|
Crítica e Aternativa às Teses Propostas ao 17º Congresso do PCP
1 - A mensagem que as TESES veiculam No prefácio de “Para a crítica da Economia Política”, dizia Marx: “Uma formação social nunca decai antes de estarem desenvolvidas todas as forças produtivas para as quais é suficientemente ampla, e nunca surgem relações de produção novas e superiores antes de as condições materiais de existência das mesmas, terem sido incubadas no seio da própria sociedade velha”. Se assumirmos que o PCP partilha este princípio basilar, a primeira conclusão que retiramos da leitura das Teses para o 17º Congresso é a de que o Capitalismo é como a fénix que vai sempre renascendo das próprias cinzas. Embora seja repetidamente afirmado que o sistema está minado por crises e contradições cada vez maiores, nunca essas situações são analisadas no sentido de avaliar a pujança ou o esgotamento das Forças Produtivas e das Relações de Produção em que se baseia e de encontrar pontos de ruptura, ficando assim implícito que não se vislumbra qualquer alternativa. No lugar dessa análise, temos uma longa e repetitiva lista das desgraças e malefícios causados pelo Capitalismo, cujos movimentos são inevitavelmente interpretados, não como decorrendo de uma situação de crise, mas sim como uma sanha persecutória dos capitalistas. Não há portanto nenhuma perspectiva de emergência de uma nova formação económica e social (necessariamente baseada num novo Modo de Produção), uma vez que o sistema Capitalista é capaz de gerar sempre novas oportunidades de desenvolvimento. Assim sendo, a única via apresentada aos “trabalhadores e às forças progressistas” é a da resistência com o objectivo de preservar os direitos adquiridos e as “conquistas alcançadas por muitas décadas de duras lutas”. Fica subjacente uma certa nostalgia da época áurea do Capitalismo, em que as empresas eram grandes e prósperas e empregavam muitos trabalhadores; e os proveitos eram suficientes para permitir a cedência ás exigências dos sindicatos (que eram grandes e fortes e travavam lutas vitoriosas); e o Estado Providência parecia estabelecido de pedra e cal. Entre as referidas conquistas, são alvo de especial destaque o Serviço Nacional de Saúde, o Sistema Publico de Esnsino , o Sector Empresarial do Estado, cuja racionalidade de funcionamento e real serviço aos cidadãos nunca são questionados, numa lógica de “Coisa Publica = Coisa Boa”. Trata-se de um afloramento de uma posição ideológica entretanto abafada por razões conjunturais: a de que o “socialismo” será concretizado pela tomada dos órgãos do poder e pela concentração nas mãos do Estado das chaves da produção e distribuição de bens e serviços. Quer se goste quer não, este “modelo soviético” é por omissão a definição de socialismo que as Teses nunca fazem mas que continua a enformar todas as posições do PCP. Essa conquista do poder, subentendida como única via para eliminar um sistema que parece não dar mostras de decair por si só, seria empreendida por uma Classe Operária cada vez mais numerosa, engrossada por uma proletarização galopante de outros estratos sociais. É esse o cenário que as Teses procuram justificar no Capítulo 3, e que pela importância da teoria que procura fundamentar, vamos tratar com mais detalhe no Ponto 2.
2 - Uma
“
“A
O
Para
2.1.
A
Números
e
São
dadas
Os
2.2. As
Clique para ver no Quadro 1 uma síntese das definições das classes nas Teses
Os postulados apresentados são essencialmente a “polarização social” e a assimilação da maioria dos estratos sociais à classe operária. Citamos:
“3.1.7. A
“3.1.44. Acentuou-se a polarização de
“3.1.14.
“3.1.25. Os
“3.1.29. Verifica-se uma
A
Com
Realmente
A
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
No
Somos
2.3.
Em
Trata-se de
A
Uma
É
Se
considerarmos
As
Ao
fazê-lo estão a
Uma
Clique para ver no Quadro 4 uma análise da População com 15 anos ou mais
A
Os
Pensionistas (1.935.584) são
Os
As
domésticas casadas
Os
A
Também
neste
Neste
3 - Uma alternativa
Ao criticarmos as Teses que vão ser apresentadas ao 17º Congresso, fazêmo-lo não com base em situações conjunturais, mas na nossa própria análise da evolução das forças produtivas e das relações de produção no mundo capitalista, especialmente em Portugal. Nessa análise, que apresentámos desenvolvidamente no livro “DO CAPITALISMO PARA O DIGITALISMO” , Campo das Letras, 2003, usamos como ferramenta ideológica os conceitos marxistas de Modo de Produção e de Formação Económica e Social. Perfilhamos a definição de Modo de Produção como um sistema caracterizado por determinadas Forças Produtivas e Relações de Produção, incluindo-se nas primeiras os instrumentos, as energias e os homens (Base Material), e nas segundas as ligações e relações que se estabelecem entre os homens no processo de produção (Forma Social). E a definição de Formação Económica e Social como um tipo de sociedade historicamente determinado com a sua Base (modo de produção) e a correspondente Super-Estrutura (concepções e instituições políticas, jurídica, religiosas, filosóficas, artísticas), interagindo ambas dialecticamente no desenvolvimento do processo histórico. É para nós princípio básico a tese de Marx de que uma nova Formação Económica e Social pressupõe uma Base Material diferente da que vigorava na formação anterior, cuja emergência é um processo espontâneo, gradual e de longa duração. E que portanto, a transição de uma Base Material para outra não é algo que se possa conseguir com um acto revolucionário circunscrito no tempo, mas sim o resultado do jogo das forças sociais em presença exercendo-se durante decénios ou séculos sobre os desenvolvimentos científicos e tecnológicos de uma determinada época, num determinado contexto natural e ambiental. Ganha assim novo sentido a ideia de acção revolucionária já não mais ligada à imagem insurreccional, mas sim como um labor da inteligência para, constantemente e por todos os modos, influenciar a gestação da nova Base Material, já que esta como um “ovo da serpente” contém em si promessas mas também o perigo de novas formas de exploração e opressão. Como a história mostra, os “actos revolucionários” o que fazem é, na presença de novas realidades sociais e económicas adequar, por vezes recorrendo à violência, as superstruturas político-jurídicas. Parece por tudo isto evidente a absoluta necessidade, para quem se propõe intervir na sociedade, de monitorar e avaliar em cada momento da sua acção política, o grau de desenvolvimento de uma nova “base material” que possa eventualmente estar a ocorrer. Ao longo da sua evolução, o Modo de Produção Capitalista tem sofrido diversas inflexões (mecanização, terciarização, globalização, etc) que o adaptaram à evolução tecnológica e às alterações politicas, sem no entanto modificarem as suas características essenciais: produção industrial de mercadorias e assalariamento. Porém, é a revolução digital das ultimas décadas que vem provocar a grande alteração qualitativa do sistema, pondo em causa as próprias características identificativas que referimos no parágrafo anterior.
Ao contrário do que é assumido nas Teses, partimos do princípio de que o desenvolvimento da tecnologia está a criar condições para a emergência de um novo modo de produção já não baseado no assalariamento, sendo previsível para breve o surgimento de um novo conjunto de relações de produção e depois a sua rápida generalização, tal como aconteceu com o próprio assalariamento no século XIX.
Sem pretensões de que a
lista esteja ordenada por importância, estes são alguns dos
fenómenos da sociedade actual que são sintomas e causas de mudança: - Peso cada vez maior do trabalho como factor fixo de produção, que não varia com a quantidade produzida - Crescente importância do trabalho executado a montante e a juzante da produção propriamente dita (estudos de mercado, concepção, desenho, engenharia de produção, promoção do produto, comercialização e distribuição) - Preponderância do trabalho como manipulação da informação e do conhecimento, em vez da manipulação de materiais - Generalização das formas precárias, indirectas ou descaracterizadas do assalariamento e progressiva substituição da compra do tempo de trabalho pela compra do resultado do trabalho - Automatização em larga escala, sob várias formas, quer do trabalho manual quer do trabalho intelectual (em virtude da introdução maciça de equipamentos informáticos em todas as esferas da produção bem como de uma miríade de dispositivos como cartões de crédito, centrais telefónicas com atendimento automático, e muitos outros). - Influência crescente da ciência e da técnica no processo produtivo que não se resume à “objectivação” nas máquinas e equipamentos (tradicionalmente o “capital fixo”, a maquinaria industrial, era considerado a face visível da ciência e da técnica na produção, hoje o factor chave na maior parte dos sectores é o conhecimento aplicado pelos trabalhadores no acto da “produção”). - Número cada vez maior de mercadorias intangíveis que podem ser repetidamente consumidas pois o consumo não as destrói (por ex. transmissões televisivas de espectáculos, descarregamento de programas a partir da Internet) - Excesso de mercadorias relativamente à capacidade de aquisição, em permanência e não apenas durante as “crises” - Deslocação das atenções dos agentes económicos, dos responsáveis das empresas, para o problema do escoamento dos produtos em detrimento dos problemas da produção - Afirmação crescente do carácter estratégico dos meios de produção ligados ao tratamento da informação (redes de difusão de televisão e rádio, redes de comunicações, grandes bases de dados, etc) em detrimento dos meios de produção próprios das indústrias tradicionais, projectando a sua influência sobre o sistema educativo e a comunicação de massas
Ao novo Modo de Produção que, segundo a nossa hipótese, se encontra neste momento em plena construção e em vias de substituir o Capitalismo, decidimos chamar Digitalismo devido à relevância da chamada Revolução Digital para a sua eclosão. De facto, não só a nova Base Material compreende as redes de comunicação de dados, a rádio e televisão difundidas pelo espectro radioeléctrico ou por cabo, todo o tipo de autómatos desde os micro-chips aos super-computadores, os softwares aplicacionais, as bases de dados e os sistemas operativos, e todas as tecnologias conexas que com eles activamente interagem e deles cada vez mais dependem, mas o próprio sistema de produção e distribuição de bens se realiza pela captura, armazenamento, tratamento e difusão da informação necessária à produção de conhecimento. Convém frisar que a emergência do Digitalismo não significa o desaparecimento da grande indústria gerada pelo Capitalismo tal como este não fez desaparecer a agricultura e mesmo as sociedades agrícolas; o que acontecerá, como aconteceu no passado, é que a indústria sofrerá grandes modificações. Tal como o Capitalismo transformou e industrializou a agricultura, o Digitalismo está a transformar a grande indústria pela injecção em larga escala de sistemas de informação. Para que se consolide o processo de transição do Capitalismo para o Digitalismo falta, no essencial, forjar novas relações de produção adequadas à poderosíssima base material acima descrita. Como explicou Marx, as relações de produção acompanham o desenvolvimento da base material; a desadequação do assalariamento na actual fase do desenvolvimento da tecnologia constitui precisamente uma contradição fundamental que conduzirá ao fim do Capitalismo. Já em 1865 Marx punha genialmente “o dedo na ferida” ao instar a classe operária a “em vez do motto conservador «salário diário justo para um trabalho diário justo» inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: «Abolição do sistema de salários!»”. Não podemos actualmente “descrever” esse sistema, a que chamamos Digitalismo, a não ser sob a forma de utopia, mas pensamos que isso não torna menos fecundo o exercício de reflectir sobre ele e podemos começar por defini-lo como: Um modo de produção em que não predomine o assalariamento, em que todos os intervenientes participem nos projectos exclusivamente em função do seu trabalho e em que os excedentes gerados sejam distribuídos por decisão colectiva dos participantes nos projectos. Não devemos escamotear que as novas relações de produção em vias de ser forjadas não se caracterizarão necessariamente pela ausência de exploração e que, ao implantar-se, não eliminarão automaticamente os parasitismos de uns grupos sociais em relação a outros. Na medida em que o carácter justo, ou injusto, do Digitalismo está ainda por determinar e no fundo depende daquilo que todos nós soubermos antecipar e condicionar, é muito importante que sejam desenvolvidos cenários sustentáveis para enquadrar as acções políticas a empreender. Passamos então a apresentar um cenário possível com o intuito de mostrar que, a organização em sociedade para produzir, poderia deixar de depender do assalariamento e da exploração: No Digitalismo os empreendimentos tenderão a organizar-se sob a forma de Projectos Cooperativos em que todos participam na qualidade exclusiva de trabalhadores cooperantes. Os Projectos Cooperativos irão definir-se pelo seu propósito, pelo resultado que se proponham atingir. Não serão uma organização (empresa) mas sim um contrato entre trabalhadores para alcançar um dado fim, quer ele seja específico quer ele seja genérico, de curta ou de longa duração. Como os Projectos Cooperativos não têm assalariados, e não pagam salários, o excedente é a diferença entre o valor do que se produziu e o valor dos recursos comprados para o projecto (incluindo o “aluguer” dos meios de produção) e outras gastos. A distribuição dos excedentes será feita na base da importância relativa dos contributos de cada participante por eles próprios determinada. A propriedade dos meios de produção será separada da “propriedade” dos projectos, que pertencerá aqueles que neles trabalharem Corolário do anterior é que todos os meios de produção para além do trabalho serão remunerados na base do “aluguer” da sua utilização e não darão direitos especiais aos seus proprietários aquando da distribuição dos excedentes. Aliás os proprietários, enquanto tal, não participarão nos projectos. Cada cidadão poderá estar associado a vários projectos simultaneamente desempenhando em cada um deles funções de tipo diferente. A missão de um partido marxista é portanto a de apresentar aos cidadãos e aos trabalhadores em particular, o novo Modo de Produção que se anuncia (chame-se ele como se chamar!) e o seu programa deve perspectivar as acções que devem ser desde já tomadas para o inflectir no sentido de uma maior justiça.
Dir-se-á que não sendo o estabelecimento de um novo Modo de Produção, e portanto de uma nova Formação Económica e Social, algo que vá acontecer “amanhã” como um evento com hora marcada, não faz sentido que um partido político elabore o seu programa de acção à volta desse advento. Mas nós dizemos que faz ainda menos sentido que desse programa estejam completamente ausentes as características da nova sociedade e as propostas para influenciar a sua construção. A História mostra-nos que em todas as transições há forças que emergem e outras que são submersas e há camadas sociais que são severamente atingidas nas suas condições de vida. Se não é humanamente correcto ignorá-las sob o pretexto da inelutabilidade dos processos evolutivos, será politicamente ineficaz e socialmente inútil ter como programa uma série de propostas de auxílio às vitimas. (Que é o que cada vez mais acontece com as resoluções politicas e os programas eleitorais do PCP e da esquerda em geral).
Assim sendo, consideramos que o Programa deveria promover ou apoiar medidas tendentes a:
10/11/2004
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||