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São eles que pagam o milagre
económico da China
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Francisca
Gorjão Henriques,
Público, 20 Julho 2008
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Parece que não têm nada. Mas isso é porque não vemos de onde
partiram. Milhões de trabalhadores migrantes movem-se pelo país e tentam
melhorar a vida nas cidades. "Senão, por que viriam sofrer para aqui?"
Os Jogos Olímpicos também lhes pertencem
Os arranha-céus de Pequim ficaram para trás. Os relvados também. É preciso pisar
muita lama para lá chegar. Pisar um terreno que parece ter sido lixeira. E pisar
mais lama outra vez. Choveu há dois dias e o chão da rua que conduz à escola
ainda não teve tempo de secar. No recreio, depois de passar o portão de chapa
encarnado, estão filas de meninos, bem alinhados, imóveis, como se estivessem a
preparar um desfile militar. Não se sabe se para receber o visitante
estrangeiro, se para dar início a uma aula de ginástica.
O director da escola pediu para não dar o nome, nem a cara. Pelo menos até os
Jogos Olímpicos passarem - foram essas as instruções que recebeu do Governo,
nada de conversas com os media ocidentais. Os seus alunos são todos filhos de
trabalhadores migrantes, os mais pobres entre os mais pobres da capital. Estão
ali porque não estão autorizados a frequentar as escolas públicas. Há quem chame
apartheid a este regime que não dá os mesmos direitos a quem sai dos campos para
procurar sobreviver nas cidades.
Amar a bandeira
As vozes são lançadas com força e segurança para declamar: "Cinco estrelas da
bandeira, amamos-te. Pessoas de todo o país respeitam-te." São meninos da
pré-primária, sentados em banquinhos, numa sala que pouco mais tem do que as
suas mesas e o quadro da professora. Alguns papéis de guloseimas ficaram
esquecidos no chão. As paredes estão sujas e tristes. Mas as vozes continuam,
seguras. Ainda não têm seis anos e já aprendem a amar a bandeira da China e a
cantar por ela.
São entre 40 e 50 meninos por turma, 300 alunos ao todo. O director diz que já
foram mais, cerca de 450. "Mas corre o boato que o Governo se quer ver livre dos
migrantes e as pessoas ficaram com medo." Muitos já partiram, portanto. Também
ele pensa deixar Pequim para abrir outra escola em Ganzhou (província de
Jiangxi, no Sul) "porque há muitos migrantes lá".
Não é só a solidariedade que move este professor. Partiu de Hunan, há dez anos,
pelas mesmas razões por que todos partem. Quis ganhar dinheiro, ter a sua fatia
do enorme bolo de crescimento económico do país. É também ele um migrante,
portanto. "Temos um ditado que diz: se ficares em casa, tudo corre bem; as
complicações aparecem quando saímos. Ainda assim muitos saem, simplesmente
porque querem ter uma vida melhor. Senão, por que viriam sofrer para aqui?"
Fugindo ao hukou
Alguns economistas dizem que o fosso entre os meios rurais - onde vivem mais de
737 milhões de pessoas - e urbanos é agora maior do que quando os comunistas
subiram ao poder, em 1949. Apesar de os rendimentos dos chineses terem subido no
ano passado, as diferenças voltaram a acentuar-se: o Instituto Nacional de
Estatísticas revelou que o rendimento per capita nas cidades chegou aos 13.786
yuans (1281 euros) em 2007; nas regiões rurais foi de 4140 yuans (384 euros), ou
seja, os trabalhadores dos centros urbanos ganham 3,33 vezes mais do que os
agricultores (em 1997 ganhavam 2,47 vezes mais). Para além disso, os gastos do
Governo central são sobretudo canalizados para as áreas urbanas.
Não admira por isso que milhões de pessoas, principalmente do Ocidente do país,
continuem a procurar trabalho nas cidades - é a maior vaga de urbanização da
história - furando o hukou, um sistema de registo imposto em 1953 e destinado a
controlar precisamente esses fluxos e a manter os agricultores no campo. O
regime já criou algumas excepções, permitindo a um pequeno número trabalhar nas
cidades, mas deverá ser preciso mais uma década para que o hukou seja totalmente
abolido. Os que saem é para fazer os trabalhos que ninguém mais quer fazer -
recolha de lixo, construção - com muito poucos ou nenhuns direitos. Os irmãos
Zhang Yu Ming e Zhang Yu Long colocam calçada à frente do Estádio Nacional,
baptizado "Ninho de Pássaro", onde será a cerimónia de inauguração dos Jogos
Olímpicos. "É o principal assunto em toda a China e a primeira preocupação de
toda a gente", diz Long, 47 anos.
Deixaram Hebei em Outubro. Estão há mais de dois meses sem ver a família, apesar
de a casa ficar a apenas duas horas e meia de autocarro. "Não há nada para ver",
diz Ming. "Estão todos bem." Já eles trabalham das seis da manhã às seis e meia
da tarde, com um intervalo para almoçar. Onze horas por dia sem direito a
folgas.
Na sua terra eram canalizadores, quando havia trabalho. Nesses dias bons,
ganhavam 70 yuans; mas muitas vezes não aparecia nada para fazer. Aqui, a
construir o sonho dos Jogos Olímpicos de que tanto se orgulham, ganham 2700 por
mês. "E não somos distraídos pelos problemas familiares", diz Ming, no momento
em que o hino dos Estados Unidos irrompe do "Ninho". Um ensaio de som que traz
uma irónica banda sonora à vida dos dois irmãos.
Dormem ali, em tendas colocadas ao lado do estádio. Tendas verdes iguais às que
se vêem por toda a cidade, transformada em estaleiro, com obras a decorrer 24
sobre 24 horas. São os migrantes quem está a fazer crescer a cidade a um ritmo
tão acelerado. E, perguntando, todos dizem que a vida corre melhor assim. A
pobreza é maior no lugar de onde vêm.
Deixar filhos para trás
Se não fosse assim, Li Hai Niao não tinha deixado para trás o filho de dez anos.
Está com outras mulheres a aperfeiçoar as juntas das lajes para que não haja
falhas quando os pés pisam o chão da entrada do estádio, uma das obras mais
emblemáticas da nova Pequim. É de poucas palavras e limita-se a dizer que a
criança ficou com os avós em Anhui e que o vê uma vez por ano.
Por todo o país, estima-se que entre 150 e 200 milhões tenham deixado as suas
casas para procurar trabalho onde há mais oferta: as províncias orientais e
costeiras. Há um ano, um relatório da Amnistia Internacional salientava que são
eles quem "paga os custos do milagre económico do país", explorados pelos
patrões e discriminados pela população urbana. "Os que conseguem completar o
laborioso processo de hukou enfrentam discriminação para comprar casa, na
educação, saúde e emprego"; os outros "são deixados sem qualquer estatuto legal,
tornando-se mais vulneráveis à exploração pela polícia, senhorios, residentes
locais e empregadores", dizia o relatório.
Cidadãos de segunda
Foi para os que optaram por trazer os filhos para a capital que o director
decidiu abrir a escola em 2000. Percebeu que havia aqui negócio. As crianças que
não são consideradas cidadãs de Pequim podem frequentar a escola do Estado, se
pagarem 10 mil yuans (929 euros) só pela matrícula, mas dois mil por semestre.
Muito dinheiro para quem tem tão pouco. Na prática, acaba por ser mais uma forma
de exclusão. O director diz não ter recebido qualquer apoio do Governo (que
chegou a fechar escolas como esta). "Comecei por fazer tudo sozinho, depois
muita gente ajudou", orgulha-se. Aqui, cada criança paga 400 yuans por semestre,
livros incluídos.
Todos os alunos desta escola, no Noroeste da cidade, deixaram uma história para
trás. Zhao Xue Lian tem uma camisola cor-de-rosa choque, uma flor entre a poeira
do recreio. Tem oito anos, mas parece ter cinco. Aponta para uns prédios
distantes para mostrar onde vive. "Mas essa é a casa da minha tia." E onde é a
dela? "Muito, muito, muito longe." Gosta de Pequim, mas quer voltar à sua terra
e ficar lá para sempre. Pergunta-se a mais sete meninos: quem gosta de morar
aqui? Só dois esticam o braço. Zhang Chun Jiang ainda não fez 11 anos, saiu com
sete da província de Anhui - que apesar da proximidade com a costa e de se
situar no Leste da China não teve um desenvolvimento semelhante ao das regiões
vizinhas. Ainda assim, é a terra de Chun Jiang e era lá que ele gostaria de
viver. "Mas há o [vírus] EV71, tem-se primeiro febre e depois fica-se com
feridas na boca, nos pés e nas mãos." Aqui em Pequim sente-se a salvo.
Mas se Chun Jiang ou Xue Lian apanharem alguma doença, só muito dificilmente
serão atendidos num hospital. Não é só na educação que os migrantes são tratados
como cidadãos de segunda. Os seguros de saúde feitos individualmente não cobrem
gastos hospitalares fora das próprias áreas de residência. Uma nova lei obriga
os empregadores a pagarem os seguros dos trabalhadores migrantes, mas como estes
são contratados informalmente, os patrões facilmente fogem ao pagamento.
Também não há assistência do Estado. Segundo a revista Economist, o Governo
limita-se a gastar 0,8 por cento do PIB na saúde (gastava mais de um por cento
na década de 1980).
Apesar disso, e porque o fosso entre o interior do país e as grandes cidades
está a criar graves distúrbios sociais, o Governo tem tentado minimizar os
danos. Anunciou o aumento de gastos com a saúde e educação nos meios rurais e
também de um sistema de seguros e segurança social mais alargado.
A bandeira chinesa esvoaça no mastro. Nas paredes do recreio estão pintadas as
mascotes dos Jogos Olímpicos e alguns caracteres. Têm um cesto de básquete para
lançar bolas e nada mais.
Dentro da sala, as crianças declamam: "O sol está branco. Está perto da
montanha. O rio amarelo está perto do mar e a água vai para o oceano.Se queres
ver mais, tens de subir ao cume."
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