Apresentação de

 DO CAPITALISMO PARA O DIGITALISMO

  por Mário de Carvalho

 

 

Muito francamente, muito sinceramente, e dando todo o desconto ás minhas capacidades de percepção modestas ou distraídas, estou convencido de que este acto inaugural marca mais que a apresentação meramente de um outro livro a juntar-se ao acervo de obras que, habitualmente, tumultuam nos jornais e nos escaparates nesta altura do ano, em que o mercado - o tal mercado - se agita.

O Informado e muito amigo casal que propõe e assina esta obra  - DO CAPITALISMO PARA O DIGITALISMO – Fernando  Penim Redondo e Maria Rosa Redondo, companheiros de longa data, e muitas andanças, acaba de lançar um desafio fortíssimo, interpelando, de um ponto de vista extremamente inovador, que não tem qualquer pejo em deixar pelo caminho, mais de um século de redundâncias teóricas carcomidas, e de estruturas práticas em destroços, o núcleo essencial da doutrina econômica de Karl Marx, à luz de novas, prementes e indesmentíveis realidades.

O efeito é como se alguém, pesadamente, atirasse para o meio da mesa de jogo uma aposta fortíssima, que não se pode ignorar e que obriga a suspender todos os gestos e a reavaliar os desafios.

Devo dizer -  e faço-o sem qualquer vezo retórico - que me sinto um tanto surpreendido e muitíssimo honrado por ter sido convidado a dizer umas primeiras palavras que, necessariamente, ficarão sempre aquém do mérito da obra. Dir-se-ia que ela merecia ser confrontada com saberes muito mais estruturados nas matérias de que trata, ou, pelo menos com um pensamento coerente e constante de interpelação e inquietação acerca dos caminhos novos do capitalismo e do socialismo.

A amizade dos autores fê-los escolher alguém que há muitos anos se diverte mais com artes poéticas e com a pequena babugem dos dias, que com o entrechoque dos grandes modelos económicos.

Ao ler este livro ocorreu-me um velho, aliás belíssimo, conto soviético de ficção científica de cujo nome não me lembro. Um cosmonauta chegou a um planeta distante em que os nativos eram tão evoluídos que se tinham tornado diáfanos, espirituais, como sombras. Sem saber como comunicar, lembrou ao homem dar a ouvir uma sinfonia da fonoteca de bordo.

O estranho ser ouviu com toda a atenção e logo a seguir reproduziu a sinfonia, com todo o rigor, nota por nota, tal como a havia escutado. Reproduziu inclusivamente o rumor da agulha no disco.

O conto tinha muitas implicações filosóficas e artísticas, mas o autor dos anos sessenta não se apercebeu do anacronismo que representava um gira-discos, vulgo pick-up, a arranhar um disco de vinil através duma agulha de diamante ou equivalente, num aparelho pousado num planeta remoto, para lá do Sistema solar... Era mais ou menos a mesma coisa que ter considerado um ferro de engomar a carvão dentro da nave interestelar.

Nós, humanos, somos useiros e vezeiros nestas distorcidas projecções. A fingir que mudamos tudo, afinal não mudamos nada. As paisagens do futuro do século dezanove estão cheias de arrojadas máquinas voadoras - que a comissão europeia não deixaria aliás de proibir pela emergência de ferros cortantes e perfurantes, - mas que são tripuladas por sujeitos bigodudos, engravatados e por madamas de espartilho e vestidos que davam para três tendas militares. As megalópoles dos anos 30 apresentam pelos mais estranhos viadutos, formigueiros de simpáticos fords T, ou equivalentes. E poderíamos ir por aí fora, divertindo-nos com as antecipações impossíveis e utópicas que nunca foram, nem puderam ser, nem serão concretizadas, a não ser que todos déssemos absolutamente em doidos, hipótese que, aliás, já esteve mais longínqua.

E nisto, neste dares e tomares, ei-nos no século XXI. O acontecimento mais importante que agora ocorre - e a que, portanto, ninguém dá qualquer importância, - é que há quatro ou cinco naves a caminho de Marte. Aturdidos pelas quotidianas lavagens ao cérebro a que estão submetidos, os nossos concidadãos, de mentes entulhadas pelo jogo da bola e pelos reality shows, nem reparam. Os jornalistas também não dão qualquer atenção. Usam uns critérios que são eles próprios a decidir, designados ‘critérios jornalísticos’, donde é excluído tudo aquilo que tenha um mínimo de dignidade ou que contribua minimamente que seja para o progresso da civilização.

Enfim, sem darmos por isso, encontramo-nos em pleno mundo da ficção científica, com iluminações exaltantes, mas também com lastros medonhos. E é uma ficção científica tão dura e tão firmada que não houve um único ficcionista que tivesse conseguido antever uma das suas variantes, cujas conseqüências e derivações ainda agora começaram: a internet.

Deixando-nos deslizar, sem disso nos apercebermos, para este mundo de ficção científica, que julgamos compreender mas que por todo o lado nos escapa, sem estremecermos sequer á idéia de que a máquina vai mesmo vencer o homem irremediavelmente no reduto do xadrez, excelência das excelências da previsão humana, antecâmara dos jogos estratégicos e militares, vamos trabalhando ou melhor, manipulando os conceitos que vinham de trás e que se adaptam tanto a uma sociedade que se transformou como uma candeia de azeite à iluminação da tela em que estou escrevendo. Lá fora já não passa o funcionário municipal com a sua escada e o seu longo apagador de bicos de gás. Nem  brada as horas pela noite afora. Há anos que o velho relógio de pesos não range, na nossa casa. Em cada recanto escuro, um minúsculo traço azul, verde ou rosa, lembra-nos silenciosamente que as horas todas golpeiam e a última mata.

Fernando Penim Redondo e Maria Rosa Redondo anunciam-nos a emergência de um novo modo de produção: O DIGITALISMO e propõem-se reajustar o paradigma marxista, substituindo o tempo de trabalho incorporado nas mercadorias pelo CONHECIMENTO incorporado nas mercadorias.

Perante um desenvolvimento seguro, gradualmente argumentado, nós apercebemo-nos de que temos porventura passado a vida a ampliar um velho sistema ptolomaico, mais e mais irreconhecível à medida que novas observações e novas perplexidades o vêm infirmando de tal modo que o emaranhado de esferas e movimentos já pouco terá a ver com a primeva descrição do universo, simplificada e ao alcance de todos.

É o trabalho criativo, não o trabalho repetitivo, asseveram os autores, a fonte do valor de troca nos dias de hoje. Posso acrescentar e perdoe-se-me o jogo de palavras que é a reflexão criativa e não o arrazoado repetitivo das velhas fórmulas, a via para compreender os estranhos dias que vivemos, que tão distanciados são do século XIX e das suas certezas.

Talvez a entoação das decrépitas premissas possa trazer o consolo de uma oração que tranquiliza e conforta, na sua cadência encantatória. Sob um ponto de vista humano, cabe-nos ser compreensivos para estes esforços de apaziguamento baseados na crença. A dura materialidade das coisas é terrível, traiçoeira, chega a ser paradoxal, está a pedir para ser exorcisada.

No entanto, se queremos fazer um esforço, que pode ser doloroso e cheio de riscos, para compreender – não para exconjurar – o tal mundo real é necessário romper corajosamente com conceitos e práticas que já demonstraram a sua inépcia.

Para se passar além do Bojador não bastaram os desígnios divinos nem as crenças fantasmáticas dos doutores dos gabinetes. Foi necessário inventar, através do método da tentativa e erro, um pequeno navio suficientemente robusto para aguentar o mar grosso, e capaz de navegar contra o vento.

O desenvolvimento da tecnologia cria condições para um novo modo de produção – o digitalismo?  A teoria marxista do valor tem de ser reavaliada? Os partidos progressistas devem encarar uma nova formação económica social, com novas relações de produção, a partir de um novo modo de produção? O papel do Estado como empregador tem um papel regulador dos circuitos económicos? Está o assalariamento condenado? A luta em torno dos direitos da propriedade intelectual toma foros de essencialidade nunca antes conhecida? Em que medida o papel do Estado poderá ser o de ajudar a romper a apropriação individual, através do financiamento de grandes projectos cooperativos?

E, pergunto eu agora, o que seria deste mundo se um saudável espírito herético não viesse assegurar que os antípodas existem e que o Sol é capaz de ser maior que o Pelopeneso?

Eu fiz votos de falar pouco. A experiência que já é longa destas coisas diz-me que os apresentadores têm tendência para extender a peroração. A certa altura, começam a gostar de se ouvir a si próprios e, portanto, a ter um único ouvinte.

Mas quem, no fundamental, tem coisas estimulantes para dizer, quem na verdade nós queremos ouvir, são os autores desta obra que, decerto, dará que falar, a quem passo de em boa hora a palavra

 

M.C.

20-11-2003