Não chega inovar na economia. Uma sociedade desenvolvida tem que
apostar na intersecção das inovações económicas com as inovações sociais.
O grande desenvolvimento que os estudos de inovação conheceram nas últimas
décadas permitiu chegar a um melhor entendimento sobre o desempenho das
economias. No entanto, nas análises efectuadas, subsistem algumas limitações. Em
primeiro lugar, a preocupação excessiva com as empresas capitalistas implicou
que tivessem sido, apenas, consideradas as inovações orientadas directa ou
indirectamente para o mercado. Isto significa que outras formas organizacionais,
como as cooperativas ou as associações, ficaram de fora. Em segundo lugar, a
atenção quase exclusiva no sistema de produção fez esquecer a importância da
dimensão social. É certo que, cada vez mais, parece haver uma preocupação com a
coesão social horizontal, como é o caso de alguns estudos sobre o capital
social, ou mesmo com a coesão social vertical, quando se relaciona a
desigualdade de rendimentos com a actividade inovadora. Não obstante, a questão
social é apenas analisada como efeito perverso do processo de inovação ou, então,
como uma condição determinante para o desenvolvimento económico. Assim, o
conceito de inovação situa-se no domínio estrito do económico, sem lugar para a
inovação social. Porém, como afirmava Peter Drucker, os seus efeitos são bem
mais dramáticos e decisivos do que as inovações tecnológicas.
O que são Inovações Sociais? Geralmente, considera-se que as inovações têm,
apenas, um carácter económico e estão ligadas a uma função de produção: são as
inovações de produto, de processo, organizacionais e de marketing, tal como
aparecem definidas na 3.ª edição Manual de Oslo. Porém, há as inovações sociais
que estão ligadas ao bem-estar dos indivíduos ou das comunidades, através do
emprego, do consumo e da participação, podendo assumir as mais diversas formas.
O aparecimento dos jornais, a introdução dos seguros, o sistema educativo
moderno, as empresas de inserção, uma linha telefónica de apoio a grupos de
risco, o microcrédito e o software livre são, apenas, alguns exemplos.
Segundo a OCDE, as inovações sociais procuram novas respostas para os problemas
económicos e sociais, identificando e assegurando novos serviços que melhoram a
qualidade de vida dos indivíduos, através, por exemplo, da implementação de
novos processos de integração no mercado de trabalho, novas competências, novos
empregos e novas formas de participação.
De uma maneira geral, a forma como se define o conceito de inovação social
reflecte, sobretudo, a preocupação de o incluir no campo do desenvolvimento
social, apesar de não se recusar a possibilidade de o relacionar com o
desenvolvimento económico. Assim, quando se afirma que as inovações sociais têm
como objectivo solucionar um problema social, está-se a negar, implicitamente, a
ideia de que elas podem, directa ou indirectamente, resultar do mercado e
resolver um problema económico. No entanto, as inovações sociais procuram,
frequentemente, soluções para questões ligadas à actividade económica. Este
enviesamento resulta, em grande medida, da separação completa dos dois campos de
investigação. De facto, as pesquisas sobre as inovações sociais, no campo do
desenvolvimento social, e os estudos sobre as inovações (económicas), na área do
desenvolvimento económico, foram-se consolidando de forma completamente estanque.
Silicon Valley e Inovações
O Silicon Valley, como centro de inovação tecnológica de excelência, trouxe
grandes benefícios económicos à região. No entanto, o seu modelo de
desenvolvimento acabou por mostrar os seus limites, tendo surgido problemas de
vária ordem, ligados ao seu rápido crescimento, nomeadamente, a subida do custo
de vida, a congestão do tráfego, a degradação do ambiente, os limites da
capacidade do sistema educativo, o agravamento das desigualdades socioeconómicas
e os problemas habitacionais. A região, na verdade, não conseguiu desenvolver
uma arquitectura institucional constituída por organizações públicas e privadas
com capacidade para dar resposta aos inúmeros problemas que enfrenta. Tudo isto
faz temer, por exemplo, que a atracção de talentos que a região tem exercido
como "um bom sítio para viver e trabalhar" possa vir a desaparecer.
Assim, nos últimos anos, o Silicon Valley tem assistido a um esforço crescente
por parte dos sectores público, privado lucrativo e não-lucrativo no sentido de
solucionar os seus mais diversos problemas.
Uma grande parte das inovações sociais tem sido desenvolvida pelo sector
não-lucrativo que tem ido para além das suas funções tradicionais, inovando, por
exemplo, no apoio à instalação de microempresas, no desenvolvimento de uma
cultura empresarial, na canalização de fundos para outras organizações
não-lucrativas cujo objectivo é a redução da pobreza, através da criação de
emprego, na resolução de questões habitacionais para grupos específicos e na
promoção do capital social. A própria obtenção de financiamento, através da
filantropia de risco, é, em si mesma, uma importante inovação social.
Neste sentido, podemos afirmar que as inovações tecnológicas têm que ser
completadas com inovações sociais, como forma de sustentar e de consolidar um
modelo de desenvolvimento que assenta num processo contínuo de inovação. Além do
mais, as fronteiras entre aquelas duas formas de inovação não são completamente
rígidas. As inovações tecnológicas resultam de um processo social e, de uma
forma geral, não se difundem sem fazer apelo às inovações sociais, sendo o
inverso, também, verdadeiro. As inovações sociais necessitam, com maior ou menor
intensidade, de um mínimo de suporte tecnológico.
O caso do Silicon Valley evidencia as vantagens de uma maior
colaboração entre a abordagem das inovações sociais, no domínio do
desenvolvimento social e a das inovações económicas, na área do
desenvolvimento económico. Apesar das investigações abundantes que se
desenvolveram, nos últimos anos, em torno da noção de inovações
sociais, os diversos estudos nunca alcançaram um grau satisfatório na
sistematização deste conceito. Assim, a abordagem das inovações
sociais ganharia uma maior consistência com o contributo das teorias
económicas.
No sentido contrário, as investigações na área do desenvolvimento
económico poderiam, também, encontrar algumas vantagens nos estudos
das inovações, no domínio do desenvolvimento social, permitindo-lhes,
por exemplo, uma melhor compreensão sobre o papel dos vários actores -
Estado, mercado e sociedade civil - na governação da inovação. Parece,
pois, haver todo o interesse na abertura das fronteiras entre estas
duas abordagens.
Docente do Instituto Superior Miguel Torga e doutorando em Governação,
Conhecimento e Inovação pela FEUC