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Estratégia
dos trabalhadores para com o Estado em Capitalismo
Se
a modelação das relações de produção socialistas e o papel do
Estado na economia constituem aspectos centrais que devem preocupar os
comunistas para daí se perspectivar o sentido da luta dos
trabalhadores, então os horizontes assim abertos têm de ter uma
utilidade na estratégia que os trabalhadores escolhem no quadro das
empresas em sistema capitalista.
Este reflexo do horizonte socialista na luta dos trabalhadores sob
capitalismo é tanto mais necessário quanto se trate de enformar a luta
nas empresas que, embora sob a hegemonia do modo de produção
capitalista, não são formalmente capitalistas. Isto é, têm de
influenciar a estratégia dos trabalhadores do sector público.
No sector público inscrevem-se desenvolvimentos de propriedade que têm
origens muito diversas (ver a classificação de Vinogradov). Ora o tal
reflexo do horizonte socialista na luta dos trabalhadores do sector público
tem de assumir, caso aceitemos que existe tendencialmente uma sequência
nacionalização-socialização, a forma de luta pelo desenvolvimento de
relações socialistas de produção no seio das empresas
nacionalizadas.
Esta afirmação leva a colocar outra questão. Será possível
desenvolver relações socialistas de produção – isto é lutar pela
reapropriação -, em pleno capitalismo e em oposição a ele?
Obviamente que a palavra desenvolver significa aqui um processo e não
uma transformação finalizada num ápice. Pressupõe uma invenção e
experimentação.
Por outro lado, ao lutar-se pela reapropriação e pela retoma (em relação
ao que se passava no comunismo primitivo – idade do ouro) de soberania
sobre o sobre-produto, os trabalhadores das empresas não-capitalistas
entram necessariamente em choque com a tutela do Estado capitalista
dessas empresas. Portanto, uma tal luta teria de assumir uma forma de
reclamação anti-Estado burguês e pela libertação do modo de produção
não capitalista da tutela asfixiante desse Estado e desse Governo. De
certo modo, esse conteúdo está presente, de forma embrionária, na
consigna de reforma democrática, autonomizadora e
desgovernamentabilizadora do SNS, inscrita no nosso papel cor-de-rosa.
E, tal como foi dito, pode ser encarada como tendo uma certa conotação
neo-anarquista
Para compreender melhor como é que se pode articular uma luta pela
reapropriação e pela desestatização do sector não-capitalista da
economia em pleno capitalismo, há que analisar o problema da transição
do modo de produção capitalista para o socialista.
"Transição de modos de produção"
Os marxistas sempre encararam a passagem ao socialismo como uma construção
de um novo modo de produção a partir do zero e a partir do poder político
conquistado revolucionariamente à burguesia. Portanto, pode dizer-se
que, nesta óptica algo simplificadora, a construção do novo modo de
produção seria uma tarefa do Estado dirigido pelos trabalhadores.
E, na verdade, em todas as experiências socialistas ocorridas na história
- incluindo a Comuna de Paris, o grande Outubro, a república do
Conselhos da Hungria, a Revolução Alemã de 1918 - as revoluções na
esfera política ocorreram sem que houvesse qualquer embrião prévio do
novo modo de produção, em desenvolvimento no seio do velho modo de
produção.
Mas, pelo contrário, os marxistas sempre descreveram as transições de
modos de produção anteriores ao socialismo de forma substancialmente
diversa. A revolução Francesa não veio criar o capitalismo a partir
da formação do directório hegemonizado pelos jacobinos Robespierre e
Marat (este era médico). O capitalismo já estava em gestação no seio
do velho sistema séculos antes. O convívio entre capitalismo e
feudalismo foi pacífico durante muito tempo. Havia até bastante
complementaridade. Os feudais faziam guerras com armas vendidas pelos
capitalistas e com dinheiro emprestado por eles. Só que, a partir de
certa altura, as coisas mudaram e passou a haver tensão o que originou
a revolução (a questão das condições para o "disparo"
revolucionário são autónomas destas – Ellen Maiskens Wood).
De certa maneira pode-se dizer que foi o feudalismo que cometeu o erro
de confiar cada vez mais no capitalismo para o seu bom funcionamento o
que deu origem ao monstro que o veio depois matar.
Ora, porque não admitir que, nas condições de um capitalismo
desenvolvido (e não da Rússia quase pré-capitalista), o recurso,
porventura crescente, a formas não capitalistas não venha a ter um
sentido histórico semelhante. O capitalismo apresenta uma progressiva
inclinação para recorrer a externalidades (factores exteriores ao modo
de produção capitalista) para sustentar e ampliar a sua capacidade de
desenvolvimento e de negócio.
Entre as opções que vem tomando desde o pós-guerra está o recurso a
soluções que, objectivamente, têm de ser consideradas não
capitalistas, como seja o sector público. Por exemplo e segundo o
marxista americano Howard Sherman, o capitalismo americano não pode ser
considerado um capitalismo puro porque 18% da mão de obra assalariada
trabalha no sector público. Esta situação é muito mais importante na
Europa, Oceânia e julgo que no Japão.
Ora, pode-se conceber que ao confiar a um sector não capitalista (mas
fortemente subordinado aos interesses do capitalismo) uma crescente
responsabilidade na garantia de funcionamento do próprio capitalismo,
este pode estar a criar as condições para a sua morte a prazo.
Isto é, o sector público pode decidir-se a lutar (se essa orientação
fosse adoptada pelos seus trabalhadores) pela sua autonomia do governo e
dos ditames dos capitalistas que cerceiam a sua capacidade de
crescimento e ao conquistar progressivamente um papel relevante na
economia criar uma ameaça ao capitalismo. E, no caso da esfera política
controlada pelo capital se rebelar contra ele e tentar limitá-lo, então
desencadear-se-á uma revolução. Só que, neste caso, os revolucionários
não começarão a nova ordem do zero. Contarão com larga capacidade de
direcção económica e de gente habilitada a tirar partido das novas
condições políticas.
A importância do sector não-capitalista para o capitalismo tem sido
enorme. Por um lado, permite ao capitalismo mobilizar-se para os
sectores de lucro máximo, “socializando” os prejuízos relativos
referentes aos sectores subsidiários que devem continuar activos para
que o capitalismo funcione . Por outro, este sector cria uma base para
se estimularem os lucros de sectores conexos com o sector público, uma
vez que é geralmente um cliente estável e não oscilante com as
crises.
Este é bem o papel do SNS português para com a indústria farmacêutica.
Ao contrário do sector prestador capitalista americano, o sector
prestador público português sustenta uma indústria e comércio de
medicamentos altamente lucrativa. No caso americano, a capacidade do
sistema prestador capitalista (HMO) de controlar a factura de
medicamentos está a ser brilhantemente resolvido com a anulação do
mercado interno (às HMOs) de medicamentos. Portanto, pode admitir-se
que, para os interesses da indústria, o sistema português é mais
interessante do que o americano.
"O Darwinismo e a transição de modos de produção"
A hipótese de uma transição progressiva (mudança quantitativa) de
modos de produção que pode desembocar numa tensão revolucionária na
esfera política com a criação de condições para a vitória do novo
modo de produção (mudança qualitativa) não é uma hipótese nova em
relação à passagem para o socialismo (Eng. Penin Redondo, Vértice).
Por outro lado, encaixa bem no modelo de inspiração Darwinista com que
alguns marxistas modernos tendem a encarar a evolução de formações
económicas e sociais. A este propósito cito as palavras de Howard
Sherman:
"In spite of all qualifications listed above, it is correct to
speak of a process of social change through stages of evolution
(sublinhado meu). The analogy of Marxian with Darwinian evolution may
even be extended to the selection mechanism. Marxian scholars discuss
social evolution through competitive selection. This perspective,
however, is very different from the conservative Social Darwinism, which
claims that an individual who is at the top of society financially (such
as Ross Perot) is necessary fitter or better than the poor. In contrast,
in the Marxian view individual wealth is largely a function of existing
class relations and financial inheritance.
Using the historical approach, Marxian social scientists do expect the
best adapted mode of production to be more likely to survive in the very
long run, provided that civilization on the earth is not destroyed in a
nuclear war or environmental disaster. That society will probably
survive which is best adapted to the fullest development of both
technology and human potential. The phrase best adapted however, must be
defined very carefully. When the Mongols wiped out the Persian
civilization, they were no doubt stronger and better adapted to that
environment in a military sense, but the destruction of Persia did mean
the end of a flourishing cultural activity for a long period. Similarly,
that the soviet system lost out to U.S. capitalism reflects the weakness
of the soviet system but does not prove the superiority of the U.S.
system in any ethical or cultural sense."
mais á frente ele afirma:
"Because most Marxian writers assert that the best adapted economic
system has a higher probability of survival, in this very limited sense
critical Marxian social scientists tend to be guardedly optimistic
concerning the direction of present history. The competitive
evolutionary process between societies only operates over a long time
span, and nothing guarantees that civilization, as a Whole, will survive
if there is a nuclear or environmental disaster. These, however are long
term probabilities and tendencies based on experience of the past
competition of groups and societies, not inevitable laws describing what
will happen. Marxism is, thus, "a theory that did acknowledge
overall directionality to historical change, but rejected the view that
directionality implies a unique path and sequence of events"
(Wright, Levine, and Sober 1992, 79)"
Em resumo, estas teses levantam-me os seguintes problemas:
Saber se a selecção e vitória de um modo de produção sobre outro
implicará ou não que cada um deles tenha sido construído apenas de
forma revolucionária, isto é, após a vitória da revolução política
ter criado as condições, num dado país, para se desenvolver o novo
modo de produção?
Neste caso, após a criação revolucionária (porque parte de um
iniciativa de um novo poder político, como no Grande Outubro, e não de
uma competição económica e social) deste novo modo de produção,
esse país passa a competir com os países que mantêm o velho modo de
produção? Esta é a questão desde sempre suscitada por Trotsky e que
tem fundamento na ideia do incêndio revolucionário pan-Europeu que se
pode vislumbrar no Manifesto e noutros textos.
Ou pelo contrário, é admissível que o novo modo de produção se
inicia em plena vigência do velho (como o capitalismo apareceu do seio
do feudalismo), ganhando espaço no seio do velho e por insuficiência
deste, em princípio apenas visando completar as carências do velho
mas, mais á frente, adquirindo autonomia e passando directamente a pôr
em causa o velho, chegando até á acumulação de tensões na esfera
política que desembocam em revolução?
Isto significaria que as formações económicas não capitalistas, hoje
disseminadas no capitalismo, contêm já um potencial de modo de produção
alternativo e por virtude da sua superioridade, ir-se-ão impor no
futuro?
Nesta hipótese, que outra forma de afirmação do sector não
capitalista poderá ocorrer que não seja através de uma luta contra o
Estado Burguês, de conotação neo-anarquista?
Se este "modelo" de “competição” vier a estar correcto,
então porque não fazer tudo para que, por exemplo, o SNS desde já
derrote o capitalismo emergente nos cuidados de saúde. Derrotar
significa superiorizar-se no plano económico e não apenas da protecção
legal e administrativa. Se assim for, porque não desencadear desde já
todos os esforços para dotar o SNS de autonomia face aos interesses do
capital e dar-lhe capacidade de se afirmar como modo alternativo de
produção ?
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