Uma
imagem vale mais do que mil palavras. É velha esta forma de comparar a
força cognitiva e comunicativa das imagens e dos textos mas, para além
de velha, ela é também inadequada.
Um texto, e antes dele a linguagem em que se expressa, é uma pura
convenção. Mesmo quando os idiomas são ideográficos os símbolos que os
integram resultam de regras ou de tácitos sociais.
As imagens, pelo contrário, estão tão longe de ser convencionadas que
nem sequer percebemos bem quais as regras que usamos para as
interpretar. São menos sociais mesmo quando incluem objectos que
socialmente têm algum significado.
Raramente nos damos conta de que interpretar imagens, e tomar decisões
com base nelas, é um dos actos que praticamos mais frequentemente nas
nossas vidas, pelo menos no período em que estamos acordados.
O mundo entra-nos naturalmente pelos olhos e muito antes de saber ler
qualquer texto, ou até entender qualquer palavra dita, já essas imagens
nos permitem conhecer e actuar sobre o espaço e a comunidade à nossa
volta.
Se caíssemos num planeta desconhecido mas iluminado, onde não
entendessemos mesmo nada dos símbolos, ainda assim seriam os olhos e as
imagens que eles captam a nossa única hipótese de sobreviver.
Quer o pensamento quer a interpretação do mundo podem existir mesmo sem
palavras mas isso não significa que, por exemplo, as ideias deste texto
fossem facilmente transmitidas recorrendo apenas a imagens.
Também não costumamos pensar que um texto escrito, quando se apresenta a
um potencial leitor começa por ser, para esse leitor, “apenas” uma
imagem.
Antes de chegar ao sentido de um texto temos que passar por várias
fases; (1) reconhecer que estamos perante a imagem de um livro, (2)
abrir uma página e nessa imagem localizar os caracteres, (3) verificar
se os caracteres são conhecidos (podem ser chineses ou árabes e,
portanto, meras imagens para a maior parte de nós), (4) determinar a
língua/convenção que devemos usar para a descodificação do texto e
depois, só depois, (5) estaremos perante um texto e começaremos a ler.
Muitos
pensam que o aforismo “uma imagem vale mais do que mil palavras”
significa que não conseguiríamos descrever com mil palavras o conteúdo
de uma imagem o que, em muitos casos, até pode ser verdade. Mas esse não
é o sentido mais profundo do ditado.
Mesmo que nos seja possível descrever uma imagem com mil palavras
demoramos muito mais tempo a ler as mil palavras, e a captar o seu
significado, do que a interpretar a imagem que lhes deu origem.
Imaginemos por instantes que conduzimos um automóvel com os olhos
vendados e baseados em explicações verbais sobre a estrada e o
comportamento de cada veículo ou peão que nos rodeia e teremos um
vislumbre da enorme diferença de velocidade entre imagens e textos.
O cinema tira partido dessa velocidade na interpretação das imagens e
constrói a sua narrativa com base num vertiginoso “descubra as
diferenças” que nós jogamos nas calmas enquanto somos bombardeados com
imagens sucessivas. Como dizia Godard “O cinema é a verdade a 24 imagens
por segundo”.
Dir-se-á que o texto é sempre de autoria humana e que, portanto, só deve
ser comparado com as imagens feitas por homens, quer eles sejam
pintores, arquitectos ou fotógrafos. Ao contrário dos textos, que são
combinações particulares dos componentes da língua, aceites como um
resultado intelectual, íntimo, das experiências vividas, as pinturas e
fotografias são vistos como pedaços arrancados, mesmo quando sofrem
tranformação, do rosto visível da realidade envolvente. Por outro lado
tais pedaços, fotografias ou quadros, são sempre inevitavelmente lidos
por quem os observa como mais um objecto presente no vasto palco
imagético do mundo.
O que acabamos de dizer não significa que não seja dado um tratamento
especializado a tais objectos. Nomeadamente à fotografia que ainda é,
para muitos, a representação mais fidedigna do “mundo real”.
Mas as razões do fascínio que a fotografia desperta e a particular
leitura de que os objectos fotográficos disfrutam ficará para outra
ocasião.
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