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O ponto onde devemos retomar Marx
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Fernando Penim Redondo,
15 de Setembro 2008
Depois da derrocada do “socialismo real”,
uma vez e
outra Marx regressa, quase sempre como uma moda.
Faz sentido tentar perceber o que se mantém válido e o que está ultrapassado nas
teses de Marx. Mas não faz muito sentido discutir Marx na base dos “erros de
previsão”, tratando-o como um mago cujo objectivo fosse adivinhar o futuro.
A única coisa que ele previu foi que os homens lutariam contra a exploração,
como sempre fizeram, mas nos moldes próprios da nova era industrial cuja
adolescência ele presenciou. Nessa previsão acertou em cheio e, se o resultado
obtido não nos satizfaz, não é a Marx que devemos culpar.
O nó górdio do marxismo está na relação, mal conseguida, entre a noção de “modo
de produção” e a luta política e partidária pelo acesso ao poder. Como se a
tomada do poder fosse suficiente para a emergência de uma "sociedade sem
exploração".
Na esquerda marxista é comum tomar-se como bastante a luta política e sindical
do dia a dia sem curar de compreender e integrar o ciclo mais longo da transição
para um novo paradigma de organização social e económica. Dessa forma
legitima-se, sem ter consciência disso, a famosa tese de Thatcher “there is no
alternative”.
Sem dúvia que “a história de toda a sociedade
até hoje é a história da luta de classes”, no sentido em que esse
combate perpassa toda a evolução da humanidade. Mas convém perceber em que
circunstâncias e em que condições a luta de classes deixa de ser uma mera
questão de auto-defesa e se converte no motor da transição profunda nas formas
de produzir e distribuir em sociedade.
Esta falta de clareza estende-se também à questão de saber qual é o papel e
quais são as limitações do voluntarismo na transição do modo de produção. Com
esta questão prende-se uma outra que é a de saber quando e onde se pode, ou
deve, exercer tal voluntarismo. Seja qual for, em abstracto, a eficácia do
voluntarismo ela efectivar-se-á em qualquer momento e em qualquer lugar ou estes
têm que ser ponderados e escolhidos de acordo com determinados critérios ?
O primeiro a cometer o erro de escamotear as condições prévias para o
desabrochar de um novo modo de produção foi curiosamente o próprio Marx. Em 1850
convenceu-se de que o capitalismo estava a chegar ao fim.Eis como em 1895 Engels
conta o sucedido na introdução a “As lutas de classes em França de 1848 a 1850”:
“A nós e a todos quantos pensávamos de modo
semelhante a história não deu razão. Mostrou claramente que nessa altura o nível
de desenvolvimento económico de modo algum estava amadurecido para a eliminação
da produção capitalista. Demonstrou isto por meio da revolução económica que
alastrava por todo o continente desde 1848 e fizera a grande industria ganhar
pela primeira vez foros de cidadania em França, na Áustria, na Hungria, na
Polónia e ultimamente na Rússia, e, além disso, tornara a Alemanha num país
industrial de primeira categoria. E tudo isto sobre fundamentos capitalistas
que, em 1848, ainda tinham grande capacidade de expansão”.
(Marx e Engels – Obras Escolhidas, Trad. Portuguesa, Edições Avante, 1982, Tomo
I, pag. 195).
Vejamos como Marx formalizou no prefácio de “Para a crítica da Economia
Política”, 1859, os ensinamentos retirados do erro cometido:
“Uma formação social nunca decai antes de
estarem desenvolvidas todas as suas forças produtivas para as quais é
suficientemente ampla, e nunca surgem relações de produção novas e superiores
antes de as condições materiais de existência das mesmas terem sido chocadas no
seio da própria sociedade velha. Por isso a humanidade coloca sempre a si mesma
apenas as tarefas que pode resolver, pois que, a uma consideração mais rigorosa,
se achará sempre que a própria tarefa só aparece aonde já existem, ou pelo menos
estão no processo de se formar, as condições materiais da sua resolução”
(Marx e Engels, Obras Escolhidas, Trad. Portuguesa, Edições Avante, 1982, Tomo
I, pag. 531).
É neste ponto que, quanto a mim, devemos retomar
Marx.
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