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Não há bem que
sempre dure nem mal que nunca acabe
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Fernando Penim
Redondo,
Janeiro 2008

O Público de 30 de Dezembro
inseriu um texto de Manuel Gusmão intitulado "O
desejo de futuro". O que pode parecer um facto trivial na verdade não o é,
já que nem do PCP nem das pessoas a ele ligadas têm vindo, nos últimos anos,
muitas referências ao futuro.
Manuel Gusmão faz do futuro o tema da sua dissertação mesmo que quase só para
reivindicar o direito a tê-lo na medida em que o vai fazendo.
Tenta situar-se, demarcando-se, entre duas posições. Por um lado dos que
defendem que "a experiência social e histórica disponível" secou a nossa
capacidade de futurar e, por outro, da visão pós-moderna em que “a evolução das
sociedades seria um processo de tal forma multivectorial e complexo que seria de
facto incomensurável para a inteligência, a consciência e acção humanas".
É perigoso tentarmos definir-nos pela redução das ideias contrárias a um número
finito de caricaturas pois nos intervalos germinam sempre múltiplas variantes e
combinações delas. Exemplificando: a "experiência social e histórica disponível"
parece mostrar que "as acções humanas são no limite inconsequentes ou, no
mínimo, de fraca consequência, quando não perversamente contraproducentes"
sempre que ignoram ou menosprezam certos constrangimentos e teimosias do
passado. O curso da história pode e deve ser moldado pelos humanos mas isso não
significa que todos os futuros sejam possíveis em qualquer lugar e em qualquer
tempo.
Um irreprimível optimismo da vontade, que roça o acto de fé, toma conta de
Manuel Gusmão em afirmações como "ora nós precisamos do futuro como do ar que
respiramos", "o trabalho da esperança que magoa ensina-nos que o que foi
possível, e logo derrotado, será possível (de outra forma) outra vez" ou ainda
"não somos adivinhos, nem sabemos rigorosamente prever qual será o rosto do
futuro, mas isso não nos impede de o desejar". Nestes enunciados sente-se que
quando fala de futuro, MG está sim a falar do regresso futuro das suas
convicções, como quem pensa torná-las mais prováveis por afirmar que nelas
acredita. Como se o futuro fosse um terno retorno.
Ora o povo costuma dizer que o futuro a Deus pertence, numa atitude de prudência
que a história lhe ensinou sem ele saber. Mas a perplexidade sobre o futuro é
ainda mais forte neste nosso “fim do tempo” e abre campo a todos os
catastrofismos, que não se limitam já a equacionar o desmoronamento da nossa
civilização pois vão ao ponto de admitir o desaparecimento da espécie. Perante
isto o optimismo tem que ser de uma outra natureza.
Eu teria preferido que MG privilegiasse e desenvolvesse a sua outra linha
argumentativa como quando diz "E contudo tudo se transforma. Transforma-se o
mundo em nós e fora de nós. E da mudança dos tempos e das vontades, nós
participamos. Não como animais caminhando para o abate, nem como demiurgos
incondicionados. Mas como agentes procurando o máximo de consciência possível,
estendendo as mãos e tacteando os possíveis; fazendo de acordo com os tempos a
vinda de um outro tempo".
Para tal abordagem ser mais do que um anseio difuso tem que aceitar o desafio
dos prognósticos. Não lhe pode bastar, como tem bastado, "tatear os possíveis"
já que estes estão ao alcance da mão. Deve meter as mãos na terra em busca do
que vai nascer sem descartar os sinais do imprevisto e do impensável.
Quando damos o primeiro passo já estamos a escolher um dos 360 graus da
circunferência à nossa volta, se não quisermos fazê-lo na lógica da roleta.
Nesse sentido escolher o azimute do futuro é não só imprescindível como
inevitável. Mesmo quando erramos na escolha.
O facto de os navegantes a certo ponto corrigirem o rumo não significa que não
tivessem um quando iniciaram a viagem.
A resposta aos que dizem "será sempre assim, porque sempre assim foi" não é que
podemos "sem mais garantias, prometer um futuro, uma terra sem amos" mas sim que
"não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe".
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