Digitalismo

novas formas de dominação económica ?

 

 

Fernando Penim Redondo, Janeiro 2004

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A revolução tecnológica, associada à representação digital da informação, está a abrir caminho para a emergência de um novo modo de produção, o Digitalismo.

Esse novo modo de produção cuja base material compreende as redes de comunicação de dados, a rádio e televisão difundidas pelo espectro radioeléctrico ou por cabo, todo o tipo de autómatos desde os micro-chips aos super-computadores, os softwares aplicacionais, as bases de dados e os sistemas operativos, e todas as tecnologias conexas que com eles activamente interagem e deles cada vez mais dependem, realiza-se pela captura, armazenamento, tratamento e difusão da informação necessária à produção de conhecimento.” (in Do Capitalismo para o Digitalismo, Fernando Penim Redondo e Maria Rosa Redondo, Campo das Letras 2003)

Novo modo de produção não significa fim da exploração logo importa equacionar as novas formas de dominação económica que tal sistema pode vir a gerar.

  

1.    Informação, conhecimento e comunicação

  

Sem comunicação não existem relações humanas nem vida propriamente humana....

Por conseguinte, as improbabilidades do processo de comunicação e a forma em que as mesmas se superam e se transformam em probabilidades regulam a formação dos sistemas sociais. Assim deve entender-se o processo de evolução sociocultural como a transformação e ampliação das possibilidades de estabelecer uma comunicação com probabilidades de êxito, graças à qual a sociedade cria as suas estruturas sociais...”

(in A improbabilidade da comunicação, Niklas Luhmann, Vega 2001)

 A terceira improbabilidade da comunicação indicada por Luhmann é a de se “obter o resultado desejado”, ou seja, levar o destinatário a “actuar em virtude das directrizes correspondentes, bem como experimentar, pensar e assimilar novos conhecimentos, supondo que uma determinada informação seja correcta.”

 Na sociedade actual, que cada vez mais se estrutura em torno do tratamento e transmissão da informação, a imensa maioria das actividades humanas consiste na tentativa de influenciar o conhecimento de outrem, de modo a levá-lo a agir de uma determinada maneira.

 O político, o professor, o designer, o artista e o publicitário são apenas casos paradigmáticos das actividades influenciadoras do conhecimento; o cinema e a televisão, as comunicações móveis, a edição discográfica, a imprensa e os sistemas computacionais são exemplos de industrias da informação que ocupam cada vez mais os lugares cimeiros entre os sectores económicos globais.

A comunicação efectua-se através da informação, ou seja, dos sinais passíveis de captação pelos sentidos e encaminhamento para o cérebro humano.

Podemos definir vários tipos de informação com base na sua origem e na motivação do emissor:

- informação-natureza, que se capta a partir dos objectos naturais.

- informação-sociedade, que se capta a partir dos objectos produzidos pelo homem e permite a criação de mundividências (A Construção Social da Realidade, de Peter Berger e T. Luckmann).

- informação-influência, toda a informação-sociedade que foi gerada para influenciar o conhecimento do destinatário de forma a cumprir propósitos específicos do emissor.

- informação-experiência, produzida na mente humana a partir do historial próprio de utilização da informação na prossecução de propósitos.  

A produção da informação para comunicação recorre a variados meios e suportes.

O corpo humano através da fala ou dos gestos, por exemplo, é um meio de produção de informação tal como qualquer dispositivo ou máquina que produza objectos físicos pois, seja qual for o seu carácter, a informação passa sempre por uma forma física, ou suporte, a partir do qual é posteriormente apreendida.

Por mais complexo que seja um pensamento ele terá sempre que passar por um suporte  físico no processo de comunicação, quer se trate de ondas vibratórias do ar, folhas de papel escritas ou imagens num monitor de raios catódicos.

Em contrapartida, por mais material que seja um produto humano- um tijolo, um casaco - ele aparecerá sempre ao seu destinatário como informação visual, sonora, táctil, etc.

A linguagem, escrita ou falada, constitui aliás um meio de produção dos mais importantes e também ela, para haver comunicação, tem que ser produzida num suporte material para poder ser apreendida como imagem, som ou mesmo sensação táctil (caso do alfabeto Braille).

A informação apresenta-se ao cérebro sob a forma de sinais tácteis, paladares, odores, sons e imagens. Tais sinais são objecto de diversos tratamentos em função do propósito a realizar entre os quais:

- selecção, para definir uma parte da informação disponível como informação relevante à luz do propósito a alcançar (Porquê esta informação e não outra ?)

- categorização, para determinar que mecanismos de interpretação aplicar (trata-se de um texto, de uma imagem, de um som, etc ?)

- interpretação, para descodificar o conteúdo da informação relevante (qual é o significado destes símbolos ?, que melodia é esta ?)

- caracterização, para validar a informação (quais os propósitos do emissor ?, a informação é fidedigna ?)

- transformação, para ajustar a informação ao propósito (posso aplicar este cálculo a outro problema ?, como será esta imagem a preto e branco ?)

- combinação, para encontrar novas potencialidades (se eu somar esta variável à outra ?, junto percussão a esta melodia ?)

É ao efectuar estes tratamentos da informação que se verifica a produção de conhecimento. A produção de conhecimento sempre lugar à produção de informação quer para o autor, sob a forma de informação-experiência, quer para os outros na medida em que se exteriorize.

A informação-experiência é simultaneamente input e output na produção de conhecimento. Por essa razão a informação-experiência é muitas vezes confundida com o conhecimento mas tal não é aceitável que tal informação, como qualquer outra, é passível de utilização na realização de propósitos depois de ser submetida aos tratamentos atrás indicados (selecção, categorização, interpretação, caracterização, transformação e combinação).

 

2. O trabalho como acto de conhecimento

 

Propomos que se defina conhecimento como a organização da informação pela mente humana para, com determinados meios, realizar determinados propósitos.

Os propósitos humanos emanam da sua condição de ser vivo em contacto com o mundo. Os propósitos das máquinas, mesmo quando complexas, são sempre directa ou indirectamente propósitos humanos.

Os propósitos de cada individuo encadeiam-se, hierarquizam-se e conflituam quer entre si quer com os propósitos de outros indivíduos em sociedade.

A valorização dos propósitos, a determinação de que um dado propósito é “melhor” do que um outro, é uma questão ideológica

O que distingue o trabalho das outras actividades humanas é o tipo de propósitos que se propõe alcançar, a saber, a angariação e acumulação dos meios de subsistência material e de preservação do estatuto sócio-económico.

No processo de trabalho em geral então que considerar os seguintes elementos:

 

- A informação relevante

- Os meios de execução

- O propósito a alcançar

É sempre ao nível do cérebro humano que estes elementos são tratados e que o conhecimento é produzido e “incorporado” no resultado obtido.

É sempre no cérebro humano que o conhecimento se produz de forma dinâmica, em cada actividade realizada; o conhecimento produzido em fases anteriores e presente sob a forma de informação ou de meios de execução de nada vale se não for objecto da atenção e do trabalho de um intelecto que os trate para alcançar um propósito.

O grau de repetitividade de uma tarefa pode ser avaliado através da complexidade da informação de partida e do grau de liberdade que os meios de execução permitem.

Uma analogia interessante para entender esta abordagem pode ser feita com a execução musical; se considerarmos que a pauta é a informação relevante e que o instrumento musical é o meio de execução compreendemos o papel crucial do executante que ao interpretá-los e manipulá-los efectivamente produz musica.

Quer a pauta quer o instrumento, embora tenham conhecimento incorporado, são objectos inertes que para pouco servem na produção de música sem a intervenção do intérprete. Por outro lado quer a pauta quer o instrumento permitem uma gama bastante variada de abordagens, de “interpretações”, pelo que a execução musical constitui uma tarefa essencialmente não repetitiva.

Se compararmos este exemplo com uma tarefa industrial onde se parte de um desenho rigorosamente cotado e de uma máquina de corte, por exemplo, chegamos à conclusão de que a variabilidade “interpretativa” e a influência do operador no resultado obtido são muito menores o que permite concluir tratar-se de uma tarefa muito mais repetitiva.

 

3. A emergência do Digitalismo

 

A revolução tecnológica associada à representação digital da informação está a abrir caminho à emergência de um novo modo de produção através de mecanismos que podem ser explicados, sinteticamente, como segue:

  1. A informação, à medida que assume a forma digital e circula num suporte electrónico, torna-se infinitamente replicável, sem necessidade de trabalho humano numa escala proporcional. Por outro lado a informação não é destruída quando é usada. Em consequência os volumes de informação em circulação crescem de forma galopante.

 

  1. A representação digital da informação recorre a um código que sendo de difícil manuseamento pelos humanos pressupõe a intermediação de autómatos que, hoje, têm capacidade para captar e depois reproduzir textos, imagens e sons numa lógica bi-direccional. O trabalho humano perde importância no que concerne à criação de réplicas da informação.

 

  1. A oferta de informação torna-se virtualmente infinita que, através de mecanismos como a distribuição a partir das redes, é possível responder a qualquer volume de procura sem custos adicionais significativos de mão-de-obra ou de materiais.

 

  1. A enorme abundância da informação-sociedade coloca novos problemas no plano da terceira improbabilidade referida por Luhmann, nomeadamente no domínio da selecção, interpretação e categorização da informação pelos destinatários. Como consequência o trabalho é cada vez mais solicitado para a produção de informação-influência.

 

  1. O trabalho repetitivo, e o assalariamento, criações do capitalismo para a produção de réplicas, tendem a ser abandonados. Em seu lugar começa a desenvolver-se um outro tipo de relações de produção baseadas em projectos para criação de valor em que o trabalho se converte num factor fixo da produção, independente da quantidade a produzir.  

 

  

4. Para refutar a abordagem do conhecimento como capital

 

 Na abordagem tradicional do papel do conhecimento na produção, e Marx não é excepção, deu-se sempre muita relevância ao conhecimento anteriormente incorporado nos instrumentos de trabalho e ignorou-se sistematicamente o “conhecimento vivo que ocorre durante o processo de trabalho.

 Mesmo as abordagens mais recentes como a “gestão do conhecimento” (knowledge management), tão em voga nos meios empresariais, embora reconheçam o papel crucial da informação no processo de trabalho continuam a concentrar-se naquilo que designam comoconhecimento explícito”, conhecimento que foi formalizado e desligado do seu autor, acabando por se transformar num instrumento de trabalho ou em acervo de informação. Por outro lado ainda se acredita na possibilidade de capturar o “conhecimento tácito como se fosse possível conceber uma linguagem que representasse convenientemente a complexidade do pensamento humano.

 Em geral na ideologia dominante o conhecimento é tratado como uma categoria diferente e independente do trabalho e é vulgar ouvirem-se expressões como: capital intelectual, capital conhecimento, capital intangível, capital humano, etc..

 Confunde-se propositadamente capital e trabalho, chama-se conhecimento à informação.  

 A razão para tal parece evidente; aquilo que as empresas podem controlar, e controlam, é a informação (bases de dados, patentes), os seus meios de produção e os seus suportes (redes de computadores, teledifusão) e nunca o conhecimento que se produz ao nível do cérebro dos trabalhadores.

O objectivo desta mistificação que desvaloriza o papel do trabalho humano na produção é fazer passar como natural a apropriação pelo capital do valor gerado pelo conhecimento.

 É por isso crucial redefinir, numa perspectiva progressista, quer o trabalho quer a formação do valor que dele, e dele, resulta.

 A persistência da teoria do valor com base no tempo de trabalho, tal como Marx a formulou, acaba ironicamente por servir os intentos de estabelecer novas formas de dominação económica após a transição para o Digitalismo.

 O trabalho entendido como tratamento da informação para produzir nova informação, cuja duração é impossível de medir, obriga a rever as abordagens marxistas do trabalho produtivo/improdutivo e da mais valia baseada no tempo de trabalho.

 Em vez do tempo de trabalho é necessário estabelecer o conhecimento como fonte do valor da informação produzida (quer a informação assuma a forma de objectos materiais de consumo quer de objectos intelectuais). assim será possível exigir uma distribuição justa do valor gerado pelo conhecimento.

 

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