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A EMERGÊNCIA DE NOVAS
POTÊNCIAS
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José Pacheco Pereira,
Público, 26 Agosto 2008
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No meio da transumância anual de Portugal e dos portugueses,
a que chamamos férias, o mundo está a mudar muito rapidamente e muito
perigosamente. A China e a Rússia estão todos os dias a ocupar o espaço deixado
livre pelas potências anteriores, o eixo euro-atlântico, entre os EUA e a União
Europeia, com enormes implicações para o futuro do século XXI. É um clássico
processo geopolítico, os poderes fracos deixam espaço a novos poderes
emergentes, que rapidamente ocupam a cena mundial ditando as suas regras. A
União Europeia não conta para nada, nem sequer para a retórica, apenas os EUA e
os antigos países do Pacto de Varsóvia esboçam uma tímida resistência, mais
simbólica do que efectiva, mas mesmo assim resistência.
Os casos da China e da Rússia não são idênticos. A China emerge como grande
potência mundial assente numa combinação única entre capitalismo e um sistema
repressivo e autoritário de "consenso" que usa a capa do comunismo, mas pouco
tem a ver com ele. O processo chinês é único e demasiado complexo para caber nos
modelos conhecidos. É também uma experiência que tem muito do pensamento e
história "oriental" que compreendemos pouco por nos ser civilizacionalmente
alheia. Como no Japão, os mecanismos do "consenso" forçado, vistos como
legitimação da hierarquia, estabilidade e "ordem", têm um apoio social que seria
inexplicável na tradição europeia.
Há enormes virtualidades no processo chinês, exactamente pela sua vitalidade
económica, que está a tirar milhões de pessoas da pobreza e está a produzir
liberdade e democracia a partir dos mecanismos sociais do capitalismo, mas é só
uma questão de prazo até que se gerem imensos riscos de conflitualidade social e
política. Na China, porém, não há no poder a combinação de autocracia (com
traços de poder pessoal) e cleptocracia como há na Rússia. O processo
capitalista na China é uma opção estratégica e não uma adaptação ao fim da
economia planificada do comunismo. As regras definidas pelo poder comunista são
tidas como seguras pelos investidores estrangeiros, que geram na China uma
economia e um crescimento que não é assente apenas na exploração das riquezas
naturais. A muito dura luta contra a corrupção feita pelo PC Chinês funciona
como legitimação do poder e para além de certos limites o poder político não
interfere discricionariamente na economia privada. Uma parte importante da
população beneficia positivamente de alterações no consumo e na qualidade de
vida.
As coisas não podem continuar como estão e a uma dada altura haverá convulsões
entre o dinamismo da sociedade e o carácter autocrático do poder político, mas
para já o efeito de poder mundial chinês não se faz por uma política agressiva
para além do estrito leque de questões de unidade e soberania nacional que
sempre se colocaram em relação, por exemplo, a Taiwan. E, mesmo aí, os chineses
mostram uma capacidade de negociação e de compromisso sem paralelo. Os chineses
estão a mudar os quadros do mundo como potência emergente, essencialmente pelo
seu poder político-económico e não por uma política agressiva político-militar.
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Simon Roberts, Motherland, Londres, Chris Boot, 2007.
A Rússia é muito diferente. Nenhum investidor estrangeiro sério, que não viva de
economias predadoras como as que se criam à volta do petróleo, do gás natural e
dos recursos mineiros, investe na Rússia. Eles sabem que as regras são ambíguas,
a legislação presta-se para tudo, o Estado, a burocracia, central e regional,
faz literalmente o que quer, pode mandar prender um novo-rico porque ele se
tornou incómodo para o poder político e deixar outro à solta a ganhar biliões,
exactamente nas mesmas circunstâncias de fuga aos impostos ou irregularidades
financeiras. A discricionariedade política e judicial é total, os controlos dos
aparelhos militares, policiais e da justiça são políticos e tudo mergulha num
ambiente de corrupção generalizada. Apesar dos enormes ganhos recentes com os
combustíveis, a população russa pouco beneficiou da hiper-riqueza dos
novos-ricos russos aliados ao poder e das máfias, por sua vez também aliadas ao
poder. A Rússia está longe de ter conhecido a verdadeira revolução produtiva da
China, e cidades, vilas, regiões inteiras permanecem num limbo de pobreza e
mediocridade agravando a deterioração de tudo: casas, linhas férreas, fábricas,
serviços públicos, estradas, aeroportos, etc. Saia-se de Moscovo, do centro de
Moscovo ou de São Petersburgo, e é como se o cinzento do comunismo continuasse a
dominar populações resignadas, com líderes violentos e corruptos.
Na Rússia como na China, não há verdadeira democracia nem liberdades. O poder
político existente, quer seja o nacional, o regional ou o de uma cidade,
continua a controlar os órgãos de comunicação, a ameaçar os que divergem,
nalguns casos a perseguir, ferir ou matar os que denunciam o que se passa. O
sistema político é, como quase tudo na sociedade, uma sobrevivência híbrida do
comunismo, fragmentado, dominado por partidos e personalidades pouco
recomendáveis, puxado para os extremos do comunismo ortodoxo e do fascismo
xenófobo e revanchista. Com votos.
O poder político central permanece autocrático e capaz de tudo para se defender.
Ieltsin e a família dividiram os espólios de matérias-primas por meia dúzia de
amigos e fiéis, Putin chegou ao poder na base de uma história nunca esclarecida
de explosões terroristas "tchetchenas", que envolvia os serviços secretos que
ele dirigia, e que lhe serviu de pretexto para uma operação militar que, se o
Tribunal Penal Internacional fosse o que diz ser, implicaria levá-lo ao banco
dos réus de Haia como criminoso de guerra. Putin restaurou o nacionalismo russo
a partir da manipulação da genuína sensação de humilhação que muitos russos
partilhavam ao ver o seu país perder todo o poder que tinha com a queda do
comunismo, e tornou-o na base de uma política externa pouco diferente da
soviética, cada vez com mais crescente agressividade, dentro e fora das
fronteiras.
The War in the
Caucasus: An Initial Assessment, The American Enterprise Institute,
August 13, 2008
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O que se passa na Geórgia deveria fazer soar o mais clamoroso
sinal de alarme, não só pelo que significa de per si, como pelo facto de deitar
uma luz retrospectiva sobre os erros sucessivos cometidos pelos EUA e pela UE
nos Balcãs. O que os russos estão a dizer é: "Vocês humilharam-nos nos Balcãs,
nós mandamos no Cáucaso." Mas dizem mais: "Em toda a área das antigas repúblicas
da URSS que se tornaram independentes, assim como do Pacto de Varsóvia, nós
temos um droit de regard maximalista e reclamamos o direito de 'protecção' das
populações russas (quase sempre emigradas para aquelas regiões na sequência de
políticas soviéticas de 'russificação' das zonas onde havia mais forte
nacionalismo anti-russo, como aconteceu nos países bálticos) que implica a
intervenção militar em países soberanos." O resultado é que vários países nas
fronteiras da Rússia têm uma soberania limitada, a Ucrânia, a Moldova, a
Geórgia, mesmo os países bálticos têm que aceitar enclaves protegidos por tropas
russas, constituindo "países" que ninguém reconhece (na Moldova e na Geórgia por
exemplo), ou aceitar direitos de passagem, estacionamento e bases militares que
limitam a soberania (como acontece na Ucrânia e nos bálticos). Mais ainda: não
tenham veleidades de ser soberanos ao ponto de quererem entrar em alianças como
a OTAN, porque isso é inaceitável pela Rússia.

Quando os presidentes e dirigentes da Polónia, Lituânia e Ucrânia vão a Tiblissi
apoiar os georgianos, eles sabem muito bem a parte do mundo em que vivem, o
carácter do seu vizinho e antigo dominador, e o que está em causa. Os EUA muito
fragilizados ainda tentaram ir além da retórica, mas não foram e sofreram uma
derrota para os seus objectivos estratégicos. A UE é penoso de se ver, não conta
para nada, os seus esforços diplomáticos, visto que não tem outra capacidade,
ainda foram empurrados pela parte mais preocupada dos antigos países de Leste,
mas são incapazes sequer de garantir aos georgianos a sua soberania sobre a
Abkázia e a Ossétia, mesmo que virtual. O precedente do Kosovo também ajuda a
Rússia, que pode, tão unilateralmente como fizeram os EUA e vários países da UE,
reclamar independências à margem das Nações Unidas para as suas zonas de
ocupação na Geórgia.
Balcãs e Cáucaso, como sempre, vão continuar a ser o sítio onde se medem as
forças. E uma nova Rússia autocrática e agressiva mostrou o seu poder, a UE e os
EUA mostraram o seu declínio. Bem-vindos ao século XXI.
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