O incidente
A neve caía num dia de Inverno em 1991 quando Lu Gang, um
estudante chinês baixo e magro que recentemente concluíra o seu doutoramento
em Física de Plasmas, entrou numa sala de aulas da Universidade de Iowa, pegou
num revólver Taurus de calibre 38, e matou o professor Christoph Goertz, o seu
orientador de tese, Robert A. Smith, membro do júri que avaliara a sua
dissertação, e Shan Linhua, um outro estudante chinês de doutoramento, e seu
rival.
De seguida, Lu dirigiu-se ao gabinete do coordenador do Departamento de Física
e Astronomia, Dwight R. Nicholson, que estivera também no júri da sua tese de
doutoramento, e disparou mais três tiros mortais. A seguir, foi até à Ala
Jessup e exigiu falar com Anne Cleary, vice-reitora responsável pelos assuntos
académicos. Quando ela saiu do seu gabinete, matou-a, e depois atirou na sua
assistente de 23 anos. Finalmente, num auditório vazio, Lu encostou a arma
contra a cabeça e suicidou-se.
Como teria um jovem, brilhante e trabalhador físico chinês, que aterrara nos
Estados Unidos seis anos antes cheio de orgulho e esperança, chegado a um fim
tão amargo é o tema de Dark Matter, o filme que se estreou recentemente nos
EUA, dirigido pelo realizador Chen Shi-Zheng, ele próprio nascido na China. O
actor Liu Ye é o protagonista, inicialmente idealista e ambicioso, depois
humilhado e enraivecido (no filme aparece com o nome de Liu Xing); Aidan Quinn
é o arrogante orientador da faculdade (fazendo de Christoph Goertz); e Meryl
Streep é uma bondosa, se bem que ingénua, benemérita da universidade que
recebe estudantes chineses.
Dark Matter pode à primeira vista parecer apenas mais um filme sobre
assassínios em série num campus universitário norte-americano, embora com um
toque chinês. Quando Liu Xing chega à Universidade de Iowa proveniente de
Pequim, proclama com optimismo "a sua sorte por chegar à América, Meiguo, O
Belo País. Possamos todos alcançar aqui o nosso sonho! Vou resolver o problema
da Matéria Negra, vencer o Prémio Nobel, e casar com uma rapariga americana de
olhos azuis!"
Mas gradualmente convence-se de que os professores conspiram para atrasar o
seu doutoramento e negar-lhe o legítimo reconhecimento como académico. A sua
paranóia aumenta quando o júri recusa aceitar a sua tese até ele refazer
alguns dos cálculos, impossibilitando assim que ganhe o prémio da melhor
dissertação. No final do filme, o seu profundo sentido de humilhação leva-o a
um estado psicótico, e num acesso de raiva mata os professores.
Mas o que dá a Dark Matter um significado mais abrangente é o uso que o
realizador faz deste caso para explorar - indirectamente - algumas importantes
dinâmicas entre a China e o Ocidente: o profundo sentimento de injustiça
histórica da China face às nações estrangeiras, e a maneira como os seus
(muitas vezes frustrados) esforços para conseguir ser aceite entre os mais
poderosos do mundo têm exacerbado tais sentimentos. No passado, o sentimento
de ser insultado nasceu de acontecimentos como a Guerra do Ópio e a ocupação
chinesa; mais recentemente, após as manifestações tibetanas durante os
preparativos para os Jogos Olímpicos.
Ao contar a trágica história de um estudante chinês que tenta completar um
doutoramento numa prestigiada universidade americana, o filme sugere uma mais
vasta parábola sobre a ambivalência da China em relação aos EUA. Mas, tal como
me explicou recentemente o realizador, ele vê o protagonista do filme como a
expressão, numa forma extrema, "da complexidade das actuais relações entre a
China e o mundo exterior". Liu Xing é um paradoxo. Considera-se superior,
devido à antiguidade e profundidade da civilização chinesa. Mas, ao mesmo
tempo, e apesar de todo o seu extraordinário desenvolvimento e mudança, dado
que a China continua atrás dos Estados Unidos, ele sente-se inseguro.
O que interessa a Chen é a forma como a disposição inicial do seu anti-herói
para venerar e se submeter às autoridades académicas americanas se transformou
no seu oposto, de tal maneira que no fim, após a sua dissertação ser
rejeitada, ele vê-os como opressores.
Mas, mesmo assim, o tratamento dado por Chen e pelo co-autor do argumento,
Billy Shebar, ao anti-herói é surpreendentemente benevolente. O próprio Chen
foi estudante universitário nos EUA na década de 80, e desde então - como
reconhecido encenador de óperas, quer chinesas quer ocidentais - tornou-se um
dos artistas que têm conseguido cruzar o abismo cultural entre a China e o
Ocidente. Compreende as sensibilidades que giram em torno de questões que
envolvem o insulto, a humilhação e o perder a face na China, especialmente
quando está presente a arrogância estrangeira. E no filme, o orientador de Liu
Xing é a arrogância incarnada. Quando Liu chega ao seu laboratório, diz-lhe
presunçosamente: "Bem, esteja à vontade para me questionar sempre que quiser.
Mas lembre-se de que eu tenho sempre razão!"
Quando um assistente lembra que o seu pupilo tem passado "uma data de
directas" a fazer pesquisa para o professor, este responde com desprezo: "Vá
lá! Estes miúdos ficam contentes com qualquer trabalho que eu lhes dê. Vêm de
lugares onde a astrologia é considerada uma ciência e as casas de banho um
luxo."
Diálogos como este imitam no filme uma espécie de condescendência que
historicamente tem marcado muitas relações entre o Ocidente e a China e que
lentamente acabou por formar uma espécie de "matéria negra" que exerce uma
força poderosa, difícil de detectar.
A questão que o cineasta tenta explorar não é apenas pessoal, mas sim uma mais
alargada - a questão da sensibilidade da China face ao domínio e críticas por
parte de estrangeiros. Neste particular, o filme é brilhante na forma de
mostrar como qualquer sugestão de superioridade, ou mesmo condescendência, de
estrangeiros para com a China pode cruzar-se com o seu próprio histórico
sentimento de vitimização e insegurança e criar assim uma mistura volátil.
"Nós, chineses, carregamos com o peso da nossa história e a questão da
humilhação pelos ocidentais está sempre inconscientemente dentro de nós",
diz-me Chen. "Assim, somos sensíveis a qualquer desconsideração e muitas vezes
temos uma reacção brusca ao que julgamos ser um tratamento desleal ou
injustiças. A um nível emocional, não conseguimos desligar o tratamento no
presente com insultos do passado, derrotas, invasões e ocupações por
estrangeiros. Há algo no nosso ADN que desperta respostas automáticas, e por
vezes extremas, a críticas ou afrontas."
"Ao longo dos tempos, os chineses têm tido apenas uma forma de olhar para os
estrangeiros", lamentou, há quase 75 anos, Lu Xun, o mais famoso dos ensaístas
da China. "Ou olhamos para eles como deuses ou como animais selvagens." Tal
como escreveu Peter Hays Gries no seu ponderado livro China's New Nationalism:
Pride, Politics, and Diplomacy, quer queiramos ou não, "O Ocidente é
fundamental para a construção da actual identidade da China; transformou-se no
alter ego da China."
Um século de humilhações
Um elemento particularmente importante na formação da identidade da China
moderna tem sido a herança da "humilhação" do país às mãos de estrangeiros,
começando com a derrota da China na Guerra do Ópio em meados do século XIX e o
tratamento vergonhoso dado aos chineses na América. O processo atingiu o seu
apogeu com a bem sucedida industrialização do Japão e a subsequente invasão e
ocupação da China durante a II Guerra Mundial, que em muitos aspectos foi
ainda mais devastadora psicologicamente do que as intervenções ocidentais,
dado que o Japão era uma potência asiática que conseguira modernizar-se,
enquanto a China falhara.
No início do século XX, uma nova literatura, acompanhada de uma nova narrativa
histórica, afirmou-se à volta da ideia de "bainian guochi", ou seja, "100 anos
de humilhações". Ao pegar na sua própria vitimização como tema e tornando-a um
elemento fundamental da evolução da sua identidade colectiva, a China
conseguiu que certos traços se expressassem uma e outra vez sempre que
respondia sob pressão ao mundo exterior. Sublinhar a história do país como
vítima de agressões estrangeiras levou os líderes chineses a confiarem no que
Gries chama "a autoridade moral do sofrimento passado". De facto, o sofrimento
da China às mãos de estrangeiros tornou-se um troféu, especialmente durante a
década de 1960, quando países não ocidentais competiram entre si para
parecerem o mais "oprimido" pelo imperialismo.
Como resultado dos termos insultuosos do Tratado de Versalhes de 1919, pelo
qual o Ocidente medrosamente cedeu ao Japão as concessões alemãs na China, uma
expressão, "wuwang guochi" - "Nunca esqueçamos a nossa humilhação nacional" -,
tornou-se um slogan comum na China. De facto, ignorar o falhanço nacional da
China acabou por ser considerado como não patriótico. Desde então, os
historiadores e os supervisores ideológicos chineses nunca deixaram de
explorar os supostos sofrimentos passados da China "para servir as
necessidades políticas, ideológicas, retóricas e/ou emocionais do presente",
segundo as palavras do historiador Paul Cohen.
Sun Yat-sen, por exemplo, em 1924 descreveu a China como sendo "um monte de
areia" que tinha "sofrido várias décadas de opressão económica por parte das
potências estrangeiras" e, "em consequência, disso, se vê transformada, por
toda a parte, numa colónia...". No seu livro O Destino da China, Chiang
Kai-shek escreveu:
"Ao longo dos últimos cem anos, os cidadãos de todo o país, sofrendo sob o
jugo de tratados iníquos que concediam aos estrangeiros 'concessões' e
estatuto extraterritorial na China, foram unânimes na sua exigência de que as
humilhações nacionais fossem vingadas, e que o Estado se tornasse forte."
E quando a República Popular da China foi fundada em 1949, Mao Zedong
proclamou a famosa frase: "Não mais a nossa nação será sujeita ao insulto e à
humilhação. Nós... erguemo-nos."
Em 1997, quando Hong Kong abandonou o estatuto de colónia britânica e
regressou à soberania chinesa, o Partido Comunista voltou ao tema da China
como vítima para tentar encorajar um maior nacionalismo. O secretário-geral
Jiang Zemin repetidamente lembrou ao mundo que "a ocupação de Hong Kong foi o
epítome da humilhação que a China sofreu na História recente". Desde então,
muita da retórica sobre vitimização tem-se concentrado no Japão, que ocupou
brutalmente a China durante a II Guerra Mundial e ainda não mostrou total
arrependimento pelas suas acções.
A ideia de que uma nação pode regressar à sua antiga grandeza ao enfatizar,
até mesmo ao "celebrar", a sua fraqueza pode parecer contraproducente. Afinal
de contas, porque iria qualquer líder que tenta conquistar respeito a nível
global constantemente relembrar o seu povo e o mundo das antigas humilhações
sofridas pelo país? Talvez os dirigentes chineses (tanto comunistas como
nacionalistas) pensem que se os chineses tomassem suficiente consciência, e
mesmo vergonha, da sua fraqueza, seriam impelidos a erguer-se e a reclamar a
sua grandeza nacional.
Em todos os acontecimentos desde 1949, uma significativa parcela dos esforços
chineses para criar uma nova identidade têm-se baseado no sonho de restaurar a
integridade territorial do país, que os patriotas consideram ter sido
"fenqua", ou seja, "cortado como um melão" por incursões estrangeiras. O sonho
era reunificar a China como um Estado multiétnico constituído por han
(chineses do Centro), man (da Manchúria), meng (mongóis), hui (muçulmanos) e
zang (tibetanos), bem como trazer de volta ao seio da "pátria sagrada" as
partes do antigo império chinês que se tenham perdido para os poderes
imperialistas ou que quebraram os laços durante tempos de fraqueza. (O que
inclui Hong Kong, Macau, Taiwan, as ilhas Spratly no mar do Sul da China, e as
ilhas Diaoyutai perto do Japão. E, claro, também significa manter o Tibete e
Xingiang, cujas populações há muito desejam a independência.)
Tal como o professor William A. Callahan recentemente escreveu, apesar de 50
anos de revolução maoista - quando "anticomunismo" era muitas vezes
considerado "antichinês" -, e depois quando a China começou a surpreender o
mundo com o seu recente sucesso económico, a narrativa de nacional-humilhação
continua a ser cuidadosamente reproduzida em livros, museus, exposições,
filmes, enciclopédias, jornais, dicionários, gravuras e selos comemorativos.
Em 2001, o Congresso Nacional do Povo até aprovou uma lei proclamando um "Dia
Nacional da Humilhação". (No entanto, foram propostas tantas datas históricas
que os delegados não conseguiram chegar a acordo e, assim, nenhum dia foi
designado - um dos principais candidatos é agora 18 de Setembro, o dia de 1931
em que o Japão iniciou a invasão da Manchúria.) Para lembrar ao mundo que a
China continua a considerar-se irritada e com direito a desculpas, os
porta-vozes do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês frequentemente
descrevem acções incómodas de outros países - por exemplo, o atentado bombista
na Embaixada da China em Belgrado em 1999 - como "ferindo os sentimentos do
povo chinês".
Seria tentador relativizar tal linguagem como retórica vazia mas, tal como com
tanto do que é dito na China, tais palavras codificadas continuam a ressoar no
reservatório de sentimentos exemplificado por slogans como "O povo chinês não
será incomodado; a raça chinesa não será insultada!". E quando, em 2001, um
caça chinês F-8 se despenhou após ter tocado numa asa de um avião-espião
norte-americano EP-3 (que teve que efectuar uma aterragem de emergência na
ilha de Hainan), os chineses recordaram de novo o poder americano e a sua
história de ingerência na sua soberania. Seguiram-se manifestações
aparentemente espontâneas, bem como ataques a missões diplomáticas dos EUA e
dilúvios de indignação na Internet - totalmente permitida pelo partido.
As referências ao "'Século de Humilhações' tanto reflectem como intensamente
definem as relações da China com o Ocidente hoje", escreve Peter Gries. "Ao
evocar as pessoas, os acontecimentos e os símbolos do encontro inicial da
China moderna com o Ocidente, os chineses regressam continuamente a este drama
não resolvido..."
E no entanto, "os sentimentos de humilhação continuam vivos", conclui. "Nem a
vitória do Partido Comunista sobre o Partido Nacionalista na Guerra Civil, nem
a declaração de 'Libertação' em 1949 parecem ter conseguido exorcizar o
passado."
Tibete
Dark Matter tinha data de estreia marcada para a Primavera de 2007, mas foi
adiada devido a mais um tiroteio num campus universitário americano, desta
feita na Virginia Tech. O filme apenas chegou aos cinemas nesta Primavera,
altura em que os tibetanos, esperando conseguir concessões dos chineses - que
estavam cada vez mais ansiosos de que os Jogos Olímpicos em Pequim não fossem
manchados por boicotes devido ao Darfur e à Birmânia -, começaram os seus
protestos. Como escreve Nicholas Kristof na introdução de China's Great Leap:
"O mundo tem uma nova ferramenta para tentar obter um melhor comportamento por
parte da China", e, no caso do Tibete, o mundo usou-a. Em breve, tibetanos no
exílio e os seus apoiantes estrangeiros juntaram-se na ameaça ao transporte de
país para país da tocha olímpica chinesa, que passou a ser encarada mais como
símbolo da República Popular da China do que dos Jogos Olímpicos. Os
transportadores da tocha foram perseguidos por manifestantes que denunciavam o
que consideram ser a ocupação forçada do Tibete pela China.
E se patriotas de outros países também se sentiriam insultados ao verem um tão
grande símbolo da sua nacionalidade sob ataque, já a resposta de muitos
chineses a estes confrontos revelou quão sensível a China continua a ser face
ao insulto do estrangeiro. O que os chineses no seu país e no estrangeiro
decidiram que estavam a ver na televisão não era tibetanos oprimidos à procura
de uma reparação de sofrimentos, mas sim a China cercada e de novo diminuída
da forma mais pública possível.
A procura inquieta por parte da China de uma personalidade mais confiante,
menos sensível, tem-se paradoxalmente revelado mais complicada devido a outras
feridas não directamente relacionadas com ataques estrangeiros: durante a
maior parte dos últimos 100 anos os próprios chineses têm-se empenhado numa
série de assaltos à sua história e cultura. Estas autocríticas, frequentemente
muito duras, tiveram início nas primeiras décadas do século XX, quando
reformadores chineses começaram a denunciar a tradicional cultura confuciana,
acima de tudo porque esta parecia tê-los deixado tão fracos perante a
superioridade tecnológica do Ocidente.
Pelos anos 30 e 40, estes ataques começaram a virar-se para os nacionalistas.
Tendo adoptado uma nova identidade que combinava elementos tanto do Oriente
como do Ocidente, Chiang Kai-shek e a sua mulher cristã, que estudara na
Universidade de Wellesley, nos Estados Unidos, foram criticados por serem
demasiado ocidentalizados e firmes aliados da América. Depois de Chiang ser
derrotado, de Mao chegar ao poder, e de o Partido Comunista Chinês passar três
décadas a tentar, com imenso custo de vidas humanas, criar uma nova identidade
revolucionária chinesa, chegou Deng Xiao Ping para protagonizar mais outro
acto de demolição, desta feita da próprio revolução de Mao.
O cancelamento destas sucessivas tentativas de auto-reinvenção deixou os
chineses com um fraco sentido de orientação cultural ou política. O país tende
a oscilar de uma experiência para outra, procurando refúgio numa série de
reformas de grande envergadura, mas nunca definitivas. Talvez por isso seja
compreensível que um mais forte sentimento de autoconfiança cultural e
política tenha continuado ausente. Assim, em parte chocada, em parte
desapontada, a China respondeu às manifestações contra a tocha olímpica com
violência, rejeitando qualquer sugestão de que as suas acções poderiam ter
contribuído para, e muito menos originado, as exigências tibetanas.
Os protestos acabaram por lançar uma luz sobre uma China que não era aquela
que a maior parte dos chineses esperava ver em destaque durante a preparação
para os Jogos. Controlos policiais à moda antiga ainda mais apertados e a
retórica recuperada da revolução maoista fizeram a China parecer antiquada,
quando mais precisava de parecer moderna. (Por exemplo, o secretário do
Partido para a Região Autónoma do Tibete, Zhang Jingli, foi citado no jornal
Tibet Daily chamando ao Dalai Lama "um lobo disfarçado numa túnica de monge;
um monstro com face humana mas o coração de uma besta".) Ataques aos críticos
da China e às cadeias internacionais como a CNN e a BBC, que noticiaram os
incidentes no percurso da tocha à volta do globo, inundaram a Internet. Em
cidades como Seul, capital da Coreia do Sul, os manifestantes começaram a ser
insultados, e mesmo atacados, por contramanifestantes chineses.
O surpreendente é que muitos dos mais furiosos contramanifestantes eram jovens
chineses, nascidos já na era pós-Mao. Com mais estudos e mais conhecedores do
mundo do que os chineses mais velhos, esperar-se-ia que estariam imunes à
síndrome da China como vítima. Mas, talvez porque também eles são produto da
propaganda do Partido, muitos deles tornaram-se tão, ou talvez até mais,
nacionalistas do que os seus pais e avós. Mas o que tornou estas manifestações
contra a tocha olímpica uma tal afronta foi a forma como elas se intrometeram
mesmo na altura em que os chineses se tinham permitido imaginar que a sua
identidade nacional poderia efectivamente transformar-se de vítima para
vitoriosa, graças à alquimia dos Jogos Olímpicos.
Em vez disso, mesmo antes de começar a competição, e como nota Xu Guoqi, autor
do recente livro Olympic Dreams: China and Sports, 1895-2008, "através da sua
cobertura e tratamento do percurso da tocha até Pequim, o Ocidente parece ter
recordado aos chineses que eles continuam a não ser seus pares e que ainda não
são suficientemente bons".
Os Jogos
A ironia de tudo isto, claro, está em que há mais de dois séculos que a China
não era tão "igual". De facto, quem visitasse Pequim enquanto se aproximavam
os Jogos Olímpicos teria que ficar assombrado com a determinação da cidade em
atingir um objectivo. Quem chegasse à China ficaria certamente impressionado
com o magnífico novo aeroporto da capital, desenhado por Norman Foster e
inaugurado em Fevereiro; ou com o novo Parque Olímpico de Pequim, onde se
situam o impressionante estádio "Ninho de Pássaro" da autoria de Herzog e
DeMeuron e o igualmente fascinante Centro Nacional de Natação, transparente e
com um desenho baseado em bolhas, conhecido como "Cubo de Água". Os sombrios
blocos de apartamentos de estilo soviético, as desordenadas casinhas com
quintal e as ruas nuas que conheci na Pequim dos anos 70, durante a Revolução
Cultural, desapareceram totalmente. Agora, fica-se subjugado pelo novo
"desenvolvimento", ou "fazhan", uma palavra que projecta conotações quase
religiosas nesta nova China cujos líderes conseguiram efectivamente promover
uma revolução económica que transformou o país. Que tantas pessoas consigam
agora imaginar um futuro melhor explica a durabilidade do regime do Partido
Comunista.
Pequim parece determinada em tornar estes Jogos tão magnificamente dotados de
novos equipamentos e tão imaculadamente organizados que eles se tornem
inesquecíveis. De facto, quando se fala com chineses é impossível não notar os
sentimentos de orgulho e patriotismo que estes Jogos têm gerado. Quase todos
com quem falei, quer simples cidadãos ou altos dirigentes, parecem sentir
algum grau de identificação com este "dashi", ou "grande empreendimento", como
os chineses se costumam referir aos esforços das dinastias confucianas para
obter e manter o "mandato do céu", que legitima o direito de um imperador
reinar.
Após um século e meio de fome, guerras, fraqueza, ocupação estrangeira e
extremismos revolucionários, um número crescente de chineses - tanto na China
como fora dela - olhou para os Jogos como o há muito tempo esperado e
simbólico momento em que o seu país conseguiria por fim escapar aos velhos
estereótipos: ser o indefeso "parente pobre da Ásia"; um "gigante indefeso"
sob ataque; a vítima de uma mal calculada Revolução Cultural; a terra
ignorante onde em 1989 o Exército de Libertação Popular disparou sobre "o
povo". De uma enorme e simbólica penada, a aura olímpica prometia ajudar a
limpar o tão manchado passado histórico da China; a ultrapassar a sua herança
de vitimização e de humilhação; e a permitir que o país surgisse renascido -
em linguagem contemporânea dir-se-ia "com uma nova marca" - no palco mundial
como a grande nação que já foi, e que há tanto tempo deseja voltar a ser.
Quando perguntei a Chen Shi-Zheng se com o seu filme pretendia traçar alguns
paralelismos entre o presente e os Jogos, respondeu: "Não estou envolvido nos
Jogos, mas é claro que reflicto muito sobre eles. Depois de anos da história
moderna que, devido à colonização e ao domínio estrangeiro, deram origem a um
certo sentimento de vergonha, os Jogos apresentaram-se como uma oportunidade
para a China mostrar ao mundo as suas forças e grandeza. O protagonista do meu
filme incarna certas características dos chineses, uma pessoa que é ambiciosa
e lutadora, mas com muita falta de confiança. Quando é reprovado na defesa
oral da sua dissertação, a dor que sente é insuportável."
Assim, da mesma forma que as orais de Liu Xing, os Jogos foram antecipados
como um acto de catarse num prolongado e agonizante drama em que a China
finalmente alcançaria a seu quase mítico destino: a sua busca de "fugiang",
"riqueza e poder". Tal como o anti-herói de Dark Matter, que se imagina a
regressar triunfante à China coberto de prémios e com o seu doutoramento
americano e a cair nos braços dos seus orgulhosos pais e país, também muitos
chineses se atreveram a pensar que a China, resplandecente com medalhas
olímpicas e uma nova auto-estima, poderia ficar mais próxima de cumprir o seu
há muito negado sonho de grandeza.
Foi nesta atmosfera de expectativa e esperança que os protestos tibetanos se
intrometeram. "Os chineses pensaram: 'Este é o nosso momento!", diz-me Chen
Shi-Zheng. E depois surgem as manifestações tibetanas, que os fizeram sentir
como se estivessem de novo a ser contrariados.
Dados os tons de desapontamento com que muitos chineses olharam para a revolta
tibetana, não admira que os manifestantes em solo chinês, o movimento tibetano
no exílio e mesmo o próprio Dalai Lama tenham rapidamente sido vistos como
traidores, criaturas a soldo de forças estrangeiras conspirando para roubar o
prémio da China - o seu novo estatuto mundial - mesmo ali ao seu alcance, tal
como o protagonista de Dark Matter passou a acusar o seu rival chinês de ter
traído o seu chinesismo ao vender-se aos mestres estrangeiros, os professores
norte-americanos, e negando-lhe assim o prémio que lhe era devido.
O que pode parecer estranho aos estrangeiros que tentam perceber esta questão
é que, apesar dos espantosos feitos da China, ainda poucos chineses - pelo
menos entre os que conheço - se convenceram do sucesso da China ou aderiram a
uma nova crença nacional da China como nação de primeiro plano. Para
conseguirem isso, creio que teriam primeiro que acreditar que, de facto, já
têm sucesso e poder; que o mundo já começou a olhar para o país deles com um
crescente sentimento de assombro, até mesmo de inveja; e que o passado,
efectivamente, já lá vai.
Tal como Xu Guoqi sugere em Olympic Dreams, as medalhas olímpicas podem não
ser a resposta para o que os preocupa. "A China", opina Xu, "está obcecada com
ganhar medalhas de ouro em grandes competições internacionais para demonstrar
o novo estatuto da China como uma potência económica e política..."
Apesar de a ânsia chinesa em obter medalhas de ouro nos Jogos coincidir
claramente com o caminho da nação em direcção à internacionalização e a
conseguir um novo estatuto no mundo, a mentalidade do Estado face às
competições continua a reflectir uma mistura da confiança no que os chineses
podem fazer e do prolongado complexo de inferioridade do país.
Xu sustenta que Pequim tem usado a chamada estratégia da medalha de ouro para
demonstrar o aumento de poder e riqueza na China, mas que o sistema político
que o Partido Comunista tem tentado legitimar através do desporto e outros
meios não poderá produzir uma nação forte e saudável enquanto os seus cidadãos
forem forçados e abdicar da sua independência e até da sua dignidade pessoal.
Quando se trata de aceitar críticas estrangeiras em relação a assuntos como os
Jogos Olímpicos, Tibete, Darfur e Birmânia, os dirigentes chineses mostram-se
invariavelmente impenetráveis. As suas reacções defensivas sugerem que as suas
memórias de histórica fraqueza e humilhação ainda ardem com intensidade. E se
críticas justas não devem ser caladas só porque os líderes chineses as
consideram desagradáveis, também devíamos, enquanto estrangeiros em contacto
com a China, ter mais em mente que muita da matéria negra gerada pela história
ainda flutua no universo que nos é comum.
Quando reagimos aos acontecimentos da actualidade, tendemos a esquecer, talvez
por sermos tão anistóricos, quão profundamente estamos envolvidos na forma
como a China aprendeu a conhecer e a olhar para o mundo moderno. Afinal de
contas, fazemos todos parte das nossas próprias histórias. Mas, no caso da
China e do Ocidente - e o Japão também deve ser aqui incluído -, fazemos
também parte inextricável das histórias dos outros. Esta longa relação
histórica criou uma tensão psicológica ainda muito forte que está sempre
presente quando um país se relaciona com o outro. E assim, apesar de nos
últimos tempos a China ter chegado mais perto do que nunca de criar condições
que lhe permitam escapar ao nosso passado desequilibrado, é importante
perceber que os seus dirigentes e população em geral ainda são sensíveis a
velhas formas de responder ao mundo que os rodeia.
E se muitas vezes pensamos que já escapámos às limitações desta história - ou
que esta história já acabou -, seria ingénuo esquecer que continuamos a fazer
parte da equação. Quer escolhamos reconhecê-lo ou não, a América continua a
ter um poderoso efeito gravitacional psicológico sobre a China, que decorre
tanto do passado como da actual política externa.
Um filme como Dark Matter ajuda-nos a perceber mais claramente a complexidade
deste relacionamento, porque consegue penetrar nos recantos psicológicos das
nossas complexas relações mais profundamente do que qualquer tipo de análise
política.
Se existe uma certeza no meio de todas estas incertezas, é que, dado que não
existem relações bilaterais mais importantes no mundo actual do que aquelas
entre os Estados Unidos e a China, é crucial percebermos o mais que pudermos
acerca desta complexidade quase infinita. O absorvente filme de Chen Shi-Zeng
ajuda-nos a olhar para as complexas e por vezes sombrias fontes de emoções
entre o Oriente e o Ocidente que, devido às suas profundas origens históricas,
continuam, numa miríade de formas destrutivas, a introduzir-se no nosso
presente colectivo.