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Ganhar o
Rei sacrificando o Cavalo
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Maria Rosa
Redondo,
Janeiro 2006
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Em menos de um ano o governo suportado pela bancada
socialista na Assembleia da República passou de detentor de uma confortável
maioria absoluta para a condição de praça sitiada.
O cerco está montado pelas autarquias que perdeu, pelos sindicatos que não
controla, pelas corporações que o abominam e, desde o dia 22, por um Presidente
que se parece demasiado com um professor rigoroso.
Como foi isto possível ?
As razões de fundo são o vazio ideológico e a ausência de um projecto
sócio-económico alternativo ao sistema actual o que reduz os objectivos
estratégicos à simples obtenção do poder.
Mas mesmo nesse plano, este descalabro concreto explica-se por um conjunto de
erros tácticos, que revelam incapacidade para definir prioridades e gerir
expectativas.
Basta recuarmos até à partida de Durão Barroso para a Comissão Europeia, no
Verão de 2004, para percebermos como a esquerda fez do bloqueamento da nomeação
de Santana Lopes um objectivo prioritário. Essa questão foi pretexto para
agressões verbais a Jorge Sampaio e levou mesmo à demissão da liderança do PS.
Assim que Santana foi empossado a pressão sobre o seu governo tornou-se
impiedosa e atingiu uma escala sem precedentes mesmo antes que houvesse factos
que a justificassem.
Nenhum dos partidos da esquerda, pareceu estranhar que várias forças e
personalidades conotadas com a direita - Marcelo, Manuela Ferreira Leite,
Pacheco Pereira, Cavaco - participassem nesse processo.
Pelo contrário, aceitaram alegremente a “ajuda” para a sua cruzada.
Hoje já é claro para todos que a direita sacrificou um "cavalo", Santana, para
assegurar a vitória do "rei", Cavaco. Caso Santana se tivesse mantido à frente
do governo seria altamente improvável uma vitória da direita quer nas
autárquicas quer nas presidenciais.
Aqueles que, como eu, sempre disseram que a esquerda não se devia precipitar no
engodo e na facilidade de vencer Santana foram olhados como suspeitos de
“santanismo”.
Aqueles que defenderam a construção de uma alternativa política sólida antes de
amarinhar para as cadeiras do poder foram ostensivamente ignorados pois, para
muitos, “as cadeiras do poder já” são mesmo a única coisa que consta dos seus
projectos.
Se a Assembleia não tivesse sido dissolvida haveria tempo para preparar uma
alternativa política e eleitoral, e depois usar o descontentamento gerado pelo
governo de direita para fazer eleger um Presidente que incluisse no seu programa
a intenção de demitir Santana. Pelo caminho ter-se-ia provavelmente ganho as
autárquicas em Lisboa e no Porto.
Como se sabe foi tudo feito ao contrário.
A direita venceu em Outubro nas principais cidades e agora usa as reivindicações
locais para pressionar o governo. Cavaco está numa posição confortável pois
tanto pode apoiar o governo, se este fizer as políticas que lhe interessam, como
cortar-lhe as pernas se ele se desviar do “bom caminho”.
Pretextos não faltarão já que não é previsível nos próximos anos um sucesso
inquestionável das políticas económicas e, por outro lado, está ainda muito vivo
o precedente da dissolução da Assembleia decidida por Sampaio apesar da maioria
PSD/CDS.
A guerra fratricida entre Alegre, Sócrates e Soares torna tudo ainda mais fácil
para Cavaco já que o PS tem a sua capacidade de reacção diminuída e corre mesmo
o risco de cisão parlamentar.
Tanta incompetência no planeamento parece demasiada mas é, infelizmente, uma
realidade.
Mais grave ainda é o facto de a esquerda não ter um projecto alternativo de
desenvolvimento económico e social.
Enquanto oposição, faz uma crítica casuística e de bota-abaixo. Uma vez com as
responsabilidades governativas e confrontada com os problemas do sistema, não
sabe aplicar-lhes senão as soluções próprias desse mesmo sistema.
E por esse motivo, o historial das suas ascensões ao poder mostra que elas
apenas servem para executar as políticas da direita e dispensá-la, assim, de
pagar o preço da impopularidade.
Depois de fazer o “trabalho sujo” a esquerda é de novo arredada e tem início um
novo ciclo de direita.
Desta vez não será diferente. Dentro de três anos, ou quem sabe até antes disso,
a direita liberal terá um Presidente e uma Maioria; a preparação do Partido
começa no já anunciado congresso do PSD.
É por isso que não desistiremos de defender a urgência da construção de um
projecto alternativo de sociedade e de política evitando o que sempre tem
acontecido; serem os objectivos secundários, as prioridades erradas e as lutas
sem perspectiva a comandarem a actividade dos partidos de esquerda.
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