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O teorema de Okishio
Alguns apontamentos avulsos
Por Guilherme Statter
Desde
que Marx formulou a sua célebre lei da Queda Tendencial da Taxa de Lucro
que essa lei tendencial tem sido objecto das mais vivas críticas por parte
de diversos autores, em particular os autores anti-marxistas, o que até é
natural. Mas mesmo alguns autores que se reclamam do marxismo ou que são
designado como "marxistas" ou como "marxianos" têm afirmado a não validade
daquela lei tendencial.
Devemos entretanto assinalar que Marx considerava a sua lei da Queda
Tendencial da Taxa de Lucro (daqui em diante LQTTL) como a lei mais
importante e fundamental para a compreensão da economia política do
capitalismo.
Segundo Marx haverá no sistema capitalista – e por causa das suas regras
fundamentais de funcionamento – uma tendência inerente a essas regras
(postuladas e observadas) de funcionamento. Sendo que essa tendência se
exprime através da tal LQTTL.
Em particular por causa da tendência permanente para o aumento
proporcional ou relativo do capital constante (ou do crescimento
continuado da chamada Composição Orgânica do Capital).
Isto aconteceria também por causa da redução proporcional e continuada da
produção de "mais-valias" (relativamente ao total da produção!...) em
resultado da muito maior produtividade do factor "Trabalho".
Por outras palavras, a contínua introdução de novas tecnologias mais
produtivas acabava por dar origem a uma queda tendencial na taxa do lucro.
Uma das críticas que por vezes se encontra a esta tese de Marx é o de este
considerar que haverá no sistema capitalista uma tendência permanente,
histórica e sistemática para a acumulação. Sendo que a essa acumulação
corresponderá um aumento progressivo da "Composição Orgânica do Capital".
Dizem esses críticos que "não senhor", "não há aumento sistemático" da
"Composição Orgânica do Capital" e que portanto não haverá nenhuma
tendência decrescente da taxa de lucro. Isso seria indeterminado e as
variações da taxa de lucro devem-se a outros factores, externos à lógica
intrínseca do sistema capitalista.
Em 1961 o economista japonês Nobuo Okishio apresentou aquilo que veio a
ser conhecido como o Teorema de Okishio demonstrando por "a + b" que a
LQTTL formulada por Marx não só não era demonstrável (para Okishio e
utilizando mesmo as premissas de Marx), como até seria logicamente
inconsistente e errada.
A apresentação do Teorema de Okishio é (mesmo segundo autores críticos) e
de um ponto de vista lógico e matemático, formalmente correcta e seria
mesmo inatacável.
Em consequência, pelo menos depois de uma sua apresentação nos meios
académicos ocidentais por John Roemer em 1978, a questão foi declarada
como encerrada, o assunto resolvido (de uma vez por todas...) e deixaria
de haver qualquer razão válida para continuar a falar de qualquer queda
tendencial da taxa de lucro.
O que seria extremamente útil para quem defende o sistema capitalista na
medida em que não havendo nenhuma tendência decrescente da taxa de lucro,
então não haveria nenhuma razão lógica ou histórica para pretender
transformar ou acabar com o dito cujo sistema. A solidariedade, ética e
justiça social não são para aqui chamadas...
The Okishio theorem (Okishio 1961) is generally thought to have
refuted this law on logical grounds, in a manner "so devastating that it
deprives all arguments (pro and contra) of their relevance" (Parijs
1980:9).
Continuando...
Mas afinal o que nos diz o Teorema de Okishio?
"If the newly introduced technique satisfies the cost criterion
(i.e. if it reduces unit-costs, given current prices) and the rate of real
wage remains constant, then the rate of profit must increase"
(Okishio, 1961, página 92).
Vejamos então (de forma MUITO esquemática) a abordagem de
Okishio:
Em primeiro lugar a motivação:
Teremos aqui a premissa de que uma qualquer empresa só adoptará uma
qualquer nova tecnologia se esta contribuir para aumentar a sua própria
taxa de lucro.
Em segundo lugar as consequências:
Teremos assim que em resultado da adopção de uma nova tecnologia mais
produtiva, a empresa pioneira verá aumentar a sua própria taxa de lucro
(seja por via de uma redução de custos seja por via de um aumento de
vendas ou ainda por uma combinação destes dois efeitos).
Em terceiro lugar resultarão daí pelos menos duas outras consequências:
1.Ou a empresa pioneira, para ganhar maiores fatias de mercado, transfere
(faz passar...) para outras empresas a jusante, algum do benefício da sua
maior produtividade (sob a forma de preços de venda mais reduzidos), ou
2. A empresa pioneira fica com maior capacidade de compra (vende aos
mesmos preços mas a custos mais reduzidos) e assim pode aumentar a
dimensão do mercado das empresas a montante, na medida em que passa a
dispôr de mais capital.
Verificando-se assim uma expansão dos mercados, haveria lugar a novos
investimentos e em cadeia aumentaria o poder de compra geral para absorver
a nova e alargada produção de bens e serviços.
Em qualquer dos casos - segundo Okishio - a introdução de uma
inovação tecnológica só poderá ter como resultado uma subida generalizada
da taxa de lucro.
Okishio raciocinava em termos da análise matricial inter-sectorial de
actividades económicas e considerava que o aumento da taxa de lucro num
qualquer ponto da matriz acaba por se difundir através de todas as
empresas aumentando assim a taxa de lucro prevalecente no sistema.
Ver mais adiante gráfico
esquemático de uma matriz de "entradas e saídas" inter-sectoriais.
Ou seja, exactamente o oposto daquilo que defendia Karl Marx.
Continuando...
Para os seus críticos mais comuns (ou melhor, aqueles a que tive
acesso...) o erro básico de Okishio será o de considerar, para qualquer
empresa pioneira (e
implicitamente para toda e qualquer empresa, ainda que em grau
eventualmente diferenciado) o referencial do
sistema de preços de venda como distinto (temporalmente
separado) do referencial do sistema de preços de
compra.
Por outras palavras, para Okishio o custo de substituição de máquinas
(tecnologias) "obsoletas" por outras "mais modernas" (ou com maior
produtividade potencial), far-se-ia sistematicamente pelos preços de
compra (produção) das novas máquinas ou tecnologias e considerando que
estaria sempre concluída a amortização (total e completa) dos custos
históricos das máquinas e tecnologias "obsoletas".
Ou seja, as novas "máquinas" (além de serem normalmente mais baratas), não
tinham que "levar às costas" os custos não amortizados das máquinas
"obsoletas".
Dizem esses críticos que se trata aqui de uma premissa "irrealista".
Quanto a mim, não é por aí que lá vão...
Um outro erro que é apontado a Okishio é o facto de este considerar que
estará sempre garantida "à partida" a venda da totalidade da produção
(logo a concretização efectiva da totalidade das mais-valias originadas no
momento da produção).
Aqui Okishio incorrerá num outro tipo de erro (de coerência lógica):
Por um lado, declara que a formulação da LQTTL, tal como apresentada por
Marx, está errada e logicamente inconsequente, mas por outro lado, altera
ou ignora de forma sistemática uma das premissas do raciocínio de Marx: o
da contradição insanável entre a produção e o consumo das mais-valias.
Finalmente e para concluir estas notas mais do que avulsas, um último
reparo até e também à crítica que acima refiro e formulada em relação ao
teorema de Okishio.
De acordo com os resultados obtidos com iterações do algoritmo rudimentar
que tive ocasião de elaborar (a
partir de um ensaio de Ronald Meek), e no curto
prazo, Okishio parece ter razão e verificar-se-ia de facto uma subida
tendencial da taxa de lucro.
Mas - há sempre um raio de um "mas"... - a médio e mais longo prazo (depende
daquilo a que no algoritmo chamo de "grau de refluxo" e que poderá
corresponder (grosso modo) àquilo que os economistas designam por
"formação bruta de capital fixo"), a evolução da
taxa de lucro sofre uma inflexão, estagna e começa de facto a descer.
O erro fundamental de Okishio - dos críticos a que tenho tido acesso - é
então de uma outra natureza:
Muito simplesmente ignoram o caracter histórico (diacrónico, dizem
eles...) da disciplina ciêntífica "Economia" e o permanente "ongoing"
efeito de retroacção sistémica relativamente às condições de partida.
Apresento em seguida os quadros correspondentes à evolução das variáveis
pertinentes, assim como o rudimentar esboço gráfico de uma matriz
inter-indústrias.
Enfim, espero que saia...
Algumas notas e comentários ou esclarecimentos adicionais:
1. Quando se diz "não havendo nenhuma tendência decrescente da taxa de
lucro, então não haveria nenhuma razão lógica ou histórica para pretender
transformar ou acabar com o dito cujo sistema", isso pode querer dizer
que "havendo de facto uma tendência decrescente da taxa de lucro, então
haverá razão lógica ou histórica para pretender transformar ou acabar com
o dito cujo sistema".
Mas isso (por sua vez) não quer dizer que da existência da tendência
decrescente da taxa de lucro se tenha que seguir deterministicamente
(de forma mecanista...) o fim do sistema capitalista.
As classes ou grupos sociais dirigentes podem muito apreender a referida
LQTTL e em seguida aprender a lidar com as suas consequências,
designadamente e muito em especial com as questões do emprego do factor
trabalho e dos efeitos do subsistema económico produtivo sobre a
globalidade do meio físico ambiental.
A questão que então se poderia colocar seria uma de saber se nessas
condições (de administração racional do sistema...) se poderia ainda falar
de "sistema capitalista".
2. Entretanto não estou de acordo com a expressão "o capitalismo
realmente existente só agora começa a expandir-se globalmente... (etc.)".
Na polémica entre Immanuel Wallerstein e Gunder Frank ("The
World-system, 500 or 5.000 years?"...), inclino-me mais para as teses
de Gunder Frank e entendo que o sistema-mundo atingiu os seus limites
planetários há pouco mais de um século.
Por outro lado e nesse sentido inclino-me mais para que as "condições
de exploração comparáveis às de meio século antes nos países
desenvolvidos", seriam antes comparáveis às de há um século e meio
nos referidos países desenvolvidos.
3. No que diz respeito à "dificuldade prática quase inultrapassável" (na
questão de comprovar a queda tendencial da taxa de lucro) não podiamos
estar mais de acordo.
Em todo o caso são de assinalar alguns esforços e trabalhos de
investigação empírica de entre os quais o mais recente e que terá tido
maior impacto será a obra de Robert Brenner, ("The Boom and the Bubble
- the US in the World Economy).
Em todo o caso e no que concerne ao Teorema de Okishio, aquilo de que se
trata é de demonstrar uma alegada incongruência lógica (por conseguinte
"teórica") por parte do modelo descrito por Marx.
E aqui estaríamos perante um erro insanável da parte de Okishio (ou dos
seus apoiantes). Enquanto que Marx se refere sistematicamente a um sistema
histórico e evolutivo (e aí haverá uma tendência de fundo que acaba por se
impor às diversas contratendências), Okishio demonstra que no curtíssimo
prazo (em rigor "no mesmo instante"...) a consequência lógica da
introdução de novas tecnologias só pode ser o aumento da taxa de lucro (e
não a sua queda, como defende Marx).
Por outras palavras, Okishio demostra que Marx estaria (digo eu,
aqui) errado (no curtíssimo prazo!...) enquanto que o próprio Marx explica
como é que no curtíssimo (e mesmo médio prazo) o sistema pode ter uma
subida da taxa de lucro.
Marx afirma a QTTL a longo prazo, mas a esse respeito Okishio não diz nada
porque não pode dizer, na medida em que raciocina em termos sincrónicos.
A demonstração que aqui se refere é necessariamente no
plano lógico ou teórico, mas tendo em linha de conta o caracter diacrónico
do problema.
Por outro lado, não se trata de fazer com que a realidade se ajuste a um
qualquer esquema teórico pré-concebido. Aquilo de que se trata aqui é de
entender (no sentido de "imaginar"...) o modelo analítico como uma
possível abstracção que reproduza minimamente as condições principais (ou
mais relevantes) da realidade modelada.
Será um pouco como a correspondência entre a geometria euclidiana e a
realidade dos engenheiros e arquitectos. Sabe-se hoje (ou julga
saber-se...) que no Universo não há linhas rectas. A linha do horizonte
(linha recta por excelência e ponto de referência dos fios de prumo dos
pedreiros) não é mais do que um ínfimo segmento de uma linha curva. Ou
seja, as linhas rectas dos nossos triângulos convencionais não são mais do
que representações gráficas de abstracções. O que não impede os geómetras
de fazer demonstrações sobre a soma dos ângulos internos ou os cartógrafos
de calcular distâncias entre dois pontos numa qualquer superfície.
No sistema capitalista (é do consenso entre todos os analistas que
utilizam a abordagem marxista...) teremos pelo menos 4 variáveis
permanentemente actuantes:
- Capital constante
- Capital variável
- Mais-valia
- Taxa de Lucro
Subjacentes ou correlacionadas com estas variáveis fundamentais estarão
uma série de outras variáveis como:
- Taxa de acumulação
- Volume de emprego
- Volume ou massa da mais-valia ou excedente
- Capacidade produtiva existente
- Capital social total
Marx "resumiu" a LQTTL à fórmula "r
igual a e
sobre k
mais um",
em que r
é a taxa de lucro,
e é a taxa de exploração e
K
é a composição orgânica do capital.
A questão da refutação "definitiva" da LQTTL por parte de Nobuo Okishio
prende-se também com a conclusão a que aparentemente teriam chegado outros
analistas face ao comportamento ou interacção daquelas variáveis umas em
relação às outras.
Por exemplo, a uma tendência para o aumento da composição orgânica do
capital, parece poder corresponder (e historicamente até tem
correspondido) o aumento da formação técnica do trabalho. A esse aumento
da formação técnica do trabalho corresponderá um aumento do seu valor ao
mesmo tempo que pode corresponder também a um embaratecimento do capital
constante (é essa uma das abordagens convencionais). Resultado: a relação
entre a taxa de exploração e a composição orgânica do capital é
indeterminada (tanto poderá subir, como descer ou permanecer
estabilizada...)
A este respeito são aqui
pertinentes algumas reflexões da experiência pessoal:
- Sempre que expunha este problema a economistas (incluindo-se aí
economistas de formação marxista) a resposta era sistematicamente a mesma:
"o resultado da função é indeterminado". Tal indeterminação dever-se-ia ao
facto de quer o numerador quer o denominador daquela fracção tenderem
ambos para infinito. Logo, infinito sobre infinito é uma indeterminação
pelo que o problema não tem solução...
Como não sou matemático e já lá vão uns anitos desde que estudei alguma
matemática dita "superior", sentia-me sem grande autoridade para
contrapor.
- Por outro lado, de cada vez que expunha este mesmo problema a
matemáticos ou engenheiros, a resposta era sempre a mesma "Ah, isso agora
é só uma questão de "levantar a indeterminação".
E de facto parece que é mesmo. Poder-se-ia levantar aqui a questão de
qual a razão que levar economistas como que a "bloquear", enquanto
matemáticos e engenheiros se limitariam a ver uma possível solução: "o
levantar da indeterminação".
Mas a verdadeira solução do problema da alegada "indeterminação" até nem
passará por aí.
Ou melhor, a verdadeira solução requer uma ida mais atrás, aos fundamentos
do materialismo dialéctico e ao caracter intrinsecamente histórico do
problema. Ou seja, ao movimento dinâmico (e num só sentido temporal) por
parte do comportamento do sistema.
Em primeiro lugar o tal "infinito" (quer do numerador, quer do
denominador) não é propriamente uma quantidade mensurável ou que se possa
adicionar ou subtrair... Não no sentido convencional da soma e subtracção.
(Caso contrário teríamos a
possibilidade de demonstrar que 1 = 2...)
Depois, em segundo lugar, o que interessa (para o comportamento da função
a que corresponde a taxa de lucro), é o ritmo de aproximação ao
infinito quer do numerador (a taxa de exploração), quer do
denominador (o capital constante, mais um).
Em qualquer dos casos (o teorema de Okishio e algumas das críticas que lhe
são formuladas), creio que se pode concluir que o problema ou disjunção
entre as explicações ou demonstrações da LQTTL estará em uns considerarem
a QTTL como um fenómeno a-histórico, quando ele só pode ser visto no
contexto histórico da evolução secular do capitalismo.
ia da tendência decrescente da taxa de lucro
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