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O que
resta da esquerda?
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Rui
Ramos.
Público, 20.06.2007
Nas últimas semanas, fez falta à
esquerda um muro das lamentações. Primeiro, houve choro e ranger de dentes
porque o Bloco de Esquerda deixou de ser "revolucionário"; depois, houve
desagrado e embaraço por Mário Soares ter voltado a falar como um
revolucionário.
Todas as teses ficaram assim confirmadas: a daqueles que pensam que a
esquerda tem de mudar para continuar a ser relevante, e a daqueles que
desconfiam que, por mais que pareça mudada, é sempre a mesma. Há ainda
outra tese: a dos que querem convencer-se de que a esquerda deixou de
existir. É uma tese muito do agrado daquela direita que não gosta que a
esquerda a obrigue a parecer o que é. Mas para uma coisa que não existe ou
que deixou de existir, faz muito barulho. Basta reparar na fúria com que o
actual Governo de José Sócrates se reclama de esquerda (embora "moderna"),
só igual à ânsia com que muitos dos seus críticos e alguns dos seus amigos
negam que seja tal coisa.
Desde Fevereiro de 2005 que a rotina manda discutir sobretudo a "crise da
direita". Sempre achei imensa graça àqueles que diagnosticam uma crise à
direita porque o Governo do PS lhe teria roubado as "bandeiras". Mas se os
líderes do maior partido de esquerda precisam de roubar bandeiras ao
adversário, quem é que está mesmo em crise? De facto, José Sócrates não
roubou ninguém. Limita-se a fazer o necessário para dar mais uns anos de
vida ao Estado social. Como não é possível subir mais os impostos, baixa
as prestações. Sócrates limitou-se a tropeçar numa velha verdade
socialista: o empobrecimento é o preço do controlo da sociedade pelo poder
político. Só que nem toda a gente à esquerda está disposta a vazar o
cálice da realidade.
Não é só em Portugal que a esquerda não é feliz. A esquerda não está bem
onde perde, nem onde ganha. Em França, os socialistas parecem regressados
ao ostracismo dos primórdios da V República, antes de Mitterrand. Em
Inglaterra, Blair fez dos Trabalhistas o "partido natural de governo", mas
à custa de uma crise existencial. Há uns meses, Nick Cohen publicou um
livro com um trocadilho no título: What"s left? Como se perguntar o "que é
a esquerda" fosse, hoje em dia, perguntar o "que resta da esquerda". O que
resta da esquerda é o Estado social e o antiamericanismo, isto é, a adesão
a um sistema assente no controlo dos indivíduos pelo poder político, e o
ódio àquela que, para o bem e para o mal, é a mais profunda democracia do
mundo. É curioso. No século XIX, era ao contrário: era à direita que se
detestava a América (isto é, a democracia), e se temia o princípio da
liberdade e responsabilidade individuais. Quando se diz que a esquerda
precisa de mudar, esquece-se isto: a esquerda mudou, mudou mesmo muito, e
é essa mudança que hoje a faz olhar para o mundo como para um labirinto
incompreensível.
Regressemos, por exemplo, a John Stuart Mill, cujo centenário passou o ano
passado. Hoje é lembrado como um liberal. Mas Mill foi, no seu tempo, um
"radical": desejou a extinção da religião revelada e a subversão da
hierarquia social. Por isso mesmo, pregou o princípio da autonomia
individual contra o Estado. Mill acreditava que, uma vez libertos de
constrangimentos, os indivíduos se deixariam convencer pelos melhores
argumentos, e que esses argumentos eram os do secularismo e da igualdade,
porque constituíam as molas do progresso.
Foi esta confiança que as esquerdas perderam. E à medida que a perderam,
passaram a depender cada vez mais do Estado. Hoje em dia, à esquerda estão
as forças políticas que acreditam na mentira que Nietzsche disse ter sido
contada pelo Estado ("o mais frio de todos os monstros"): "Eu, o Estado,
sou o povo." Ora, o Estado nunca é o povo, como em tempos as esquerdas
souberam.
Ao contrário do que dão a entender algumas direitas, a esquerda não é
dispensável. O consenso à volta da igualdade e do secularismo da vida
pública só existirá enquanto esses alicerces do nosso modo de vida tiverem
defensores aguerridos, como em tempos os houve à esquerda. Hoje o panorama
é aí confuso: a esquerda mais laicista é aquela que, por preconceito
antiamericano, mais se dispõe a caminhar ao lado dos profetas do futuro
califado; e a esquerda mais igualitarista é aquela que exibe maior zelo
por um sistema, o Estado social, que tem sido por todo o lado uma mina
para as classes médias e a proverbial madrasta dos mais pobres.
Descobrirão as esquerdas um dia que há vida para além do antiamericanismo
e do "mais frio de todos os monstros"? Talvez ajudasse ter lido mais Mill
e menos Marx, e ler agora mais Nick Cohen e menos Chomsky. Historiador
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