A Verdade Não Mora Aqui
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Medina Carreira in DN
Lisboa, 1 de
Fevereiro
2005
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"Cada vez mais vejo gente que sabe quem não quer, mas
não sabe quem quer. Ou antes, não quer nenhum."
(António Barreto, PÚBLICO, 23.01.05)
1. Teremos em breve eleições legislativas. As terceiras desde 1999. E é
improvável que, em Fevereiro de 2005, se encontre uma solução política adequada
para enfrentar a nossa gravíssima crise. O Estado é inoperante,
insustentavelmente sobredimensionado, está em crescente desqualificação e perdeu
poderes decisivos de intervenção económica (monetário, cambial, alfandegário e
orçamental). A economia fragilizou-se no último quarto de século, só reagindo,
ocasionalmente, com o impulso de ocorrências externas, muito favoráveis. O peso
da despesa pública levará, em poucos anos, ao colapso financeiro do Estado, com
pesadas consequências para todos mas, em especial, para mais de 4,5 milhões de
indivíduos dele directamente dependentes(1). Ninguém, revelou, na política
activa actual, discernimento, aptidão e credibilidade para tranquilizar o País e
vencer uma tal crise. Com o "anonimato" dos candidatos a deputados,
generalizou-se a promoção do demérito; os principais partidos políticos são hoje
a melhor e a mais procurada agência de empregos para uma certa "mão-de-obra"; a
ilimitação dos mandatos favorece a inércia e a rotina; o exclusivo partidário da
apresentação de candidaturas visa a obediência e a hipocrisia política (2); a
opacidade do financiamento dos partidos estimula a corrupção. O sistema
semi-presidencial que vigora mostra-se inconsequente: o Presidente da República
medita, reúne, exorta, insiste e é muito aplaudido, mas nada acontece. Os
governos são escolhidos a partir de programas eleitorais irrealistas e
demagógicos; enfraquecidos pelo inevitável incumprimento das promessas, são
diariamente fustigados, julgados e condenados no primeiro acto eleitoral que
aconteça. O Parlamento, com gente a mais e que nada representa, é palavroso e
inconsistente, e vai degradando a imagem da democracia. Os problemas do País
acumulam-se e agravam-se, e o tempo útil das soluções está a esgotar-se. Nos
anos 20 e 30 do século passado, na Europa, este tipo de democracia atraía os
ditadores. No início do século XXI, mantém o atraso e conduz à pobreza.
2. Só uma mirífica e muito rápida aceleração do crescimento económico poderia
evitar-nos o tombo que já está à vista. Porém, a nossa capacidade competitiva
não melhora; os "motores" da Europa não arrancam; do alargamento e das
deslocalizações virá mais desemprego; o preço do petróleo será alto; os juros
subirão, mais mês, menos mês; o câmbio euro/dólar aumenta com os défices dos
Estados Unidos; a China está aí à porta, pronta a entrar livremente, com
consequências preocupantes; o investimento estrangeiro não encontra aqui
factores suficientes de atracção. Por isso, e por agora, nada prenuncia o fim da
estagnação. De resto, a análise do nosso comportamento económico, pelo menos
desde 1980, revela uma desoladora incapacidade: com excepção de dois períodos
muito favoráveis (num total de dez anos), a taxa média de crescimento anual e
real quedou-se pelos 0,6 por cento (3). Nos anos 80, valeu-nos sobretudo o preço
do crude que desceu fortemente; nos anos 90, foi a entrada para o euro e a
consequente baixa dos juros, que expandiu e generalizou o endividamento dos
agentes económicos, e fez "explodir" a procura interna. O que vale, afinal, a
economia portuguesa, sem "choques" externos positivos?
3. Dispersos na nossa sociedade, temos 4,5 milhões de indivíduos que integram
uma espécie de "Partido do Estado". Têm em comum a dependência directa do
Orçamento e representavam, em 2003: 43 por cento da população residente; 56 por
cento do eleitorado; 62 por cento da população com mais de 24 anos de idade.
Pensionistas e subsidiados (mais de 3,8 milhões), equivaliam a 70 por cento da
população activa. Este "Partido do Estado" absorvia 70 por cento dos impostos
cobrados (1980); atinge agora os 85 por cento (2003). O pessoal político dos
principais partidos "invade" progressivamente o Estado e pretende mais
funcionários, mais pensionistas, mais subsídios e mais subsidiados, porque aí
pode angariar mais votos. Os que ainda estão fora do "Partido do Estado"
constituem uma minoria cada vez mais desiludida, reduzida e silenciada, e menos
influente. Adormecido e enganado, Portugal trilha o caminho para o desastre
financeiro do Estado e para uma pobreza mais generalizada dos portugueses.
Ninguém nos acode.
4. Os resultados das políticas orçamentais de 2002 e de 2003, da ministra
Ferreira Leite, já estão estimados (A economia portuguesa, Junho de
2004-MF/DGEP): entre 2000 e 2003, o peso no produto das despesas com o
"pessoal", com o "consumo intermédio" e com os "juros", diminuiu globalmente um
ponto percentual.(4); e aumentou nas "prestações sociais", nos "subsídios" às
empresas e em "outras despesas correntes", no equivalente a 3,5 pontos
percentuais.(5). As "prestações sociais" subiram ao ritmo anual médio e real de
7,5 por cento. Globalmente, "pessoal" e "social", absorviam 79 por cento dos
impostos cobrados (2000), 85 em 2003. Os números "falam" por Manuela Ferreira
Leite, que só não conteve o que não era possível. Anuncia-se o inevitável ocaso
do Estado-providência. A crise que atravessamos é, sem dúvida, a mais difícil e
virá a ser a mais longa desde há muitas décadas: é a primeira que só venceremos
com autênticas e impopulares reformas estruturais, para cuja realização nos
temos mostrado incapazes; encontra-nos impreparados para suportar os "choques"
externos desfavoráveis, mais sensíveis nas economias abertas e frágeis, e o
"envelhecimento demográfico"; o Estado, na Zona Euro, perdeu os instrumentos de
intervenção económica e, o que poderia restar-nos - a política orçamental -,
está "bloqueado" pelos desatinos financeiros dos anos 90. Desde há muito que não
enfrentávamos exigências e condicionantes tão fortes.
5. Perante tudo isto, as evasivas nada resolverão. Não basta afirmar que a
"democracia" tem sempre soluções alternativas; hoje não vislumbramos nenhuma à
altura da crise. Não é suficiente a detenção de uma "maioria absoluta", se não
for acompanhada de capacidade para executar um programa realista e impopular. A
proclamação de "objectivos" ambiciosos, mas inviáveis, não conquista
eleitorados, gasto como se encontra o método, com trinta anos de uso imoderado.
As mensagens de "optimismo" não bem fundado criam suspeitas sérias de
incompetência ou são simples embustes. O enunciado das soluções de longo prazo -
mesmo quando bem intencionadas, adequadas e realizáveis - nada adianta se os
governos, ao cabo de um ou dois anos, estão "destruídos"; nunca se chega a
promover o longo prazo, porque se capitula no curto prazo. Quatro governos em
cinco anos não deixam ilusões. Sem "verdade", são bem prováveis mais
legislaturas incompletas.
6. A avaliação do mérito das propostas eleitorais dos partidos que poderão
formar Governo pressuporia a apresentação pelos mesmos, bem antes das eleições,
de uma caracterização rigorosa e quantificada da nossa situação económica e
financeira e da sua previsível evolução nos próximos cinco e dez anos. E ainda a
resposta, nomeadamente, às seguintes questões:
1.º) Que medidas propõem para conferir mais eficácia ao sistema político, para
aperfeiçoar o sistema eleitoral, limitar os mandatos, incompatibilizar funções,
modificar o regime imoral das reformas do pessoal político, reduzir o número de
deputados, remunerar adequadamente os governantes e um número indispensável de
deputados competentes, e financiar os partidos?
2.º) Como projectam promover uma maior qualificação dos estudantes e dos
trabalhadores, pela via da exigência, do rigor e da disciplina, e não pela
estafada expansão dos gastos para contentar as "corporações"? (6)
3.º) Como, no imediato e no médio prazo, estimularão o crescimento económico,
considerando que se fosse pela forte aceleração da "procura interna", ela só se
sustentaria à custa de volumosos financiamentos externos?
4.º) Como prevêem a criação maciça de emprego, fora do Estado, e como
financiarão as medidas necessárias para o efeito?
5.º) Em que sectores ou rubricas promoverão a baixa do peso no produto das
"despesas públicas correntes", considerando a evolução acelerada das "prestações
sociais"?
6.º) Que efeitos financeiros globais aguardam com as reformas dos funcionários,
que passarão a receber como aposentados, entrando como seus substitutos outros
que receberão como funcionários?
7.º) Que medidas irão adoptar, e em que prazo, para que o peso dos gastos com o
"pessoal público" diminua de 15 por cento para 11 por cento do PIB (média da
UE/15)? (7)
8.º) Como se propõem assegurar o financiamento futuro das "prestações sociais" -
o Estado-providência -, que aumentaram de 14 para 17 por cento do PIB entre 2000
e 2003 e cujo acréscimo absorveu, só por si, 90 por cento do aumento verificado
das arrecadações fiscais? (8)
9.º) Quais os valores admitidos para os aumentos salariais, os das pensões e os
dos subsídios (mais 10 euros por cada indivíduo e por mês, equivalem a um total
de 630 milhões de euros anuais, isto é, a 0,5 por cento do PIB em 2005)? (9)
10.º) Qual o limite máximo admitido para o défice público (8 por cento, 10 por
cento, 12 por cento), tendo em conta que, sem receitas extraordinárias, ele já
se situa à volta dos 5 por cento do PIB?
11.º) Aceitando, assim, maiores défices haverá uma aceleração do peso do
endividamento público e dos seus custos financeiros futuros: como conciliar isto
com o aumento dos encargos decorrentes do "envelhecimento demográfico"?
12.º) Que conjunto de medidas legislativas, administrativas e judiciais, propõem
para uma eficaz acção contra a evasão e a fraude fiscais?
7. É cada vez maior o número de portugueses que não acredita na generalidade dos
políticos, nem na capacidade das instituições vigentes, nem nas promessas que
lhes são feitas, nem no futuro do País. O próximo acto eleitoral de 20 de
Fevereiro teria sido uma boa oportunidade para dizer toda a "verdade" e
justificar todas as "exigências". Porque, durante alguns anos, não se sabe
quantos, teremos mais esforço que laxismo, mais contribuições que benesses, mais
deveres que direitos e mais dúvidas que certezas. Terá de reconstruir-se tudo a
partir de quase nada. Entretanto, muitos terão pago um preço imerecido.
Notas:
(1). Cerca de 730 000 funcionários públicos; 2 591 000 pensionistas da Segurança
Social; 477 000 reformados e pensionistas da Caixa Geral de Aposentações; 307
000 beneficiários do subsídio de desemprego; 351 000 beneficiários do RMI. Com
os familiares próximos poderão ser uns 6 milhões de indivíduos, numa população
de 10 milhões.
(2). "Os bons não querem ir para lá, e os maus querem porque aquilo é um emprego
fácil". "As direcções partidárias gostam de deputados amigos ou gente que não
chateie" (Vicente Jorge Silva, Grande Reportagem, 22.01.05). Já pressentíamos o
que agora é confirmado por quem saiu há semanas da Assembleia.
(3). Entre 1985 e 1991, taxa anual de 5,5 por cento; entre 1995 e 2000, taxa de
3,8 por cento. Nos restantes catorze anos, à taxa anual de 0,6 por cento.
(4). Consumo intermédio: -0,6 pp.; juros: -0,3 pp.; pessoal: -0,1 pp.
(5). Prestações sociais: +3,0 pp.; subsídios às empresas: +0,4 pp.; outras
despesas correntes: +0,1 pp. O subsídio de desemprego contribuiu com +0,5 pp
(2000 a 2003).
(6). Em 2002 só na Turquia e no México as percentagens da população com o 2º
ciclo eram mais baixas do que em Portugal (OCDE - Regards sur l'éducation,
2004); entre os adultos, só no México os indicadores são mais desfavoráveis que
os nossos.
(7). Com um crescimento económico à taxa média anual de 2,2 por cento
(1990-2003), a diminuição dos custos com o "pessoal" para 13 por cento do PIB
(2008) e 11 por cento (2012) e o aumento das "prestações sociais" à taxa anual
de 7,5 por cento (2000-2003), as "despesas correntes primárias" atingiriam os 43
por cento (2008) e os 47 por cento do PIB (2012), níveis insusceptíveis de
financiamento fiscal. Neste quadro hipotético, a estabilização das "despesas
correntes primárias" ao nível dos 40 por cento pressuporia uma década de
crescimento económico à taxa média de 4 por cento.
(8). As arrecadações fiscais cresceram 6,8 mil milhões de euros e as "prestações
sociais" 6,1 mil milhões.
(9). Valor correspondente a 4 500 000 x 10 x 14 = 630 000 000.
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