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Confusão
ideológica
por Miguel Poiares Maduro
(publicado no Diário de Notícias em
Setembro 2004)
__________________________________________________________
Estado
e
Mercado:
Tanto
Barulho
Por
Nada?
Dois
artigos
recentes
de
Vital
Moreira e António Barreto no
Público
procuram, na
linha
do
que
Pedro Mexia
também
procurou
fazer
nas
páginas
deste
jornal
há
algum
tempo
atrás,
repensar
as
fronteiras
ideológicas dos actuais
debate
políticos.
O
que
estes
artigos
têm de
inovador
é
que
não
se limitam a
repetir
clichés
sobre
o
fim
das
ideologias
ou
a
dificuldade
de
definir
e
distinguir
esquerda
e
direita.
Eles
procuram
manter
o
pluralismo
político
mas
procurando-o
para
lá
da tradicional
divisão
entre
Estado
e
mercado.
Ao fazerem-no,
estes
autores,
contribuem
para
um
debate
realmente
útil
sobre
os
caminhos
alternativos
a
seguir
numa
sociedade
moderna.
È neste
contexto
que
me
pareceu
poder
contribuir
para
o
debate
com
dois
artigos
sobre
o
tema
(na impossibilidade de o
abordar
em
apenas
um).
Serei
mais
sério
e
longo
do
que
é
costume…
Espero
que
isto
não
o dissuada de
ler
as próximas
linhas.
O
meu
objectivo
não
é
intervir
no
debate
político
mas
antes
procurar
ajudar
a
definir
o
que
deve
constar
desse
debate
político.
Neste
primeiro
artigo,
procurarei
desconstruir
a
associação
tradicional do
debate
ideológico ao
papel
do
Estado
e do
mercado
na
sociedade.
No
próximo
artigo,
avançarei
com
uma classificação
alternativa
para
esse
debate
ideológico.
O
consenso
promove o
radicalismo…
Não
se
trata
apenas
de
notar
que
o
crescente
consenso
abstracto
sobre
o
papel
do
Estado
e do
mercado
(uma
economia
de
mercado
socialmente
regulada)
requerem
que
a
diferenciação
política
se faça
através
de
outros
temas.
Só
por
si,
tal
constatação
arrisca-se,
paradoxalmente,
a
promover
uma
crescente
radicalização da
política.
Numa
sociedade
crescentemente
consensual e
em
que
a
grande
maioria
se "inscreve" num
centro
político,
económico e
social
moderado o
pluralismo
político
corre o
risco
de
ser
reduzido aos
valores
propostos
pelos
extremos
ideológicos.
São
estes
que
acabam
por
dominar
o
discurso
político
com
os
seus
temas
fracturantes.
A
salvaguarda
de
um
verdadeiro
pluralismo
político
e a
sua
compatibilização
com
uma
sociedade
moderada e
aberta
exige a
reconstrução
do
debate
político
em
torno
de
questões
que
possam
mobilizar,
igualmente,
aqueles
que
não
se revêem nesses
extremos
políticos.
O
pluralismo
político
não
é
apenas
uma
exigência
natural
numa
sociedade
democrática.
Ele
é
necessário
quer
à
manutenção
da
dinâmica
de participação
política
instrumental à
sobrevivência
dessa
sociedade
democrática
quer
à
sua
permanente
evolução
social
e à
realização
pessoal
dos
seus
membros.
Divergir
é
mais
que
um
direito,
é o
alimento
que
mantém
viva
qualquer
comunidade
política
e a faz
progredir.
Onde
estão as
diferenças?
Mas
em
que
podemos
divergir?
Esquerda
e
direita
são
as
etiquetas
clássicas
cuja
crise
não
resulta
apenas
do
crescente
consenso
quanto
à
necessidade
de
compatibilizar
eficiência
e
crescimento
económicos
com
critérios
de
justiça
social
e de
redistribuição
da
riqueza.
A
sua
crise
é
anterior
e provem da tradicional
associação
entre
Estado
e
interesse
público,
de
um
lado,
e
mercado
e
liberdade,
do
outro.
Tal
associação
é
falsa
mas
teima
em
contaminar,
adulterando-o, o
debate
político.
É claro, hoje em dia, que o Estado
nem sempre prossegue o interesse público (refiro-me aqui ao Estado no sentido de
aparelho burocrático e legislativo e não no sentido, mais lato, de comunidade
política). O Estado assenta num processo de decisão centralizado (o processo
político) que pode sofrer de dois problemas fundamentais. Primeiro, nem sempre o
processo político representa os interesses de todos de forma igual (e não é
necessário pensar em corrupção, basta ter em conta que o acesso ao processo
político, as formas de protesto e de exercício de influência sobre o mesmo e a
informação necessária ao exercício da participação política variam imenso entre
grupos de cidadãos).
Nem
todos
fazem
ouvir
a
sua
voz
da
mesma
forma
perante
o
processo
político
e,
em
consequência, a ideia de
que
o
Estado
através
dos
seus
mecanismos
de participação e
decisão
política
exprime o
interesse
colectivo é, frequentemente,
falsa.
Segundo,
a
prossecução
do
interesse
público
através
do
Estado
assenta
numa
lógica
causal
e omnipotente
largamente
artificial:
ela
presume
que
é
possível,
não
apenas
agregar
e
ponderar
de
forma
completa
e centralizada as
preferências
de
todos
os
indivíduos
mas,
igualmente,
comandá-los de
acordo
com
as
decisões
centralmente
adoptadas,
Mas se se reivindica que o Estado
está parcialmente "morto", também se pode argumentar que o mercado nunca
existiu! Idealmente, o mercado seria o espaço da liberdade pois as decisões
sociais seriam aí produto de decisões individuais voluntárias (no mercado tudo
teria de ter o nosso acordo). Mas tal mercado não existe: como o demonstrou há
muitos anos Coase (Nobel da Economia) a primeira derrogação ao mercado são as
próprias empresas. Elas são, de certa forma mini-Estados: centralizam processos
de decisão e de organização de forma vertical na sua esfera de actividade e de
organização do trabalho. Tal é necessário para fazer face aos custos de
informação e transacção que resultariam de uma organização puramente atomista
(transacção a transacção). O mercado puro não seria o mais eficiente do ponto de
vista económico.
Esses
mesmos
custos
de
informação
e transacção tendem a
produzir
outras
formas
de
concentração
de
poder
no
mercado
e a
condicionar
a
nossa
participação no
mesmo
(tal
como
no
processo
político,
também
no
mercado
a
nossa
participação,
através
do
que
compramos
ou
vendemos, depende da
informação
que
temos
ou
da
nossa
capacidade
económica
para
intervir
no
mesmo).
È
assim
natural
que
o
próprio
mercado
vá criando
centros
de
poder
que
restringem a
liberdade
e a
concorrência.
Neste
casos,
o
mercado
já
não
protege a
liberdade
e é
antes
o
Estado
que
tem de
intervir
para
assegurar
a
liberdade
no
mercado.
Instituições
e Ideologias
Estado
e
mercado
não
coincidem,
assim,
com
os
ideais
que
lhes
são
normalmente
atribuídos. A
ignorância
da
assimetria
existente
entre
estas
instituições
e os
valores
que
lhes
são
normalmente
associados
é uma das
principais
causas
da actual
confusão
ideológica. È o
resultado
de se
confundir
instituições
com
ideologias.
Estado
e
mercado
são
dois
processos
alternativos
de
agregar
os
diversos
interesses
individuais
em
decisões
sociais
(na
forma
de
leis
e
outros
actos normativos no
Estado
e na
forma
de
preços
e
contratos
no
mercado).
Ambos
podem
ser
vistos
como
democráticos
mas
assentam
em
mecanismos
de participação e
expressão
das
preferências
individuais
de
forma
diferenciada.
Não
existe, no
entanto,
nenhuma
associação
automática
ou
causal
entre
qualquer
uma destas
instituições
e
um
particular
objectivo
ou
valor
social.
Qual
delas promove
maior
liberdade,
maior
riqueza
ou
maior
justiça
social
depende das
circunstâncias
e da
forma
como
entendemos
que
os
interesses
colectivos devem
ser
agregados
em
decisões
sociais.
As nossas
opções
e
divergências
ideológicas têm
assim
de
assentar
noutras
bases.
Quais
são
é o
que
discutirei no
próximo
artigo.
O
interesse
público
descodificado
No meu último artigo (dia 8) fiz uma
promessa difícil de cumprir… Depois de questionar a associação tradicional do
Estado a interesse público e do mercado à liberdade individual, prometi que iria
sugerir um debate ideológico diferente. Afinal, o que nos divide na formulação
do interesse público e quanto à forma de o prosseguir? Se as instituições
(Estado e mercado) não devem ser confundidas com ideologias, quais as questões
em que deve assentar o debate político?
O
meu
objectivo é
simples:
argumentar
que
o
relativo
consenso
quanto
à
necessidade
de
equilibrar
Estado
e
mercado
numa
sociedade
moderna
não
elimina o
pluralismo
político,
apenas
ajuda
a
reorientar
as
escolhas
ideológicas. Podendo o
interesse
público
ser
prosseguido
através
do
Estado
ou
do
mercado,
quais
as
diferenças
que
restam na
sua
definição?
E
em
que
medida
podem essas outras
diferenças
ideológicas
justificar
em
diferentes
circunstâncias
uma
preferência
pelo
Estado
ou
pelo
mercado?
Se o
Estado
não
deve
ser
confundido
com
o
interesse
público,
o
que
é
afinal
o
interesse
público
e
quais
as verdadeiras
divergências
na
sua
formulação?
O
que
é o
interesse
público?
Soma
dos
interesses
individuais
ou
algo
mais
do
que
isso?
Afirmar
que
o
Estado
deve
prosseguir
o
interesse
público
é uma afirmação consensual.
Definir
esse
interesse
público
já
não
o é. A
divisão
entre
comunitaristas e
liberais
ajuda
a
compreender
porquê.
Para
uma
concepção
liberal,
o
interesse
público
resulta da
soma
dos
interesses
particulares.
O
centro
é o
indivíduo
e o
que
legitima
algo
como
interesse
público
é a
sua
correspondência
ao
interesse
de
todos
ou
do
maior
número
(esta
última
diferença
não
é
irrelevante:
trata-se de
discutir
se uma
sociedade
se deve
orientar
pelo
objectivo de
melhorar
a
situação
de
alguns
sem
piorar
a de
ninguém
ou
deve
antes
guiar-se
pelo
simples
objectivo
utilitarista
de
melhorar
a
situação
do
maior
número
possível,
mesmo
que
piore a
situação
de
alguns).
Maximizar
a
felicidade
individual
do
máximo
possível
de
pessoas
com
o
mínimo
de
interferência
na
felicidade
dos
outros
é o objectivo.
Para os comunitaristas, o interesse
público é definido com referência a uma comunidade e esta é mais do que a soma
dos indivíduos que a compõem. Ela assume valores e objectivos que estão para lá
dos indivíduos e se devem sobrepor aos seus interesses individuais. As razões
por que assim deve ser podem variar (ou porque se entende que não é possível
medir as preferências individuais, ou porque se acha que elas não têm valor por
não serem totalmente livres mas socialmente condicionadas ou ainda porque
simplesmente se defende existirem certos valores absolutos que antecedem e se
sobrepõem às preferências individuais de todos).
No
fundo,
para
os comunitaristas, uma
comunidade
existe e tem
identidade
para
lá
dos
membros
que
a compõem.
Para
os
liberais,
a
comunidade
é
essencialmente
um
produto
dos
seus
membros
e da agregação das
suas
preferências
individuais.
Estas diferentes concepções da
relação entre indivíduos e a sua comunidade política na formulação do que é o
interesse público promovem diferentes posições políticas. É natural, por ex.,
que os comunitaristas estejam mais abertos a sacrificar a liberdade em nome dos
superiores interesses da comunidade. Por outro lado, os liberais tenderão a
exigir que as limitações que os interesses colectivos imponham na liberdade
individual possam ser reconduzidas a um acordo de vontade anterior entre todos.
Os comunitaristas
verão
com
particular
agrado
medidas
que
reforcem a
coesão
comunitária
e, nessa
medida,
tenderão,
por
ex., a
premiar
a lealdade ao
grupo
em
vez
do
mérito
individual.
Os
liberais
procurarão
maximizar
as
hipóteses
de
sucesso
individual
e a
relacionar
esse
sucesso
com
a
promoção
da
maior
liberdade
e competitividade
entre
todos.
Não
há, no
entanto,
uma
grande
coerência
de
discurso
ideológico
em
Portugal na
preferência
dada
a uma
perspectiva
liberal
ou
comunitária
do
interesse
público.
Encontramos
liberais
na
concepção
da
economia
(defendendo
que
esta deve
assentar
na
liberdade
e
autonomia
individuais)
que
são
comunitaristas na
concepção
das
relações
sociais
(argumentando
que
existem
valores
morais
que
se opõem
mesmo
às
livres
opções
individuais).
Da
mesma
forma,
há comunitaristas na
análise
da
economia
que
se transformam
em
liberais
quanto
a
certos
valores
morais
sociais.
Como
se constrói o
interesse
público?
Autonomia
e inclusividade
Quer
sejamos
adeptos
da ideia de
que
o
interesse
público
existe
independentemente
dos
interesses
individuais
quer
entendamos
que
ele
resulta desses
interesses
individuais,
uma
outra
questão
fundamental
consiste
em
saber
como
são
construídas as nossas
preferências
individuais
e colectivas. É
possível
ser
liberal
entendendo
que
a
nossa
liberdade
e
felicidade
pessoais
devem
ser
primordialmente
protegidas impedindo
qualquer
interferência
com
o
nosso
espaço
autónomo
individual.
Mas
também
é
possível
entender
que
a
nossa
realização
individual
passa,
acima
de
tudo,
pela
nossa
interacção
com
os
outros
(maximizando o
espaço
público
e de
integração
social:
promovendo a inclusividade). Da
mesma
forma,
a
preferência
pelos
valores
comunitários
tanto
pode
tender
a
promover
a inclusividade
entre
os
seus
membros
(a
coesão
do
grupo)
como
a
defender
a
autonomia
desse
grupo
face
aos
outros
(excluindo
aqueles
que
a
ele
não
pertencem).
Deve o
Estado
respeitar
ao
máximo
a
autonomia
de
cada
um
na
formação
das
suas
preferências
e dos
grupos
a
que
pertencem
ou
deve o
Estado
promover
um
espaço
público
e
social
que
promova a interacção
entre
todos
e, desta
forma,
influencie,
por
ex., a
formação
das
preferências
de
cada
um?
Autonomia
versus
inclusividade é uma das outras
chaves
do
debate.
Um
exemplo
concreto:
a
discussão
sobre
a
responsabilidade
pública
no |