixar de lado — todos os tipos de mercadorias são, em média, vendidos aos seus respectivos valores ou preços naturais.”

Karl Marx:  SALÁRIO, PREÇO E LUCRO; trad. portuguesa, Edições Avante, 1983;  Cap VI, pag 45-46

 

“Ninguém pode viver de produtos do futuro, portanto também não de valores de uso cuja produção ainda não se encontra pronta (...) Se os produtos forem produzidos como mercadoria, terão então de ser vendidos depois de serem produzidos (...)”

Karl Marx,  O CAPITAL, Livro 1º, Tomo I, 2ª Secção, Cap 4;   trad. portuguesa , ed. AVANTE, pag 195

 

Nota 22

“Tomemos o exemplo do nosso fiandeiro. Vimos que, para diariamente reproduzir a sua força de trabalho, ele tem diariamente de reproduzir um valor de três xelins, o que fará trabalhando seis horas por dia. Mas isto não o impede de trabalhar dez ou doze ou mais horas por dia. Mas, ao pagar o valor diário ou semanal da força de trabalho do fiandeiro, o capitalista adquiriu o direito de usar essa força de trabalho durante todo o dia ou toda a semana. Fá-lo-á, portanto, trabalhar, digamos, doze horas por dia. Para alem e acima das seis horas requeridas para repor o seu salário, ou o valor da sua força de trabalho, terá, portanto, de trabalhar mais . horas — a que eu chamarei: horas de sobretrabalho — sobretrabalho esse que se realizará ele próprio numa mais-valia e num sobreproduto. Se o nosso fiandeiro, por exemplo, com o seu trabalho diário de seis horas, acrescentava um valor de três xelins ao algodão, um valor que constituía o equivalente exacto do seu salário, em doze horas acrescentará um valor de seis xelins ao algodão e produzirá um acréscimo proporcional de fio. Como vendeu a sua força de trabalho ao capitalista, todo o valor ou produto criado por ele pertence ao capitalista, dono pro tempore da sua força de trabalho. Ao adiantar três xelins, o capitalista realizará, portanto, um valor de seis xelins em que estão cristalizadas seis horas de trabalho. porque, ao adiantar um valor em que estão cristalizadas seis horas de trabalho receberá em troca um valor em que estão cristalizadas doze horas de trabalho. Ao repetir este mesmo processo diariamente, o capitalista adiantará diariamente três xelins e embolsará diariamente seis xelins, metade dos quais irão para pagar de novo salários e a outra metade constituirá a mais-valia, pela qual o capitalista não paga qualquer equivalente. É sobre esta espécie de troca entre capital e trabalho que a produção capitalista ou o sistema de salários está fundado, a qual tem constantemente de resultar num reproduzir do operário como operário e do capitalista como capitalista.”

Karl Marx:  SALÁRIO, PREÇO E LUCRO; trad. portuguesa, Edições Avante, 1983;  Cap VIII, pag 54

 

 

Nota 23

A palavra CONHECIMENTO é usada com diversos sentidos, quer na linguagem comum quer na terminologia científica. Nos dicionários e enciclopédias podemos encontrar exemplos abundantes. Citamos a título de exemplo as definições do Dicionário HOUAISS:

ato ou efeito de conhecer

- o ato ou a atividade de conhecer, realizado por meio da razão e/ou da experiência

Ex.: nosso c. da situação foi dificultado por não entendermos a língua do país

- ato ou efeito de apreender intelectualmente, de perceber um fato ou uma verdade; cognição, percepção

Ex.: o c. das causas de um fenômeno

- Derivação: por extensão de sentido.

fato, estado ou condição de compreender; entendimento

- Derivação: por metonímia.

a coisa conhecida

Ex.: a busca do c. é inerente ao ser humano

- Derivação: por extensão de sentido.

domínio, teórico ou prático, de um assunto, uma arte, uma ciência, uma técnica etc.; competência, experiência, prática

Ex.: seu c. de português faz dele um bom redator

- Derivação: por metonímia.

faculdade de conhecer

Ex.: é pelo c. que se entende e interpreta o mundo

- Derivação: por extensão de sentido.

intuição, pressentimento ou outra forma de cognição

- fato de reconhecer uma coisa como adredemente sabida ou conhecida; reconhecimento

Ex.: os nativos não demonstraram c. das pedras que lhes mostramos

- familiaridade (com uma coisa ou uma pessoa), adquirida pela experiência

Ex.: não tinha c. do que fazer no caso de uma picada de cobra

- Derivação: por extensão de sentido.

ato ou efeito de estabelecer uma relação com alguém, em grau de intimidade variável, mas ger. menor que na amizade

Ex.: <nosso c. conta mais de dez anos> <são gente do meu c.> <fez c. com um engenheiro durante a viagem>

- Derivação: por extensão de sentido.

pessoa com quem se estabeleceu uma ligeira relação pessoal ou que, pelo menos, se sabe de quem se trata

Ex.: fez muitos c. quando trabalhou no banco

- Derivação: por extensão de sentido. Uso: formal. Diacronismo: antigo.

relação carnal do homem e da mulher

- Derivação: por extensão de sentido. Uso: formal. Diacronismo: antigo.

noção que cada um tem de sua própria existência e das pessoas familiares, coisas, fatos do dia-a-dia; consciência, lucidez

Ex.: recebeu uma pancada na cabeça e perdeu o c.

- Derivação: por extensão de sentido.

fato ou condição de estar ciente ou consciente de (algo)

Ex.: <não temos c. de seu estado atual> <tomamos c. do fato> <não tenho c. preciso da sua alegação>

- Derivação: por metonímia.

a coisa que se conhece, de que se sabe, de que se está informado, ciente ou consciente

Ex.: nosso c. sobre o lugar não é muito grande

- Derivação: por extensão de sentido.

informação, notícia

Ex.: <a difusão do c.> <passar conhecimentos>

- Derivação: por extensão de sentido.

somatório do que se sabe; o conjunto das informações e princípios armazenados pela humanidade

Ex.: avaliar todo o c. humano

- Regionalismo: Portugal (dialetismo).

gratidão, reconhecimento

- Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Portugal.

presente de agradecimento

- Rubrica: administração.

recibo emitido pelas coletorias de impostos referente à prestação paga por um contribuinte

- Rubrica: comércio.

m.q. recibo ('reconhecimento escrito')

- Rubrica: filosofia.

procedimento compreensivo por meio do qual o pensamento captura representativamente um objeto qualquer, utilizando recursos investigativos dessemelhantes - intuição, contemplação, classificação, mensuração, analogia, experimentação, observação empírica etc. - que, variáveis historicamente, dependem dos paradigmas filosóficos e científicos que em cada caso lhes deram origem

- Rubrica: filosofia.

na tradição metafísica, esp. no platonismo, apreensão intelectual das essências eternas e imutáveis de todas as coisas, para além de suas aparências sensíveis

- Rubrica: filosofia.

na tradição influenciada pela ciência moderna, tal como o empirismo, criticismo ou positivismo, representação elaborada pela inteligência exclusivamente a partir de impressões sensíveis

- Rubrica: termo jurídico.

ato ou efeito de um juízo de primeira ou de superior instância acolher uma causa ou um recurso por se atribuir jurisdição e competência para julgá-los [É a fase do processo na qual o juiz toma ciência dos fundamentos do pedido, das alegações e provas, para decidir sobre a existência do direito pretendido pelas partes.]

Ex.: o tribunal não tomou c. da apelação interposta

 

Nota 24

“A distinção entre tipos de conhecimento, trazida à discussão sob uma perspectiva económica e de negócios, é básica para a actual discussão sobre o conhecimento na teoria gestiva. Nonaka, referindo-se ao trabalho de Polanyi (Polanyi, 1966), explica que a distinção primária se dá entre dois tipos de conhecimento: "conhecimento tácito" e "conhecimento explícito" (Nonaka, 1994).

0 conhecimento explícito, ou codificado, como vimos, refere-se ao conhecimento que é transmissível em linguagem formal, sistemática, enquanto o conhecimento tácito possui uma qualidade pessoal, o que o torna mais difícil de formalizar e de transmitir.

0 conhecimento tácito é profundamente enraizado na acção, no comprometimento e no envolvimento num contexto específico (Nonaka,1994). Polanyi (Polanyi, 1966), tende a definir o conhecimento tácito em termos da sua incomunicabilidade, mas esse ponto de vista não é consensual. Há também, o ponto de vista que entende que "tácito" não significa "conhecimento que não pode ser codificado", mas sim " conhecimento ainda não explicado" e que, ao aprofundar o conceito de conhecimento tácito, podemos identificar componentes tradicionalmente relegados da discussão na literatura de gestão.”

Serrano, António e Fialho, Cândido ; GESTÃO DO CONHECIMENTO ; ed. FCA, 2003, pp. 60

 

Nota 25

“Para se tomar mercadoria o produto tem de ser transferido por meio da troca para o outro a quem serve como valor de uso.”

Karl Marx,  O CAPITAL, Livro 1º, Tomo I, 1ª Secção, Cap 1;   trad. portuguesa , ed. AVANTE, pag 52

 

Nota 26

 

A Teoria Marginalista do Valor, elaborada pelos economistas da chamada “escola neo-clássica” (Jevons, Walras, Menger) considera o valor de uma mercadoria como algo subjectivo: aquilo que o consumidor está disposto a dar por ela. Numa troca, cada parceiro encontra um valor na mercadoria, que não tem que ver com o custo de a colocar no mercado mas está “in the eye of the beholder”.  O valor não está portanto ligado aos custos de produção mas sim à influência da procura nos custos de produção. O preço é a resultante da interacção dos “valores marginais” entre produtores e consumidores das várias mercadorias.

 

Nota 27

“Já antes foi notado que para o processo de valorização é completamente indiferente se o trabalho apropriado pelo capitalista é trabalho social médio simples ou trabalho complexo, trabalho de mais elevado peso específico. O trabalho que, face ao trabalho social médio, passa por trabalho superior e mais complexo é a exteriorizacão de uma força de trabalho em que entram custos de formação mais elevados cuja produção custa mais tempo de trabalho e que, portanto, tem um valor mais elevado do que a força de trabalho simples. Se o valor desta força é mais elevado, então também ela se exterioriza  (... ...)

Por outro lado, em qualquer processo de formação de valor, o  trabalho superior tem sempre de ser reduzido a trabalho social médio, p. ex., um dia de trabalho mais elevado a x dias de trabalho simples Assim se poupa uma operação supérflua e se simplifica a análise pela admissão de que o operário, empregue pelo capital, realiza trabalho social

Karl Marx,  O CAPITAL, Livro 1º, Tomo I, 3ª Secção, Cap 5;   trad. portuguesa, ed. AVANTE, pag 227

 

Nota 28

 

“A transformação de uma soma de dinheiro em meios de produção e força de trabalho é o primeiro movimento por que passa o quantum de valor que há-de funcionar como capital. Ele processa-se no mercado, na esfera da circulação. A segunda fase do movimento, o processo de produção, termina logo que os objectos da produção são transformados em mercadorias cujo valor excede o valor das suas partes componentes e por isso contém o capital originariamente adiantado mais uma mais-valia”

Karl Marx,  O CAPITAL, Livro 1º, Tomo III, 7ª Secção;   trad. portuguesa , ed. AVANTE, pag 643

 

Nota 29

“Contudo, não há duvida de que a explicação mais importante desta crise teórica é a inexistência de um estudo crítico do capitalismo dos fins do século XX – o capitalismo da revolução electrónico-informática, da globalização e da guerras financeiras. Não falo de estudos parcelares, sobre determinados aspectos da sociedade capitalista actual – que sem duvida existem – refiro-me a um estudo com a integridade e o espírito rigoroso com que Marx estudou o capitalismo da era industrial.

Em que se modifica, por exemplo, o conceito de mais-valia – conceito central da análise crítica do capitalismo em Marx – com a introdução da máquina digital e da robótica, por um lado, e com o actual processo de globalização, por outro? Como afecta as relações técnicas e sociais de produção e as relações de distribuição e de consumo, a introdução das novas tecnologias no processo de trabalho? Que modificações sofreram tanto a classe operária como a burguesia numa era em que o conhecimento passa a representar um elemento fundamental das forças produtivas? (...) Quais são os elementos que podem constituir uma base objectiva potencial para a transformação deste modo de produção?”

Marta Harnecker,  TORNAR POSSÍVEL O IMPOSSÍVEL – A ESQUERDA NO LIMIAR DO SÉCULO XXI;  trad. portuguesa, Ed. Campo das Letras, 2000; parágrafos 991 e 992.

 

Nota 30

“Nos últimos 25 anos a Terra mudou mais do que nos cem anos anteriores. Entretanto, não dispomos ainda, para compreender a nossa época, de um estudo tão rigoroso e lúcido como o que Marx elaborou sobre a sociedade industrial do seu tempo.”

Miguel Urbano Rodrigues, in Prefácio ao livro de Marta Harnecker, idem, pag. 9

 

 

Notas 31

 

Ronaldo Fonseca, MARXISMO E GLOBALIZAÇÃO ;  Ed. Campo das Letras, 2002

 

Ignacio Ramonet,  GUERRAS DO SÉCULO XXI -   NOVOS MEDOS,  NOVAS AMEAÇAS;  trad. portuguesa, Ed. Campo das Letras, 2002

 

Lucien Séve,  COMEÇAR PELOS FINS – A NOVA QUESTÃO COMUNISTA ; trad. portuguesa; Ed. Campo das Letras; 2001

 

Nota 32

 

“Porém, não é possível ultrapassar um sistema de valores e de comportamentos que desembocaram num profundo revés histórico e ensaiar a elaboração de novas concepções, sem a prévia interpretação critica das experiências vividas (“do passado”). Só com um profundo esforço crítico e com a revalorização do trabalho teórico, o projecto comunista estará em condições de tirar lições da experiência, de estudar a realidade actual e de intervir através das contradições que nela se manifestam, de pensar e projectar o futuro. E poderá readquirir a credibilidade e a influência perdidas junto dos trabalhadores e dos povos nos tempos que correm.”

MANIFESTO DA RENOVAÇÃO COMUNISTAPonto 2, parágrafo 7, Lisboa, 2003.

 

 

 

 

Nota 33

 

“Mas com o desenvolvimento da industria o proletariado não se multiplica apenas; é reunido em massas maiores, a sua força cresce, ele sente-a mais. Os interessaes, as condições de vida no interior do proletariado tornam-se cada vez mais semelhantes, na medida em que a maquinaria  vai obliterando cada vez mais as diferenças do trabalho, e quase por toda a parte faz descer o salário a um mesmo nível baixo. (...) 

Além disto, como vimos, com o progresso da industria, sectores inteiros da classe dominante são lançados no proletariado, ou pelo menos vêm ameaçadas as suas condições de vida.”

Marx e Engels, MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA, in OBRAS ESCOLHIDAS, trad. portuguesa, Ed. Avante, Tomo I, pags. 114-115

 

Nota 34

“O uso que cada um faz de uma explicação histórica é uma questão separada da própria explicação. A compreensão é usada com mais frequência para tentar modificar uma consequência do que para repeti-la ou perpetuá-la. É por essa razão que os psicólogos tentam compreender as mentes dos assassinos  e dos violadores, os historiadores sociais tentam compreender os genocídios, os médicos tentam compreender as causas das doenças. Esses investigadores não  procuram justificar o homicídio, o genocídio ou a doença. Pelo contrário, procuram utilizar a sua compreensão de uma cadeia de causas para interrompê-la.”

Jared Diamond, ARMAS, GERMES E AÇO – OS DESTINOS DAS SOCIEDADES HUMANAS, trad. portuguesa, ed. Relógio d’Água, 2002; pag. 16