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Europa paralisada e mutilada
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Eduardo
Lourenço, Público 1 Setembro 2008
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«No seu número de hoje, um dos mais conspícuos jornais
europeus, para empregar um termo caro a Jorge de Sena, como se estivéssemos
ainda em plena guerra fria, assevera-nos que "Moscovo desafia as potências
ocidentais". Isto a propósito do reconhecimento unilateral de antigos pedaços do
seu ex-império, até há pouco incluídos na Geórgia, também ela antigo e até
simbólico espaço moscovita.
Infelizmente, esta séria peripécia da política internacional pós-Muro de Berlim
e implosão do antigo império soviético só tem a ver com potências ocidentais, se
nelas incluirmos os Estados Unidos, a única digna desse nome. E é o caso, mas é
como se não o fosse. Em princípio, o título do Le Monde só nos devia dizer
respeito, a nós europeus, enquanto apêndices histórico-políticos dos Estados
Unidos, única superpotência do Ocidente desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Mas nós sabemos que esta imaginária distanciação europeia dos Estados Unidos é
um mito. E que não podemos escapar, por enquanto, a nenhum conflito virtualmente
sério, em que os Estados Unidos, na sua expressão superimperialista, estejam
envolvido - quer se trate do Afeganistão, do Iraque, quer agora do Cáucaso,
confrontado de um dia para o outro a uma nova situação balcânica.
Tudo é americano, mesmo o que não parece ou não devia ser. Não admira por isso
que a maior parte da imprensa europeia tenha encontrado, num ápice, os reflexos,
as imagens, os clichés mais estafados (e outrora justos ou justificáveis) da
antiga guerra fria, com o mesmo Moscovo no papel óbvio do mau da fita. Basta ler
a maioria dos jornais portugueses para o constatar. Mas não são os únicos. Como
de costume, o olhar mais isento sobre os actuais acontecimentos vem-nos de
Inglaterra, o único país europeu, apesar de relativizado no tabuleiro mundial,
que ainda merecerá o nome de "potência ocidental". Recentemente, um historiador
de Oxford lembrou com pertinência que o actual conflito pouco tem a ver com a
grelha de leitura da antiga guerra fria e que o Ocidente faria bem em ter isso
em conta. A situação seria comparável à das Malvinas, que a imprensa ocidental
nunca diabolizou.
É um bom conselho, o desse intelectual de Oxford, Mark Almond. Se a situação
actual não é muito diferente da clássica das Malvinas, em nada isso afecta a sua
leitura de um ponto de vista europeu. Não é a Europa - a não ser por impotência
ou defeito - que se encontra implicada no Cáucaso. São os Estados Unidos - via
Geórgia - e Moscovo - via Ossétia do Sul e Abkhásia - num despique imperialista
do mais clássico recorte. A Europa - na medida em que existe como actor
histórico digno desse nome - está entre ambos os actores reais desta lamentável
peripécia póstuma de uma guerra fria, reactivada na sua lógica absurda pelo
ataque às duas torres... que não foi russo e que inaugurou um século XXI onde
conflitos deste tipo já não pareciam possíveis. Mas a verdade é que são. O
antigo urso moscovita não se mudou num anjo, como a intervenção na Tchetchénia o
mostrou para grande exaltação de todos os mosqueteiros da antiga cruzada
anti-soviética (de Bernard-Henri Levy a Glucksman). Mas esses reflexos de
autocratismo imperial em defesa da sua zona de influência são menos
imperialistas e condenáveis que a guerra unilateral do Iraque ou a guerra sem
fim do Afeganistão para que uma Europa impotente e indigente se deixou arrastar?
Na mais indulgente das perspectivas, o actual conflito já não releva do antigo
conflito maniqueísta entre o Bem (o do mundo democrático ocidental) e Mal (o
mundo soviético totalitário) - se isto mesmo não entroniza abstractamente uma
visão dualista da História bem discutível ou trágica -, mas do mais tradicional
e perene conflito entre duas formas de poder virtualmente imperialistas. E, no
caso vertente, o dos Estados Unidos não deixa os seus créditos por mãos alheias.
Quem, em nome de uma luta antiterrorismo, sem estatuto definível em termos
aceitáveis de democracia planetária, dispôs em torno da nova Rússia um
dispositivo de mísseis, como se o Pacto de Varsóvia não tivesse caducado? E na
Polónia ainda por cima...
Muitos de nós, europeus, devem à América, histórica e miticamente falando, um
reconhecimento sério e inesquecível, mas não ao ponto de o pagar com uma
subalternização política, ideológica e até cultural, digna do antigo Império
Romano, universalidade virtual a menos. Se a Europa não fosse, como é, uma
entidade à procura de existência credível e neste momento objectivamente
paralisada, não entraria em transe, como outrora em tempos dos cossacos, de cada
vez que a pátria de Catarina, mas também de Tolstoi e Dostoievski, move um peão
no seu imenso e complexo tabuleiro. Tabuleiro mundial mas também europeu. Entre
os devaneios mais aceitáveis da nossa velha Europa, agora pacífica como um
cordeiro, figura o de se imaginar como o continente ideal, medianeiro entre o
Novo Mundo (seu antigo filho) e a Rússia.
Mas este belo sonho é também o de uma Europa mutilada, voluntária e absurdamente
cortada dessa mesma Santa Rússia há mais de mil anos ortodoxa e tão europeia
como a mais românica ou nórdica Europa. Como é possível que a Europa tenha algum
futuro digno dos seus sonhos do passado (bons e maus), sem pensar noite e dia
nesse espaço naturalmente europeu, sem o qual, como dizia Valéry, a nossa Europa
nunca será mais do que um pequeno cabo da Ásia? Não temos que escolher entre os
Estados Unidos e a Rússia, ou digamos, entre Walt Whitman e Tolstoi. Mais nos
importa partilhar à nossa maneira a visão epicamente universal do destino humano
de que ambos foram exemplo. E, antes disso, ou a par disso, lembrarmo-nos da
nossa "velha Europa", mãe de todas as utopias universalistas e, hoje, entre
parênteses de si mesma, sem mais projecto que a pretensão de arbitrar à la
petite semaine, e segundo o impulso dos seus Napoleões virtuais, conflitos que
já não estão à altura da sua fraqueza. Ainda por cima, como criada de quarto
pressurosa e impotente do único dono do universo.
Nem Afeganistão nem Cáucaso, após a ordem unilateral instaurada depois do 11 de
Setembro merecem a nossa lamentável solicitude. Limitemo-nos a dar uma alma a um
projecto de Europa que não consegue chegar ao fim dos seus braços. O Ocidente
europeu temeu a Rússia durante sete décadas, mas nem por isso a longa e capital
história comum deixou de nos importar. Os relentos de cruzadismo que, em tempos,
essa ameaça suscitou não têm agora nem a mesma urgência nem o mesmo sentido. É
vital para nós que a nova Rússia seja o mais democrática possível, mas não
esqueçamos que o nosso ideal democrático ainda tem muito de ideal kantiano -
como o de todas as democracias do mundo. Porque nos mobilizamos (em teoria...)
tão facilmente contra a nova Rússia, como se fosse uma anti-Europa ou
anti-Ocidente, quando há muito a cercámos de Estados ainda menos democráticos
que ela e que nunca foram europeus? Não apenas por prudência um caso tão
complexo como o do Cáucaso, em que, no mínimo, as culpas são partilhadas,
escolher um dos litigantes num conflito em que um terceiro é o actor principal é
uma aberração. Só por um passado de má reputação, como numa famosa canção de
George Brassens?
Certos países europeus supõem ter o monopólio perpétuo das indignações
virtuosas. Nos seus melhores momentos o tiveram ou nós supusemos que o tinham.
Mas já não é o caso. No novo contexto planetário a exemplaridade é muito
relativa. Bem sabemos o que os custou essa pretensão de sermos, como europeus,
"a luz do mundo". Chegou o tempo da modésti, o que não é incompatível com a
dignidade. Uma certa imprensa europeia, belicista a título póstumo, lamenta que
a Europa não enfrente com determinação a crise actual, chamando à pedra o
suposto responsável por ela. Evoca-se o espectro de Munique, a eterna cobardia
das democracias. Gostariam que se repetisse o cenário da Jugoslávia ou do
Kosovo, fonte próxima desta crise. Em suma, que se pusesse a Rússia na ordem. Só
os Estados Unidos conhecem o preço dessa hipotética lição ao seu antigo
adversário, e no papel a deixam. Não sejamos mais papistas que o Papa. Os
Estados Unidos podem brincar com o fogo e disso não se têm coibido. Não vale a
pena ajudá-los numa missa que podem celebrar sozinhos. E não sem risco.»
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