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A política dos
"preços predadores"
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Wayne Crews e Alberto Mingardi
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Se
a Europa quer realmente tornar-se numa economia competitiva assente no
conhecimento, então, terá de interiorizar que são precisas reformas e não uma
regulação mais musculada
A recente decisão do Tribunal Europeu de
Primeira Instância, que reiterou a aplicação da coima e das sanções impostas
pela Comissão Europeia (CE) à Microsoft em 2004, parece justificar a abordagem
intervencionista daquela face à política da concorrência. O caso da Intel, que
se encontra sob investigação há cinco anos, pode igualmente redundar numa
punição severa. Ora, a Europa não deve rejubilar perante este triunfo sobre as
"grandes empresas" americanas. Deve, ao invés, reflectir sobre se as actuais
políticas fazem da Europa um destino atractivo para empresas inovadoras.
Emma Bonino, ministra para o Comércio Internacional e para a Política Europeia,
fez questão de sublinhar, quando comentou a decisão do tribunal, que o nome
Microsoft evoca "tudo o que os EUA são capazes de fazer". Para Bonino, se um
gigante como este não nasceu na Europa, isso significa que a Europa "não foi
capaz de criar as condições necessárias para o seu florescimento".
A forma como a CE aborda a política da concorrência não vai alterar o actual
estado de coisas, ou seja, não vai criar um ambiente mais favorável às empresas
inovadoras. De frisar que a Microsoft e a Intel não são os alvos mais
apropriados para aplicar a política antimonopólio, pelo simples facto de os
reguladores não poderem actuar à velocidade da "era Internet".
Tomemos os sistemas operativos, o software de contabilidade, as bases de dados,
os motores de busca, os chips de silicone, os serviços de banda larga, o cabo e
os telemóveis como exemplo. Todos representam indústrias em rápido crescimento,
um meio onde a concorrência é feroz e onde se cria elevada riqueza. Indústrias e
empresas, tal como as pessoas, têm ciclos de vida próprios, no entanto, o ritmo
a que as indústrias de tecnologia de ponta têm vindo a mudar é absolutamente
inédito, não tem precedentes.
O leitor recorda-se da IBM? Há poucos anos, as autoridades norte-americanas
antimonopólio convenceram-se de que a IBM "fechara" a indústria de computadores
às próximas gerações. Desde então, empresas como a Microsoft e a Intel lideraram
revoluções tanto no software como no hardware, ocupando um espaço que a IBM e
outras não souberam explorar e que, por essa razão, votaram a IBM ao
esquecimento. E quando as autoridades reguladoras dos dois lados do Atlântico
decidiram debruçar-se sobre o monopólio do Windows, já a Microsoft estava a
braços com a concorrência de equipamentos portáteis e modelos computacionais
disponibilizados online pela Google, e a Intel enfrentava ameaças semelhantes de
fabricantes rivais de chips e hardware.
A verdade é que os reguladores não acrescentam valor a este processo
evolucionista de alta velocidade. A teoria diz que visam evitar monopólios e a
restrição do comércio, mas a prática conta-nos outra história. A regulação
antimonopólio na "nova economia" é tão-só o novo rosto da velha "política
industrial", que permite aos burocratas manipular resultados económicos e
favorecer empresas em detrimento das escolhas dos consumidores. Os únicos que
beneficiam da "mão-de-ferro" dos reguladores sobre a Microsoft são os seus
concorrentes, com a agravante de aquela pôr em causa a boa saúde da
concorrência.
Os reguladores persistem na sua intrusão e afirmam-se preparados para debelar
práticas anticoncorrenciais e pôr fim ao exercício "desmedido do poder de
mercado" dos "players" de maior sucesso. A lei europeia da concorrência permite
a interferência dos decisores, aumentando a incerteza, lesando a criação de
riqueza e o bem-estar dos consumidores. As empresas mais eficientes são punidas
pelo seu êxito e feitas reféns de padrões que não afectem os concorrentes, em
vez de continuarem a exceder-se e a superar os ditos rivais para benefício dos
consumidores.
O que nos é apresentado como a defesa da concorrência traduz-se, afinal, no
favorecimento de interesses especiais e na imposição de custos perfeitamente
desnecessários sobre a inovação. E mesmo que a Microsoft tenha incorrido em
práticas monopolistas, às autoridades reguladoras da União Europeia não bastou o
facto de terem punido a empresa, sentiram-se ainda na obrigação de tomar medidas
profundamente intrusivas, como o "unbundling" de um leitor de media do sistema
operativo da Microsoft e a divulgação de segredos industriais constantes no
software de servidor do gigante americano. Não admira, pois, que os rivais da
Microsoft tenham aplaudido a CE durante todo o processo de investigação e
recurso.
A Comissão tem vindo, assim, a transformar-se no maior aliado das empresas que
não conseguem vencer os seus concorrentes no mercado e que optam por uma segunda
oportunidade nos tribunais. A nova acção interposta pela CE contra a Intel é
disso exemplo. Senão vejamos: a Intel é acusada de "abusar" da sua posição
dominante no mercado através da chamada política de "preços predadores" (redução
de preços abaixo do valor justo de mercado), de oferecer descontos
significativos para manter a quota de mercado e de prejudicar o seu arqui-rival
Advanced Micro Devices.
A política dos "preços predadores" é um velho fantasma que os reguladores gostam
de invocar nestas ocasiões. A ideia de que é racional uma empresa incorrer em
enormes perdas para atingir ou manter uma posição de monopólio tem sido
duramente criticada por diversos economistas. Estes argumentam que são raras as
situações em que as empresas conseguem recuperar as perdas através dos lucros
resultantes do monopólio. Estudos empíricos mostram que, ao longo da história -
e recuando inclusive a episódios como o "Standard Oil" no início do século XX -,
a maioria dos casos em que alegadamente se praticavam "preços predadores" eram,
muito simplesmente, exemplos de eficiência empresarial. Mais: nas últimas
décadas, os tribunais dos EUA demonstraram que é praticamente impossível pôr em
prática a lógica dos "preços predadores". No entanto, as autoridades europeias
para a concorrência clamam que a Intel persiste nesse comportamento irracional.
O problema é que os tribunais dificilmente conseguem distinguir entre preços
"injustos" e concorrência eficiente com claras vantagens para os consumidores.
Resumindo: são os concorrentes menos eficientes, e não os consumidores, que irão
beneficiar do castigo aplicado à Intel por baixar os seus preços.
Se a Europa quer realmente tornar-se numa economia competitiva assente no
conhecimento, então, terá de interiorizar que são precisas reformas e não uma
regulação mais musculada. Impor coimas no valor de milhares de milhões de
dólares aos maiores criadores de riqueza não é, certamente, o caminho a seguir.
A Europa tem de atrair empresas como a Intel e a Microsoft, de fazê-las
sentir-se em casa em Bruxelas, Paris ou Berlim, e de se recusar a vestir a pele
de "juiz" a quem cabe distribuir veredictos complacentes aos derrotados do
mercado.
* Wayne Crews é vice-presidente da área de política do Competitive Institute,
sediado em Washington, e Alberto Mingardi é director-geral do Instituto de
pesquisa Bruno Leoni, com sede em Milão.
PÚBLICO/Project syndicate
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