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Elites
políticas e população:
um
afastamento irreversível?
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Maria José Oliveira, Público 13/11/2005
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O distanciamento
entre a classe política e a sociedade civil tem origens longínquas. As raízes
emergiram na segunda metade do século XVII e mantêm-se vivas até hoje. Num
momento em que
se assiste a uma crise da representação político-partidária e a um divórcio
entre as elites políticas
e a população que passos devem ser dados para inverter este cenário? Será que os
partidos
querem efectivamente operar uma reforma interna com vista a aproximarem-se dos
cidadãos?
Ou estes preferem mobilizar-se em torno dos movimentos sociais ou eventos
espontâneos?
Para responder a estas e outras questões o PÚBLICO ouviu historiadores e
politólogos
Génese e traduções
Poder-se-ão descortinar raízes no período do Liberalismo, durante a agonia da
monarquia, nos anos conturbados da Primeira República, no despotismo do Estado
Novo. Não é necessário olhar com uma lupa estas épocas históricas para notar que
um dos seus legados é o distanciamento entre a população e as elites políticas.
O fenómeno poderá ter, contudo, uma maior lonjura temporal.
O historiador e sociólogo Manuel Villaverde Cabral recua mesmo aos dois últimos
quartéis de Seiscentos (após a Guerra da Restauração) para apontar que a
edificação do Estado moderno inaugurou um "regime de dominação e comunicação
política" que exigia um "grau mínimo de participação/legitimação". O "grau
mínimo" nunca passou disso mesmo e só factores conjunturais reduziram a
distância ao poder. Desde o século XVII que ele nunca foi superado.
Nem mesmo a mensagem universal da Revolução Francesa (1789), que advogava a
participação política colectiva e o princípio da soberania popular, invocados em
1820 no pronunciamento militar que derrubou a monarquia de Antigo Regime,
reduziram o afastamento entre a população e a elite política. Pelo contrário,
logo nos anos 20 do século XIX, assiste-se a um "discurso anti-partidário", nota
o historiador Rui Ramos, que tem na história política de Oitocentos uma das suas
áreas de investigação. Villaverde Cabral acrescenta ainda que o Liberalismo
acabou por ter um resultado contraditório - reproduziu "muitas das formas de
dominação das elites de "antigo regime"" - e o constitucionalismo monárquico
(instaurado em 1834) não passou de um "regime oligárquico e clientelar".
O fim da monarquia, pautado pelo último rotativismo (entre 1900 e 1906, o
progressista Luciano de Castro e o regenerador Hintze Ribeiro alternavam na
chefia do governo), e a instauração da República conservaram intocável este
power-distance (distância ao poder), como designa o psicólogo social holandês
Geert Hofstede. Contudo, assistiu-se na Primeira República a uma defesa do
presidencialismo como tentativa para "enfraquecer o poder dos partidos
políticos", explica o historiador Vasco Pulido Valente, recordando que "já
durante a monarquia existiu um movimento de engrandecimento do poder real".
O advento da República e a instabilidade institucional que lhe sucedeu não terão
contribuído para encurtar o desfasamento entre a sociedade civil e o Estado. E
nem o Partido Republicano Português (PRP), um "partido semi de massas", como lhe
chama o historiador António Costa Pinto, promoveu qualquer aproximação.
Sublinhando que no fim da monarquia, governantes e governados "pertenciam a
mundos muito distintos", Rui Ramos destaca mesmo que o PRP estava longe de ser
um partido de massas: "O PRP era composto pelas elites e estava centralizado em
Lisboa. Não queria os pés descalços e fazia parte do prestígio político não
falar com a canalha."
Também Villaverde Cabral sustenta que a Primeira República não superou de forma
"democrática e inclusiva" a crise do Estado liberal, que eclodiu nos finais de
Oitocentos, ficou moribunda após a Primeira Guerra Mundial e resultou na
ditadura militar e consequente nascimento do Estado Novo.
Durante quase meio século, o regime autoritário gizado por Salazar não só
institucionalizou o despotismo burocrático como também potenciou a distância ao
poder, uma vez que, ao contrário de outras ditaduras fascistas e comunistas,
promoveu uma "desmobilização total", explica Costa Pinto. Por isso, acrescenta,
"é inegável que a distância em relação ao Estado e a fraca mobilização são em
parte um legado do Estado Novo". O facto de a ditadura ter mantido a população
"em estado de ignorância e submissão" influiram fortemente neste desfasamento,
salienta Villaverde Cabral. O 25 de Abril, contudo, não ilidiu a distância. Para
o investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais (ICS), provocou
somente um "abalo". A justificação para este "fracasso" da revolução de 1974
reside em dados remanescentes: "A rotinização e a consecutiva re-oligarquização
e re-clientelização do regime representativo, incluindo no processo a
recuperação das elites tradicionais do tempo da ditadura, gerou na última
década/década e meia um novo tipo de distância-ao-poder de tipo anómico". Que se
traduz no "desinteresse pela política", no "desprezo pela classe dirigente" e na
"corrupção larvar", enumera Villaverde Cabral.
Apartidarismo e anti-partidarismo nos últimos 30 anos
Nas últimas três décadas, o distanciamento entre a elite política e a população
fez-se também com sentimentos de apartidarismo e anti-partidarismo. Terminada a
fase de transição democrática, o processo de consolidação iniciado em 1987 com a
primeira maioria absoluta (Cavaco Silva) instaurou (definitivamente?) a
bipolarização do sistema partidário. E inaugurou um novo rotativismo,
protagonizado por dois partidos eleitoralistas (PS e PSD), que privilegiam a
conquista de votos ao centro, em detrimento do estabelecimento de fronteiras
programáticas.
O facto de a volatilidade do voto ter vindo a aumentar exponencialmente (elevada
percentagem do chamado eleitorado flutuante, que tanto vota à esquerda como à
direita) é mais um eco da distância ao poder. Costa Pinto frisa, porém, que
tanto o PS como o PSD "nunca tiveram um passado de ligação à sociedade civil",
ao invés do que aconteceu com os seus congéneres em diversos países europeus.
"Foram construídos a favor da desmobilização, contra a dinâmica radicalizadora
do período pós-25 de Abril", diz.
A indiferenciação dos partidos do "bloco central" pode, no entender de
Villaverde Cabral, reforçar a "tendência crescente para a abstenção": "Há
bastante tempo que o eleitorado português percebeu (lembremo-nos dos boicotes
eleitorais) que a única linguagem que esses partidos entendem é a da abstenção!"
Opinião contrária tem Rui Ramos, que, embora admita a existência de um "discurso
anti-partidário", não acredita na sua concretização: "Depois vamos todos votar
neles."
A estatização dos partidos e a transformação do PS e do PSD numa espécie de
"entidades semi-públicas", como designa Conceição Pequito Teixeira, politóloga e
docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade
Técnica de Lisboa, produzem dois resultados flagrantes: o não investimento no
recutamento de novos filiados e o simultâneo distanciamento da sociedade civil.
Mas será que esta distância ao poder é unilateral? São as estruturas partidárias
que dão o primeiro passo no sentido do afastamento? Conceição Pequito fala num
"divórcio por mútuo consentimento", argumentando que há uma "sofisticação do
eleitorado" que vota segundo factores de curta duração ("o perfil dos
candidatos, os temas da campanha eleitoral e a avaliação do desempenho dos
partidos, que pode ser retrospectiva ou prospectiva"). Para Villaverde Cabral,
um dos aspectos da crise da representação consiste no facto de os partidos de
governo "nada terem a ver com a sociedade, se não através de lobbies e do
clientelismo estatal". A "dissolução da política no Estado", explica, coloca-a
for a e contra a sociedade: "Em Portugal, isso é manifesto e há muito tempo que
venho dizendo que o nosso problema é, ao contrário do que alguns ingénuos crêem,
a prodigiosa inadequação, para não dizer o atraso, do sistema político em
relação à mudança social."
Para além do apartidarismo, subsiste também uma percepção negativa dos partidos
(anti-partidarismo), mais de cariz cultural do que reactivo. Está sedimentado na
cultura nacional, possui uma raiz histórica - Conceição Pequito enquadra-o na
Primeira República e no Estado Novo -, apresenta-se sob a forma de hostilização
em relação aos partidos e ao Parlamento e não flutua de acordo com as
conjunturas. "Traduz-se numa menor participação política convencional, como a
abstenção", enuncia a investigadora.
Sobre o afastamento e a desconfiança relativamente às elites políticas que
governam o país desde há 30 anos, a historiadora Miriam Halpern Pereira aponta
que uma das causas é precisamente a escassez de explicações sobre a evolução do
país: "Justifica-se a incompreensão e o descontentamento da população face a uma
evolução cuja origem não é claramente explicada a nenhum nível", refere,
explicitando que é preciso compreender "como se passou de uma visão auspiciosa
acerca do desenvolvimento económico e social, que se previa ser acompanhada da
melhoria dos investimentos sociais, educativos e culturais, para uma visão em
negativo de tudo isso".
Para avaliar as políticas e as estratégias adoptadas, a professora catedrática
do ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e de Empresa) entende que
seria necessário, a título de exemplo, divulgar "for a das publicações
especializadas e inacessíveis para a população em geral" o "balanço da
utilização dos fundos estruturais europeus". E prossegue: "Algumas informações
recentes permitem ver que a dispersão dos fundos europeus em investimentos
autárquicos fomentaram a antiga política do fontanário (leia-se equipamentos
semi-abandonados por falta de utilização possível e até as rotundas, etc) para
manutenção de clientelismos locais, em detrimento de maior centralização pelo
Estado, o que podia ter resultado em benefício real da comunidade nacional no
seu conjunto."
Lembrando que a globalização "não é assim tão recente", Miriam Halpern Pereira
afirma que "factores conjunturais há sempre", mas falta "explicar porque afectam
tão diferentemente os países, por exemplo, Portugal e Espanha". Expondo um sem
número de "fenómenos estranhos" (perguntas até hoje sem resposta) - "Como
explicar o elefante branco do Alqueva, depois de tanto debate? (...) Ou
verificar que somos um dos países da Europa onde se dispõe de um maior número de
residências secundárias por habitante?" -, a historiadora salienta que "alguém
deve conhecer a explicação", mas que ela não é revelada. "Nada acontece por
acaso, e isto não resultou da incompetência generalizada, nem foi obra de Zeus",
realça.
Reconquistar ou desistir?
Face à degradação do sistema partidário (Villaverde Cabral justifica-a com o
"carreirismo", o "enriquecimento sem causas aparentes", a corrupção ou o
"tráfico generalizado de interesses"), à crise da representação
político-partidária e ao "divórcio" entre elites políticas e população, quais os
passos a dar para tentar inverter este cenário? Será que os partidos querem
efectivamente operar uma reforma interna de forma a aproximarem-se da sociedade
civil? Ou confrontam-se com a resistência dos cidadãos, que preferem
mobilizar-se em torno dos movimentos sociais ou eventos espontâneos?
António Costa Pinto entende que a circunstância de os partidos de poder
recorrerem a independentes, os denominados "políticos não profissionais", é "uma
forma de responder aos sentimentos dos portugueses", exemplificando, porém, que
o eleitorado francês "expressa o seu descontentamento abstendo-se ou votando nos
partidos tribunícios".
Villaverde Cabral e Conceição Pequito convergem no cepticismo face à reforma dos
partidos. O historiador acredita mesmo que estes "desistiram de se aproximar dos
eleitores". Até porque a "mediatização completa da vida política" agudizou
"tragicamente a distância ao poder, transformando a política num espectáculo
geralmente pouco recomendável e nada atraente". E mesmo que os partidos
quisessem de facto produzir essa aproximação dificilmente obteriam êxito,
acredita Villaverde Cabral: "O declínio dos partidos, bem como de outras formas
tradicionais de participação política (como os próprios sindicatos), é
irreversível". Isto porque o power-distance é simultaneamente um fenómeno
político e sociológico: "Basta atentar no que se passa com as gerações mais
novas. A única alternativa real reside na "acção directa", isto é, na
auto-mobilização, autónoma, pontual, sem organização permanente nem lideranças
institucionalizadas, em torno de "causas" e "eventos", produzindo uma geometria
política variável em função do eixo resistência-mudança". Porém, frisa o
historiador e sociólogo, nem mesmo este tipo de mobilização escapa ao habitual
atraso do país. "Portugal não está for a desta evolução mas, como de costume,
ela chega tarde e amortecida pela nossa distância ao "centro do mundo"", diz.
Conceição Pequito defende que os partidos já se aperceberam que têm de
reconquistar a sociedade civil. Mas os métodos que utilizam não só estão longe
de esgotar todos os elementos importantes para uma verdadeira reforma como
também têm um cariz perverso. A designada democratização interna dos partidos,
cujo aspecto mais visível é a democracia de bases (eleições directas,
participação na redacção dos manifestos eleitorais, por exemplo), não passa de
"uma democratização aparente, de acordo com as experiências europeias", um
"plebiscito em torno de pessoas". "Os activistas [quadros intermédios do
partido] perdem poder e reforça-se o poder das bases, mas isto leva a um reforço
da relação entre o líder e as bases com carácter mais plebiscitário", argumenta
a politóloga, acrescentando que a concentração na "atomização das bases" resulta
numa maior manipulação das mesmas pelo líder partidário.
Para que seja realizada uma vasta reforma interna dos partidos é indispensável
uma "participação mais activa e directa dos militantes", considera. E na base
desta "refundação" têm de estar presentes temas como "a proposta dos candidatos
à Assembleia da República, a questão das lógicas clientelares, as juventudes
partidárias, a flexibilização das agendas políticas ou o discurso das elites
partidárias". O futuro, porém, não aparenta ser muito esperançoso, já que em
Portugal o associativismo cívico e político não atinge os 10 por cento, lembra
Conceição Pequito.
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