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______________________________________________ José Pacheco Pereira, "Estudos sobre Comunismo", 23 de Agosto 2008
1. Após mais de 150 anos a dominar o mundo, sim o mundo, como poucos, para onde foi Karl Marx depois de cair o último muro que defendia o “seu” território em 1989? O corpo maciço, peito, cabelo e barbas abundantes, sólido como um rochedo, pousado sobre a pedra com um centro de gravidade seguro, só parecido no bronze com o Balzac de Rodin, foi, em muitas terras do “socialismo real”, retirado da peanha e levada para esses “museus do comunismo” que atraem turistas americanos nas capitais do lado de lá do Muro. Como o seu túmulo verdadeiro estava escondido num cemitério suburbano de Londres, onde ocasionalmente delegações búlgaras ou mongóis deixavam um ramo de flores, eram essas estátuas a personificação do poder real da personagem, uma das que mais alto marca o século XIX e o século XX. Por onde anda hoje aquele que os maoístas peruanos chamavam a “primeira espada”? 2. Marx continua por todo o lado, mas está muito diferente daquilo que foi. A impregnação do marxismo em tudo, a começar pelo “texto escolar” e pelo discurso comunicacional, tornou-se tão normal, tão habitual que temos dificuldade em distingui-lo da “ideologia dominante” que ele esconjurava. É um marxismo deslavado, desprovido das suas intenções revolucionárias, longe dos seus actores históricos, transformado num mero discurso sobre a sociedade, sobre o conflito, sobre os “ricos e os pobres” já sem esse nome, perpassando no discurso da alter-globalização, nos debates sobre o preço do petróleo, mesmo nalguma vulgata ecológica, nas discussões esquerdistas sobre o Império. Deslavado, descaracterizado, mas também marxismo. 3.Marx continua
forte nos livros de sociologia e de economia, menos forte nos de filosofia,
menos nos de política. Na academia, o seu sucesso segue uma geografia bizarra,
forte nos campus das universidades americanas, em França, na América
Latina, mas esse marxismo universitário que ainda alimenta algumas revistas com
o seu nome, já não é o mesmo Marx do “marxismo” que conhecíamos. Não é o mesmo
Marx de Engels, de Lenine, de Staline, de Cunhal, mesmo de Lukács, Garaudy e
Althusser, mas um Marx intelectualizado, transfigurado em mil teorias críticas
que, do cinema ao feminismo, da antropologia bosquímana aos estudos de
arquitectura apocalíptica, continuam a produzir centenas de livros e milhares de
artigos por ano. 4. Esta confusão de vozes significa inseminação de ideias e conceitos a fazerem o seu caminho? Significa “sucesso”, como agora se costuma perguntar? Significa “sucesso”, mas não o sucesso que Marx desejava, não aquele para que escreveu a sua obra, do Manifesto ao Capital, não aquele a que dedicou uma vida que não se limitou a uma obra teórica, mas à acção política na Associação Internacional dos Trabalhadores e mais tarde nos primórdios daquela que vai ser a II Internacional. Aí há um significativo retrocesso, porque o Marx original considerava a política o teste da validade das suas ideias. Durante cento e cinquenta anos, tudo parecia correr tal como Marx desejava e previa, num mundo que foi varrido por revoluções que se inspiravam do seu nome, com centenas de milhões de pessoas envolvidas, em movimentos cuja dimensão não têm precedentes na história mundial, movendo mais gente simultaneamente do que mesmo as grandes religiões. Mas, o Marx dos dias de hoje, o Marx feminista, o Marx psicanalítico, o Marx dos vários “ismos” adjectivos, não inspirará nenhuma revolução. Bom, talvez no Nepal, onde em 2008 os maoístas tomaram o poder e acabaram com a monarquia. Também não foi para acabar aqui que Marx escreveu o Manifesto Comunista. 5. Olhando para
trás, terá sido um equívoco que Marx tenha inspirado ou pelo menos tenha sido
nomeado como inspirador das revoluções do passado, a começar pela que mais
marcou a história do século XX, a revolução russa? Não. Não foi um equívoco.
Esse teste pela “prática”, como diziam os marxistas, “o critério de verdade da
teoria do conhecimento do materialismo dialéctico”, estava implícito no programa
teórico do marxismo e falhou. O fracasso do marxismo político, cuja genealogia
soviética não é necessariamente nem uma deturpação ou um desvio, teve a data
marcada em 1989 quando o Muro foi derrubado, e dois anos depois quando acabou a
URSS e, com ela, o sistema comunista mundial. Como afirmou Fukuyama, tinha
acabado a História teleológica, a história que Hegel passou a Marx, a história
com destino e direcção e que por isso se escreve com H grande. 6. Os textos que
agora são publicados neste livro foram o ponto de partida para esta longa
história e podem surpreender, com excepção do Manifesto Comunista, o leitor
moderno que terá dificuldade em compreender até que ponto estas reflexões
filosófico-político-económicas um pouco arcanas, típicas da filosofia alemã do
século XIX, poderiam ser tão potencialmente subversivas, revolucionárias. O que
pode o leitor comum, curioso, amador, actual encontrar nestes textos? Uma
parafernália de coisas mortas, como também encontra noutros grandes autores, mas
muitas coisas vivas, no sentido em que permanecem problemáticas, suscitam o
pensar, porque, mesmo falhado o seu programa político explícito, Marx continua a
ser um dos grandes pensadores da história ocidental. 7. Onde reside a
“mudança”, o terreno da revolução, o campo de batalha, é na “luta de classes”.
“Toda a história é uma história de luta de classes” é talvez a proclamação
essencial do Manifesto Comunista sobre a história. Que a história é uma longa
sucessão de conflitos, já os gregos o sabiam, mas a natureza dos conflitos
permanecia presa a idiossincrasias pessoais e nacionais, de território, de
religião. A consciência da irredutibilidade dos interesses, do antagonismo
natural entre grupos, classes, como essencial na fábrica da sociedade, foi um
adquirido do marxismo. Tinha um corolário fundamental: não poderia haver
sociedades sem conflito e nenhum modelo social e político assente em classes,
podia dar origem a uma sociedade perfeita. Só no princípio da humanidade, no
comunismo primitivo dos caçadores e recolectores e no fim, no comunismo do
futuro, o “espírito” da História conheceria descanso. Pelo meio, nos milhares de
anos da história concreta dos homens, a propriedade gerava as classes e as
classes lutavam entre si. 8. Para o mudar
o mundo havia um novo actor “negativo” – o proletariado, os homens que, não
tendo nada a perder, tinham tudo a ganhar. Para Marx, essa escolha não
correspondia apenas a uma constatação de facto sobre os conflitos do seu tempo,
onde os operários emergiam como uma força da “negatividade” da história, mas
onde era também possível escolher outras actores, a começar pela própria
burguesia que desde a Revolução Francesa, - que tinha cinquenta anos quando Marx
se estava a formar ideologicamente, ou seja estava próxima, - se tinha mostrado
bem mais eficaz como “revolucionária”. 9. O homem de
Marx, tanto o seu proletário como o seu burguês, é parte de uma mecânica que os
ultrapassa, que o Deus ex-machina da “luta de classes” impulsiona. Para
construir este “que nada tem” Marx vai muito para além da economia. Em vários
textos, quer de juventude, quer de maturidade, de forma diferente e utilizando
conceitos distintos e muitas vezes antagónicos, ele desenvolveu uma teorização
de como esses homens seriam desapossados da sua humanidade para perderem tudo e
ficarem proletários. 10. Se sairmos
do mundo conceptual para a “vida”, uma palavra cara aos comunistas, se fizermos
a verificação empírica, a “prática”, que funciona como prova numa teoria que
pretende ser “científica”, Marx falhou no proletariado como actor. E falhou
porque a relação de exploração, sobre qual assentava o conceito do proletariado
como única classe estruturalmente revolucionária, possuidora da “seta da
história”, não era a única, bem pelo contrário a construir a mentalidade, a
“superestrutura” política dos operários. Na maioria dos casos, na avaliação da
“prática”, não é a dialéctica que trai Marx, mas o materialismo, a eliminação
teórica das “ideias” como mecanismo de determinação, limitadas apenas ao papel
de ruído, de perturbação de uma “acção recíproca” dominada pela infra-estrutura
económica. 11. Por isso,
toda a história dos herdeiros do Manifesto Comunista, do comunismo e do
socialismo no século XX, é a da procura do proletariado mítico e do encontrar de
outros no lugar dele: Lenine encontrou, em vez da Inglaterra e da Alemanha
industrial, a Rússia rural; Mao Zedong em vez dos operários de Xangai, encontrou
os camponeses, Fidel de Castro encontrou camponeses, estudantes, intelectuais e
poucos, muito poucos operários 12. O problema do actor que não parecia ter grande vontade de representar o seu papel era apenas mais uma manifestação de um problema maior na teorização marxista, a dependência da revolução da “ciência” e não da “vontade”. A essência do “muda-lo”, na Tese sobre Feuerbach, não era a vontade revolucionária, algo que Marx, Engels e Lenine combateram como típico do revolucionarismo burguês. Para eles, Marx em particular, a “vontade” contava pouco porque as teses sobre a “autodestruição” do capitalismo, que constituem o cerne político do Capital, eram matéria de ciência. Eram tão ciência como a teoria da gravitação de Newton, ou a selecção natural de Darwin, e no ambiente de optimismo cientifico, de crença na tecnologia, na admiração da capacidade da ciência de, não só “interpretar o mundo” mas de fornecer as técnicas “para o mudar”, as teses marxistas sobre o capitalismo e a sua inevitável destruição tinham a inevitabilidade da maçã a cair para o chão. Engels, o primeiro intérprete autorizado e co-autor, tentou sempre fazer essa fusão entre o adquirido da ciência e o do marxismo, uma tradição que continuou até aos nossos dias, mesmo em marxismos desviantes da ortodoxia soviética. O trotsquista Ernest Mandel escreveu, por exemplo, um tratado de economia em que o cânone marxista clássico se entrelaçava com o que de mais moderno havia na investigação na antropologia, na sociologia, na filosofia, na economia política, na demografia, nas ciências sociais e humanas, mas também nas ciências físico-naturais. Para Marx, o seu livro o Capital era o equivalente para a economia e para a sociedade dos Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, para a natureza. 13. Mas, quando se analisa de novo a história do marxismo concreto, do marxismo dos homens que tentaram levar à prática o ditame da décima primeira tese sobre Feuerbach, a “vontade” revolucionária, que Marx e Lenine tinham ridicularizado, mostrou-se sempre mais eficaz do que a “ciência do proletariado”. Um exemplo extremo encontra-se nas Citações de Mao Zedong, o “livro vermelho” onde se encontra a célebre fábula chinesa, de que Mao gostava, e que serviu para um dos seus mais conhecidos textos, Como Yukong Moveu as Montanhas. O “louco” e velho camponês que todos os dias, ele mais os seus descendentes, escavam um pouco a montanha que lhes tapa o Sol, dirigia-se como fábula moral a um “marxismo camponês”, menos dominado pelo tempo urbano proletário dos grande relógios urbanos e pela “pressa” citadina e mais conforme com o tempo lento e cíclico das estações, onde nada parece mudar. É um tempo não dialéctico, no qual só se pode impor uma teleologia através de sinais, sinais subtis de mudança, que exigem força de vontade. Mas o que transpira para além da vulgata leninista sinofilizada, ou dos conselhos de puro bom senso, é um apelo constante à vontade, à constância da vontade, à perseverança da vontade, se quisermos, à fé. Muito do guerrilheirismo latino-americano, embrenhado em muitos casos tanto no marxismo como no catolicismo progressista, contém igualmente esse traço de vontade de vis revolucionária, agora envolvida em teorias messiânicas sobre a história que unem Cristo e o “Che”. 14. Bem vistas
as coisas, tudo correu mal a Marx. Nem o proletariado se comportou como era
suposto, bem pelo contrário, nem as revoluções foram sucedidas, ou foram outra
coisa muito diferente, nem o “espectro” do comunismo passou de fantasma a
entidade corpórea, nem o implacável programa “científico” do Capital deu origem
à “autodestruição” do capitalismo. Mas também, bem vistas as coisas, nenhum
programa teórico dos filósofos desta colecção poderia ter passado a prova da
“prática” que Marx impôs a si próprio. Valha a verdade que muitos estavam a
outro nível de intelecção da realidade, mas nem todos. Por exemplo, Platão, não
estava, Séneca não estava, Maquiavel não estava. E se todos eles podem ser
interpretados de forma dilemática, pela “prática”, nenhum tinha a vastidão de um
pensamento personificado num nome que atravessara a terra durante mais de cem
anos, prometendo mudar tudo e mudando muita coisa, em particular muitos milhares
de vidas que, quase sempre infelizmente, conheceram o “marxismo”. Desse ponto de
vista, o impacto de Marx só é comparável ao dos fundadores de grandes religiões,
só que com a diferença que esta religião laica tinha uma tão grande
explíicitude, manifestava um tão alto “orgulho” teórico, colocava tão alta a
fasquia da sua verificação e “verdade”, que foi morta nessa “prática” pelo
“ruído do mundo”, pela complexidade das coisas, pela emergência de fenómenos que
ajudou a “prever”, mas que não conseguia “compreender” em toda a sua plenitude.
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