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A outra discussão: os “sacrilégios”
da China
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Fernando Penim Redondo,
25 de Agosto 2008
Os
Jogos de Pequim terminaram e, apesar dos maus augúrios, não houve nenhuma
hecatombe a não ser a do bom-senso de uma certa blogoesfera e de certos
jornalistas.
Comparou-se os Jogos de Pequim aos de Berlim, com Hitler em fundo, e publicou-se
imagens propagandisticas contra a China tão desadequadas e tão violentas que a
própria Amnistia Internacional teve que as desautorizar.
Nem a óbvia evolução positiva que qualquer pessoa detecta na complexa sociedade
chinesa nem o facto de a generalidade dos chineses se mostrarem orgulhosos com a
realização dos Jogos conseguiu demover os novos cruzados de os tentar salvar da
opressão mesmo utilizando os pretextos mais– literalmente- infantis.
Sou levado a interrogar-me sobre as razões por que um número considerável de
pessoas, que noutras circunstâncias procedem com equilibrio e racionalidade,
consideram a realidade chinesa tão insuportável que rejeitam ou apoucam aquilo
que se mete pelos olhos dentro, que os JO foram uma realização notável.
Sem subestimar a questão dos “direitos humanos” na China parece-me que
concentrar as atenções nisso, quando a nova realidade social e económica da
China é tão anormal e tem consequências potenciais tão grandes a nível
planetário, não pode deixar de me soar a escapismo. Foi por este caminho, por
pensar que deve haver uma explicação para este absurdo, que cheguei aos
“sacrilégios” cometidos pela China.
Como se sabe a morte de Mao em 1976 abriu caminho, sob a influência de Deng
Xiaoping, a uma série de transformações gigantescas cujos resultados estão hoje
patentes ao mundo:
1. O Partido Comunista da
China abandonou uma das mais marcantes bandeiras da esquerda, a comparação entre
pobres e ricos e a rejeição das desigualdades económicas como um mal em si
mesmo, com o qual não é possível conviver pacificamente. O PCC assumiu sem
rebuço que não se importava com o enriquecimento de alguns desde que muitos
melhorassem a sua condição económica e qualidade de vida.
Resolveu tornar a China um verdadeiro e apetecível mercado, começando com o
engodo de vender mão-de-obra barata quer embutida em produtos exportáveis quer
através da exploração no próprio país por empresários estrangeiros.
À medida que milhões e milhões de chineses iam acedendo a salários, ainda que
muito baixos, o apetite das empresas estrangeiras por esse novo mercado foi
crescendo e levando à implantação de mais e mais produção no país que se
converteu na “fábrica do mundo”.
Qualquer pessoa percebe hoje, e pode constatar por notícias constantes, que esse
mecanismo a partir de certo ponto se autoalimenta e está em vias de criar uma
“classe consumidora” que não tem paralelo no mundo.
2. É absolutamente
extraordinário que o PCC, um partido tão marcado pela sua ideologia e pela sua
história revolucionária, tenha conseguido esta proeza do pragmatismo. Podemos
tentar imaginar as discussões no círculo íntimo de Deng Xiaoping acerca das
experiências anteriores do regime que sempre se tinham mostrado incapazes de
tirar o povo chinês da extrema penúria.
Um dia esses dirigentes do PCC concluiram, com uma coragem notável, que não
sabiam como liderar mais de mil milhões de pessoas no caminho do progresso,
usando o quadro ideológico que sempre os norteara. Este momento dramático é
insuportável para a esquerda porque representa o reconhecimento da sua
incapacidade, ainda não ultrapassada, de conceber um novo modo de produção
praticável.
É ainda mais dramático pelo facto de a China ter sido, provavelmente, o cenário
onde uma “nova economia” teria mais “condições subjectivas” para se realizar: um
país imenso, com centenas de milhões que não tinham nada para perder, com
hábitos de disciplina e frugalidade, com tradições de poder central forte, com
fraca probabilidade de interferências ideológicas externas dadas as diferenças
culturais e de idioma, etc, etc.
3. A China, irritantemente,
não se projecta no mundo através de qualquer proselitismo ou, sequer, da força
militar. Ao propagar o seu poder meramente no plano económico e dos negócios
neutraliza qualquer abordagem contestatária no plano tradicional da ideologia.
A política internacional chinesa parece obedecer ao mesmo infatigável
pragmatismo declarando-se incompetente para classificar os comportamentos dos
seus parceiros comerciais quaisquer que eles sejam.
Há por isso uma enorme confusão acerca do carácter de esquerda ou de direita do
regime chinês o que é sobremaneira desconfortável para a esquerda que cultiva
melhor do que ninguém esse tipo de clivagens.
4. Aquilo que os dirigentes
chineses propõem ao seu povo não é uma qualquer forma de privação actual em nome
de um futuro radioso como acontecia nas experiências históricas do “socialismo
real”. Pelo contrário, o PCC obtem o seu crescente apoio popular demostrando que
está a tentar viabilizar, agora, padrões de consumo e de qualidade de vida
elevados para o maior número possível de chineses. Os apelos de sereia que as
televisões da Alemanha, com os seus BMW, exerciam sobre os cidadãos da RDA e os
seus Trabant não funcionam na China.
É como se os chineses tivessem feito da maior arma dos seus adversários a sua
principal alavanca para o progresso e a sustentação do regime.
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Tudo isto é bastante perturbante e de resultados imprevisíveis mas é a esta luz
que a questão das liberdades políticas na China tem que ser analisada. Se o
exercício político tem por objectivo supremo alcançar um “bom governo”, que leve
à prática o “interesse público”, talvez muitos chineses, pela experiência
vivida, pensem que esse objectivo já foi alcançado.
Claro que a nós, ocidentais, nos sensibiliza também o lado do respeito pelo
indivíduo mas ainda estou para saber se os chineses têm um conceito de indivíduo
similar ao nosso.
Em democracia as eleições parecem-se cada vez mais com os mercados e,
inversamente, as escolhas do consumo perante a variedade dos produtos nos
mercados parecem-se cada vez mais com as votações políticas.
Para já a centenas de milhões de chineses está a ser dada, pelo Partido
Comunista, a liberdade de escolha das mercadorias que as suas necessidades, ou
fantasias, lhes pedem.
Pode parecer pouca liberdade a quem sempre a teve mas aos chineses, que nunca a
tiveram, pode bastar-lhes ainda durante algum tempo.
Depois veremos...
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