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No fio da navalha
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Medina Carreira, Público 25/10/2005
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Quando se
navega sem destino, nenhum vento é favorável.
Séneca.
1.A nossa crise aí está, cada vez mais complexa, mais demorada e mais perigosa.
Tenderá a agravar-se enquanto os "optimistas profissionais" não entenderem que o
mal não é o pessimismo, mas o atraso; não é a desconfiança, mas os embustes; não
é a descrença, mas a incompetência; não são os défices, mas a inviabilidade de
viver à custa alheia; não é a falta de desenvolvimento, mas o conservadorismo
que o bloqueia; não são as ideias, mas as palavras; não são os males do mundo,
mas a nossa incapacidade para vencer os próprios. As crises do Estado e da
economia, entre todas, têm especial relevância e arriscada repercussão. Daremos
um decisivo passo em frente quando os portugueses tomarem "consciência deste
estado, porque as políticas só serão possíveis com consenso social". E que "é
preciso dizer a verdade, não histórias", como sensatamente sublinha Andrea
Canino (1).
2. A crise do nosso Estado é, antes de mais, política. Um regime quase
parlamentar vale o que valerem os princípios e a prática dos principais
partidos. Em Portugal, eles estão agora dominados por um clientelismo devorador
que a tudo antepõe o objectivo da "ocupação" do Estado porque, só neste, se
dispõe de tantos empregos, de tantas oportunidades e de tantas influências. Os
demais partidos, sem horizontes próximos de assunção de responsabilidades,
garantem ou insinuam, em geral, a existência de uma capacidade do Estado, para
dar ou para fazer, que oscila entre uma confrangedora ingenuidade e um descarado
embuste. Portanto, fora do arrivismo, do negocismo, da fantasia ou do sofisma,
vai-se reduzindo perigosamente o espaço para a verdade e para a acção política
séria. A democracia, assim, é um engano e em breve será uma terrível desilusão.
3. O clientelismo partidário encontra um aliado decisivo no "Partido do Estado".
Sem este não há votos suficientes, sem votos não há "ocupação" do Estado e sem
esta "ocupação" não há distribuição de benefícios. Isto é: sem os favores de
grande parte dessa multidão de mais de cinco milhões de portugueses - políticos,
funcionários, pensionistas, subsidiados e familiares -, detentores de mais de 55
por cento dos votos do eleitorado, nenhum partido pode hoje governar em
Portugal. Por isso, nas campanhas eleitorais silencia-se, distorce-se ou
dissimula-se a verdade da nossa situação para tranquilizar os membros do
"Partido do Estado". Atingido o Governo, logo se procura o pretexto da
"alteração das circunstâncias" em vista da imposição de medidas impopulares que,
embora insuficientes, teriam alterado o sentido da votação se fossem ditas na
campanha eleitoral. Os resultados desta traficância são fatais: o descrédito dos
políticos e a ausência de reformas essenciais. Legislatura após legislatura,
vamos caindo para níveis que não eram sequer pensáveis.
4. O produto interno bruto português cresceu 80 por cento (1960-70), 57
(1970-80), 43 (1980-90) e 30 (1990-2000); 4 por cento entre 2000 e 2005 (2). E
hoje a sua evolução está muito condicionada pelo volume do crédito externo que
formos obtendo: como adverte Silva Lopes (3), se este atingir limites muito mais
apertados que os actuais "negras nuvens pairarão sobre o crescimento da economia
nacional". No curto e no médio prazo teremos uma economia rastejante e, em boa
medida, nas mãos dos financiadores internacionais.
5. É também muito grave a crise financeira do Estado. A queda prolongada da
economia, a expansão descontrolada das despesas, o envelhecimento demográfico e
a insuficiência relativa da arrecadação fiscal colocaram-nos na situação
financeira pública mais desesperada de toda a UE/15. Efectivamente, foram estes
os crescimentos reais (1960-2005): do PIB, 5,5 vezes; dos impostos, 13,8 vezes;
da despesa pública primária, 15,5 vezes. Por isso, o défice fiscal em relação a
esta despesa apresenta uma forte tendência para o agravamento: -1,2 pp. do Pib
(1960); -2,5 pp. (1990); e - 8 pp. (2005), embora a carga fiscal, equivalente a
cerca de 55 por cento da média europeia, nos anos sessenta, tenha subido para
quase 95 por cento em 2005. Um Estado constitucionalizado na dependência
implícita de uma economia que crescia quase 80 por cento numa década (1960-70),
não tem suporte económico e financeiro quando ela se queda nos quatro por cento
num lustro (2000-2005) e enfrenta ainda um acelerado envelhecimento demográfico.
É isto, nomeadamente, que não permite falar com seriedade de "alteração das
circunstâncias", perante uma tendência continuada e sempre agravada que
atravessa mais de três décadas.
6. Crise económica e crise financeira do Estado, em especial, determinam a pouco
referida crise da social-democracia / socialismo democrático. De facto, sem
perspectivas favoráveis, no curto e no médio prazo, a economia portuguesa já não
suporta, e não suportará, uma política redistributiva do rendimento e da riqueza
(4); nem aproximará a taxa de ocupação da mão-de-obra do pleno emprego; nem
assegurará, responsavelmente, o futuro de um Estado Social que pretenda garantir
tudo a todos; nem um sindicalismo actuante porque, "contra" os privados, teme as
falências e as "deslocalizações", e "contra" o Estado ataca verdadeiramente os
contribuintes, que são as únicas vítimas do "Partido do Estado". Além da
medíocre economia que temos, o Estado português, na Zona Euro, não pode ser
intervencionista: sem moeda já não tem política monetária, nem cambial próprias;
não tem fronteiras nem alfândegas; não tem autonomia orçamental; e não pode
controlar a circulação dos capitais. Neste contexto, as políticas e os
objectivos da social-democracia/socialismo democrático, que a grande maioria dos
portugueses prefere, caminham para o esgotamento.
7. De resto, ainda não se entendeu bem, entre nós, que "as principais baixas
políticas das crises do capitalismo na Europa Ocidental haviam de ser os
partidos da esquerda [...], ao passo que os seus maiores êxitos se verificaram
durante os trinta gloriosos anos de crescimento capitalista (1945-75) - a Era
Dourada do Capitalismo" (5). Na verdade, sem uma economia próspera é uma pura
estultícia prometer a redistribuição, o pleno emprego, a solidez do Estado
Social que dá tudo a todos e a intervenção consistente do sindicalismo. Ao menos
como modelo nacional e no mundo actual, a social-democracia está a caminho da
irrelevância completa. É isto, muito claramente, que coloca o problema económico
no cerne de todas as preocupações em alguns países da UE.
8. A abertura das economias através da UE/15, do "alargamento" e da
liberalização do comércio mundial é a novidade e o embaraço. Neste novo e enorme
mercado, e sem capacidade competitiva, nem vendemos em Portugal o que aqui
poderíamos produzir, nem exportamos porque outros são os preferidos: as nossas
produções acabam por desaparecer se não conseguirmos competir melhor ou se o
mundo não voltar para trás. Em face disto, há quem pense, como Mário Soares (6),
que "os socialistas têm que estar conscientes de que hoje é indispensável mudar
a ordem das coisas no mundo, sem o que os seus ideais deixam de ter sentido". É
correcta esta percepção quanto ao futuro da social-democracia, como a
conhecemos, num espaço comercialmente aberto e com livre circulação dos
capitais. Mas é muito arriscado esperar que mude a "ordem das coisas no mundo",
para viabilizar a social-democracia, porque poderá não acontecer. É por isso
que, se não formos capazes de promover a nossa própria mudança, nos restará o
estatuto de modestos serviçais dos europeus. Resumindo: mudar é a condição da
sobrevivência, conservar será o nosso suicídio. Esta é a escolha que se coloca
aos portugueses.
9. A modificação mais urgente e mais difícil, mas ao nosso alcance, é a do
Estado, porque não haverá meios, na próxima década, para alimentar o desvario
despesista dos últimos anos. Pese embora a circunstância de sermos um dos países
mais pobres da UE/15 (Quadro anexo, col.1), excedemos todos os outros na
evolução de índices fundamentais relativos às finanças públicas (Quadro anexo):
na carga fiscal (+ 8,4 pp. do PIB, col.2); na despesa corrente (+ 4,7 pp. -
col.3); na despesa corrente primária (+ 10 pp., col.4); nas despesas de
protecção social (+ 8,2 pp., col.5); nas pensões (+ 3,7 pp., col.6); e na
fracção dos impostos aplicados na protecção social (+ 18 pp. do NF, col.7) (7).
Uma tão desatinada evolução financeira - verdadeiramente ruinosa e sem paralelo
europeu - constitui em muito o resultado do "optimismo profissional" e
inconsistente dos responsáveis, e da maldição que sempre nos persegue, e que é o
"ódio nacional" aos números, às contas, ao rigor e à responsabilidade, quando
está em causa a gestão dos dinheiros públicos.
10. O Quadro anexo evidencia assim o insuportável ritmo da evolução das despesas
correntes primárias e, nelas, das da protecção social, onde as pensões assumem
grande importância. Os países que aí nos seguem imediatamente, a Alemanha e a
Grécia, situam-se a uma distância enorme: -6 ,1 pp. (despesa corrente primária.
col.4), -3,1 pp. (despesa de protecção social, col.5), e -1.8 pp. (pensões,
col.6). Porque não vislumbramos condições para uma próxima e suficiente
prosperidade económica, resta apenas o caminho das reformas urgentes, drásticas
e com efeitos num prazo útil, isto é, da ordem dos cinco anos: são uma condição
necessária, embora insuficiente, para evitar o colapso financeiro do Estado.
11. Fixemos o quadro fundamental seguinte:
1.º Que a nossa economia, no longo prazo, apresenta um inexorável declínio;
2.º Que, no médio prazo, tenderá a manter-se esta mediocridade, nomeadamente,
devido: ao nosso endividamento e à dependência financeira externa; à falta de
competitividade; aos custos elevados do petróleo; ao "alargamento" e às suas
consequências; à penetração dos produtos chineses; à estagnação das principais
economias europeias; e à ausência de investimentos estrangeiros;
3.º Que a iniquidade do nosso sistema fiscal não tem impedido arrecadações que
já excedem as expectativas, em comparação com a UE/15;
4.º Que, sendo estes os muito prováveis limites económicos e financeiros, nos
próximos anos, a consolidação orçamental dependerá das políticas de despesas, em
que avultam as do pessoal e as prestações sociais (80 por cento da despesa
corrente primária, em 2004);
5.º Que, consequentemente, terá de ir-se muito mais longe do que se foi, até
agora, quanto àquelas políticas, o que só será possível modificando os regimes
em vigor e os "direitos adquiridos", face à verdadeira "alteração das
circunstâncias";
6.º Que só uma nova e próxima prosperidade económica, inverosímil em prazo útil,
poderia evitar ou atenuar a rudeza do que se impõe fazer;
7.º Que a improbabilidade manifesta de êxito da política de espera pela "mudança
do mundo" não consente, responsavelmente, mais tergiversações e delongas.
12. O que é imperativo que se faça, sob pena da nossa devastação pelo livre
comércio mundial e pelo peso insuportável do Estado, exige a adesão e a unidade
consciente da sociedade. E esta só será conquistada perante a verdade completa
da nossa situação, enunciada pelos mais altos responsáveis políticos.
Advogado, antigo ministro das Finanças
(1). PÚBLICO, 6.Out.2005.
(2). Nos últimos anos: 1998 - +4,7%; 1999 - +3,8%; 2000 - +3,7%; 2001 - +1,8%;
2002 - +0,4%;2003 - -1,1%; 2004 - +1,1%.
(3). A economia portuguesa no século XX, ICS/2004, p. 125.
(4). Dificuldade agravada pelos altos níveis fiscais já atingidos, pela
competitividade fiscal internacional e pela livre circulação dos capitais.
(5). Donald Sassoon, Cem anos de socialismo, Vol. I, p. 21.
(6). Mário Soares e Sérgio Sousa Pinto, Diálogo de Gerações, Temas &
Debates/2004, p. 59.
(7). Os resultados recentes das contas públicas só não são mais desastrados
porque, nos anos 90, os impostos se comportaram positivamente, os fundos
europeus atingiram os 45 000 milhões de euros, as privatizações renderam 17 000
milhões de euros (dos quais 10 000 milhões amortizaram a dívida pública) e o
peso dos juros caiu o equivalente a quase a 6 pp. do PIB. Este conjunto de
circunstâncias favoráveis são irrepetíveis nos próximos anos.

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