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TEORIAS
DO
VALOR
E
LEGITIMAÇÃO
DA
APROPRIAÇÃO DO
PRODUTO
SOCIAL
1. O conceito de valor como
objecto de estudo.
Uma das questões que de longa data têm prendido a atenção dos teóricos
da economia política, dos críticos e dos apologéticos, é a definição do
conceito de valor, não tanto pela sua importância para as necessidades
práticas dos actores económicos e dos actores políticos mas pela função
que tal conceito desempenha na formulação duma teoria da criação do
produto social e na elaboração de instrumentos legitimatórios da sua
repartição (no caso, a apropriação privada maioritária por grupos
sociais restritos de não trabalhadores).
Desde eras remotas as sociedades organizadas
produziram instrumentos de legitimação da repartição não equitativa do
produto social; em geral, esses instrumentos eram meras decorrências da
ideologia que legitimava as diferentes posições dos indivíduos na
sociedade e sustentava o exercício do poder – baseadas, nomeadamente, em
supostos dotes inatos para liderar a produção e a organização social,
concedidos pela graça divina, geralmente evidenciados em confrontos
bélicos entre grupos ou entre comunidades diferenciadas e transmitidos
depois hereditariamente.
Com o desenvolvimento do
capitalismo e a sua ascensão à condição de modo de produção dominante, e
com a divulgação e a consolidação das ideias de que todos nascem livres
e iguais em direitos e obrigações, da laicização do poder e da
atribuição da soberania ao povo – que a exerceria através de governos
representativos – ideias consubstanciadas no moderno conceito de
democracia, os velhos instrumentos legitimatórios da apropriação privada
do sobreproduto perderam muita da sua eficácia. Para justificar as novas
formas de enriquecimento da classe social que emergia com o novo modo de
produzir e dar consistência às suas aspirações na substituição do velho
pessoal dirigente – ou mesmo para suportar as suas consignas mais
radicais de liberdade, igualdade e fraternidade propagandeadas na luta
pelo poder político – era mister encontrar novas formas de legitimação
para o juro do usurário, para o lucro do comerciante e do industrial e
para a própria renda de que passaram a viver muitos dos velhos e dos
novos senhores.
Outras formas de apropriação privada do sobreproduto,
transparentes mas nem por isso bem compreendidas, baseadas na coerção,
no costume e na tradição, e legitimadas politicamente pelo domínio do
religioso na ideologia, não exigiam ideólogos tão especializados. No
modo de produção capitalista, ao invés, o direito de apropriação do
sobreproduto baseava-se na troca de mercadorias entre intervenientes
livres e iguais e na propriedade privada dos meios de produção,
revestia-se duma forma meramente económica e aparentemente natural. O
encargo da elaboração de explicações plausíveis para o funcionamento do
novo modo de produção, criando novos conceitos económicos capazes de
substituírem outros já arcaicos ou dotando de coerência conceitos
dispersos, susceptíveis de permitirem a elaboração de novas regras
jurídicas e de novas práticas políticas que eliminassem muitos dos
constrangimentos que ainda dificultavam o seu desenvolvimento,
transferiu-se, por isso, para uma nova categoria de ideólogos
especializados: os economistas.
A tarefa não era fácil, mas também não era urgente – a
vida decorria paulatinamente como dantes, pelo que bastava ir
respondendo às necessidades que as novas práticas na produção das
condições materiais de existência colocavam. Estas novas práticas,
parecendo embora mera evolução das anteriores, tinham, no entanto, um
impacto maior sobre a natureza e a sociedade, influenciavam de forma
mais evidente o contexto da existência humana e permitiam perceber que
se viviam tempos novos e diferentes. À vanguarda da nova classe social
emergente interessava o estudo da economia e a produção de explicações
plausíveis sobre as regularidades observáveis na produção das condições
materiais de existência para além das representações do senso comum, e
aos seus ideólogos especializados incumbia identificá-las e explicá-las,
não só para dar coerência às práticas dos actores como para influenciar
a produção de instrumentos políticos favorecedores do seu
desenvolvimento e legitimadores das novas formas de apropriação de parte
do produto social.
Até aos primórdios do século XIX, quando apareceram os
primeiros estudos de conjunto sobre a economia política capitalista,
mesmo nas formações sociais mais desenvolvidas o capitalismo em ascensão
convivia com modos de produção anteriores – nomeadamente com o modo de
produção tributário[1],
cuja expressão inacabada na Europa era o modo de produção feudal, e com
o modo de produção mercantil, nas suas formas de produção artesanal
utensiliária e agrícola independentes – tornando a realidade económica e
social deveras complexa. Aqueles estudos clássicos da economia política
não só estavam marcados pela extrema dificuldade na interpretação da
complexa realidade concreta das formações sociais tomadas como seu
objecto, que não lhes permitia mais do que representações muito
restritas, como, por outro lado, estavam maculados pelos enviesamentos
derivados dos interesses de classe que representavam, das crenças
enraizadas como conhecimento válido, dos significados imaginários das
práticas presentes e do que deveriam ser as futuras, e eventualmente das
emoções induzidas pelas suas práticas pessoais e pela totalidade das
práticas.
A introdução dos conceitos modo de produção – objecto
formal-abstracto designando as formas económicas (relações técnicas e
sociais na produção) e políticas (relações sociais de produção) que lhes
estão associadas, sob que se processa a produção das condições materiais
de existência – e formação social – objecto real-concreto designando as
formas económicas e políticas existentes numa sociedade concreta – ficou
constituindo um notável progresso conceptual nos discursos sobre a
economia política, devido à genialidade de Karl Marx. A partir deles,
tornava-se menos difícil interpretar a evolução social do passado,
compreender a complexa realidade social do presente e prospectivar as
tendências da sua própria evolução.
Pelo contributo das teorias marxistas sobre a
realidade social, compreendemos hoje que em qualquer momento histórico,
numa formação social concreta, coexistem diversos modos de produção, os
mais modernos e mais produtivos emergindo dos mais antigos, colmatando
lacunas ou superando contradições internas que dificultam o
desenvolvimento destes, mas portando dentro de si as suas próprias
contradições e dificuldades, inicialmente escondidas pela promoção do
desenvolvimento das forças produtivas através do qual superam as
contradições e as dificuldades dos seus predecessores.
A existência de um qualquer modo de produção é apenas
possível em interacção com outros modos de produção, na medida em que a
sua emergência e o seu desenvolvimento se efectuam pela criação de
vantagens competitivas (económicas e sociais) em relação a outros
pré-existentes; quando aquelas vantagens se forem reduzindo, por
definhamento dos antigos competidores e por transferência da competição
para o seu próprio interior, os ritmos do crescimento diminuem e entra
em estagnação; e, quando um novo modo de produção, portador de vantagens
em relação a ele, emergir em cena ocorre a decadência e a regressão até
se transformar numa mera reminiscência. A emergência torna-se possível,
ainda no quadro das velhas relações sociais, pela introdução de novas
relações técnicas e sociais na produção, cujo desenvolvimento exige
transformações qualitativas nas relações sociais de produção dominantes.
O modo de produção capitalista – definido por Marx
para designar as relações técnicas baseadas na produção industrial e as
relações sociais baseadas no contrato de trabalho – distinguia-se de
outros modos de produção anteriores, fundamentalmente por uma nova
organização das técnicas e métodos produtivos – a conjugação do trabalho
vivo com o trabalho passado materializado em novos meios de trabalho,
bem mais potentes e versáteis, numa nova instituição produtiva, a
fábrica, que permitia uma profunda divisão do trabalho – e pela extensão
do contrato de compra e venda à força de trabalho livre – transformada
em mercadoria como qualquer outra, sob a forma de trabalho assalariado.
Estas novas relações técnicas e sociais na produção, tendo-se
constituído por evolução do mercantilismo convivente com a produção
artesanal corporativa e servil do modo de produção tributário, operavam
grandes transformações ideológicas e suscitavam a necessidade de novas
formas de legitimação política, que vieram a consubstanciar-se na mais
profunda e rápida[2]
das revoluções sociais conhecidas – a revolução burguesa.
Os dois pilares do modo de
produção capitalista – a produção industrial e o contrato de trabalho –
desenvolviam a produção até níveis dantes não conhecidos e legitimavam a
apropriação privada do sobreproduto através de um contrato de compra e
venda da capacidade para trabalhar, estabelecido entre pessoas
aparentemente livres e iguais. O contrato de compra e venda, instrumento
pelo qual se acedia à posse e uso das utilidades dos produtos alheios,
numa troca aparentemente equitativa, estendido agora à compra e venda da
capacidade para trabalhar, colocava o trabalhador na dependência do
detentor dos meios de produção, permitia organizar a produção de forma
mais eficaz e ainda constituía um progresso no plano ético, face à
extracção coerciva do sobreproduto através do tributo (sob as múltiplas
formas pelas quais este se apresentava nas diferentes formações
sociais), naturalizando a apropriação privada do produto obtido com o
concurso do trabalho alheio.
Por analogia com o
lucro comercial, a parte do produto apropriada na produção tomou também
a designação de lucro ou de valor acrescentado. Para além da intuição
prática dos capitalistas, que lhes fazia representar a dimensão do valor
pelo preço das mercadorias do mesmo tipo corrente no mercado e a
identificava como custo de produção, os ideólogos burgueses pouco
avançaram nas suas tentativas de definirem a nova grandeza valor de
troca e a nova categoria lucro ou valor acrescentado. Foi necessária a
agudeza intelectual de Marx para que fosse formulada uma definição
aparentemente fecunda da unidade do valor – o tempo de trabalho
abstracto socialmente necessário – que permitia sair das tautologias dos
discursos apologéticos da economia política capitalista para a
explicação da ocorrência do lucro e das diferentes formas em que ele se
dividia. Infelizmente, o conceito de valor formulado por Marx, pouco
diferenciado do conceito adoptado pelos ideólogos burgueses, e a unidade
que propôs para a medição da dimensão daquela grandeza – o tempo de
trabalho imediato socialmente necessário – não reflectiam a realidade do
modo de produção capitalista, no qual o valor de troca já não
representava o custo de produção e o tempo de trabalho consumido também
não era o seu único constituinte.
A concepção marxista
do valor enfermava por isso de duas fortes limitações: uma, a
absolutização da categoria valor de troca, parecendo desprezar a
distinção entretanto ocorrida entre esta e outras categorias do valor,
nomeadamente o valor de custo ou valor de produção; outra, a indefinição
acerca do que a categoria valor de troca representava, que embora
implícito não era bem compreendido. Devido a estas insuficiências e
limitações, o uso do conceito de valor da mercadoria, ao longo d’O
Capital, está eivado de ambiguidades e de contradições, sendo entendido
ora como categoria privada, correspondente ao valor de custo ou valor de
produção (neste caso, confundindo valor do produto com valor da
mercadoria em que aquele se realizará pela troca), ora como categoria
social, correspondente ao valor de troca da mercadoria (mas neste caso
identificado erradamente como valor de custo).
Enquanto o valor da
mercadoria é o seu valor de troca, valor social emergente da
concorrência de múltiplos valores particulares, englobando o valor da
sua produção e a mais-valia ou valor acrescentado, o do produto é apenas
valor de custo, valor particular resultante da participação de múltiplos
valores sociais na produção de novos produtos, englobando os diferentes
valores acrescentados passados mas não ainda o novo valor acrescentado,
que só se tornará realidade com a transformação dos novos produtos em
mercadorias. Só deste modo a definição da mais-valia como diferença
entre o valor social ou de realização das mercadorias e o valor de
produção dos produtos, marco fundamental para a compreensão do modo de
produção capitalista, teria sentido.
As limitações quanto
à concepção do valor de troca estendem-se depois à unidade que Marx
designou para a sua medida, restringindo-a ao tempo de trabalho
incorporado (ainda que apenas referido ao trabalho incorporado
legitimado socialmente). Num modo de produção em que a totalidade das
forças produtivas se adquiriam no mercado e o tempo de trabalho passado
materializado nos meios de produção representava um custo não
despiciendo, uma tal representação da unidade do valor afastava-a da
realidade objectiva. A restrição tornava discrepantes, por exemplo, os
valores de duas mercadorias nas quais estivessem incorporados os mesmos
tempos de trabalho imediato (de trabalho vivo da força de trabalho e de
trabalho materializado nos instrumentos de trabalho e nos objectos de
trabalho), mas os trabalhos materializados nos meios de produção
incorporassem diferentes tempos de trabalho passado (traduzindo-se por
diferentes composições orgânicas dos capitais).
A constatação levou-o
mais tarde à formulação do conceito de preço de produção, numa tentativa
inglória de corrigir as limitações do conceito de tempo de trabalho
incorporado. O erro residia em três níveis: por um lado, na restrição da
unidade de medida ao trabalho imediato, quando o trabalho passado
imobilizado e não consumido atingia valores não desprezáveis; por outro
lado, na atribuição da criação do sobreproduto apenas à força de
trabalho, quando ele tem origem na inter-relação da força de trabalho
com os instrumentos de trabalho, da qual resulta a extrema divisão e o
trabalho abstracto, que não permite dissociar o homem do instrumento; e,
por fim, também na concepção do valor de troca como valor de custo.
O discurso alinhado
com os interesses do proletariado, por um lado, identificando o tempo de
trabalho incorporado como componente único da unidade de medida do
valor, desprezando o trabalho imobilizado, e transformando a força de
trabalho na criadora exclusiva da mais-valia ou valor acrescentado, e,
por outro, a incompreensão do valor de troca como valor de realização
das mercadorias, distinto do seu valor de produção, macularam a genial
intuição marxista e comprometeram irremediavelmente a base teórica com
que pretendia fundamentar a sua crítica da economia política. Enredado
em tais equívocos, Marx não pôde produzir demonstrações irrefutáveis,
restando-lhe manter a crítica na base da indignidade moral representada
pela exploração com que qualificava a apropriação do sobreproduto pelos
detentores da propriedade dos meios de produção. Ele mesmo dissera que a
moral não era chamada para a crítica da economia política, mas era nela
que se fundava o seu discurso crítico.
O amplo esforço
teórico de Marx na crítica da economia política – da formulação do
conceito da grandeza valor como tempo de trabalho abstracto socialmente
necessário, à definição duma unidade de medida constituída apenas pelo
tempo de trabalho incorporado, até à identificação das contradições
intrínsecas do modo de produção capitalista (que não conseguiu
demonstrar) – não saía do âmbito duma tentativa de encontrar
justificação objectiva que desse fundamento científico ao axioma
profético que havia proclamado vinte anos antes: que ao proletariado
estava destinado suceder à burguesia na direcção da sociedade, através
da revolução proletária, e instaurar o socialismo e o comunismo.
A vastidão e a
complexidade dos temas e o aparente rigor do método e da coerência
discursiva fizeram com que durante muito tempo as teorias de Marx fossem
objecto de incensação pelos adeptos e que as críticas dos adversários
não conseguissem refutá-las cabalmente. Um pouco surpreendentemente,
foram alguns adeptos, temerariamente, que lhes descortinaram limitações
e equívocos, mas as reacções adversas suscitadas nos influentes partidos
comunistas intimidaram-nos e fizeram com que abandonassem uma via tão
difícil teoricamente quanto perigosa politicamente.
Hoje, o estudo
crítico do marxismo perdeu interesse – não só porque o acelerado
desenvolvimento das forças produtivas e as metamorfoses do próprio modo
de produção capitalista tornaram visíveis algumas limitações e equívocos
da crítica marxista, como porque os regimes políticos socialistas que
dele se reclamavam ruíram estrondosamente, mostrando a sua ineficácia e
deixando de constituir qualquer ameaça para o capitalismo privado. Numa
época de refluxo do movimento operário, por ausência de referências
ideológicas credíveis e por uma ofensiva sem precedentes nas formas de
organização local e de expansão mundial do capitalismo, retomar o
marxismo como objecto de estudo crítico – nomeadamente no que se refere
ao axioma profético da revolução proletária, às concepções do valor e da
sua unidade de medida e aos esquemas inconcludentes com que representava
a reprodução ampliada do capital – pode constituir um meio útil para
encontrar novos fundamentos ideológicos em que alicerçar as lutas
económicas e políticas dos trabalhadores assalariados.
O presente texto
sobre as teorias do valor e as formas de legitimação da apropriação do
produto social pretende ser uma modesta contribuição para esse
objectivo. Se ele conseguir fazer despertar entre nós o interesse por
estas questões e motivar o aparecimento de outros melhores contributos
cumpre o seu objectivo.
2. Diferentes categorias do
conceito valor (valor de uso, valor de troca, valor de custo ou de
produção, valor de reprodução e valor de realização).
Existem múltiplas categorias do valor. Antes de mais, o valor é uma
grandeza definida pela necessidade que um produto supre, entendendo-se
por produto um objecto, uma coisa ou um serviço. Neste sentido, é na
necessidade de um produto para atingir uma determinada finalidade que
reside o valor, e este transmite-se aos produtos pela sua utilidade para
suprirem necessidades. Assim sendo, só os produtos úteis (usados para
suprirem determinadas necessidades) têm valor, e este é uma grandeza
inerente a todos os produtos úteis cujo significado é idêntico para
todos os produtores.
Tendo todos os produtos úteis um
valor de uso eles não o têm todos na mesma dimensão, e esta varia na
razão directa da necessidade que o produto supre, ou seja, da sua
capacidade para supri-la. Esta capacidade, por seu lado, encerra três
características – a adequação do produto à necessidade, a existência
oportuna e a sua disponibilidade em quantidade suficiente – de tal modo
que quanto maior a necessidade, quanto mais oportuna a existência e
quanto menor a quantidade disponível do produto, maior o seu valor de
uso ou utilidade. Mas a necessidade que um produto supre, para além das
necessidades vitais, é por demais subjectiva, é uma construção meramente
particular e individual, e tal como ela o é o valor de uso ou a
utilidade do produto; e as três características apontadas parecem
respeitar apenas a produtos já existentes, oferta da natureza ou
produzidos sem grande esforço ou risco. O valor de uso não representa,
portanto, qualquer grandeza que esteja na origem da transformação das
coisas e dos objectos naturais em coisas e objectos produzidos.
A complementaridade das
produções de produtores distintos (colectivos ou individuais) permitindo
suprir necessidades mútuas estabeleceu nas comunidades humanas uma nova
relação social – a troca ou permuta – a qual deve ter gradualmente
substituído a força (através da pilhagem e do roubo) como forma de
acesso às utilidades detidas por outros. Nesta nova relação social,
produto da civilização, para os intervenientes (o vendedor e o
comprador) estão implícitos dois novos conceitos: primeiro, que a
utilidade de um produto resulta de ele lhes facultar outros produtos
necessários para reproduzirem a sua capacidade para produzir, e,
segundo, que a troca livre de utilidades equivalentes legitima o acesso
às utilidades alheias. O que dantes fora uma imposição ditada pela
força, legitimada depois pela tradição, constituía-se agora como um
direito[3]
regulado pela lei: o direito à participação no produto social pela
permuta livre.
Para os produtores
auto-suficientes, individuais ou colectivos, que produziam a totalidade
dos produtos que necessitavam, a determinação do valor não constituía,
eventualmente, grande preocupação. Quanto muito, as colectividades
auto-suficientes geriam a produção, o consumo, o desperdício e os
eventuais excedentes em função da produtividade natural ou da sua
própria capacidade produtiva, para que a existência não perigasse. Mas o
que produziam, por simples colheita, caça, extracção ou transformação da
natureza tinha também um valor, prévio à utilidade dos próprios
produtos, representado pelo que custava produzi-los. Este valor de custo
englobava não apenas o tempo consumido e o engenho, que não eram
ilimitados, mas também o risco, que poderia não ser pequeno. Fora do
Paraíso, portanto, os produtos sempre tiveram não só utilidade, depois
de serem produtos, como custo de produção, antes de o serem, e este
consubstanciava-se no trabalho humano neles contido.
Se na produção para auto-consumo
o produto se caracterizava por duas categorias de valor – o valor de
utilidade ou valor de uso e o valor de custo – elas não poderiam deixar
de estar presentes na troca. Agora, porém, o valor de uso determinava a
necessidade da troca mas não permitia determinar as quantidades
equivalentes em que produtos diferentes se deveriam trocar. Nesta nova
situação é de supor que os produtos se trocassem na proporção dos
respectivos valores de custo. Com o desenvolvimento das trocas, a
determinação da dimensão do valor de custo (a sua quantificação) deve
ter-se tornado uma necessidade quotidiana, de modo a poder definir-se as
quantidades equivalentes em que produtos com utilidade distinta se
trocavam entre si.
Os produtores, porém,
determinavam o custo dos seus produtos mas desconheciam o custo dos
produtos com que os trocavam; quanto muito, estimavam o custo dos
outros, mas nada lhes garantia que esse fosse o seu verdadeiro custo. E,
se para ambos os intervenientes era desconhecido o valor de custo
alheio, seria natural cada um tentar empolar o seu ou aproveitar-se das
contingências que possibilitavam atribuir aos seus produtos um falso
custo acrescido. O valor estabelecido mutuamente na troca não era, pois,
directamente decorrente da quantidade de uma grandeza pré-existente
contida nos produtos, que definisse o seu valor de custo, mas constituía
uma nova categoria do valor aceite por todos, o valor de troca. O valor
de troca é, assim, uma outra categoria do valor dos produtos úteis,
construída socialmente e emergente na troca, cuja dimensão resulta das
utilidades que os intervenientes estão dispostos (ou se vêem compelidos)
a ceder mutuamente para acederem às utilidades dos diferentes produtos
que uns e outros dispõem. Como os produtos que se trocam adquirem a
qualidade de mercadorias, o valor de troca transformou-se no valor das
mercadorias.
Pode admitir-se que a
determinação da dimensão do valor de troca tenha tido por base o valor
de custo, ou seja, a quantidade das forças produtivas onerosas que os
produtos encerram. Mas o valor de custo representa apenas o limite
mínimo do valor de troca aceitável para o produtor, abaixo do qual ele
abandona a produção transferindo-se para outro ramo ou entra em
decadência. Para dois produtores de produtos diferentes simbolizando
todas as necessidades mútuas não interessa que o valor de troca dos
produtos desça abaixo daquele mínimo, pois isso seria o suicídio mútuo,
e pode até interessar que ele seja ligeiramente superior, de modo a
satisfazer a acumulação de reservas contra imprevistos. Nesta situação,
o valor de troca é um valor de equilíbrio mutuamente aceite, que garante
a manutenção da produção e o seu eventual desenvolvimento.
O valor de custo (ou
valor de produção) designa, portanto, o valor do produto; mas para que o
produto cumpra o seu ciclo de vida como mercadoria tem de circular para
realizar-se e tem de ser consumido para ser reproduzido. É por ter custo
de produção que o produto encerra valor, e é por encerrá-lo que esse
valor se transforma em valor da mercadoria quando o produto se realiza
como tal; mas entre o valor de custo e o valor de realização existe
ainda uma outra categoria de valor, a qual faz com que os produtores se
decidam participar na produção e que assegura a sua continuidade sem os
forçar a abandoná-la: é o valor de reprodução, o valor a que a
mercadoria pode voltar a ser produzida[4].
Se o valor da mercadoria, o seu valor de realização ou valor de troca,
desce abaixo do seu valor de reprodução, situando-se embora ainda acima
do valor de produção, o produtor tenderá a procurar outro ramo; se desce
abaixo do valor de produção, o produtor será forçado a abandonar a
produção.
Estas categorias do
valor pertencem, contudo, a domínios distintos: o valor de custo ou
valor de produção e o valor de reprodução pertencem ao domínio
particular; e o valor de realização pertence ao domínio social. Aquelas
duas primeiras categorias do valor podem ser determinadas
particularmente, pela organização particular da produção e pela
disponibilidade particular para aceitar nela participar, enquanto a
última categoria, resultante da concorrência de múltiplos produtores
particulares, escapa à determinação de qualquer deles. Não sendo as
categorias do valor do domínio particular directamente dependentes da
categoria do domínio social, uma daquelas categorias, o valor de custo
ou valor de produção, é constituída por elementos pertencentes à
categoria do domínio social, o valor de realização; isto é, o valor de
produção de umas mercadorias é constituído por valores de realização de
outras, na proporção necessária.
3. Construção do valor de
reprodução das mercadorias. Fora das formações sociais arcaicas
constituídas por comunidades isoladas, é assaz improvável que mesmo no
modo de produção comunitário a produção própria suprisse todas as
necessidades. O desenvolvimento económico e social caminhou no sentido
da supressão de necessidades mútuas de produtores independentes mas não
totalmente auto-suficientes, pela complementação da produção própria com
a produção alheia, através da troca de excedentes. Sendo produtores
independentes, os produtores directos não eram totalmente
auto-suficientes, e, não o sendo, o excedente objecto das suas trocas
servia para adquirirem quer meios de produção, quer meios de consumo.
Pode admitir-se, neste caso, que o valor atribuído aos produtos
excedentes disponibilizados para a troca tenha vindo a ser representado
pelo valor de custo ou valor de produção, e, como todos assim o
representavam, o valor de qualquer produto fosse, em princípio,
determinado pelo equivalente do valor de custo do produto com que se
trocava.
Uma tal realidade social, em que
o trabalhador colectivo concreto, restrito ao produtor e à sua família,
encerrava simultaneamente a heterogeneidade dos trabalhos concretos
necessários à produção faz supor um nível muito limitado do
desenvolvimento das forças produtivas, como se elas se resumissem à
força de trabalho própria, a instrumentos de trabalho produzidos pelo
próprio e a meios de produção que a natureza oferecia, e obriga a
reduzir as mercadorias à categoria única de bens de consumo (para
reprodução da força de trabalho ou para consumo sumptuário). Esta
hipotética realidade social eventualmente nunca existiu, mas um tal
raciocínio pode estender-se a formas de produção em que alguns meios de
trabalho, materiais ou animais, fossem adquiridos no mercado, mas
aqueles pela sua longa duração e estes pela sua reprodução acabassem por
ter um custo despiciendo e, deste modo, uma comparticipação
negligenciável na formação do valor de produção dos produtos do
excedente trocados no mercado. Assim sendo, era bem provável que o valor
atribuído aos produtos excedentes disponibilizados para a troca fosse
determinado pelo tempo de trabalho particular necessário que encerravam.
E se objectos do trabalho
(matérias-primas e subsidiárias) e força de trabalho eram obtidos no
mercado para complementar a capacidade produtiva do produtor
independente não autónomo, o valor do produto podia ainda continuar a
ser representado pelo valor de custo, incluindo este, agora, os custos
daqueles elementos na proporção em que fossem consumidos. Desde que o
produto obtido fosse equitativamente repartido pelos detentores de
componentes das forças produtivas participantes na produção, retribuindo
à mesma taxa o trabalho próprio e o trabalho alheio, o valor podia ser
representado pelo valor de custo ou valor de produção, mas a unidade em
que se media já não era o tempo de trabalho particular necessário,
porque na sua constituição entravam outros elementos de que se conhecia
o valor de troca mas não o tempo de trabalho necessário. O que podia
eventualmente ser medido pelo tempo de trabalho necessário era o produto
acrescentado.
Quem poderia garantir, mesmo
naquelas formas de produção, que a equivalência estabelecida na troca,
estimada em função do valor de custo, embora aceite por todos,
correspondia à realidade? Basta pensar nas oscilações do valor de troca
de um produto que acompanham a produção extra de um excepcional ano
agrícola ou a reduzida produção provocada por qualquer calamidade, nas
oscilações do valor de troca dos produtos oriundos do comércio longínquo
ou nas dos meios de trabalho inovadores ou obsoletos para compreendermos
que a troca dos produtos habitualmente no mercado, mesmo que
constituindo apenas excedentes de produção, só eventualmente se
realizaria pelo seu valor de custo ou valor de produção. O caso dos
produtos adquiridos em mercados longínquos e transfigurados como
mercadorias para colocação noutros mercados através do comércio de longa
distância, e cujas diferenças entre valor de custo ou de produção e
valor de troca eram abismais, proporcionando taxas de lucro
exorbitantes, ilustra bem a inexistência de uma correspondência directa
entre o valor de produção e o valor de realização das mercadorias. Esta
realidade era justificada, em último caso, pelas relações de força
social estabelecidas na troca, e existia independentemente dos juízos
morais que os intervenientes pudessem fazer acerca dela.
De há muito, portanto, o valor
de troca se deve ter distinguido do valor de custo, primeiro nuns ramos
de actividade, depois noutros, e o diferencial em que essa distinção se
materializou teve porventura múltiplos fins e legitimações. Um desses
fins foi sem dúvida a acumulação, a reaplicação produtiva, que permitiu
o desenvolvimento mais acentuado das forças produtivas e proporcionou a
existência contemporânea de diversos modos de produção efectuando trocas
entre si, uns em que os produtores directos fossem simultaneamente os
produtores e detentores da totalidade dos meios de produção, outros em
que eles fossem apenas detentores dos meios de trabalho (ou somente da
força de trabalho), e outros em que nem sequer fossem detentores da
propriedade da sua própria força de trabalho. Cada um destes modos de
produção contribuía desproporcionalmente para as necessidades sociais,
baseava-se em diferentes tecnologias e relações sociais de produção, e
eventualmente especializava-se em determinados tipos de produtos,
detendo por isso diferente importância social. A concorrência entre eles
resultava em vantagens competitivas de um em relação aos outros,
possibilitando a sua ascensão a modo de produção dominante.
Uma organização social complexa
não é determinada apenas pelas vantagens competitivas na organização da
produção em determinados sectores – pois estas não são de imediato
apreendidas e representadas pela ideologia dominante, não são por todos
igualmente desejadas, por chocarem com interesses de longa data
estabelecidos (nos mesmos ou noutros sectores), e não são passíveis de
extensão e de generalização a todos os sectores da produção – mas não
restam dúvidas de que a conflitualidade que elas suscitam adquiriu um
papel cada vez mais importante na evolução social. E a expansão do
mercado, pela intensificação e diversificação da produção e pela mais
fácil circulação das mercadorias; o aparecimento da concorrência entre
distintos produtores (agrícolas e utensiliários); e outras ocorrências
sociais devem ter permitido a diversificação da organização técnica e
social da produção, que por seu lado possibilitaria a diferenciação dos
custos de produção das mercadorias da mesma espécie, criando as
condições necessárias para a consolidação de um diferencial entre o
valor de produção e o valor de realização no mercado.
A disponibilização em maior quantidade das forças
produtivas e a sua circulação entre os diversos sectores produtivos
possibilitou o surgimento e favoreceu o desenvolvimento de outras formas
de organização técnica e social da produção de que resultou o
crescimento da eficiência produtiva. Comparada com a eficiência
produtiva de produtores independentes que apenas destinavam ao mercado o
excedente da sua produção, a maior eficiência produtiva obtida por
produtores dedicados à produção para o mercado traduzia-se por redução
do custo de produção e pelo crescimento do diferencial entre este e o
valor de realização das mercadorias. A diferença entre valor de produção
e valor de realização, obtida pelo decréscimo do valor do produto,
aparecia aos olhos do produtor sob a forma de seu contrário, na medida
em que passava a produzir uma mercadoria com um custo menor e com o
mesmo custo total produzia maior quantidade de mercadorias. Uma poupança
no custo transformou-se para o produtor num acréscimo de valor, numa
mais-valia, valor acrescentado ou lucro (por analogia com o lucro
comercial obtido na circulação das mercadorias).
O lucro, a mais-valia ou o valor acrescentado,
resultando afinal da diferença entre o valor de realização e o valor de
produção, passou a ser uma categoria económica sustentada pelo aumento
da eficiência produtiva – patente no crescimento da quantidade de
mercadorias disponível e do capital acumulado e investido em novos meios
de produção que absorviam a força de trabalho livre subaproveitada – e a
sua apropriação privada pelos detentores das forças produtivas, coisa
para eles bem natural, foi progressivamente consolidando uma nova classe
social emergente. Demoraria, porém, até que os ideólogos desta nova
classe formulassem instrumentos legitimatórios, para além das invocadas
capacidades empreendedoras e dos méritos, que tornassem socialmente
aceite a nova forma de apropriação privada de parte do produto do
trabalho alheio.
Quando a produção é organizada com destino ao mercado,
os produtores não produzem apenas produtos mas mercadorias, e essa
transfiguração que passa a presidir à produção opera igualmente uma
transfiguração do valor. O valor da mercadoria deixa de ser representado
pelo valor do produto (o seu custo de produção) e passa a sê-lo pelo
valor que os produtores estimam poder ser o seu valor de realização, o
qual lhes permitirá continuar a produção, isto é, um valor que assegure
a reprodução das mercadorias. Este valor de reprodução tem em conta não
apenas o valor das forças produtivas consumidas mas também o valor
imobilizado nos meios de produção duradouros não imediatamente
consumidos e que tornou possível a produção; é construído aplicando ao
valor de produção uma margem de valor acrescentado; mas é ainda um valor
particular, estimado pelo produtor em função do custo do produto e do
valor adiantado que tornou possível a produção.
Porque a produção não se torna possível apenas pelo
valor consumido nos produtos (valor dos meios de produção –
matérias-primas e subsidiárias e amortização dos meios de trabalho,
correspondente ao desgaste estimado – e da força de trabalho), mas
requer a imobilização de valor em meios de produção duradouros, que não
são consumidos na totalidade imediatamente, o detentor dos meios de
produção, que adiantou aquele valor, espera assegurar, pela repartição
do produto, a compensação da parte do valor imobilizada. Se pediu de
empréstimo o valor adiantado para tornar possível a produção, pagará
juro pelo risco do prestamista usurário; e como é, simultaneamente,
prestamista dos seus anónimos consumidores, daqueles que consumirão as
mercadorias produzidas, reclama para si também um juro pelo risco a que
se sujeita. Deste modo, o juro cobrado pelo detentor dos meios de
produção incide sobre o capital e o seu juro; e, como os riscos de um e
de outro prestamista são distintos, sendo maior o risco do produtor, que
não possui garantias sobre a realização da produção no mercado, a taxa
de juro a que se sente com direito tende a ser maior do que a cobrada
pelo usurário.
Este novo juro produtivo é apropriado sob a forma de
acréscimo ao valor de custo dos produtos – já que o valor tem por função
a quantificação da produção para tornar possível a efectivação do
direito à participação no produto – e aparece como valor de custo de
imobilização no valor de reprodução das mercadorias, realizando-se com
elas no mercado. O valor acrescentado representa, portanto, um custo de
imobilização, sob a forma de juro produtivo sobre o capital imobilizado[5]
e sobre o juro bancário, e a sua taxa tende a ser determinada pelas
condições concretas em que se efectua, e depois se realiza no mercado,
uma produção concreta. Este é um juro estimado, com base no qual é
determinado o valor de reprodução das mercadorias, e, sob pena de
abandonar a produção, o produtor espera que o valor de realização
daquelas seja no mínimo coincidente com o valor de reprodução. Mas o
lucro, o juro efectivo, e a sua taxa dependem do valor de realização das
mercadorias (individualmente e da proporção da produção realizada).
4. Construção do valor de
realização das mercadorias. Em geral, o valor particular de uma
mercadoria é o seu valor de reprodução e o valor social é o seu valor de
realização. Nada garante, porém, que as mercadorias da mesma espécie, o
mesmo tipo de produtos que se apresentam no mercado para a troca, tenham
o mesmo valor particular. Umas, produzidas com os instrumentos e as
técnicas usuais dominantes, e com a extensão e a intensidade do trabalho
habituais, têm um determinado valor particular; outras, produzidas de
forma mais eficiente, têm um valor particular inferior; outras, ainda,
produzidas de formas mais arcaicas do que as primeiras, têm um valor
particular superior. Os diversos valores particulares das mercadorias
proporcionam-lhes diferentes oportunidades de realização no mercado e
determinam a sua contribuição para o consumo social com proporções
diferentes.
As oportunidades de realização
de diferentes mercadorias da mesma espécie concorrentes no mercado
variam fundamentalmente em função dos seus valores de reprodução: as
produzidas com menor valor de reprodução terão maior oportunidade de
realização no mercado e poderão realizar-se em maior quantidade; as
produzidas com maior valor de reprodução terão menor oportunidade de
realização. Algumas destas últimas, se o desvio face aos diversos
valores de reprodução for acentuado, estão condenadas ao insucesso no
mercado e ficarão por vender, obrigando os produtores a abandonarem a
sua produção ou a melhorá-la, pelo menos até equipararem o seu valor de
reprodução a um valor social que torne possível a sua realização no
mercado. Manter ou ampliar as oportunidades de realização das
mercadorias e, com isso, manter ou ampliar o valor acrescentado e o
lucro, é o factor determinante para o desenvolvimento da melhoria da
eficiência produtiva e para a redução do custo de produção e do valor de
reprodução das mercadorias.
Devido à eventual diversidade dos valores de
reprodução das mercadorias concretas de uma espécie, em condições de
adequação equilibrada da produção ao consumo os seus valores de
realização tendem também a ser diversificados, de tal modo que não
existe um valor social único de uma espécie de mercadorias. Este é um
conceito abstracto, que poderia ser calculado como valor médio
ponderado, resultante do concurso dos diversos valores de realização das
mercadorias singulares da mesma espécie e da proporção da quantidade
parcial com que cada uma contribui para a quantidade total das
mercadorias da espécie, se quantidades parciais e respectivos valores
pudessem ser conhecidos com fiabilidade. Por isso, o produtor toma para
comparação da viabilidade da sua produção os valores sociais ou de
realização das mercadorias concretas com que pretende concorrer para
disputar quota de mercado, e assim determina o valor de realização
mínimo aceitável das suas. Deste modo, o valor de realização de uma
mercadoria concreta de uma espécie é determinado pelas condições
concretas da concorrência entre produtores diversos e pode coincidir ou
não com o valor de reprodução determinado pelo seu produtor.
Para aproveitar oportunidades acrescidas de realização
da produção e ampliar a sua quota do mercado, um produtor mais eficiente
procurará realizá-la por um valor inferior ao valor mais baixo do
mercado; se este valor de realização coincidir com o valor de reprodução
determinado ele realizou o valor acrescentado previamente esperado; mas
se o valor de realização que conseguir for superior ao valor de
reprodução ele realizou um valor acrescentado superior e um super-lucro.
Se o consumo social se manteve e o volume da produção realizado
correspondeu a um crescimento da sua quota de mercado, alguém da
concorrência perdeu quota de mercado e realizou um valor acrescentado
inferior ao esperado. Não existe, por isso, uma correspondência directa
entre valor de reprodução e valor de realização das mercadorias, isto é,
entre o valor particular e o valor social duma mercadoria concreta de
uma espécie, já que este oscila em função das oportunidades de
realização. O produtor espera que o valor social das suas mercadorias
não seja inferior ao valor particular, ou valor de reprodução que
determinou, correspondente ao somatório do valor do custo de produção e
do valor acrescentado (representando o custo do capital imobilizado), e
lhe permita realizar o lucro esperado[6].
5. Valor acrescentado, lucro e
formas de repartição do produto.
O marxismo
representou o valor acrescentado como resultante da diferença entre a
eficiência social média e a diversa eficiência particular com que são
produzidas as mercadorias da mesma espécie. Apesar de nunca ter
explicitado bem o próprio conceito de valor social unitário de uma
espécie de mercadorias, pode aceitar-se que este seria determinado pelo
valor unitário médio ponderado das mercadorias dessa espécie, resultante
da proporção com que as quantidades parciais e respectivos valores das
mercadorias provenientes de diferentes produtores concorrem para a
quantidade total dessas mercadorias. Deste modo, o valor social médio
corresponderia ao que o marxismo define como valor social necessário
(ou, usando a sua terminologia, como tempo de trabalho abstracto
socialmente necessário), e o valor acrescentado seria a diferença entre
ele e o valor de realização no mercado de uma mercadoria concreta dessa
espécie.
Para além de não existir identidade entre os diversos
valores de realização das mercadorias concretas de uma espécie e o valor
social dessa espécie de mercadorias, e de os diversos valores de
realização das mercadorias terem uma existência real-concreta e o valor
social de uma dada espécie de mercadorias não ter existência
real-concreta, ser um conceito formal-abstracto[7],
a representação marxista opera uma inversão da realidade, dado que são
os diversos valores de realização das mercadorias concretas de uma
espécie que determinam aquele hipotético valor social único e não este
que os determina a eles. Os valores de realização das mercadorias
concretas duma espécie são determinados pelas condições concretas da
concorrência na produção e na realização das mercadorias, na medida em
que os produtores concretos concorrem entre si disputando quota de
mercado, e o valor acrescentado não corresponde à diferença entre aquele
hipotético valor social médio e o valor particular, mas entre os valores
social e particular concretos.
O valor acrescentado representa, para o detentor dos
meios de produção, um custo suplementar para a reprodução das
mercadorias que lhe é devido pelo capital imobilizado, um juro produtivo
comparável ao juro do prestamista. A legitimação da apropriação do valor
acrescentado é justificada pelos méritos empreendedores e pelo risco da
realização da produção e do capital imobilizado, mas a forma como o
detentor dos meios de produção efectua a contabilidade da taxa de
rentabilidade, fazendo incidir o lucro continuamente sobre o mesmo
capital como se ele não fosse consumido, apesar da amortização que
realiza e integra como desgaste no valor de custo da produção, mostra
que a nova classe de prestamistas pede meças à antiga choldra de
usurários banqueiros – esta havia convertido dinheiro em capital, aquela
converteu produtos em mercadorias e estas em capital – e sob o fetiche
do valor de troca passou por sua vez a apropriar-se de parte substancial
do produto obtido com o concurso do trabalho alheio e a viver à conta
deste rendimento.
Na perspectiva do trabalhador detentor da força de
trabalho, o valor acrescentado constitui a forma sob a qual se realiza a
repartição desigual do produto entre si e o não trabalhador detentor dos
meios de produção. Apesar de se poder reconhecer que os meios de
produção imobilizados e não consumidos têm um valor que não pode ser
desprezado, e que a sua disponibilização para a reprodução das
mercadorias e o risco daí advindo devem ser retribuídos, fora deste
consenso não há como satisfazer os interesses divergentes destas duas
classes sociais na repartição do produto social senão pela correlação
das suas forças nas lutas em que se vão envolvendo em múltiplos campos.
Uma correlação de forças favorável aos detentores dos meios de produção,
resultante da sua condição de classe dominante e da criação de um
aparelho de Estado destinado a zelar pelos seus interesses, promove e
assegura uma repartição desigual do produto social. São portanto as
lutas das classes que se desenrolam quotidianamente, e só elas, travadas
em condições tão desvantajosas para os trabalhadores, que podem alterar
os termos da repartição do produto; outra perspectiva é mera ilusão.
Representando uma categoria do valor remunerando o
risco do capital imobilizado, o valor acrescentado estimado para
determinar o valor de reprodução das mercadorias varia com o capital
investido, aumentando com a parte dele imobilizada. Como, por outro
lado, diferentes relações dos valores de capital fixo e de capital
variável, traduzidas por diferentes composições orgânicas do capital,
proporcionam em geral diferentes produtividades (ou, o que resulta no
mesmo, diferentes valores de custo da produção), favoráveis às maiores
composições orgânicas, a taxa de valor acrescentado (relação entre o
valor acrescentado e o valor de custo da produção) cresce com a
composição orgânica do capital. Deste modo, para remunerar com taxas de
lucro similares capitais centralizados em diferentes composições
orgânicas são aplicadas ao valor de custo da mercadoria diferentes taxas
de valor acrescentado, as quais efectivam uma repartição desigual do
produto entre os detentores dos meios de produção dos diversos sectores
e ramos produtivos, favorável aos sectores e ramos de maior composição
orgânica. Para além de efectivar a repartição desigual entre o
trabalhador e o não trabalhador, o valor acrescentado é também a forma
através da qual se efectua a repartição do produto entre os membros da
classe dos não trabalhadores detentores dos meios de produção.
O lucro é apreendido com um duplo significado. Por um
lado, representa a parte do valor acrescentado efectivo apurado após a
realização da produção no mercado, deduzido de custos de operação não
produtivos, e neste caso toma a designação de lucro operacional, lucro
de exercício e margem de lucro (tomando a sua relação com o custo de
operação as designações de taxa de lucro operacional, taxa de lucro de
exercício e taxa de margem de lucro). Por outro lado, representa a
remuneração do capital investido (capital consumido e capital
imobilizado), neste caso sob a forma de taxa de lucro total. Na medida
em que o lucro operacional é o valor acrescentado deduzido de custos não
produtivos, a taxa de valor acrescentado é maior que a taxa de lucro
operacional; na medida em que a taxa de lucro operacional relaciona o
lucro apenas com o capital consumido e a taxa de lucro total o relaciona
com o capital investido, aquela é forçosamente maior que esta. A procura
da obtenção de maiores taxas de lucro total é o incentivo do capital.
A amortização do capital investido, pela integração do
capital consumido no custo de produção, reduz o volume do capital
imobilizado, e ao fim de uns tantos ciclos produtivos a amortização
acabará por anulá-lo e tê-lo-á restituído na totalidade. Se durante
esses ciclos produtivos se mantém a taxa de lucro operacional, o que é
por demais verosímil, a taxa de lucro total vai crescendo, dado que
incide sobre um capital imobilizado cada vez menor. Verifica-se, porém,
apesar da amortização contínua, que o cálculo da taxa de lucro é
efectuado sobre o capital investido como se este não fosse sendo
reembolsado, escondendo assim uma taxa de lucro crescente. Por outro
lado, quando um novo investimento é efectuado através do re-investimento
de parte dos lucros, pela chamada acumulação, sem recurso a capitais
particulares, o novo capital total é tido como novo capital particular,
camuflando a auto-reprodução do capital. Para a legitimação da
apropriação do valor acrescentado como remuneração do capital é
indiferente a origem deste, seja oriundo da poupança ou constitua mera
reaplicação do lucro; o sacrossanto capital, indiferente à fonte de onde
provenha, reclama permanentemente os seus direitos.
Pela sua construção e pelas representações do seu
significado, a taxa de lucro total é um dos grandes fetiches da economia
política. Por um lado, é construída pela relação entre lucro operacional
e capital investido, na qual este nunca é amortizado, e neste caso não
passa de um indicador da rendibilidade anual do capital; por outro lado,
sendo apresentada como móbil do capital, esconde a sua taxa de
acumulação – a relação entre o lucro acumulado e o capital investido – o
que de facto interessaria conhecer. É esta – reflectindo a
auto-reprodução ampliada do capital – e não a taxa de lucro total, que
constitui o grande indicador do crescimento da riqueza social. O lucro e
as suas diversas taxas, por seu lado, justificados em nome da
remuneração do risco de realização da produção e da imobilização do
capital, quando este constitui apenas uma sua fugaz legitimidade
inicial, não passam de formas de legitimação da apropriação desigual do
produto social pelos detentores dos meios de produção.
6. Valor e preço.
Os produtos têm valor
não só pela utilidade como pelo custo, e enquanto a quantificação do
valor de utilidade é por demais subjectivo o valor de custo é passível
de ser quantificado, porque, em último caso, o que os produtos encerram
é trabalho humano, ou, melhor, tempo de trabalho humano dos mais
diversos tipos e sob as mais diversas formas. Como quantificar, porém,
as diferentes categorias do valor das mercadorias, do valor de produção
ao valor de realização, que já não correspondem ao tempo de trabalho que
encerram? Este foi o problema magno com que se debateram os ideólogos
para legitimarem de forma satisfatória a apropriação privada do
diferencial entre o valor das mercadorias e o valor dos produtos, após a
produção para o mercado ter suplantado a troca de meros excedentes.
O lucro do comerciante e o juro
do agiota existiam desde tempos remotos, provenientes da circulação das
mercadorias e do dinheiro nas economias mercantis, e os mestres de
ofício, os artesãos e os agricultores independentes que antecederam o
capitalista industrial e agrícola também devem ter arrecadado o seu
lucro produtivo. Para além duma necessidade especulativa de compreender
a realidade económica, ou mesmo de a regular melhor, a ocorrência de
taxas de lucro produtivo diferenciadas, característica dos períodos de
transição devido à emergência de novos modos de produção mais
eficientes, deve ter constituído um importante factor de motivação para
a produção de explicações plausíveis para o conceito de valor de troca e
para a legitimação do lucro.
Com a generalização
da mercantilização da produção, e, mais acentuadamente, com a
generalização da conversão das forças produtivas em mercadorias, o
conceito de valor sofreu diversas transmutações, passando a
diferenciar-se por categorias: valor de custo ou de produção, valor de
reprodução e valor de realização das mercadorias no mercado. Esta
diferenciação do valor era de longa data conhecida dos mercadores,
classe social dedicada à compra de produtos (em mercados distantes ou
próximos) e à sua transformação em mercadorias pela venda, e, como o seu
objectivo não era a troca imediata de umas mercadorias por outras, o
valor das mercadorias exprimia-se em geral por uma equivalência em
metais preciosos ou pela sua forma monetária, designada por preço. O
preço, como valor relativo face ao de uma mercadoria de aceitação geral
(ou, pelo menos, mais alargada), era a forma de expressão prática do
valor de troca.
O preço não é mais do
que a expressão da proporção entre os valores de duas mercadorias. Se
uma delas, por exemplo, de natureza simbólica ou monetária, é designada
como equivalente geral para facilitar as trocas, permitindo
diversificá-las e diferi-las no tempo, e o seu valor é tomado como
padrão ele passa a constituir a unidade de medida prática do valor.
Deste modo, o preço é uma forma de expressão da dimensão relativa do
valor; e porque as categorias do valor que se comparam são categorias
sociais (quer da mercadoria cujo valor se pretende determinar, quer da
unidade de medida do valor), o preço é um valor social relativo,
estabelecido em função do valor de uma mercadoria universal que se tomou
como padrão (seja ele o seu valor de produção, o valor de realização ou
um valor meramente facial ou forçado, como é, neste último caso,
modernamente o da moeda).
Os preços das
mercadorias devem, em princípio, expressar os seus valores, mas como
forma de expressão do valor relativo face ao de uma mercadoria padrão
tomada como unidade de medida eles sofrem não só as variações dos
valores das mercadorias como também as do valor da mercadoria padrão. A
moeda, enquanto mercadoria padrão universal, e o dinheiro, enquanto sua
expressão material, contudo, é uma mercadoria singular: por ser
produzida em regime de monopólio, o seu valor facial é definido
arbitrariamente pela entidade emissora, que o pode fixar bem longe do
valor de produção; por ser mercadoria e, por isso, objecto de
transacções, pode ser alvo de especulações – nomeadamente pelo
entesouramento temporário reduzindo a sua disponibilidade no mercado e
pela oscilação da taxa de juro e de câmbio – que distorcem o seu preço.
Deste modo, os preços das mercadorias são influenciados não apenas pelo
seu valor social mas pelo valor social da mercadoria universal tomada
como padrão de medida, mesmo que o valor nominal desta não se altere.
Seja pelo
entesouramento temporário; seja porque os detentores do dinheiro – as
entidades emissoras ou aqueles que o disponibilizam a crédito para
outros – cobram igualmente um lucro (os primeiros, a troco da produção e
da substituição por novos exemplares devido ao desgaste sofrido pelo
uso; os segundos, a troco de remuneração pelo risco do reembolso),
designado por juro, e este sofre variações na sua taxa; seja, ainda,
porque os valores relativos das diferentes moedas nacionais, ou destas
face a uma moeda tomada como meio de pagamento internacional, sofrem
também variações, o valor de troca do dinheiro sofre oscilações
(apreciações e depreciações), mesmo sem alteração do seu valor facial[8].
As oscilações do preço do dinheiro reflectem-se, por seu lado, na
expressão do valor relativo das diferentes mercadorias, nos mercados
nacional e internacional, devido aos desfasamentos no ajustamento dos
respectivos preços ou à sua variação não proporcional, e deste modo
distorcem os anteriores equilíbrios entre os valores relativos e a
repartição do produto social, formando novos equilíbrios temporários.
O valor de produção
das mercadorias, resultante do somatório da parte proporcional dos
valores das mercadorias consumidas na produção, tal como o valor de
reprodução, resultante da incidência sobre aquele de uma margem de
mais-valia ou de valor acrescentado, sendo expressos sob a forma preço
sofrem oscilações que não poderão deixar de se reflectir no valor de
realização das mercadorias ou seu preço de realização. A forma preço de
expressão dos valores das mercadorias não só distorce a dimensão
relativa dos valores como permite mascarar os próprios constituintes da
categoria primeira do valor – o valor de custo ou valor de produção – a
partir da qual se formam as restantes categorias, contribuindo para
transformá-las em algo de etéreo que escaparia à capacidade de
compreensão do comum dos mortais.
7. Concepções marxistas do
valor. Marx
preocupou-se pouco com a definição do conceito de valor, e dele apenas
considerou duas categorias: o valor de uso e o valor de troca. Para si a
categoria valor de troca representava o valor das mercadorias e não
passava do “modo necessário de expressar-se o valor ou a forma de este
manifestar-se”[9],
não compreendendo que o valor de troca constituía uma forma de
repartição do produto. Esta representação, redutora do significado e
função da categoria valor de troca, não suficientemente compreendida,
impediram Marx de romper com as representações burguesas que
identificavam o valor de troca com o valor de custo das mercadorias e
levaram-no depois à invenção de uma outra categoria do valor – o valor
de custo social – destituída de qualquer utilidade operatória.
Para os capitalistas, como para os seus ideólogos, não
constituía preocupação a definição do conceito valor; àqueles, como
detentores dos meios de produção e da capacidade para trabalhar de
outros (sob a forma de contrato de aluguer), encaravam todo o produto
como sua propriedade e apenas se interessavam pelos aspectos práticos do
conceito; a estes, dedicados embora à especulação intelectual,
interessava-lhes mais a naturalização das práticas do que a produção de
explicações para a sua existência. Uns e outros reduziam o valor à
categoria de valor de troca e identificavam-no como custo das
mercadorias, e os ideólogos especializados limitavam-se a procurar
identificar os constituintes do custo para assim justificarem o valor.
Um dos melhores representantes da ideologia económica burguesa, Adam
Smith, identificara o trabalho humano como o constituinte do valor das
mercadorias, definindo mesmo o valor do trabalho como sua unidade de
medida; e o mais importante deles, David Ricardo, indo um pouco mais
além, definira-o como o tempo de trabalho consumido na produção.
Para além de procurarem a definição do conceito pelos
seus constituintes, Smith e Ricardo, no seu tempo, tomavam como presente
uma realidade que era já passado, na qual o trabalho imediato fora o
único dos componentes onerosos das forças produtivas, e as suas
construções ideológicas da economia baseavam-se nesse facto passado. Na
época, a partir dos primórdios do século XIX, o trabalho imediato não
constituía já o único componente oneroso das forças produtivas, e se
mantinha eventualmente ainda a característica do mais oneroso na
estrutura dos custos de produção mais tarde ou mais cedo acabaria por
perdê-la. Por outro lado, o valor não é definível pelo valor dos seus
eventuais constituintes, como dizia Smith caindo numa tautologia
grosseira, nem os constituintes do valor de troca se resumiam ao tempo
de trabalho imediato, como afirmava Ricardo intentando reduzi-los a uma
grandeza física.
Partindo das concepções
deformadas da economia política clássica, que não procuravam a definição
do conceito de valor mas apenas a legitimação da categoria valor de
troca, reduzindo-a a um somatório de constituintes físicos, Marx
enveredou igualmente pela definição duma unidade de medida do valor das
mercadorias. Na esteira da economia política clássica, julgou ver no
valor apenas a materialização de trabalho humano abstracto imediato
consumido na produção: “Como valores de uso, as mercadorias são, antes
de mais nada, de qualidade diferente; como valores de troca, só podem
diferir na quantidade, não contendo portanto nenhum átomo de valor de
uso. Se prescindirmos do valor de uso da mercadoria, só lhe resta ainda
uma propriedade, a de ser produto do trabalho. (...) Um valor de uso ou
um bem só possui, portanto, valor, porque nele está corporificado,
materializado, trabalho humano abstracto”[10].
O primeiro dos contributos de Marx foi a
conceptualização da diversidade e heterogeneidade do trabalho concreto –
o trabalho indiferenciado, o trabalho qualificado e o trabalho complexo
– como trabalho abstracto simples, homogeneizando assim o que era
heterogéneo; e, depois, a uniformização da diversidade dos tempos de
trabalho incorporados num produto pela sua redução a um tempo
socialmente necessário. Assim operacionalizado, o conceito definiria o
tempo de trabalho abstracto médio com que numa determinada formação
social, numa época ou período definidos, era produzido um determinado
produto, podendo constituir a unidade de medida do valor. Embora a
determinação do tempo de trabalho abstracto socialmente necessário não
fosse possível (porque implicava o conhecimento da contribuição das
quantidades parciais de diferentes tempos de trabalho abstracto
particulares para a quantidade total dos produtos de determinado tipo),
Marx julgou ter satisfeito, deste modo, as condições necessárias e
suficientes para tornar objectivo o padrão ou a unidade de medida do
valor de troca.
Se para Marx “o que determina a
grandeza[11]
do valor, portanto, é a quantidade de trabalho socialmente necessário ou
o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor
de uso”[12],
ele admitia a sua ponderação por um outro factor que o alterava, já que
de outro modo “a grandeza do valor de uma mercadoria permaneceria,
portanto, invariável se fosse constante o tempo de trabalho requerido
para sua produção (...) (e) este muda com qualquer variação na
produtividade (força produtiva) do trabalho”. Como “a produtividade do
trabalho é determinada pelas mais diversas circunstâncias, entre elas a
destreza média dos trabalhadores, o grau de desenvolvimento da ciência e
sua aplicação tecnológica, a organização social do processo de produção,
o volume e a eficácia dos meios de produção e as condições naturais
(...) a grandeza do valor de uma mercadoria varia na razão directa da
quantidade e na inversa da produtividade do trabalho que nela se aplica”[13].
A abstracção metodológica tempo
de trabalho abstracto socialmente necessário à produção, com que
pretendia responder à necessidade de objectivação do valor de troca, não
tomava em consideração as transformações concomitantes do conceito de
valor efectuadas pelo modo de produção capitalista, que influenciavam a
produção e a troca das mercadorias e determinavam o seu valor de
realização no mercado. Apesar do mercado, pela concorrência dos
produtores particulares, fixar o valor social das mercadorias não porque
fosse uma propriedade imanente dos produtos mas como nova propriedade da
produção emergindo na troca, que acabava por ser estabelecida pelas
relações sociais que regulam a produção e a realização das mercadorias,
Marx não escapou ao contexto ideológico dominante, que em nome do
racionalismo e duma pretensa objectividade tendia a reduzir conceitos
sociais a grandezas físicas, despojando-os de referenciais éticos ou
morais e tentando naturalizá-los.
Na perspectiva marxista, que
Engels viria a resumir claramente, todas as regulações que o mercado
efectuava, através da livre concorrência, determinavam o tempo de
trabalho socialmente necessário: “Na actual sociedade capitalista, cada
capitalista industrial produz por sua livre vontade o que quer, como
quer e quanto quer. A quantidade socialmente exigida continua a ser para
ele uma grandeza desconhecida, e ignora tanto a qualidade como a
quantidade dos objectos procurados. (...) Como se concilia esta
contradição? Pela concorrência. E como chega ela a esta solução?
Simplesmente depreciando abaixo do seu valor de trabalho as mercadorias
não utilizáveis pela sua qualidade ou quantidade no actual estado da
procura da sociedade, e fazendo sentir aos produtores, desta forma
indirecta, que têm em fábrica artigos absolutamente inutilizáveis ou que
os fabricaram em quantidade inutilizável, supérflua”. Assim, “(...) os
contínuos desvios dos preços das mercadorias em relação aos (seus)
valores (...) são a condição necessária e a única pela qual o valor das
mercadorias pode existir. Só pelas flutuações da concorrência, e,
consequentemente, dos preços das mercadorias, é que se realiza a lei do
valor na produção das mercadorias e a determinação do valor pelo tempo
de trabalho socialmente necessário se torna uma realidade”[14].
Marx representava
correctamente o valor de troca como “modo necessário de expressar-se o
valor ou a forma de este manifestar-se”, emergindo portanto na troca das
mercadorias. A troca no mercado realizava não só a adequabilidade da
mercadoria como transformava outras categorias do valor em valor de
troca, nomeadamente, a transformação do valor de reprodução (o valor
particular da mercadoria) em valor de troca (o valor social da
mercadoria); e o próprio valor de reprodução era já uma transformação do
valor de custo de produção ou valor do produto. Apesar destas
transformações do valor operadas com a emergência do modo de produção
capitalista, Marx porfiou na identificação de uma unidade de medida que
eventualmente apenas poderia exprimir o valor do custo de produção ou
valor do produto. Mas o próprio valor do produto apenas se poderia
exprimir em tempo de trabalho abstracto nele materializado se a produção
se realizasse apenas com o concurso de produtos; nesse caso, não só o
valor particular como o valor social de um produto se poderiam exprimir
pelo tempo de trabalho abstracto necessário.
O objectivo de Marx,
porém, não era determinar o valor de custo de produção ou valor do
produto mas o valor de troca no modo de produção capitalista, o valor
social da mercadoria. No modo de produção capitalista já não existem
produtos produzidos com o concurso de produtos; mesmo o objecto da
produção ainda não lançado no mercado e não realizado como mercadoria,
que por comodidade designamos por produto, é produzido com o concurso de
mercadorias. Sendo o valor da mercadoria ou valor de troca distinto do
valor do produto ou valor de custo, no modo de produção capitalista o
valor de custo é um somatório de valores de troca e não de valores de
custo; isto é, o valor de custo de uma mercadoria é distinto do valor de
custo de um produto. Deste modo, o valor de custo de produção duma
mercadoria não pode ser expresso em tempo de trabalho abstracto
necessário, ao contrário do valor de custo de produção de um produto.
Para além do equívoco
de representar o valor de troca ou valor de realização da mercadoria
pelo valor de custo, tal como o faziam os ideólogos burgueses, Marx
cometeu ainda outros equívocos, nomeadamente, a definição do valor de
custo de produção pelo tempo de trabalho abstracto necessário – já que a
produção de mercadorias se faz com o concurso de outras mercadorias e
não com o concurso de produtos – e a definição do tempo de trabalho
abstracto socialmente necessário como unidade de medida do valor. Esta
hipotética unidade de medida encerrava portanto um duplo equívoco:
identificada como unidade de medida do valor de troca, representava um
hipotético valor de custo; como este hipotético valor de custo, mesmo
representando o valor de produção da mercadoria, já não podia ser
expresso em tempo de trabalho abstracto necessário o valor de troca
também não o poderia ser. Apesar de Engels pretender que todas as
ponderações efectuadas pelo mercado determinavam, afinal, o tempo de
trabalho abstracto socialmente necessário, mesmo que esse tempo não
pudesse ser medido, de que serviria uma unidade de medida que não podia
ser medida[15]?
Mas resta ainda um paradoxo, de
que nem Marx nem os marxistas se aperceberam: sendo a unidade de medida
do valor o tempo de trabalho abstracto socialmente necessário – “o
verdadeiro valor de uma mercadoria, porém, não é o valor individual e
sim o [valor]
social; não se mede pelo tempo de trabalho que custa realmente ao
produtor em cada caso, mas pelo tempo de trabalho socialmente exigido
para a sua produção”[16]
– porque razão um tempo de trabalho abstracto particularmente necessário
menor (de dimensão menor) do que o tempo de trabalho abstracto
socialmente necessário (a dimensão da unidade de medida) teria um valor
maior? A incompreensão de que o valor de troca é algo mais do que uma
grandeza física, incorporando uma relação social de repartição desigual
do produto através do valor acrescentado ou mais-valia, conduziu o
marxismo a um tal paradoxo[17].
Se o crescimento das
necessidades sociais, em quantidade e diversidade, e as relações sociais
que se estabelecem para promover o desenvolvimento da produção e o das
forças produtivas com ele concomitante, fazem com que os produtores das
mercadorias já não sejam os detentores de todos os meios de produção
necessários, e se o trabalho próprio ou da família não constitui já a
totalidade ou sequer a maior parte do tempo de trabalho necessário,
sendo uns e outro adquiridos no mercado, então o valor social das
mercadorias não pode ser medido pelo tempo de trabalho abstracto
consumido (particular ou socialmente necessário), porque desconhecido, e
resulta agora dos valores sociais dos componentes das forças produtivas,
na proporção das suas quantidades necessárias. O valor social da
mercadoria é o da sua realização pela troca no mercado, e representa não
só o valor que permitiu a produção como aquele que possibilita assegurar
a sua reprodução. Esta transformação operou-se sob um novo tipo de
relações sociais – que transformou as forças produtivas em mercadorias,
estendendo à produção a mercantilização que já presidia à troca para o
consumo – e corresponde à evolução da forma de produção artesanal do
modo de produção tributário para a forma de produção industrial do modo
de produção capitalista.
Marx foi arrastado para a
objectivação duma unidade de medida do valor na sequência das teorias do
valor da economia política clássica sem as ter submetido a uma crítica
exaustiva, nomeadamente o próprio conceito de valor e a categoria valor
de troca, aceitando a identificação com o valor de custo da produção com
que a burguesia a representava, e tomou como ponto de partida o tempo de
trabalho, adiantado por Ricardo. Deste modo, o conceito marxista de
tempo de trabalho abstracto socialmente necessário como unidade de
medida do valor não era senão um desenvolvimento do conceito ricardiano.
A sua importância advinha-lhe da fertilidade que parecia encerrar para
desmontar as construções ideológicas dominantes sobre a criação e
apropriação de parte do produto social pelos detentores dos meios de
produção, legitimatórias do modo de produção capitalista, mas
representando o valor relações sociais complexas só muito dificilmente
poderia expressar-se por um conceito físico.
Apesar do capital adiantado para
tornar possível a produção ter tido como origem tempo de trabalho
passado acumulado, não era já possível quantificá-lo porque o valor de
troca das mercadorias em que o capital entretanto se corporizou inclui
um valor acrescentado para remunerar os não trabalhadores; e se o valor
acrescentado apropriado pelos detentores dos meios de produção
constituía uma diferença entre o tempo de trabalho socialmente
necessário e o tempo de trabalho particularmente necessário, aquele não
podia ser tomado como unidade de medida do valor, porque uma dimensão
menor que a do padrão tomado para unidade não pode simultaneamente ser
uma dimensão maior do que ele. Deste modo, o valor, enquanto resultado
social do produto ou valor de troca, não poderia ser medido em tempo de
trabalho. Porque inclui simultaneamente uma realidade física – tempo de
trabalho produtivo – e uma realidade social de apropriação diferenciada
do produto que a antecede e sucede – o valor acrescentado já incluído no
valor de troca dos meios de produção e o valor acrescentado a incluir no
valor de troca do produto – o valor só nesta duplicidade tem existência
real, e a quantificação do produto (seja em que unidade for) apenas
interessa conhecer para reparti-lo, eventualmente para reparti-lo
desigualmente.
O próprio Marx reconhece, numa
passagem do livro III d’O Capital assinalada por Engels no aditamento
final àquele livro e a que não tem sido dado o relevo suficiente, que a
unidade do valor tempo de trabalho socialmente necessário se mostrava
algo inadequada no modo de produção capitalista: ”A troca das
mercadorias exacta ou aproximadamente por seus valores supõe condições
bem mais atrasadas que a troca aos preços de produção, a qual exige
determinado nível de desenvolvimento capitalista. Qualquer que seja o
modo como, de início, os preços das diferentes mercadorias
reciprocamente se fixem ou regulem, a lei do valor governa o movimento
deles. Quando diminui o tempo de trabalho exigido para produzi-las, caem
os preços, quando aumenta, aumentam os preços, desde que não se alterem
as demais condições. Mesmo não se levando em conta que os preços e o
movimento dos preços se regem pela lei do valor, enquadra-se
inteiramente na realidade considerar que os valores das mercadorias
precedem os preços de produção não só teórica mas historicamente. Isto é
válido em condições em que os meios de produção pertencem ao
trabalhador, e esse é o caso, tanto no mundo antigo quanto no moderno,
do camponês que cultiva sua própria terra e do artesão. Isto concorda
com nossa ideia anterior de que a transformação dos produtos em
mercadorias tem sua origem na troca entre diferentes comunidades e não
entre membros da mesma comunidade. O que vale para essa fase social
primitiva estende-se às fases ulteriores baseadas na escravatura e na
servidão, e às corporações de ofícios. Isto vigora enquanto os meios de
produção fixados num ramo só com dificuldade se podem transferir para
outro, e por isso os diferentes ramos de produção até certo ponto se
comportam reciprocamente como se fossem países estrangeiros ou
comunidades colectivistas”[18].
Numa sociedade em que os
direitos à participação no produto são distintos, não provenientes de
qualquer ordem natural mas direitos estabelecidos socialmente, o valor é
uma relação social de repartição do produto, na proporção relativa em
que cada um dos detentores desses direitos participa na sua realização.
Para dimensionar a repartição é necessário quantificar o produto,
atribuir-lhe valor, através de um padrão de medida que reflicta o custo
dos componentes onerosos das forças produtivas que participam na
produção. As relações sociais de produção determinam a composição do
padrão de medida, e as relações técnicas de produção determinam a sua
quantificação; mudanças nas relações sociais modificam a composição do
padrão de medição do valor e mudanças nas relações técnicas modificam a
sua quantificação, transformando-o num padrão flutuante; por fim,
variações conjunturais das condições de produção e da sua adequabilidade
às necessidades sociais, próprias da contingencialidade da existência
humana na natureza, produzem também variações do padrão de medição do
valor. Mesmo que necessário para quantificar e repartir o produto, um
padrão de medição do valor é tudo menos um objecto estável e, muito
menos, um objecto passível de redução a componentes físicos.
As dificuldades da determinação
do valor resultam, assim, de cinco níveis: da sua definição como
elemento necessário para a repartição do produto; da identificação dos
componentes onerosos das forças produtivas que participam na produção;
da definição do padrão de medida e da sua quantificação; do padrão de
medida ser variável no tempo e no espaço e, portanto, flutuante; das
quantificações do padrão e do próprio valor das mercadorias, isto é, a
determinação e a medição do valor, se efectuarem por relações sociais
complexas mediadas pela troca de bens ou de serviços produzidos em
concorrência por intervenientes particulares. Mas não é demais realçar
que o conceito de valor só se torna necessário para efectivar a
repartição do produto, e que o seu dimensionamento só tem interesse para
quantificá-la. O direito à repartição, as formas pelas quais ela se
efectiva e as suas proporções, esses são elementos que variam em função
da correlação das forças dos intervenientes.
Quaisquer que sejam os
componentes das forças produtivas integrantes da composição do padrão de
medição do valor, designados em função dos custos de produção e de
reprodução que a sociedade entenda significativos, o tempo produtivo é
um factor de referenciação que o integra, independentemente do tipo do
trabalho participante na produção (trabalho humano imediato, trabalho
humano passado materializado e trabalho não humano), porque o tempo é o
elemento comum através do qual se efectiva o consumo e são estabelecidas
as retribuições do trabalho e do capital. Tal como o juro usurário era
determinado em função do tempo do reembolso, o juro produtivo ou valor
acrescentado passou a ser determinado pelo tempo previsto para a
amortização do capital investido, e o salário a ser determinado em
função do tempo da prestação do trabalho[19].
Num modo de produção que procura a máxima rentabilidade no menor tempo,
caracterizado por isso pelo aumento do ritmo da vida em todos os campos,
o tempo produtivo é um elemento do padrão de medição do valor, mas do
valor de custo de produção e não do valor de troca. Este é construído
adicionando àquele um valor suplementar, justificado como remuneração do
investimento, que representa a forma pela qual o produto é desigualmente
repartido, apesar das muitas representações dos detentores dos meios de
produção para a sua legitimação.
Representando o valor de troca
pelo valor de custo de produção, como o faziam os ideólogos burgueses,
Marx enredou-se numa teia da qual não mais pôde sair. Mais tarde,
tentando ultrapassar o equívoco que constituía a unidade de medida tempo
de trabalho abstracto socialmente necessário, que usara no livro I d’O
Capital, veio expressá-la pelo preço de produção, resultante do
somatório do custo de produção e do valor acrescentado. Este novo
conceito marxista preço de produção constitui outro equívoco, não pela
forma preço mas pela forma produção, dado que o valor de troca não é o
valor de produção mas o valor de realização das mercadorias, incluindo
um valor de custo de imobilização sob a forma de valor acrescentado.
Estes equívocos, que os marxistas não souberam ultrapassar, demonstram
quanto era difícil a Marx libertar-se completamente das categorias
conceptuais da economia política apologética, que definia o valor de
troca como valor de custo de produção.
8. Valor da força de trabalho.
A identificação do
valor de troca como custo de produção da mercadoria, adoptada por Marx,
estendeu-se também à força de trabalho, de que o salário representaria o
hipotético custo de produção: "O valor da força de trabalho é
determinado como o de qualquer outra mercadoria, pelo tempo de trabalho
necessário à sua produção e, por consequência, à sua reprodução.
Enquanto valor, a força de trabalho representa apenas determinada
quantidade de trabalho social médio nela corporificado. (...) Para
manter-se precisa o indivíduo de certa soma de meios de subsistência. O
tempo de trabalho necessário à produção da força de trabalho reduz-se,
portanto, ao tempo de trabalho necessário à produção desses meios de
subsistência, ou o valor da força de trabalho é o valor dos meios de
subsistência necessários à manutenção do seu possuidor"[20].
Por esse facto, Marx não conseguiu justificar cabalmente por que razão
forças de trabalho de diferentes tipos e qualificações tinham valores de
troca diversos (os diferentes salários das diversas profissões) apesar
de terem custos de produção similares. Não tendo compreendido a
distinção fundamental entre valor de troca e valor de custo de produção,
não pôde compreender a distinção entre este e o valor de reprodução[21]
(na qual reside a diferenciação salarial segundo a qualificação da força
de trabalho) ou o valor de realização (na qual reside a oscilação
salarial em geral).
Se o valor se media pelo tempo
de trabalho e o valor da força de trabalho resultava do tempo de
trabalho incorporado nas mercadorias necessárias para a sua produção,
como explicar a diferenciação que se verificava, por exemplo, entre os
salários das diversas profissões e entre os salários da mesma profissão
em diferentes épocas e em diferentes formações sociais? Marx reconhecia
que a força de trabalho era uma mercadoria diferente de todas as outras,
e o seu valor tinha uma componente histórica e moral, que acabaria por
influenciar também a sua diferenciação. “Depois de ter trabalhado hoje,
é mister que o proprietário da força de trabalho possa repetir amanhã a
mesma actividade sob as mesmas condições de força e saúde. A soma dos
meios de subsistência deve ser, portanto, suficiente para mantê-lo no
nível de vida normal do trabalhador. As próprias necessidades naturais
de alimentação, roupa, aquecimento, habitação, etc., variam de acordo
com as condições climáticas e de outra natureza de cada país. Demais, a
extensão das chamadas necessidades imprescindíveis e o modo de
satisfaze-las são produtos históricos e dependem, por isso, de diversos
factores, em grande parte do grau de civilização de um país e,
particularmente, das condições em que se formou a classe dos
trabalhadores livres, com seus hábitos e exigências peculiares. Um
elemento histórico e moral entra na determinação do valor da força de
trabalho, o que a distingue das outras mercadorias. Mas para um país
determinado, num período determinado, é dada a quantidade média dos
meios de subsistência necessários”[22].
É assaz difícil encontrar qualquer isomorfismo entre a
capacidade para trabalhar e as mercadorias em geral, a não ser o facto
de o capitalismo a ter transformado em objecto passível de ser comprado
e vendido. Sendo representada como mercadoria, ela constitui de facto
uma mercadoria especial, cujas características a fazem diferenciar muito
das restantes mercadorias. Tomemos como exemplo algumas dessas
características distintivas: a perecividade extrema, que leva à sua
perda pelo não uso (e cuja reprodução obriga inevitavelmente à sua
realização diária); a existência independente das necessidades sociais;
a dispersão da sua existência e propriedade pelos milhões de indivíduos
em que se corporiza[23];
a capacidade para se reproduzir de forma ampliada, produzindo um
excedente (em função do tempo diário em que é usada); a
indistinguibilidade entre o objecto mercadoria e o ser que a produz, que
implica, para a fruição do seu uso, a submissão do indivíduo; e ainda o
facto de ser a única que para a sua produção apenas necessitar de
matérias-primas e não de força de trabalho.
Como determinar o valor de uma mercadoria tão
original? Segundo o marxismo, pelo valor dos meios de subsistência
necessários para a sua produção, ponderado por um “elemento histórico e
moral” – as condições naturais (climáticas e de abundância e fertilidade
relativa de recursos), culturais (hábitos, tradições e religiões), os
níveis de desenvolvimento e de aproveitamento das forças produtivas (o
grau de civilização alcançado), as condições históricas em que se
constituíram os trabalhadores livres e o “padrão de vida tradicional
(...) (de) satisfação de certas necessidades originadas pelas condições
sociais em que as pessoas vivem e se criam”[24]
– que determinaria a diferente composição dos bens representativos do
padrão de consumo nas diversas formações sociais. Como explicar, porém,
a diferenciação do valor da força de trabalho das diferentes profissões,
das diferentes qualificações e das diferentes funções numa determinada
formação social, na qual o “elemento histórico e moral”, tal como a
fisiologia e o metabolismo através dos quais se produz a força de
trabalho, são comuns a todos os trabalhadores?
Pode-se aceitar que as flutuações conjunturais dos
salários estejam sujeitas às flutuações da oferta e da procura de força
de trabalho, como acontece com as outras mercadorias; e que o “elemento
histórico e moral” intervenha como elemento de ponderação da
diferenciação salarial em formações sociais distintas; mas a
diferenciação salarial pela qualificação e pela função desempenhada
pelos trabalhadores não é passível de explicação pelo tempo de trabalho
necessário à produção da força de trabalho. O valor da força de
trabalho, como o das restantes mercadorias, oscila em função das suas
características próprias, que determinam a forma como ela se apresenta
na troca, mas o que o determina não pode ser apenas o tempo de trabalho
necessário para a sua produção, ainda que moderado por um qualquer
hipotético factor “histórico e moral”.
Tal como para as restantes mercadorias, não há modo
como objectivar o valor da força de trabalho senão pelo seu valor de
troca, e ele é determinado, como o de todas as outras mercadorias, não
pelas condições do seu consumo, nem pelas da sua produção, como afirmava
Marx, mas pelas condições da sua realização, já que é na troca para a
sua reprodução que o valor se realiza e é determinado. Deste modo, o
valor da força de trabalho não é determinado pelo valor de custo da sua
produção (isto é, o valor do cabaz dos bens de consumo necessários para
produzir a capacidade para trabalhar do trabalhador concreto e,
eventualmente, da sua família), mas pelo valor de reprodução, aquele que
faz com que a força de trabalho das diversas profissões, qualificações
ou funções se vá encontrando disponível no mercado, se vá reproduzindo
socialmente. É claro, o valor de reprodução dos diferentes tipos de
trabalho concreto é ainda um valor particular, estimado pelos seus
detentores, e o seu valor social é aquele pelo qual se realizará no
mercado.
O salariato é a relação social de repartição do
produto social no capitalismo, e o salário, enquanto valor da força de
trabalho, não é outra coisa senão a dimensão do direito dos
trabalhadores à repartição. Ele é condicionado pelas características
próprias da mercadoria força de trabalho, pela aceitação das condições
da sua reprodução e pelas relações de forças históricas que o
estabeleceram e podem alterar, fixando outra proporção para a
repartição. A relação entre valor da força de trabalho e valor do
produto do seu uso, desde que expressos na mesma unidade de medida,
qualquer que seja, é suficiente para definir o sobreproduto criado como
uma relação de valores – o valor pago e o valor produzido pelo seu uso –
que caracteriza a relação de repartição. A burguesia compra de facto a
força de trabalho pelo seu valor (expresso pelo salário como seu preço
no mercado) e apropria-se da sua utilidade – neste caso o valor
resultante do seu uso – e é neste direito ao uso da utilidade das
mercadorias que se baseia a troca, de modo que todos os que as compram
podem usufruir da sua utilidade.
Se na troca o comprador adquire
o valor de uso da mercadoria ele torna-se proprietário da sua utilidade,
e a distinção feita por Marx entre trabalho e força de trabalho é apenas
de ordem semântica: o capitalista compra o direito de usar a força de
trabalho e torna-se proprietário da sua utilidade, do trabalho que ela
desenvolve num certo tempo e do produto daí resultante. Neste sentido,
ao transformar a força de trabalho em mercadoria, a burguesia legitimou
a apropriação da sua utilidade, do produto resultante do seu uso. Uma
tal legitimação, porém, acarretava múltiplas implicações morais, e, por
essa ou por outras razões, as construções ideológicas burguesas para
identificar a criação do sobreproduto e legitimar a sua apropriação
fundaram-se em argumentos eivados de incoerência. A burguesia afirmava
comprar e vender todas as mercadorias pelo seu custo de produção,
representando o lucro a remuneração do seu trabalho ou do capital
adiantado, quando afinal as comprava e vendia pelo seu valor,
apropriando-se do valor suplementar gerado pelo seu uso.
A esta incoerência ideológica
Marx respondeu com outra incoerência ideológica, que viria a desempenhar
um papel crucial na construção da sua teoria do modo de produção
capitalista como sistema explorador dos trabalhadores, pela apropriação
do sobreproduto produzido pela força de trabalho. Tal como não vendia as
mercadorias pelo seu custo de produção, visto que se apropriava de um
valor acrescentado ou mais-valia sob a forma de lucro, o capitalista
também não as comprava pelo valor de custo de produção, mas pelo valor
de realização (o preço de mercado), que já continha o lucro do vendedor.
Como as restantes mercadorias, também a força de trabalho não era
vendida pelo valor de custo de produção, mas pelo valor de realização (o
salário). Porque o salário tem como destino imediato o consumo das
mercadorias necessárias para a produção da força de trabalho ele tende,
forçosamente, a ser identificado como seu custo de produção sem que o
seja necessariamente.
Devido às características próprias da força de
trabalho, à fragilidade da posição do proletariado na sociedade e às
relações de forças lhe serem desfavoráveis como classe dominada e
oprimida, o custo de produção da força de trabalho, em épocas de crise,
tende a aproximar-se do mínimo biológico. Mas é o facto de o seu valor
de realização poder ser estabelecido acima do mínimo biológico, pelas
relações de forças no contexto social, que o próprio custo de produção
da força de trabalho se vai modificando ao longo dos tempos, através da
alteração do nível e do padrão do consumo. Falando sobre a fixação da
taxa de lucro, Marx afirmava que o capitalista tendia “constantemente
para a redução dos salários ao seu mínimo físico e para a extensão do
dia de trabalho até ao seu máximo físico, enquanto o operário exerce
constantemente uma pressão no sentido contrário. O assunto resolve-se no
problema da relação de forças dos combatentes”[25].
Mais do que o de qualquer outra mercadoria, o valor da
força de trabalho foi sempre determinado pelas relações de forças
sociais. A existência dos trabalhadores, reduzida a um estado de pobreza
deplorável, sujeita a jornadas de trabalho extensas e a ritmos de
trabalho no limiar da suportabilidade, que lhe diminuíam a resistência
física e tornavam presa fácil das doenças mais banais, reflectem-no de
forma clara. E a contínua intervenção dos poderes públicos, quer
directamente, impondo o trabalho compulsivo, estabelecendo limites
máximos aos salários (já que o mínimo a biologia se encarregava de
determinar), fixando a jornada de trabalho, quer indirectamente, fixando
as condições do trabalho das mulheres e das crianças, demonstram as
múltiplas formas do condicionamento social do valor da força de
trabalho. As primeiras eras da acumulação capitalista são um longo
quadro vivo da determinação social do valor da força de trabalho e da
sua depreciação, e a permanente luta económica e política do
proletariado por salários mais elevados, por melhores condições de
trabalho e de vida e por mais direitos sociais e de cidadania são a sua
ilustração de sempre.
A redução da unidade do valor ao tempo de trabalho
acumulado e a identificação da força de trabalho como único elemento das
forças produtivas criador do sobreproduto formavam um todo aparentemente
coerente. Elas permitiam a Marx, por um lado, encontrar um fundamento
económico para as miseráveis condições de existência do proletariado,
vítima da exploração do capital que lhe extorquia o sobreproduto por si
criado; e, por outro, caucionar a identificação do proletariado como a
classe revolucionária dos tempos modernos, que havia feito nos seus
textos filosóficos de juventude (nomeadamente, na Crítica da Filosofia
do Direito de Hegel, de 1843, e na Miséria da Filosofia, de 1847) e nos
textos de intervenção política militante (no Manifesto do Partido
Comunista, de 1848), já que era a classe que tudo produzia.
A História, porém, conhecera já outras relações de
exploração e outras classes exploradas, e a evolução social não se
caracterizara pela ascensão ao poder das classes exploradas. Que germes
conteria a relação de exploração capitalista para que fosse a última
relação de exploração, e que virtudes teria a sua classe explorada para
vir a transformar-se na nova classe dominante, não para se tornar uma
nova classe exploradora mas para acabar com a exploração? Marx nunca deu
resposta cabal a estas questões, que eram, afinal, as que importava
justificar. Contrariamente a outros economistas socialistas, que
consideravam a apropriação do sobreproduto pelo capitalista como roubo,
Marx transformou-a numa indignidade ética e moral – embora afirmasse
expressamente que a moral não era chamada para a crítica da economia
política – e foi por aí que se ficou o seu ambicioso projecto de crítica
da economia política.
Todos os modos de produção social baseados na
exploração – isto é, na apropriação desigual do produto social – são
indignos, quer para as classes sociais alvo da exploração, quer para
quem os conhece pelas interpretações da História. Em contextos sociais
em que a aspiração de igualdade é cada vez mais valorizada, cresce a
indignidade ética e moral com que é avaliada a exploração. O que
acontece modernamente com a crítica da exploração capitalista não escapa
a esta regra. Só que a crítica se baseia mais na indignidade moral
provocada pela maior visibilidade da pobreza e da miséria do que nos
benefícios, de toda a ordem, que o modo de produção capitalista
proporcionou à humanidade, a começar pela forma inovadora como a própria
exploração se reproduz – pela mera coerção económica – e sem compreender
que são as lutas económicas e políticas que vão transformando a
proporção da desigual repartição do produto e a própria relação social
de exploração.
A pretensão marxista de encontrar fundamento
científico para as relações sociais e para as suas predições políticas,
devido aos equívocos em que se baseou, traduziu-se por um rotundo
fracasso. Ela põe em relevo a envergadura intelectual de Marx, de que os
discípulos nunca se aproximaram, e tem a seu crédito ter ficado a
constituir a pioneira e uma das melhores tentativas de compreensão da
complexa realidade económica, política e social do capitalismo, mas
esses são méritos insuficientes para conferirem à crítica marxista da
economia política a credibilidade e o estatuto de ciência que ela sempre
reclamou.
Almada, 15 de Maio de 2000
JOSÉ MANUEL CORREIA
Karl Marx ([1867]
1971), o.c., pp. 44-45.
Karl Marx ([1867]
1971), o.c., pp. 46-47.
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