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Estado - a
exploração de segundo nível
Publicado no DOTeCOMe Blog em 30 de Junho
2005
Aqueles que defendem o chamado “Estado Social” laboram num
erro grosseiro: estão convencidos de que ele é pago pelos ricos a quem "foi
imposto pela justa luta das classes trabalhadoras".
A verdade dos números é bem diferente: quem paga o “Estado Social” são os
próprios trabalhadores já que, no conjunto, pagam muito mais em impostos e todo
o tipo de contribuições do que recebem do “Estado Social”.
Nas últimas semanas, com a “zanga das comadres”, os jornais deram-nos abundante
material para esboçar uma lista dos destinos que têm sido dados à diferença
entre aquilo que os trabalhadores pagam ao Estado e aquilo que dele recebem:
- Obras públicas que custam três ou quatro vezes mais do que o valor orçamentado
(a Casa da Música, no Porto, é apenas o último e significativo exemplo)
- Medicamentos e exames de diagnóstico comprados em excesso e por preços
leoninos (em 2002 foram gastos pelo SNS nestes artigos 2.774 milhões de euros,
ou seja 556 milhões de contos)
- Ordenados exorbitantes de gestores de empresas públicas que os próprios se
auto-atribuem (sempre acompanhados de uma miríade de complementos como cartões
de crédito, seguros de vida, prémios de gestão, despesas de representação 14
meses por ano e outros)
- Pensões de reforma cujos elevados montantes não têm qualquer correspondência
com os descontos efectuados pelos beneficiários (o caso do Ministro das
Finanças, reformado ao fim de seis anos de trabalho e com 48 de idade, é apenas
um entre milhares).
- As propinas escolares, o custo dos cuidados médicos e de todos os outros
serviços prestados pelo estado aos estratos sociais ou profissionais cuja fuga
ao fisco é encapotadamente tolerada (como é o caso da maior parte das profissões
liberais e certos estratos do empresariado).
- Os múltiplos ordenados dos “eleitos locais” obtidos nas empresas municipais
por eles criadas
- As subvenções mensais vitalícias e subsídios de reintegração atribuídas aos
políticos.
- As contribuições da República para os partidos políticos
- Os ordenados dos funcionários públicos excedentários que, em muitos casos,
foram admitidos apenas por serem filhos ou afilhados do “senhor Director Geral”
quando não sobrinhos da porteira.
- Os custos de serviços do Estado redundantes, ou mesmo prejudiciais, que não
produzem nada de útil e até contribuem para empatar as iniciativas válidas.
A lista podia ser muito mais longa mas estes casos bastam para configurar aquilo
que podemos designar como uma exploração de segundo nível.
Marx explicou a exploração como a apropriação pelos capitalistas da diferença
entre o valor produzido e o montante dos salários mas não podia adivinhar que em
pleno século XXI um segundo nível de exploração se viria sobrepor.
O salário que os trabalhadores deveriam levar para casa, já amputado da
mais-valia, é ainda “assaltado” pelo IRS e pelas contribuições para a Segurança
Social, quando metem gasolina ou compram tabaco, quando compram casa, quando vão
ao supermercado, em suma, constantemente.
Em muitos casos este segundo nível de exploração é ainda mais intenso do que a
exploração convencional.
Os beneficiários desta exploração são:
- os industriais, comerciantes e prestadores de serviços que vendem leoninamente
ao Estado, com a conivência dos compradores ou beneficiando do desleixo e da
desorganização
- Os altos funcionários da Administração Pública (são 6.960) e das Empresas
Públicas (são 461)
- Os estratos sócio/profissionais tacitamente “dispensados” de pagar impostos
- Os políticos no activo, os que já foram, e todos os acólitos que frequentam os
partidos à babugem dos favores.
Estes grupos interpenetram-se e os seus elementos vão passando continuamente de
uma condição para outra não havendo memória de qualquer penalização por mau
desempenho. Os favores trocados e os lobbies de interesses mantêm-se na penumbra
e a coberto das instituições formais que baseiam a sua legitimidade no sistema
democrático.
Configuram uma casta que se apoderou da nossa democracia e que, pelos seus erros
e cupidez, acabará por a destruir.
Fernando Penim Redondo
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