DO
CAPITALISMO
PARA O DIGITALISMO?
Ou
o “Digitalismo”
um
novo
“Modo
de
Produção”
?
Algumas
reflexões
críticas
sobre as
teses de R. e F.
Redondo
Guilherme da Fonseca Statter
Seja-me
permitido
dar
alguns contributos
para a
reflexão elaborada
por
Rosa e Fernando
Redondo
sobre o “Digitalismo” (suposto
novo “Modo de
Produção”
que na
opinião dos
autores poderá
vir a
substituir o
Capitalismo”).
Embora
tal
me pareça
um interessante
exercício de
futurologia (e daí
até
nem vem
mal ao
mundo),
não
me proponho
discutir a
visão
exposta
acerca de
eventuais
características de
um
possível
futuro “modo de
produção” a
que R. e F.
Redondo chamam de “digitalismo”. Limitar-me-ei a
indicar algumas
possíveis
linhas
reflexão
sobre as
teses expostas
acerca da
fase actual
em
que
nos encontramos.
As
teses básicas expostas
por R. e F.
Redondo
são,
quanto a
mim, as
seguintes:
1. O Digitalismo
enquanto “novo
modo de
produção”
tanto pode
vir a
ser sinónimo de “Comunismo”
como de “não se sabe
bem o
quê” (fascismo
sem
dor?... o
caos?...).
2. O
predomínio (ainda
que
não
absoluto
ou
rígido) da
evolução
tecnológica
ou “base
material”
sobre as “relações de
produção”.
3. O actual
regime de
propriedade (dos
meios de
produção) parece
não
ser
característico do
sistema
capitalista
ou
então
não será
suficiente
para
caracterizar o
capitalismo.
4. A actual “revolução
na
gestão” (recorrendoeu à
expressão utilizada
por Duménil e Levy),
assim
como a actual “revolução
científica e
tecnológica”, teriam
um caracter
radicalmente
novo, o
que justifica
pôr
em
causa a
teoria laboral de
valor (tal
como elaborada
por Marx).
5. A
incorporação do
conhecimento no
processo
produtivo (e na
respectiva
ou daí
resultante
progressão da “base
material”) teria adquirido
um caracter
novo e
revolucionário (?...) o
qual caracter
novo e
revolucionário justificaria pensarem os
autores destas
teses estarmos à
beira de uma
transição
para
um
novo
modo de
produção.
Espero
não
me
ter enganado na
interpretação das ideias expostas
por R. e F.
Redondo
porque é nessa
base
que exponho os
meus
reparos,
críticas
ou
comentários.
Ou seja, se esta
minha
leitura do
texto produzido
pelos
autores
não está correcta,
então as
minhas
reflexões
críticas deverão, necessariamente,
ser consideradas
como desadequadas.
Vejamos
então, o
mais
possível,
ponto
por
ponto:
1. O estarmos
ou
não numa
nova
fase do
Capitalismo é
já de
si
um
tema de
muita
discussão
entre
marxistas de
vários
quadrantes.
Assim sendo
talvez fosse interessante
que R. e F.
Redondo enquadrem-se a
sua
própria
análise no
âmbito dessa
discussão. A
esse
respeito recomenda-se,
por
exemplo, “Duménil and Levy - Periodizing
Capitalism. Technology, Institutions and Relations of Production” in Albritton,
Itoh, Westra and Zuege, 2001”.
Em
termos
muito
genéricos importaria
também
ter
presente a
questão das
chamadas
ondas de Kondratief. De
acordo
com
todos os registos
disponíveis da actividade económica do
sistema
capitalista ao
longo dos
últimos
dois
séculos, estamos
ainda batendo no
fundo de uma
depressão
e (se a
História se repetisse de
maneira
pendular...) estaríamos
dentro
em
breve a
sair dessa
depressão entrando num
período de
crescimento de,
mais
ou
menos, uns
outros 30
anos.
Por
mim tenho as
minhas
dúvidas...
Até
porque nas
fases
anteriores havia
ainda (“ao dispôr” do
sistema
capitalista)
aquilo a Wallerstein
gosta de
chamar “external
arena”.
Agora (em
rigor
desde há umas boas
décadas)
já
só teremos “external
arena” se considerarmos uma
eventual
mas
muito
problemática
expansão geo-demográfica
para
fora do
planeta.
Em
todo o
caso adianto
já a
necessidade de
olhar esta
problemática
também de uma
perspectiva da
chamada
escola do sistema-mundo (tal
como
nos é apresentada
por I.Wallerstein). A
este
respeito,
para
já, fico-me
por
aqui
pois o
tema é
demasiado
extenso
para
ser
tratado
assim ao
correr da
pena. Acrescento
só
que as
dúvidas a
que
acima
me refiro têm
justamente a
ver
com o caracter cíclico (e de caracter
pendular)
que parece
ser atribuído à
ondas de Kondratief. Esta
atribuição tem
subjacente a
importação
para as
ciências
sociais e históricas do
modelo da
física newtoniana, o
que
só
era
compreensível (de
um
ponto de
vista epistemológico)
antes
que o sistema-mundo tivesse atingido as
suas
fronteiras planetárias.
2.
Em
termos de
análise da transformação
social, a
distinção
entre “base
material” e “relações
de
produção” tem
sobretudo
um
interesse heurístico.
Ou seja,
não faz
muito
sentido (ou
melhor,
não interessa
assim
tanto)
para a
compreensão da
realidade discutir-se se
são as
relações de
produção
ou se é a
base
material o
que “tem
mais
peso”
ou é “efectivamente
determinante”.
Convém
assinalar
que é nesse
contexto
que faz
todo o
sentido aquela
citação de Marx
acerca das
condições
materiais
para a consciencialização da
sociedade
para a
necessidade da
mudança.
Por
outro
lado, se é
verdade
que as
condições objectivas (“base
material”) estão
hoje
muito
mais propícias à transformação e ultrapassagem do
sistema
capitalista,
também é
verdade
que essas mesmas
condições
técnicas parecem
ter dificultado a
emergência das
condições subjectivas,
tal
como estas têm sido perspectivadas
pelos
partidos
revolucionários.
Por outras
palavras, as
novas T.I.C. ao permitirem a
dispersão e granularização dos
diversos
processos
produtivos
parcelares, permitem às
classes possidentes
capitalistas
um
melhor
controle
sobre
todo o
processo de
exploração e arrecadação de
mais-valias, ao
mesmo
tempo
que dificultam às
classes
não possidentes trabalhistas a
sua consciêncialização e,
sobretudo, a
sua
organização. Seria
bom
que R. e F.
Redondo procurassem
discutir
como é
que vêem essa
questão.
Em
todo o
caso e
relativamente à
hipótese
subjacente no
trabalho de R. e F.
Redondo do caracter
novo e (eventualmente)
revolucionário da
novas T.I.C. devemos
ter
em
conta
que
esse caracter,
ou
melhor,
esse
impacto
sobre a
sociedade
em
geral e a
economia
em
particular deverá
ser, no
mínimo, comparado
com
anteriores
invenções tecnológicas e
seu
impacto
sobre
também a
sociedade
em
geral e a
economia
em
particular.
A
título de
exemplo refira-se
que
ainda está
por
demonstrar
que o
impacto do
computador (e todas as
tecnologias dele derivadas)
sobre a
sociedade e a
economia é
comparativamente
maior do
que foi o
impacto da
invenção do
dínamo.
Ou
mesmo do
motor de
explosão
interna.
3. A
certa
altura dizem-nos R. e F.
Redondo
que “costuma
vulgarmente considerar-se
como caracteristica do
Capitalismo a
propriedade
privada dos
meios de
produção.
Tal ideia é errónea
pois a
propriedade dos
meios de
produção
era
também
privada
durante o
Feudalismo e o Esclavagismo”. Há
que
reconhecer
que
não
deixa de
haver uma
certa
dose de
verdade nesta afirmação. No
entanto haveria
que
discutir
com
algum
detalhe o
problema
mais
vasto dos
tipos e especificidades dos
diversos
regimes de
propriedade.
O
regime de
propriedade
capitalista tem
características próprias e tem
estado a
mudar ao
longo dos
últimos
dois
séculos.
Aliás pode argumentar-se
que
todo o
sistema
capitalista está
baseado
em
sistemas de
propriedade
muito
bem
definidos. O
que tem
estado a
mudar
são os
regimes e
formas
que vai assumindo
esse
sistema de
direitos de
propriedade.
A
esse
respeito chama-se a
atenção
para a
ênfase actual
relativamente à
legislação
sobre “direitos de
autor”, “propriedade
industrial” e “patentes”
(de
tudo e
mais alguma
coisa,
até do
genoma
humano...).
Este
ponto prende-se
também
com
aspectos
relativos à
incorporação do
conhecimento referido
por R. e F.
Redondo,
quer de uma
perspectiva de
acesso e
controle do
conhecimento,
quer de uma
perspectiva de “fuga (ou
drenagem...) de
cérebros”.
Deve
ainda referir-se
que as mudanças no caracter da
propriedade
capitalista têm
acompanhado a periodização
secular do
capitalismo. As mudanças introduzidas
nos
finais do
século XIX,
já assinaladas
por Hilferding e Lenine (entre
outros) estão a
vir de
novo ao de
cima (em
particular
desde o chamado “Golpe
de 1979” - o
aumento das
taxas de
juro orquestrado
entre Reagan, Volker e Tatcher -
ainda
hoje
isso
ajuda a
explicar a
aliança “contra-natura” (?...)
entre Bush e Blair).
Tal
como no
virar do
Século XIX
para o
Século XX se assistia ao
predomínio
absoluto da finança
sobre a
produção (com a
concomitante
separação
entre a
propriedade e a
gestão -
aquilo a
que
também
já se chamou de “revolução
managerial”),
depois do
interregno keynesiano de
cariz social-democrata
que se aguentou
até
finais dos
anos Setenta, as
classes
capitalistas voltaram a
assumir o
pleno
controle
através de uma
nova financiarização do
sistema.
Podemos
por
outro
lado
assinalar
dois
grandes
paralelismos
entre o
virar do
Século XIX
para o
Século XX
por
um
lado, e o
virar do
Século XX
para o
virar do
Século XXI
por
outro.
Esses
dois
paralelismos
serão
então (1) uma
revolução técnico-organizacional e (2) uma
explosão dos
mecanismos
monetários e financeiros (Duménil et Lévy, 2001).
Seria
bom
que R. e F.
Redondo
não se deixassem “hipnotizar” (à
falta de
melhor
expressão...)
pelo
natural maravilhamento
que resulta de
um contacto
íntimo de duas
ou
três
décadas
com as
novas
tecnologias da
informação.
4. A
teoria laboral do
valor (tal
como elaborada
por Marx) tem sido demasiadas
vezes encarada
sem o
necessário
grau de abstracção
que merece e
precisa. O
processo de
exploração (que
só é
visível
quando se utiliza
esse
instrumento de
análise
que é essa
teoria laboral do
valor) é
um
processo de caracter societal (quer
isto
dizer
que envolve a
totalidade da
sociedade)
embora seja
mais
visível ao
nível das
fábricas, herdades
agrícolas,
minas e outras
unidades de
produção
onde se processam as actividades produtivas
concretas.
Correndo o
risco de
incorrer
em algumas “platitudes”
ou
quase
banalidades conviria
talvez
assinalar
que sendo o “valor”
uma abstracção é
evidente
que
nunca se poderá
ver (sublinhado
meu o
mais
denso
possível) o “valor” do
que
quer
que seja. Vêm-se os
preços,
mas
nunca o
valor.
Quase da
mesma
maneira
que
não se
vê a
força da
gravidade. Sendo a ideia de
exploração uma
relação
matemática
entre duas outras
grandezas (“trabalho
necessário” à
reprodução
própria e “sobre-trabalho”),
ela será
também necessariamente uma abstracção. Os
trabalhadores podem “sentir” a
exploração (e há
muitos
que
até
nem sentem
nada...)
mas
não a podem
ver.
Mas
claro
que
isto está
tudo
exaustivamente explicado na ideia
marxista do “fetichismo” (do
dinheiro, das
mercadorias, etc. etc.)
Assim limito-me a
chamar a
atenção de R. e F.
Redondo
que o
abandono da
teoria laboral do
valor (tal
como elaborada
por Marx) é
algo
que
já foi
feito há
muitos
anos
atrás. Chama-se o Marginalismo (utilitarista)
e foi “descoberto” há uns
cento e vinte
anos
atrás.
Como se sabe, o marginalismo
só
trabalha
com “preços”,
considerando os “valores”
como
coisas
sem
relevância
científica
pois
são do
foro da subjectividade
humana.
Em
todo o
caso haverá
que
considerar
que se é
um facto
que as
novas T.I.C. têm possibilitado uma “revolução
na
gestão” (o
que é de facto
relativamente
novo se considerarmos
que o
que aconteceu nas primeiras
décadas do
século XX foi
antes uma “revolução
pela
gestão”), incluindo-se nesta “nova”
revolução
também o
crescente
predomínio do
trabalho
não
repetitivo, devemos
também
não
esquecer
que
tal se insere num
processo
milenar de
gradual e,
até
aqui, imparável,
crescimento da
composição
orgânica do
capital.
Nesse
processo de
crescimento da
composição
orgânica do
capital insere-se a
incorporação de
trabalho
criativo
ou
intelectual das
gerações
anteriores
ou
que
nos precederam. Os chamados
sistemas periciais
que se continuam a
desenvolver
com
recurso
paulatino a
técnicas de “engenharia
do
conhecimento”,
não
são
mais do
que a
transferência do
corrente
saber
fazer
humano
para
máquinas e
programas, sendo
que essas
máquinas e
programas continuam a objecto de
regimes de
propriedade.
Em
resumo,
aumenta a
composição
orgânica do
capital, diversifica-se e adensa-se a
malha de
subsistemas
produtivos
mas
não se alteram os
regimes de
propriedade (adaptam-se às
coisas possuídas
mas
não assumem caracter societal
novo).
Ou seja, e
por outras
palavras, os
meios de
produção
ou
base
material complexifica-se
ainda
mais (torna-se
ainda
mais “social” no
sentido
em
que Marx utilizava a
expressão),
mas as “relações de
produção” (o
regime de
propriedade
social e/ou
individual
sobre
esses
meios) mantêm-se no
que é
fundamental na
mesma. R. e F.
Redondo
talvez possam dar-nos uma
análise
mínimamente quantificada de
como a
apropriação
individual
ou
privada
por
parte de
muitos
trabalhadores
relativamente a
um saber-fazer
novo e
específico (em
cada
um dos
muitos
subsistemas de
produção
ou sectores de actividade),
assim
como a
sua
apropriação de
parte dos
meios de
produção
sob a
forma de acções
em
Fundos de
Pensões
ou
outros, tem
estado
ou
não a
justificar a
hipótese
avançada de
que estaremos à
beira de
um
novo
modo de
produção (o
tal “Digitalismo”).
Pela
minha
parte, e
para
terminar esta
reflexão
crítica,
penso
que a actual “revolução
tecnológica” tem
como
efeito
ou consequência
fundamental
para o
Capitalismo (e recorrendo às
categorias analíticas
propostas
por Mintzberg) uma transformação das
grandes
burocracias de
tipo
máquina
ou de
forma divisional
em
burocracias
profissionais
em
paralelo
com uma
proliferação de ad-hocracias.
Embora
em
rigor se devesse
antes
dizer
que
muito provavelmente o
que sucede é aquelas
grandes
burocracias (de
tipo
máquinas
ou de
forma divisional) se rodearem da
um numero
crescente de
burocracias profissinais e ad-hocracias,
assimilando ao
mesmo
tempo algumas das
suas
características de
comportamento organizacional.
Nada disso implica uma
eventual
transição do
Capitalismo
para
outro
modo de
produção
ainda
que uma
tal transformação
nos
métodos de
gestão económica e
social sejam provavelmente
mais
propícios à
emergência daquilo
que se
pensa possa
vir a
ser o
Socialismo.