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O
falhanço da estratégia contra o terrorismo
por
Hugo Pires
Na
sequência dos
terríveis
atentados
do
passado
dia
11 de
Março,
em
Madrid, é exigida uma
reflexão
acerca
da
estratégia
que
tem sido utilizada
para
lutar
contra
o
terrorismo
fundamentalista,
devido
ao facto de esta
não
ter obtido,
até
ao
momento,
resultados
eficazes
que
nos
possam
fazer
afirmar
que
o
terrorismo
fundamentalista
está
hoje
mais
fraco
do
que
em
Setembro
de 2001,
altura
em
que
a
questão saltou
para o
primeiro
plano
das
preocupações
da
opinião
pública
mundial, na sequência dos
atentados
levados
a
cabo
em
Nova
Iorque e Washington.
Como
consequência dos
ataques
ao World Trade Center e ao
Pentágono,
símbolos
do
poder económico
e
militar dos
Estados
Unidos, o
Presidente
Bush apressou-se a
declarar
guerra
ao
terrorismo,
formando-se
para o
efeito
uma
coligação
internacional
integrada
por
diversos
países.
Uma
das primeiras
medidas
tomadas
foi o
congelamento de
contas
bancárias pertencentes a alegados
membros
da Al-Qaeda, de
modo
a
não
lhes
ser
mais
possível
financiar
operações
de
terror.
Ao
mesmo
tempo,
o
pavor
e o
medo da
ocorrência
de
atentados
instalaram-se nas
sociedades
ocidentais,
nomeadamente da
norte-americana.
A
resposta
dos
governos
foi
um
maior
rigor
em
questões
de
segurança,
interna
e
externa,
que
chocou,
em
muitos
casos,
com
os
direitos
e
liberdades
fundamentais
dos
cidadãos,
que
são
um
factor estruturante da
sociedade
livre,
democrática
e pluralista,
que
muitos
destes
governos
afirmam
defender,
nomeadamente os
Estados
Unidos e a Grã-Bretanha,
países
em
que
estas
medidas
de
segurança
mais
se fizeram
sentir.
Não
tardou a
resposta
militar,
que
surgiu na
forma de
bombardeamentos
em
larga
escala
ao Afeganistão,
com
o objectivo de
derrubar o
regime talibã,
apoiante da Al-Qaeda,
organização
terrorista
responsabilizada
pelos
ataques
de 11 de
Setembro
de 2001,
que
ao
que
consta, possuía
total
liberdade
e
até
apoio,
para
desenvolver a
sua
actividade no
país,
nomeadamente no
estabelecimento
de
campos
de
treino
para
terroristas.
A
guerra
foi
curta,
durando
apenas
dois meses,
após os
quais
os talibans foram
expulsos
das
principais
cidades,
destruíram-se os
campos
de
treino
para
terroristas,
capturaram-se algumas
centenas
de
supostos
talibãs e
membros
da Al-Qaeda
que
foram
levados,
ao
que
consta
em
condições
degradantes e
claramente
violadoras dos
direitos
humanos,
para a
base
de Guantánamo.
Também
foram eliminados
alguns
líderes
menores
da Al-Qaeda,
cuja
única
exepção será
talvez
Mohammed Atef,
número
três
da
organização,
morto
num bombardeamento no Afeganistão
em
finais
de 2001.
Faltou
desmantelar a
Al-Qaeda,
ou
pelo
menos,
retirar-lhe
capacidade
operacional, o
que
pelos
vistos,
até
agora,
não
foi conseguido.
Era
também
um
objectivo
capturar
ou
eliminar
fisicamente o
seu
líder,
Osama Bin Laden,
que
o
Presidente
Bush queria “morto
ou
vivo”.
Este
objectivo
também
não
foi
até
agora
atingido,
pois Bin Laden,
assim
como
o
seu
número
dois, o
médico
egípcio Ayman Al-Zawahiri e o
líder
dos talibãs, Mullah Omar, continuam
em
parte
incerta,
apesar
dos
boatos,
pelos
vistos
infundados,
que
os deram
como
tendo sido capturados, feridos e
até
mortos.
Após o
Afeganistão, o
Presidente
Bush acusou a
Síria,
o Irão e o Iraque de apoiarem o
terrorismo
fundamentalista,
afirmando
que
estes
estados
constituiriam
um “eixo
do
mal”.
Não
demorou
muito
tempo
para
que
os
ventos
da
guerra
se voltassem a
fazer
sentir, desta
feita no Iraque.
Sob
pretexto
de
que
o
ditador
Saddam Hussein possuía
capacidade
para
produzir
armas
de
destruição
maciça,
os
Estados
Unidos decidiram derrubá-lo do
poder, a
fim
de implantarem no Iraque
um
regime
democrático
exemplar. Esta
decisão
suscitou uma
imensa
polémica e
um
intenso
debate mundial,
após o
qual,
os
Estados
Unidos, a Grã-Bretanha e
também
a Austrália, apoiados
pela
Espanha,
pela
Itália,
pela
Polónia,
por
Portugal,
entre
outros,
decidiram
avançar
unilateralmente,
sem
o
apoio das
Nações
Unidas, numa
clara
violação
do
direito
internacional,
debaixo
da
indignação
e
revolta
dos
países
árabes
e das
críticas
de
países
europeus
como
a França
ou a
Alemanha.
Saddam Hussein foi apeado do
poder
em
poucas
semanas.
A
questão é
que
a
credibilidade
e a
legitimidade
internacional
dos
Estados
Unidos ficaram afectadas
para
sempre,
nomeadamente
perante
o
mundo
árabe,
que
se sentiu desautorizado e humilhado,
perante
a
arrogância da
potência
imperial
que
lhe
quer
impor
valores
culturais e
políticos,
se
necessário
pela
força
das
armas
que,
não
esquecer,
matam civis
inocentes.
Do
ponto de
vista
do
Presidente
Bush,
isto
não
é
mais
do
que
o
seu
grande
projecto
para
democratizar
o
Médio
Oriente,
do
ponto de
vista
árabe é
um
dever de
resistência,
mais
do
que
um
motivo
de
ódio
em
relação
ao
mundo
ocidental,
é uma
luta
de
valores
civilizacionais
que
estão
dispostos
a
levar
até
às últimas consequências, atirando
muitos
indivíduos
até
então
moderados
para os
braços
do
extremismo.
Com
isto
se explicam as
dificuldades
que
as
tropas
americanas enfrentam no Iraque de
hoje,
onde
a
resistência à
ocupação
parece
não
ter
fim,
com
isto
também
se explicam,
em
parte,
os
atentados
do
passado
dia
11 de
Março
em
Madrid,
que
são
uma
demonstração de
que
os
terroristas
continuam a
existir e
que
possuem
capacidade
para
fazer
atentados
– uma
demonstração
prática do
falhanço da
estratégia
delineada
contra
o
terrorismo
internacional.
A
estratégia
da
luta
contra
o
terrorismo
deve o
seu
falhanço ao facto dessa
mesma
luta
ser travada
quase
exclusivamente
por
meios
violentos,
que
provocam a
mesma
reacção do
outro
lado
da
barricada.
É
indiscutível
que
se devem
punir e
castigar
severamente
os
autores
morais
e
materiais
dos
atentados
terroristas,
mas
isto
é
algo
que
só
poderá
ser
feito
nas
instituições
próprias,
que
são
os
Tribunais
e dando todas as
garantias
de
defesa
aos acusados.
Mas
não
é
somente
pela
repressão
e
pelo
castigo
que
se
combate o
terrorismo
mundial, creio
mesmo
que
o
mais
importante
passa
por
integrar
esses
povos
na
comunidade
internacional,
nomeadamente
através
do
combate à
pobreza
e à
exclusão,
que
talvez
seja
um
dos
principais
factores
que
pode
levar
um
ser
humano
a tornar-se
terrorista.
Em
relação
à
pobreza,
é
necessário
combatê-la
não
só
entre
seres
humanos,
mas
também
entre
países,
que
os há
cada
vez
mais
ricos
e
cada
vez
mais
pobres,
para o
efeito,
atrever-me-ia
sugerir a
introdução
da “Taxa
Tobin”,
proposta
pelo
economista
americano do
mesmo
nome,
Prémio Nobel da
Economia
em
1981,
que
consiste numa
taxa de 0,1%
sobre
todas as transacções
resultantes
da
especulação
financeira
e
monetária.
Com
este
dinheiro, seria
possível
ajudar os
países
em
vias
de
desenvolvimento,
através
de
programas
de
alimentação,
medicamentos
e
educação.
Era
uma
forma de
desviar
potenciais
terroristas
dos
caminhos
do recrutamento
pela
parte
de
organizações
extremistas.
Para
terminar,
mas
não
menos
importante
na
luta
contra
o
terrorismo,
seria
bom
para
quem
se afirma
campeão
da
liberdade
e dos
direitos
humanos
dar o
exemplo
de
como
se faz.
Esse
exemplo
deverá
passar
obrigatoriamente
pela
ratificação
da
Convenção
de Quioto,
sobre
a
emissão
de gases
para
atmosfera
e do
Tribunal
Penal
Internacional,
instituição
destinada a
julgar
crimes
contra
a
humanidade,
aos
quais
ninguém
deveria
ficar
impune.
Também
seria
um
óptimo
sinal
se deixasse de
usar
dois
pesos
e duas
medidas
em
relação
ao
conflito
israelo-árabe,
que
tantas
mortes
por
terrorismo
tem provocado,
pois seria o
primeiro
passo
para a
resolução
do
mesmo.
Enquanto
isto
e
muito
mais
não
acontecer, os
Estados
Unidos
não
têm
moral
para
exigir o
que
quer
que
seja dos
outros
povos.
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