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A
metamorfose
digital
da
mercadoria
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Fernando Penim
Redondo,
Março 2005
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A
riqueza
das
sociedades
nas
quais
domina o
modo
de
produção
capitalista
aparece
como
um “imenso
acumulamento de
mercadorias”,
sendo a
mercadoria
singular
a
sua
forma
elementar.
A
nossa
investigação
começa,
por
isso,
com
a
análise
da
mercadoria.
(primeira
frase de O
Capital
de Karl Marx,
Edições
Avante
1990).
Marx elegeu a
mercadoria
como
categoria
para
ponto de
partida,
quer
na
Crítica
da
Economia
Política
(1859)
quer
em O
Capital
(1867), da
caracterização
do
modo
de
produção
capitalista.
Não
será
portanto
de
estranhar
que
se faça
outro
tanto ao
analisar
a
transição
do
Capitalismo
para o
Digitalismo.
A
revolução
tecnológica,
associada
à
representação
digital
da
informação,
está a
abrir
caminho
para a
emergência
de
um
novo
modo
de
produção, o
Digitalismo.
“Esse
novo
modo
de
produção
cuja
base
material
compreende as
redes
de
comunicação
de
dados,
a
rádio
e
televisão
difundidas
pelo
espectro
radioeléctrico
ou
por
cabo,
todo
o
tipo
de autómatos
desde
os micro-chips aos super-computadores, os
softwares
aplicacionais, as
bases
de
dados
e os
sistemas
operativos, e todas as
tecnologias
conexas
que
com
eles
activamente interagem e deles
cada
vez
mais
dependem, realiza-se
pela
captura,
armazenamento,
tratamento
e
difusão
da
informação
necessária
à
produção
de
conhecimento.”
(in Do
Capitalismo
para
o Digitalismo, Fernando
Penim
Redondo
e Maria
Rosa
Redondo,
Campo
das
Letras
2003)
Esperamos
demonstrar
que a
metamorfose
digital
da
mercadoria
constitui uma
ruptura
cuja
magnitude
indicia o
surgimento
de
um
novo
modo
de
produção.
Novo
modo
de
produção
não
significa necessariamente o
advento
de
relações
de
produção
justas
por
isso
importa
equacionar
as
novas
condições
em
que
a
luta
pelo
progresso
humano
virá a travar-se.
A
mercadoria
segundo
Marx
Marx define a
mercadoria
na
primeira
secção,
do
Tomo
I, do
Livro
Primeiro de
O
Capital
(1867):
1. “A
mercadoria
é,
antes
de
mais,
um
objecto
exterior,
uma
coisa,
que,
por
meio
das
suas
propriedades,
satisfaz
necessidades
humanas de
qualquer
espécie.
A
natureza
dessas
necessidades,
quer
surjam, p. ex., do
estômago
ou
da
fantasia,
em
nada
modifica a
questão.”
(Edições
Avante
1990, pag. 45).
Nesta
parte
da
definição
admite-se
que
as
necessidades
humanas
tanto
podem
resultar de
processos
básicos
“automáticos”
(por
ex.
necessidade
de
alimentação)
como
de
mecanismos
mentais
complexos.
A
utilização
da
palavra
fantasia
em
contraponto
ao
estômago,
mesmo
que
não
tenha sido
intencional,
pode
indiciar
que
Marx desvalorizava as
necessidades
“intelectuais”
comparativamente
com as
necessidades
“físicas”.
2. “A utilidade
de uma coisa
fá-la um valor
de uso...Condicionada
pelas propriedades
do corpo
da mercadoria, ela
(a utilidade) não
existe sem ele...Este seu
carácter não
depende do facto de a apropriação
das suas propriedades
de uso custar
ao homem muito ou pouco trabalho”
(Edições Avante
1990, pag. 46)
Portanto
a
utilidade
é carácter da
coisa pelas
propriedades
do
seu
corpo e
independente
da
quantidade de
trabalho
humano
necessária
para a
obter.
A
utilidade
ou
existe
ou
não
existe (nesse
caso
a
coisa é
inútil)
e
não
é aflorada
sequer
a
hipótese
de uma
coisa
ser
mais
ou
menos
útil.
Também
não é
posta
a
hipótese
de uma
coisa
ser
útil
para uns
indivíduos
e
não
para
outros.
3. “O valor
de troca
aparece, antes
de mais, como
a relação quantitativa,
a proporção
na qual
os valores
de uso
de uma espécie
se trocam por valores
de uso
de outra espécie,
uma relação que muda constantemente com
o tempo
e o lugar.”
(Edições Avante
1990, pag. 46)
Esta
caracterização
do
valor
de
troca
situa-se
claramente
num
contexto
social
em
que a
generalidade
dos
trabalhadores
produz
bens
“trocáveis” (mesmo
que
por
intermédio
da
moeda)
e
precisa
de
saber
que
quantidade
deve
entregar
para
obter
um
outro
bem
pretendido. Na
nossa
época a
generalidade
dos
trabalhadores,
participantes de
processos
de
produção
complexos
em
que
impera a
manipulação
da
informação
em
fases
sucessivas, teriam
muita
dificuldade
em
identificar
os
resultados
“trocáveis” do “seu
trabalho”.
4. “Um valor
de uso ou bem, portanto, apenas
tem um valor
(de troca) porque
nele está objectivado ou
materializado trabalho humano em
abstracto...A quantidade
de trabalho
mede-se ela própria pela sua duração
no tempo,
e o tempo
de trabalho, por seu turno,
possui como padrão
de medida
determinadas partes
de tempo, como hora, dia,
etc.” (Edições Avante
1990, pag. 49)
Ao
relacionar
o
valor
de
troca
com o
tempo
de
trabalho
“materializado” nas
mercadorias
Marx situa-se
claramente
no
contexto
social
indicado
em
3.
Faz
todo
o
sentido
comparar o
tempo
que
alguém
demorou a
produzir
um
bem
com o
tempo
que
lhe
“custaria”
produzir
um
outro
bem
que
pode
ser obtido
por
troca
com
o
primeiro.
5. “Tempo de trabalho socialmente
necessário é tempo de trabalho requerido para produzir qualquer valor de uso nas
condições de produção dadas, socialmente normais, e com grau social médio de
habilidade e intensidade do trabalho.” (Edições Avante 1990, pag. 50)
...“Portanto, é apenas o quantum de trabalho socialmente necessário para a
produção de um valor de uso que determina a magnitude do seu valor (de troca)“
(Edições Avante 1990, pag. 50)
Estas
definições
têm
por
objectivo
evitar
que as
diferenças
entre
os
tempos
individuais
de
produção
levassem a
que
a uma
mercadoria
produzida
por
um
trabalhador
mais
lento
correspondesse
um
valor
de
troca
superior
já
que o
seu
tempo de
produção
teria sido
maior.
Tem
implícito
o
convencimento
de
que
os
potenciais
“trocadores”
conhecem o
tempo
de
produção
em
condições
“socialmente
normais”
mesmo
que
não
conheçam o
tempo
gasto
num
bem
específico,
por
um
produtor
específico,
quando
pretendem adquiri-lo.
6. “Originariamente, a mercadoria
surgiu-nos como algo
biface: valor
de uso
e valor
de troca.
Verificou-se mais tarde que também
o trabalho,
na medida em que
está expresso
no valor, já não
possuía as mesmas características que lhe
cabiam como gerador
de valores
de uso.
Esta natureza
biface do trabalho
contido na mercadoria
foi em primeiro lugar
apontada criticamente por mim. Como este ponto
é o fulcro em volta
do qual gira
a compreensão
da economia política,
temos agora
de o esclarecer mais
de perto.”
(Edições Avante
1990, pag. 52)
...“Para
se tornar mercadoria
o produto
tem de ser
transferido por meio
de troca para
o outro
a quem
serve como valor
de uso. Finalmente
nenhuma coisa
pode ser valor sem ser
objecto de uso.
Se for inútil, então também
o trabalho
nela contido é inútil, não conta como trabalho
e não forma, por isso, qualquer valor”
(Edições Avante
1990, pag.52)
O
valor
de
uso
e o
valor
de
troca
são as
duas
faces
da
mercadoria
mas
não
têm uma
convivência
pacífica;
enquanto
o
valor
de
uso
repousa na
faceta
qualitativa
do
trabalho
o
valor
de
troca
baseia-se
apenas
no
aspecto
quantitativo
do
trabalho.
Como
se pode
ver Marx considerava esta
questão
fulcral.
7. "Um casaco não
se troca por um casaco, um valor
de uso não
se troca por esse mesmo valor
de uso”
(Edições Avante
1990, pag. 53)
Esta afirmação é
coerente com
a citada em
2. e constitui uma boa ilustração
do que
se referiu quanto
à ausência
do grau
de utilidade, ou
mesmo de um
universo
de utilidade, para os
bens. Pela
afirmação citada acima
parece querer
defender-se que um casaco
é tão
útil como
outro casaco
qualquer,
seja para quem
for.
A
mercadoria
no
nosso
tempo
Históricamente os
homens
relacionaram-se
com
a
mercadoria
de
formas
diferentes
a
saber:
Antes
do
advento
da
comunicação
de
massas
– as
decisões
de
aquisição
eram, na
maior
parte
dos
casos,
tomadas
com
base
na
informação
projectada
pela
própria
mercadoria
e o acto de
trocar/comprar
era
efectuado na
presença
da
mercadoria.
Após
o
advento
da
comunicação
de
massas
– a
decisão
é
geralmente
tomada
com
base
numa “imagem”
publicitária
da
mercadoria
(meta-informação)
mas
a
compra
ocorre na
presença
da
mercadoria.
Na
era
digital
– a
decisão
tem
cada
vez
mais
como
base
“representações”
digitais
da
mercadoria
(por
exemplo
na
Internet)
e a
compra
efectua-se,
cada
vez
mais,
sem
a
presença da
mercadoria.
A
fantástica
capacidade
digital
para
multiplicar
réplicas
de
representação
da
mercadoria
levou ao
extremo
o
processo de
separação
da
decisão
e do acto da
compra
relativamente à
mercadoria.
A
mercadoria
pode
até
nem
existir
senão a
partir
do
momento
em
que
decidimos adquiri-la
já
que
pode,
ela
própria,
ser objecto de
replicação
quase
instantânea
com
recurso
a
quantidades
quase
nulas de
trabalho
vivo.
A
distinção
entre
produção
e
circulação
esbate-se
ou
extingue-se.
Pode dizer-se
que
em
muitos
casos a
maior
parte do
trabalho,
e do
custo,
ocorrem na
produção
das
representações
da
mercadoria
e
não
da
própria
mercadoria.
Em
qualquer
caso
quando
hoje
falamos de
mercadoria
é
preciso
considerar o
conjunto
constituído
pela
mercadoria
e pelas
suas
representações
no
mercado.
Se no
passado
as
mercadorias
já
comportavam
muito
trabalho
que
não
era
directamente
produtivo
(concepção,
engenharia,
design,
estudos
de
mercado)
hoje
esse
trabalho,
independente
das
quantidades
produzidas, contribui
em
muito
maior
escala
para
o
valor
das
mercadorias
já
que
ocorre
também
ao
nível das
suas
representações. Torna-se
portanto
quase
impossível
ter
o
tempo
de
trabalho
como
critério
de
valor
das
mercadorias.
Os
consumidores
não
só tomam
as
suas
decisões
sobre
mercadorias
ausentes
como
estão
cada
vez
mais
perante
processos
de
escolha
entre
mercadorias
“equivalentes”,
que
presumivelmente terão
tempos
socialmente
necessários
de
produção
equivalentes.
Por
exemplo
a selecção de
um
detergente,
entre
vários,
não
pode
ser
feita
com
base
no
tempo
socialmente
necessário
para os
produzir.
Marx dizia
que
a
troca
de
mercadorias
com
diferentes
valores
de
uso
que
ocorre
entre
os
homens
significa
que
algo as
torna
“equivalentes” e
que
essa
equivalência
advém da
quantidade
de
trabalho
humano
incorporado;
nós
dizemos
que
a
escolha
de
um
entre
vários
produtos
com
“tempos
socialmente
necessários”
de
produção
similares
significa
que
existe
algo,
para
além
do
tempo,
que
motiva
essa
escolha.
Se o
tempo
deixa de
ser
um
critério
de
escolha
(de valor)
para os
consumidores
e se
apesar
de
tudo
eles têm
que
escolher, e
escolhem, umas
mercadorias
e
não
outras
então
é
necessário
encontrar
a
fundamentação
dessas
decisões.
Parece
legítimo
concluir
que
decidem no
convencimento
de
que
umas
mercadorias
satisfazem
melhor
as
suas
necessidades do
que
outras,
ou
seja,
que
têm
valores
de
uso
diferentes,
ou
maiores.
As próprias
necessidades
dos
consumidores
são,
como
todos
sabemos, “construídas” pelas
mais
variados
mecanismos
de
comunicação.
Aquando da
satisfação
das
necessidades
básicas os
homens
socorrem-se de
mecanismos
mentais
complexos
e
socialmente
determinados (para
responder
à
necessidade
de
alimentação
come-se
isto
e
não
aquilo,
cozinha-se de uma
forma
e
não
de
outra,
por
exemplo).
As
decisões
de
compra
e as
escolhas
subjacentes
são
“actos de
conhecimento”
no
sentido
em
que
resultam do
tratamento
da
informação
contida nas
representações
das
mercadorias.
Essa
informação
não é
mais
do
que
o
resultado
dos “actos de
conhecimento”
executados
pelos
trabalhadores
que
conceberam e executaram as referidas
representações.
Este
tipo
de
trabalho,
não
repetitivo
e de
resultados
imprevisíveis,
coaduna-se
mal
com as
relações,
hoje
correntes,
de
trabalho
remunerado
por
salário
correspondente
a uma
dada
unidade
de
tempo.
É
hoje
claro
que
a
utilidade
das
mercadorias
pode
existir
ou
não, e
em
graus
diferentes,
para
diferentes
seres
humanos
(há
quem
se recuse a
comprar
televisão
ou
automóvel,
por
exemplo)
e pode
ser
diferente
para
mercadorias
que
vulgarmente
são
consideradas equivalentes (com
os
casacos
mencionados
por
Marx).
Só
neste
sentido
pensamos
ser
válida
a
tese
de
que
estamos
em
transição
para
uma
sociedade
do
conhecimento
o
que
impõe a
revisão
do
esquema de
valor
de Marx
por
forma a
compreender,
e
intervir
com
eficácia,
neste
novo
modo
de
produção.
Há
que
olhar
para
o
valor
de
troca
não
como
resultante
do
tempo
de
trabalho
mas
como
uma consequência da
qualidade
do
trabalho
que
gerou os
valores
de
uso;
como
grandeza
dependente
dos “actos de
conhecimento”
dos
trabalhadores
e do
seu
reflexo
nos
“actos de
conhecimento”
dos
consumidores.
Só
assim
poderemos
forjar
relações
de
produção
mais
justas e
muito
mais
produtivas
que
era
precisamente o
que
Marx pretendia.
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