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À espera do
efeito dominó
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Jorge
Nascimento Rodrigues, Expresso, 6 de
Maio 2006
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ATÉ 2040, quando se antevê que a China alcance o lugar
cimeiro do PIB mundial, os especialistas dos ciclos longos dividem-se,
acaloradamente, entre dois períodos de «alto perigo» - um mais próximo outro
daqui a duas décadas - em que poderão ocorrer confrontações globais no plano
geopolítico. Duas ideias parecem obter consenso hoje nesta comunidade de
analistas: a queda do Muro de Berlim não selou o fim da rivalidade geopolítica
que sempre moveu a história; e é também enganadora a afirmação de que, após o 11
de Setembro de 2001, apenas as «ameaças assimétricas», derivadas da fase de
difusão do terrorismo internacional, são relevantes.
«O mundo continua a ter ‘horror’ à solidão de uma única superpotência», confirma
Arno Tausch, 55 anos, professor de Ciências Políticas na Universidade de
Innsbruck, na Áustria. A sua investigação para o Centro Argentino de Estudios
Internacionales, de Buenos Aires, sobre a inconsistência da metáfora do «fim da
história» acabou de ser lançado em «e-book».
O trabalho deste conselheiro ministerial em assuntos internacionais e europeus
do Governo austríaco vem na sequência de um «estado da arte» no tema feito por
uma colectânea publicada em Março passado (Kondratieff waves, warfare and world
security), com base na conferência realizada em Lisboa pela NATO e pela Fundação
Gulbenkian em Fevereiro do ano passado.
(ver a representação gráfica dos ciclos
de Kondratieff clicando
aqui)
A investigação de Tausch revela que as grandes guerras de impacto global, desde
os tempos da Revolução Francesa, aninharam-se, em regra, no período ascendente
de um novo ciclo longo económico (baptizado pelo economista Schumpeter como
«ciclo de Kondratieff»), no meio de prosperidade económica e antes de grandes
«crashes», que ocorreriam nas décadas seguintes. A excepção, em mais de 200
anos, foi a II Guerra Mundial, que ocorreu após um «crash» (1929) e no decurso
de uma longa depressão, com a segunda tentativa alemã de disputa da hegemonia
mundial. Uma III Guerra Mundial, de novo no decurso do período ascendente do
ciclo longo, não se concretizou em virtude do «equilíbrio bipolar de terror»
entre as duas superpotências ao longo de 30 anos e devido à implosão de um dos
pólos, com a «perestroika».
O especialista austríaco acha que uma situação como a que ocorreu nos anos 1930
e 1940 não vai repetir-se agora, apesar da enorme turbulência que se sucedeu à
queda do Muro de Berlim. Apesar do «período de delegitimação da hegemonia ‘em
solidão’ dos Estados Unidos ter começado, paradoxalmente, logo após a queda do
Muro de Berlim, o ciclo de afirmação dos ‘desafiadores’ ainda está no adro»,
comenta Tausch, baseado nos estudos feitos pelo professor George Modelski. Não
obstante, o ciclo de reemergência chinesa se ter iniciado em 1978 com as
reformas de Deng Xiaoping e de, desde 2002, a estratégia da China para o
petróleo no século XXI estar em concretização acelerada no terreno, os analistas
não referem, ainda, este país como um «clone» de Napoleão ou da Alemanha.
Pelo que Tausch «chuta» a próxima «zona de alto perigo» para a década que se
inicia em 2020. Entretanto, recomenda «atenção aos sinais que poderão gerar um
efeito dominó». A crise iraniana poderá desencadear um efeito dominó às portas
da Europa, na Ásia (onde há vários «casos» pendentes) e na América Latina,
adverte. O xadrez mundial pode mudar rapidamente, como «ocorreu com as crises do
Suez e da Hungria em 1956», recorda. Os pessimistas desta comunidade de
investigadores vêem, por isso, o perigo mais próximo, ainda nesta década.
Jorge Nascimento Rodrigues
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