As
eleições europeias costumam ser tudo menos europeias. Por vezes fala-se
de Europa, mas não se faz política europeia. E o que falta à Europa é
política. Melhor, um debate político correspondente à sua relevância
política. O denominado défice democrático europeu é mais produto da
falta de política que da falta de instrumentos democráticos. A prová-lo
está o paradoxo de ao crescimento dos poderes do Parlamento Europeu ter
correspondido uma diminuição na participação eleitoral europeia.
A União Europeia é dos entes políticos que mais e mais diferentes formas
de representação democrática prevêem. Muita da legislação europeia
envolve a participação dos governos nacionais (representando os seus
cidadãos e controláveis pelos parlamentos nacionais), do Parlamento
Europeu (directamente eleito pelos cidadãos) e da Comissão Europeia.
Acresce que as políticas europeias beneficiam normalmente de um processo
muito alargado de consulta dos interesses afectados. Há até quem defenda
que a União é democraticamente superior aos estados. Do que a União
necessita é de um debate político correspondente ao seu impacto
político. No debate europeu discute-se sempre a razão de ser da União e
não as suas políticas. É como se cada discussão entre duas pessoas
casadas se transformasse sempre numa discussão sobre a subsistência do
próprio casamento.
A Europa e a política. Alguns estudos indicam que mais
de 50% da legislação que entra em vigor nos estados-membros é de origem
europeia. Partes importantes (se não mesmo predominantes) das políticas
sociais, de protecção do ambiente e do consumidor, por exemplo, são
fixadas a nível europeu. Mas a Europa também determina o que podem os
estados fazer e como o podem fazer. Fá-lo de forma directa ao regular as
formas de intervenção do estado na economia ou ao alargar o leque de
beneficiários de muitas políticas sociais dos estados aos cidadãos de
outros estados-membros. Fá-lo também de forma indirecta ao criar um
espaço político e económico de mobilidade de pessoas, empresas, serviços
e produtos. Este espaço põe em concorrência as próprias políticas dos
estados que competem entre si para atrair investimento, empresas e
pessoas. A nossa mobilidade exprime a nossa preferência relativamente a
essas políticas. Esta mobilidade não se esgota na economia, mas
alarga-se a outras dimensões da vida. A circulação dos cidadãos europeus
pode hoje ter na sua base a procura de uma melhor educação ou cuidados
de saúde ou até mesmo a escolha de um modelo de vida diferente, o que
facilmente põe em tensão valores fundamentais de diferentes sociedades.
Que direitos deve ter em Portugal um casal homossexual casado em Espanha
e que decide vir viver para Portugal ao abrigo da liberdade de
circulação?
O impacto político da União é hoje mais que pressentido; é claramente
sentido. Só não é entendido. Trata-se a política europeia como política
internacional. Vive-se na ilusão de que o essencial da política europeia
ainda é a protecção do interesse nacional. A verdade é que na grande
maioria das políticas europeias não existe "um" interesse nacional.
Existem antes diferentes posições ideológicas sobre a melhor política em
geral. As políticas europeias são hoje mais fruto de diferentes
interesses políticos que dos interesses nacionais. Para qualquer actor
social e político, a Europa é apenas mais um nível de decisão através do
qual procura promover os seus interesses e preferências políticas. Se
num estado a sua posição é minoritária, é mais que natural que tente
promover certas políticas através da Europa. A preferência pela Europa
é, neste caso, um mero resultado da preferência por uma certa opção
política. Os sindicatos britânicos "preferem" a Europa ao seu próprio
estado como centro de decisão das políticas sociais, pois sabem que o
equilíbrio de forças lhes é aí mais favorável. Os ambientalistas
portugueses encontraram na Europa uma forma de reforçar o seu poder. O
mesmo sucede aliás com os governos nacionais que por vezes "transferem"
para a Europa decisões com elevados custos políticos a nível nacional.
A natureza ideológica e não nacional da política europeia é confirmada
por vários estudos que concluem que o voto parlamentar europeu assume
crescentemente uma natureza ideológica, de acordo com a tradicional
divisão esquerda/direita. A disciplina partidária nos grupos políticos
europeus apresenta igualmente resultados muito semelhantes aos dos
parlamentos nacionais e até ligeiramente superiores aos do Congresso
norte-americano. Os deputados europeus votam mais de acordo com a
ideologia que com a nacionalidade.
Isto só surpreende quem não se dá ao trabalho de pensar nas questões
suscitadas por alguma da legislação mais importante recentemente
adoptada ou discutida na Europa. Matérias como a regulação do tempo de
trabalho, os contratos a prazo, o direito de asilo, a protecção de dados
pessoais ou dos direitos de autor, a liberalização de certos sectores
económicos ou o combate ao aquecimento global, são matérias em que não
existe "um" interesse nacional. A divisão é sobretudo ideológica e vai
muito para além das fronteiras nacionais.
É possível que nalgumas matérias ainda exista "um" interesse nacional e
os governos nacionais agem sempre como se assim fosse, mas muitas vezes
quando se fala de interesse nacional o que existe é uma preferência
governamental por alguns interesses nacionais em vez de outros. A
correspondência necessária entre a dimensão política da Europa e o
debate político que a deve suportar exige que as eleições europeias
sejam menos sobre a nossa posição na Europa e mais sobre qual a Europa
que queremos. Mas não é fácil tornar europeias as eleições europeias.
O governo europeu. Uma primeira hipótese é transformar
as eleições europeias na escolha de um "governo europeu". A candidatura
de Durão Barroso à presidência da Comissão antes das eleições é um
primeiro passo nesta direcção. Claro que haverá quem lembre que as
regras do Tratado dizem que é o Conselho que escolhe a Comissão e o seu
presidente, e que o Parlamento "apenas" aprova tal escolha. Mas algumas
revoluções políticas fazem-se através da prática constitucional. Será
possível o Conselho escolher outro presidente no caso de a maioria
parlamentar corresponder aos partidos que apoiam Durão Barroso?
Os partidos ficam politicamente vinculados ao candidato que apoiarem
perante o eleitorado. É verdade que os grupos políticos europeus ou
apoiam Barroso ou criticam o seu nome, mas sem apresentarem uma
alternativa. Estas eleições europeias ainda não serão um confronto entre
diferentes líderes europeus e os partidos que os apoiam. Porém, o
simples facto de se ser contra ou a favor de Barroso é uma forma de
personalização da campanha e, goste-se ou não, é dessa forma que as
pessoas se identificam com a política.
A candidatura de Barroso criou um precedente. Os eleitores europeus vão
começar a associar as eleições europeias à escolha do presidente da
Comissão. Tem dúvidas de que nas próximas eleições vamos ter uma
competição eleitoral entre diferentes grupos políticos europeus e os
seus candidatos a presidentes da Comissão?
Há outra consequência. Durão Barroso será o primeiro presidente da
Comissão "sujeito" a um sufrágio universal. Se vencer, terá uma
legitimidade popular de que nenhum outro presidente da Comissão
beneficiou.
Claro que existe um limite e um risco na "politização" da Comissão
Europeia. O limite é que a sua composição está dependente de propostas
de governos ideologicamente distintos, resultando numa heterogeneidade
ideológica que mesmo um presidente forte não conseguirá dominar
totalmente. O risco é que a sua politização afecte a sua imagem de
neutralidade e independência técnica. Teme-se que a politização da União
a possa desintegrar. A sua natureza consensual seria fundamental para
evitar uma maior oposição social e política. Este risco existe, mas
alimentar a actual ilusão pode comportar um risco ainda maior: o de que
União seja vista como uma forma de fazer política sem debate político. É
por isto que o debate sobre as políticas europeias se transforma sempre
num debate pró ou contra a Europa.
São as políticas, estúpido! Ficou famosa a frase
colocada no quartel-general da candidatura de Clinton à presidência
norte-americana: it?s the economy, stupid. Na Europa também precisamos
de algo que nos lembre o que é decisivo para os cidadãos. O discurso
europeu é dominado por uma espécie de existencialismo institucional
permanente. É um discurso dominado pelas elites e que fica
frequentemente reduzido a um discurso entre elites que discutem
incessantemente o desenho institucional da União. Está tanta gente
ocupada com a mecânica do carro que ninguém se lembra da sua condução.
Enquanto isso, os cidadãos continuam a avaliar a União a partir das
políticas que os afectam. E a assimetria não podia ser maior entre as
esperanças que os cidadãos depositam na Europa e a capacidade desta para
lhes corresponder. De acordo com o eurobarómetro, entre as matérias em
que os cidadãos mais desejam que a União intervenha estão o combate ao
crime, a ciência e a tecnologia, o crescimento económico, a energia, a
imigração, a defesa e a política externa. Tudo matérias em que a União
tem pouco poder?
Mesmo em áreas como os sistemas sociais, de educação e fiscais, uma
maioria de europeus (embora com importantes divergências entre estados)
defende a existência de uma verdadeira política europeia. Mas isso não
acontecerá com o actual orçamento. Este corresponde a pouco mais de 1%
do PIB, enquanto a média nos estados anda próxima dos 20%. A União é
sobretudo uma força reguladora. Pode oferecer direitos e impor deveres,
mas apenas legislando, e não pagando. Tem um chicote grande e uma
cenoura pequenina.
É por tudo isto que a atitude dos cidadãos face à Europa é quase
esquizofrénica. Recorda uma piada de Woody Allen: duas pessoas que
passam o tempo a dizer mal da comida de um restaurante e concluem a
queixar-se que as doses são pequenas. E se nas presentes eleições os
partidos, em vez de falarem das doses e da arquitectura do restaurante,
nos dissessem o que gostariam de servir ao jantar?
Advogado-geral no
Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias, co-director da Academy of
International Law e da Hart Series on European Law and Integration