Nikita Krutchev conseguiu importantes vitórias
mas as suas reformas revelaram-se insuficientes e falhou o intento
de colocar o comunismo em boa via. Gorbatchov, 30 anos depois diria
que pegando no testemunho de Krutchev fez nova tentativa com o mesmo
objectivo e… com o mesmo resultado.
(...) Nikita Krutchev conseguiu importantes
vitórias mas as suas reformas revelaram-se insuficientes e falhou o
intento de colocar o comunismo em boa via. Gorbatchov, 30 anos
depois diria que pegando no testemunho de Krutchev fez nova
tentativa com o mesmo objectivo e… com o mesmo resultado. Com ele
fracassou a experiência soviética e o próprio país. Não estou certo
que aqui os meus amigos renovadores do comunismo português tenham
êxito maior mas apesar de tão temerária ambição desejo-lhes
sinceramente o maior sucesso.
Na noite de 24 de Fevereiro de 1956, Nikita
Krutchev não quis deixar para o dia seguinte a leitura aos delegados
do seu explosivo relatório, verdadeira bomba atómica política, com a
qual queria mudar o rumo da União Soviética, exorcizar o seu passado
e sem dúvida consolidar o seu poder.
Uma reunião do Praesidium do CC realizada no
decorrer do próprio congresso, na qual se discutiu a decisão de
Krutchev de apresentar o relatório da denúncia do culto da
personalidade e dos crimes de S tinha revelado a forte oposição de
um poderoso grupo de dirigentes, entre os quais, Molotov,
Kaganovitch, Vorochilov.
Oposição tão forte não aconselhava a esperar toda
uma noite em que maus sonhos podem engendrar perigosas manobras e
Krutchev conseguiu a maioria no Praesidium para que a sessão
prosseguisse pela noite fora. Não sem antes libertar a minoria
vencida da regra de apoiar a decisão do Praesidium e cada um no
congresso defender a sua opinião. Krutchev queria que as suas
revelações impedissem qualquer recaída estalinista e garantisse o
início de uma nova era.
Uma das consequências da sua iniciativa viria a
beneficiá-lo directamente. A partir de agora as diferenças de
opinião, não aquelas que se cinjam à ideologia ou à orientação
política mas aquelas que afectem a preservação do poder, deixavam de
ser resolvidas com o fuzilamento de quem tinha menos força.
Lembremos que Nikita Krutchev já tinha resolvido
com os seus aliados conjunturais o problema Béria.
Nikita Krutchev apesar de estar a falar para
delegados ao congresso, portanto para quadros comunistas com
experiência e responsabilidades e não a marcianos acabados de
aterrar no palácio do Kremlin, não deixou de criar à maioria
verdadeiro estupor senão mesmo, nalguns casos, incredulidade, tão
monstruosas eram as revelações até ali mantidas secretas. Krutchev
numa longa narrativa de várias horas subtraiu aos congressistas um
Stáline idolatrado, guia do omnisciente do movimento comunismo e da
União Soviética, "pai dos povos" e deixou-lhes desnudado, um déspota
brutal, com traços paranóicos para o fim da vida, responsável por
inomináveis crimes e erros políticos.
Quem era este homem, Krutchev, que se atrevia a
abalar os alicerces do Estado totalitário e a deitar por terra a
imagem do homem cuja evocação ainda, em 1956, fazia tremer os que
com ele privaram de mais perto, aqueles que nos últimos tempos da
vida de Stáline nunca sabiam se a sua chamada ao Kremlin lhes
garantia o regresso a casa ou os destinava à prisão?
Quem era este Nikita Krutchev? Era um ucraniano
inteligente, extrovertido, sagaz, de pouca cultura, de origem muito
pobre a quem a revolução abriu caminho ao sucesso. Começou a
trabalhar ainda criança como operário. Foi estudando aqui e ali até
atingir o quarto ano de escolaridade e depois já adulto frequentou
por insistência sua, nas oportunidades que lhe surgiam, cursos mais
de formação profissional que de ciência pura. Voluntário no Exército
Vermelho, activista político e sindical inscreveu-se no partido
bolchevique em 1918 e foi eleito secretário do comité local.
Em 1921/22, período de grande fome, já um quadro
político do partido com importância local, trabalha numa mina. As
condições de vida são tais que se não é socorrido pelo dono da casa
onde partilhava um quarto – ironia do destino, um kulak - teria
certamente morrido à fome. O que aliás viria a suceder mais tarde à
sua primeira mulher. Fez uma carreira bem sucedida sob a protecção
de Lazar Kaganovitch. Subia a pulso, com uma fé inquebrantável no
comunismo e a sua trajectória é paradigmática das oportunidades de
ascensão criadas na nova ordem social às camadas mais despossuídas
da sociedade.
Em 1934, Krutchev foi eleito delegado ao célebre
XVII congresso que ficou conhecido como o "congresso dos
vencedores". E sofreu uma das primeiras machadadas na sua fé sem
limites no partido. Kaganovitch já um dos poderosos dirigentes, do
círculo próximo de Stáline pede-lhe a ele e outros novatos da sua
confiança que na votação risquem o nome de Molotov e Voroschilov,
porque era preciso garantir que Stáline fosse o mais votado.
Depois da morte do ditador veio a descobrir-se
que ele tinha tido 260 votos contra e não os 6 que foram anunciados
enquanto que o mais popular dirigente da época, Kirov tinha tido, de
facto apenas 3 votos contra. (Memórias de Krutchev, página 42)
Quem era este "Nikita Krutchev que acabou por ir
mais longe que os todos os seus colegas na via da desestalinização"
pela "aceitação pessoal de enfrentar o seu passado de estalinista,
por autêntico arrependimento, habilidade política, populismo
específico,… vontade de voltar à legalidade comunista"?
Era um quadro político que da experiência
comunista da Rússia só conheceu o estalinismo. Que em 1937 fora
eleito, ou nomeado, 1º secretário do comité da região de Moscovo e
discursava assim numa conferência pública:
"Os trotskistas levantam as suas mãos traidoras
contra o camarada Stáline, Stáline a nossa esperança; Stáline o
nosso desejo, Stáline: a luz da humanidade avançada e progressista.
Stáline a nossa vontade, Stáline: a nossa vitória".
( Le dossieer Russie 1 Marcel Liebman* Edit
Marabout Université ,com outros,1966)
Se trago aqui estas informações avulsas e
aparentemente de pouca importância é porque elas permitem melhor que
números ou sábias conclusões dar-nos o contexto que levou Krutchev a
este XX congresso e à sua denúncia do estalinismo.
Quando o ditador morre Krutchev é a 5ª figura do
poder tendo à sua frente e por esta ordem Malenkov, Molotov, Beria e
Kaganovitch.
Após a morte de S o Praesidium do CC nomeou
Malenkov chefe do Governo e 1º secretário do CC. Decidiram acabar
com o lugar de secretário-geral que fora criado para Stáline e que
foi depois recuperado por Brejnev. Começou a ser restabelecido o
poder dos órgãos do partido, CC e Praesidium do CC sobre o todo
poderoso serviço secreto (Krutchev diz nas suas Memórias a página 66
que havia 1 milhão de agentes) mas desde logo se iniciou a arrumação
de poderes e hierarquias no Praesidium.
Todos sentiam que a sua segurança era precária
enquanto Béria, com o controlo dos serviços secretos, executante e
cúmplice mais directo de S em incontáveis crimes andasse por ali.
Béria foi preso, no Kremlin por decisão do
Praesidium do CC a que ele assistia na sequência de um plano urdido
por Krutchev. No Kremlin ninguém podia entrar armado e a guarda do
Kremlin estava na mão de Béria. Este deixou, aliás, alguns oficiais
do KGB seus guarda-costas no vestíbulo da sala da reunião. Mas Béria
não podia adivinhar que o Marechal Jukov chegaria ao Kremlin com
mais onze generais, com armas pessoais escondidas e ordens precisas
para substituir os seus guarda-costas. ("Operações Especiais" Pavel
Sudoplatov pág. 401 Ed Europa América, 1994)
Béria foi julgado com um julgamento farsa igual
aos que ele organizava e com os mesmos resultados. Foi fuzilado.
O método de Stáline para lidar com os seus
camaradas ou rivais acabou com a eliminação de Béria. A acusação
usou ainda a retórica e utensílios legais do ditador e foi condenado
como inimigo do povo, espião do estrangeiro e outras convincentes
acusações do mesmo estilo.
Livre de Béria e dos seus colaboradores que,
estes sim, foram apenas presos, o poder foi sofrendo ajustes e em
Setembro de 1953, sete meses após a morte do ditador, o Praesidium
eleva Krutchev a 1º Secretário do CC, cargo até aí acumulado por
Malenkov com a presidência do Governo.
Consequências internacionais
A viragem da política soviética que o Relatório
de Krutchev representou se foi grande no plano interno não foram
menores no plano internacional.
A maior das suas consequências foi sem dúvida a
tese sobre a possibilidade de coexistência pacífica entre Estados
com sistemas económicos e sociais diferentes concretamente entre os
Estados socialistas e os Estados capitalistas. Um corolário deste
princípio era a aceitação da possibilidade de se evitar a guerra
entre os dois sistemas. Era uma nova orientação virada para a paz e
o desarmamento que viria a tornar-se numa orientação duradoura da
União Soviética apesar de não ter sido suficiente para evitar o
crescente confronto entre os dois campos e a "guerra fria".
Outra tese que não deixava de ter alguma relação
com aquela foi a da possibilidade da passagem ao socialismo por
diferentes vias entre elas a via pacífica.
A alteração do rumo político relativamente a
Stáline introduzida por Krutchev apesar de forte resistência do
sector conservador e que vinha já dos anos anteriores ao XX
congresso manifestou-se no restabelecimento das relações de amizade
com Tito e a Jugoslávia na normalização das relações com a Áustria.
Com este país a União Soviética estabeleceu um tratado de paz, no
âmbito das negociações com as potências vencedoras da 2ª GM e
promoveu a desocupação militar em troca da sua neutralidade.
De acordo com os novos princípios apresentados no
XX congresso Krutchev deu início a uma estratégia de distensão
militar com os Estados Unidos, de reforço da paz mundial e pelo
desarmamento.
As boas intenções chocaram no entanto com a
realidade. O campo liderado pelos Estados Unidos não desistia do
cerco, político, militar, económico e tecnológico e mantinha como
ponto central da sua política a derrota da União Soviética e do
comunismo. A situação era tal que em 1965 a ligação aérea entre
Moscovo e Havana tinha de ser feita pela rota do pólo Norte e pelo
Atlântico porque os aviões soviéticos das carreiras aéreas de
passageiros não estavam autorizados a sobrevoar a Europa Ocidental.
A União Soviética não desistia, apesar do acento
posto agora na diversidade de vias para ao socialismo entre elas a
via pacífica como orientação para a luta dos partidos comunistas e
outras forças contra o capitalismo, de se opor por todos os meios
incluindo o da força armada à defesa dos regimes sob seu controlo na
Europa de Leste.
Assim a coexistência pacífica e a criação de um
clima de distensão nas relações com os EUA e a Europa Ocidental
ficou muito comprometido particularmente com a intervenção militar
na Hungria oito meses depois do célebre XX congresso.
A denúncia do estalinismo teve consequências
imediatas nos regimes comunistas da Europa do Leste tutelados com
mão pesada por Stáline. O comprometimento das direcções partidárias
e dos Governos da maior parte destes países, com purgas de sua
iniciativa ou impostas por Stáline, era grande e a desestalinização
não deixou de ser um processo dramático nalguns destes países.
As novas teses de Krutchev sobre a coexistência
pacífica e a diversidade de vias para o socialismo acabaram por se
chocar com as posições da China e contribuir, aliás como toda a
política anti-estalinista de Krutchev, para o grande cisma comunista
resultante do denominado diferendo sino-soviético.
Outro ponto culminante do confronto entre os dois
sistemas mundiais e que levou o mundo, como nunca antes, nem depois,
à beira da catástrofe nuclear foi a crise dos mísseis com armas
nucleares em Cuba. Como se sabe a crise teve como desfecho, no fim
de Outubro de 1962, o acordo com Kennedy pelo qual a União Soviética
retirava os mísseis de Cuba e os EUA comprometiam-se a não invadir a
ilha de Fidel Castro, que aliás se opôs ao acordo, e a retirar os
mísseis norte-americanos apontados à União Soviética instalados na
Turquia.
Este acordo saldou-se em termos de imagem num
revés para Krutchev que aliado ao fracasso da sua política agrícola,
o calcanhar de Aquiles de todos os Governos soviéticos, foi
aproveitado para o seu afastamento em Outubro de1964.
No capítulo do desarmamento a política de
Krutchev acabou por assinalar um êxito importante com a assinatura
do Tratado de Moscovo de suspensão das experiências nucleares
submarinas e na atmosfera em Agosto de 1963.
Repercussões em Portugal
A nova orientação de Krutchev contra o culto da
personalidade de Stáline e o estalinismo em geral também não deixou
de ter repercussões em Portugal ainda que relativizadas à condição
de um partido que não só não está no poder como luta obrigado a
duras condições de clandestinidade.
Na primeira reunião do CC do PCP realizada em
Maio de 1956, três meses depois do XX congresso do PCUS, e depois no
5º congresso (Setembro de 1957, Estoril) vai triunfando,
influenciada pelo XX congresso, uma orientação política de luta
contra a ditadura fascista que substitui a via do levantamento
nacional violento, o derrubamento do regime pela força, pela via
pacífica. Ora um levantamento nacional pacífico ora através de
eleições. É de acordo com esta linha que em 1959 o PCP promoveu a
"Jornada nacional pacífica pela demissão de Salazar", após as
eleições farsa de 1958, em que o general Delgado foi sem a mais leve
surpresa "derrotado". Essa jornada nacional pacífica incluía um
abaixo assinado que por acaso também assinei e reuniu, se bem
lembro, a assinatura de 402 corajosos portugueses seguramente tão
descrentes da eficácia de tal exorcismo como eu.
Esta orientação "pacifista" para o derrubamento
do regime do "Estado Novo" foi muito causticada por Álvaro Cunhal,
após a sua fuga da cadeia de Peniche, em Janeiro de 1960, no
documento O DESVIO DE DIREITA NO PCP NOS ANOS 1956-1959, e foi
substituída no 6º congresso (Setembro de 1965, Kiev) pela linha que
propunha a via insurreccional armada para o derrubamento da ditadura
no célebre documento O RUMO À VITÓRIA.
Também estimulada pelo novo alinhamento com o
PCUS de Krutchev se procurou identificar no PCP uma tendência para o
culto da personalidade de Álvaro Cunhal, então preso, que viria a
apagar-se, tal como nascera, sem grande ruído, por minguada
consistência.
As repercussões do XX Congresso e de Krutchev à
frente da URSS também se poderiam medir pelo desaparecimento dos
malefícios da continuação do culto religioso de Stáline entre nós.
Pelo menos a mim, tão pouco atreito a rezas, poupou-me o risco de
ter de o incensar como "pai dos povos".
Que futuro para o Socialismo?
Que espécie de socialismo é este? Não sou eu que
interrogo. É Krutchev no fim da sua vida, em prisão domiciliária,
relativamente benévola, nos arredores de Moscovo, na última página
das suas Memórias (Edit. Inquérito Lisboa 1990- Khrushchev Remembers
– The Glasnost Tapes). E continua: "o paraíso é um lugar para onde
as pessoas querem ir, não é um lugar de onde se foge. Mas as portas
deste país continuam fechadas e trancadas. Que espécie de socialismo
é este? Que espécie de merda é esta se temos de manter o nosso povo
agrilhoado?
Isto remete-nos para outra ordem de questões e
questões fundamentais.
O comunismo galvanizou milhões de pessoas porque
oferecia um mundo melhor do que aquele que aos trabalhadores estava
reservado pelo capitalismo. A difícil luta pelo socialismo e o
comunismo tinha para lá do fim da exploração do homem pelo homem,
das metas a cada um conforme o seu trabalho, ou no horizonte a cada
um de acordo com as suas necessidades, para lá da conceptualização
do fim da opressão e da alienação do homem, o socialismo tinha uma
justificação imediata simples: uma vida melhor do ponto de vista
material e espiritual para os trabalhadores e a população em geral.
A União Soviética e o "campo socialista" apesar
de enormes realizações na industrialização do país, na educação, na
saúde, na ciência, nas armamentos, na conquista do espaço, não
conseguiu revelar-se no plano económico e nos ritmos de
desenvolvimento, em especial nos desafios da sociedade
pós-industrial, superior às sociedades capitalistas mais avançadas.
O homem que a retórica marxista-leninista
considerava estar no centro de tudo. De toda a actividade económica,
social e política, não passou no estalinismo de figura de estilo e
depois um pouco melhor mas não o suficiente.
A Rússia em 1917 era um mar de camponeses saídos
da servidão apenas há meio século donde emergiam algumas ilhas
industrializadas e o calcanhar de Aquiles do poder soviético foi não
ter conseguido nunca resolver satisfatoriamente, a não ser por
pequenos períodos, os problemas económicos principalmente no âmbito
da agricultura e dos bens de consumo corrente que garantissem uma
qualidade de vida superior à dos trabalhadores dos países da Europa
Ocidental ou dos EUA.
Daí que momentos de viragem tão dramáticos como
os de 1927/28 com a imposição administrativa da colectivização e
"deskulakização" dos campos, o saque do trigo e outros produtos aos
camponeses, estejam ligados à incapacidade de abastecer o país com
pão e produtos agrícolas, dificuldades que chegam até ao XX
congresso e irão ciclicamente continuar.
Com Stáline e mesmo depois a economia foi
dirigida por métodos administrativos até ao absurdo com a
substituição das leis económicas pelo voluntarismo.
Krutchev tentou descentralizar a economia e
atacar os problemas agrícolas mais urgentes, e retirar a economia do
colete de forças administrativo e voluntarista mas não conseguiu
encontrar a essência, as causas profundas dos insucessos nem um rumo
coerente para os vencer.
A substituição de Krutchev em 1964 com um golpe
palaciano que viria a ser repetido sem êxito – ou com excesso de
êxito – contra Gorbatchov, em 1991, teve para além de motivações
imediatas de âmbito político e luta pelo poder, causas mais
profundas de ordem económicas e em especial a crise na agricultura
com o desvanecimento das esperanças no celeiro das terras virgens,
uma área de muitos milhões de hectares que não levou em conta as
objecções dos cientistas soviéticos que já então adivinhavam o
impacte ambiental negativo que levou rapidamente ao desastre.
Muitas questões coloca o XX congresso do PCUS aos
comunistas mas muitas mais colocam as reformas de Gorbatchov e o fim
da União Soviética precedido pelo fim do socialismo nos países da
Europa do Leste e pelo que se passa na China, em Cuba ou na Coreia
do Norte.
Teria sido possível avançar para uma sociedade
verdadeiramente socialista persistindo na via de reformas encetada
por Krutchev?
Teria sido possível a Gorbatchov com medidas mais
ousadas ou cautelas mais previdentes encontrar uma saída diferente
para a Rússia?
E os problemas nacionais que se dizia estarem
resolvidos!? Tão insistentemente que dava que pensar.
Ou… a tese de Lenine, de que o socialismo era
possível vencer a partir do "elo mais fraco da cadeia dos países
capitalistas na era do imperialismo"? A partir da Rússia atrasada
contrariando a ideia de Marx de que a revolução só poderia triunfar
a partir do conjunto dos países mais desenvolvidos do capitalismo?
Na minha opinião os impasses do socialismo real
têm na sua base a incapacidade demonstrada para resolver as questões
de desenvolvimento económico tendo em conta as leis económicas, que
possibilitassem um nível de bem estar maior e mais harmonioso, isto
é com justiça social, superior ao capitalismo. Mas a chave para
resolver este problema de fundo está, no meu modesto entendimento,
na super-estrutura política, está na liberdade individual. A
superação das dificuldades económicas pressupõe o contributo livre e
criativo à escala de massas. Sem mais e melhor democracia sem mais e
melhor liberdade individual do que aquela que gozam as grandes
massas da população nos países capitalistas, a sociedade que se quer
socialista não poderá vencer.
Não sei se era possível equilibrar a defesa da
liberdade e da participação democrática com a defesa do Estado do
cerco e da guerra que lhe era movida pelo campo imperialista.
Por outro lado como é do conhecimento, não diria
geral, porque não é, como se vê por aí, mas de conhecimento muito
generalizado, os ideias progressistas de reforma social,
chamemos-lhe socialismo, têm de abordar uma realidade social
completamente distinta das dos tempos de Marx, Lenin, Krutchov, ou
mesmo de Gorbatchov.
E a utensilagem teórica se não dispensa o
conhecimento crítico da História não pode ser a mesma para o comboio
a vapor ou o motor eléctrico que para a do mundo globalizado, do
conhecimento, da informação, da Internet do telemóvel. Não sei se a
solução desponta dos estudos de Penin Redondo que tenho curiosidade
em conhecer ou dos estudos de teóricos de vanguarda por esse mundo
além. Para tantas dúvidas deixo o esforço das respostas aos
renovadores comunistas que tiveram a amabilidade de me convidar.*
Raimundo Narciso
* Intervenção no debate promovido pela Renovação Comunista, em
Lisboa, no passado dia 7 de Novembro, sobre o XX Congresso do
Partido Comunista da União Soviética e a actualidade do projecto
comunista.