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Cavaco vai
ganhar. Porquê ?
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Fernando Penim
Redondo,
Janeiro 2006
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Não vale de nada fingir que não estamos a perceber que Cavaco
vai ser o próximo Presidente da República em Portugal.
Importante é percebermos a natureza dos erros cometidos pelos partidos de
esquerda que tornaram este resultado praticamente inevitável. Pelo menos podemos
aprender alguma coisa.
Os antecedentes
Nos últimos anos os partidos de esquerda ajudaram a reforçar a imagem de
especialista rigoroso que Cavaco sempre tentou cultivar.
Ainda recentemente, com o engodo de derrubar Santana Lopes, a palavra de Cavaco
era citada, enaltecida e apresentada como indiscutível.
Tal foi, por exemplo, o caso do artigo publicado no Expresso acerca da "boa e da
má moeda". Se dão a Cavaco o poder de definir a boa e a má "moeda" então é
porque consideram que ele está num plano superior e é, ele próprio, uma "moeda"
muito boa.
O mesmo sucedeu no episódio em que Cavaco recusou, hoje percebe-se porquê, a
inclusão da sua fotografia num cartaz da campanha para as legislativas. Foi
apresentado pela esquerda como um acto de coragem e um empobrecimento dos apoios
a Santana.
Ora se a exclusão de Cavaco diminuía a força de Santana é necessário concluir
que Cavaco tem muito valor.
Apesar dos alertas que alguns, como eu, foram lançando a esquerda continuou a
"engordar" o prestígio não só de Cavaco como dos seus apoiantes mais destacados
(caso caricato da “liberdade de expressão” de Marcelo contra a TVI e de Manuela
Ferreira Leite contra Bagão Félix).
Esta política insensata, que se dispôs a pagar qualquer preço em troca da cabeça
de Santana, vai agora a dar os seus frutos.
É o que acontece quando não se tem qualquer projecto que não seja ganhar as
próximas eleições, e quando não se tem qualquer argumento que não seja a
dramática diabolização do adversário.
A escolha do candidato do PS
Quer se goste quer não o candidato escolhido pelo PS tem sempre a pretensão de
ser aquele em que a esquerda, mesmo engolindo sapos, se vê forçada a convergir
numa hipotética segunda volta. A escolha de Mário Soares como candidato
presidencial é, nessa perspectiva, um verdadeiro "hara-kiri" para a esquerda.
Essa escolha deve-se, antes de mais, às guerras internas no Partido Socialista;
Sócrates e os seus não podiam admitir que um adversário, que há poucos meses
disputou a liderança do PS, acabasse entronizado na Presidência da República.
As outras figuras prestigiadas que o PS poderia lançar na corrida presidencial
(por exemplo Vitorino ou Constâncio) não se disponibilizaram, e isso foi
interpretado pelo eleitorado como o reconhecimento, por eles, da inevitabilidade
da vitória de Cavaco.
Mário Soares é um candidato inconveniente por várias razões:
- A idade. Quer se queira quer não, constitui um problema. A
probabilidade de uma pessoa com 81 anos ter problemas de saúde incapacitantes,
na duração de um mandato presidencial, é muito elevada.
Embora Soares aparente boa forma física já vai revelando preocupantes sinais de
senilidade, que se revelam na sua impaciência no trato com os jornalistas e no
desprezo pelas regras de conduta socialmente consagradas, como foi patente no
debate com Cavaco.
Só por isso muitos portugueses considerarão um risco votar em Soares.
- A repetição do exercício de um cargo, especialmente no topo da
carreira, é em geral considerada aberrante. O homem da rua resume isso na
expressão "o Soares já lá esteve".
- A guerra com Alegre. Mário Soares ainda hoje fala da inexistência de
candidatos disponíveis como razão da sua candidatura, o que corresponde a
desconsiderar de forma um tanto grosseira a candidatura de Alegre.
Ora as sondagens têm mostrado que Alegre seria numa segunda volta, a única que
verdadeiramente interessa, um adversário mais difícil para Cavaco.
Depois desta crispação Soares terá muita dificuldade em recuperar os votantes de
Alegre para uma hipotética segunda volta.
- A imagem de Soares. Mal ou bem os portugueses criaram de Soares uma
imagem de falta de rigor, de amiguismo como critério político (confirmado pela
história incrível dos telefonemas dos amigos europeus a dizer mal do Cavaco), de
retórica em vez de soluções, em suma, o "nacional-porreirismo" em todo o seu
esplendor.
Ao fim de vinte anos de presidências desse tipo os portugueses parecem querer
experimentar um estilo diferente, já não lhes basta que o presidente seja
bonacheirão e se passeie descontraídamente entre o povo.
Por enquanto parecem querer apenas alguém mais exigente e austero (lá está o
Eanes a apoiar Cavaco). Esperemos que o degradar da situação e a insensibilidade
dos “políticos” não os leve, dentro de algum tempo, a exigir um estilo
claramente autoritário. A história pode repetir-se.
A campanha
A campanha eleitoral de Soares, da forma como vem sendo conduzida, teria que se
considerar completamente desastrada se o objectivo real fosse a derrota de
Cavaco mas pode ser entendida no quadro da resposta à "dissidência" de Manuel
Alegre.
Há vários traços equívocos na campanha de Soares:
- A visão minimalista do papel do Presidente, que é apresentado como figura
decorativa, contradiz os "papões" associados à eventual eleição de Cavaco.
- A pretensão de ser um candidato unificador dos portugueses que é desautorizada
pela proliferação de candidatos na própria área socialista e pelo discurso
“fracturante” baseado na dicotomia direita/esquerda.
- A tentativa de se apresentar como o único candidato capaz de forjar consensos
e evitar crispações que é desmentida pelo radicalismo dos anátemas e a
deselegância dos ataques e insinuações de índole pessoal.
- A desvalorização de Cavaco como primeiro-ministro, esquecendo que ele próprio
era o Presidente nesse período, o que mostra um Soares incapaz de assumir a
inevitável co-responsabilidade pelo bom ou mau que realmente tenha então
acontecido.
- A dramatização do “perigo da direita” enquanto a maioria parlamentar do PS
realiza as mesmas políticas que Santana Lopes foi acusado de tencionar executar
e que deram a maioria a um Sócrates que parecia saber como evitá-las.
O apoio do primeiro-ministro em funções não é coerente com o "altermundismo
serôdio" do candidato Soares. O discurso de Soares, que parece ter como
objectivo ganhar as "primárias" da esquerda, não tem qualquer fundamento na sua
acção política passada.
Todas estas incoerências permitem a Cavaco aparecer como alguém que quer ter um
papel activo na superação da crise actual e que, estando mais próximo da
política do governo, garante a estabilidade institucional de forma mais
convincente.
Cavaco pode assim continuar a afirmar, formalmente, o seu respeito pelos poderes
presidenciais consignados na constituição já que Soares se encarrega de
alimentar a esperança dos muitos que gostariam que Cavaco não estivesse a ser
totalmente sincero.
Cavaco beneficia dessa ambiguidade e dos votos que ela representa.
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