Com o intuito de relançar a discussão
sobre o tema da decadência e da superação do capitalismo, revi alguns
excertos de intervenções anteriores, que aqui deixo compilados num
único texto.
Para além das questões nele abordadas, a discussão poderia estender-se
para outras questões importantes, nomeadamente, como caracterizar uma
possível nova grandeza representativa do valor do trabalho humano e
como formular uma unidade coerente para a sua medida, de modo a
determinar o custo de reprodução das mercadorias e a sua equivalência
na troca, e, assim, tentar descortinar como poderá um novo modo de
produção baseado na troca de produtos do trabalho efectuar trocas
desiguais com o modo de produção capitalista.
Os temas não são fáceis, e, além disso, são menos apelativos do que os
meros factos políticos quotidianos, cuja discussão nos tolda a
compreensão do que é determinante para a transformação social, mas
podem constituir uma boa alternativa à modorra política estival ou ao
entusiasmo futeboleiro que por aí vai.
Fica, portanto, lançado o apelo.
1-A queda tendencial da taxa de lucro.
O conceito de lucro é antigo; a escrituração e a contabilidade, que
permitem a sua fácil verificação, já é mais recente. É a existência do
lucro que permite a acumulação (de riqueza ou de meios de produção).
No “capitalismo realmente existente” ocorrem taxas de lucro
diversificadas (quer nas diversas empresas, quer nos diversos ramos da
produção, quer na produção social global, quer numa formação
económico-social específica, quer na sociedade em geral), embora
sujeitas a uma constante equilibração, através da mobilidade dos
capitais. A sua dimensão depende das circunstâncias, nomeadamente: das
transferências de valor de modos de produção anteriores e das
oportunidades de exploração dos trabalhadores assalariados (neste
caso, da taxa de exploração e da quantidade de trabalhadores
explorados).
A lógica de desenvolvimento do objecto teórico “modo de produção
capitalista” contém uma contradição insanável, que se patenteia na
tendência para a queda da taxa de lucro a longo prazo (acabando este
por constituir o seu prazo histórico de validade). Se a produtividade
do trabalho humano é um facto inegável ao longo da História, que o
capitalismo tende a desenvolver incessantemente; se este
desenvolvimento, redistribuindo o trabalho, conduz ao aumento da
composição orgânica do capital social; se, apesar do aumento da
produtividade no ramo dos meios de consumo, se reduz a relação entre a
taxa de mais-valia e a composição orgânica do capital; se o rácio dos
trabalhadores activos/inactivos diminui; se num dado momento estas
condições se verificam de forma irreversível — e se agravam, porque o
crescimento efectivo da produtividade costuma ser concomitante com o
aumento da produção (isto é, a produtividade não cresce com a produção
constante) e parte crescente da produção não encontra escoamento —
então a taxa de lucro de um dado capital social só pode decrescer. Se
a taxa de lucro tende a diminuir é porque o modo de produção
capitalista perde eficiência; se a diminuição se transforma de
tendência em constante, é porque a sua eficácia se esboroa. Esta é a
lógica do funcionamento do objecto teórico “modo de produção
capitalista”.
Embora esta lógica intrínseca e a contradição resultante se refiram a
um objecto teórico, sem existência real concreta, é um facto inegável
que elas existem também no objecto prático “capitalismo realmente
existente”, ainda que neste o ritmo do seu desenvolvimento, porque
alvo de contra-tendências, seja muito lento e o prazo da sua
manifestação seja muito longo, dando-nos a ilusão de que não existem.
Com a agravante de uma dupla ilusão, porque neste objecto prático
complexo que é a realidade empírica — a “economia-política realmente
existente” — o capitalismo não existe isolado, convivendo com modos de
produção anteriores e, a partir de certa altura, com outros
emergentes; a economia não se restringe a si própria, tem a sua
bengala na política (com o papel indispensável da intervenção do
Estado na atenuação das crises — através da contenção dos salários,
dos consumos improdutivos do ramo dos meios de produção, dos acordos
internacionais, da destruição ou da apropriação de meios de produção
alheios, das guerras, etc. — enfim, na regulação da taxa de lucro); e
as regras da ética dos negócios e da liberdade são a todo o tempo
subvertidas pela pilhagem, pela trapaça e pela coerção mais
grosseiras.
Por acréscimo, o “capitalismo realmente existente” só agora começa a
expandir-se globalmente, obtendo com esta expansão condições de
exploração comparáveis às de meio século antes nos países
desenvolvidos e conquistando mercados muito mais amplos, até agora
fechados ou condicionados, o que lhe permitirá escoar o constante
aumento da produção e efectuar trocas desiguais entre países com
níveis de desenvolvimento muito diferenciados. Deste modo, as
premissas que confirmariam a queda da taxa de lucro são subvertidas
pelo crescimento da taxa de mais-valia (pelo período de trabalho
aumentado e pelos menores níveis dos salários nas novas zonas de
expansão) e pelo crescimento da taxa de activos/inactivos (no interior
do sistema globalizado), que operam uma grande recomposição da
aplicação do capital social global e da sua rentabilidade.
Partes deste capital, até agora aplicadas na mera especulação e
obtendo apenas lucros fictícios (por simples transferências das perdas
de uns detentores como ganhos de outros) são dela desviadas e
encontram aplicação como capital produtivo, contribuindo para o
aumento da taxa geral de lucro. Esta nova fase de existência do
“capitalismo realmente existente” é como que um novo ciclo de
expansão, comparável ao que os países mais desenvolvidos conheceram no
pós-segunda guerra mundial, mas com maiores potencialidades, em função
dos milhões de pessoas envolvidas. O “capitalismo realmente existente”
ganha novo alento e o seu prazo histórico de validade acaba por sair
prolongado em relação às previsões mais pessimistas.
Os estudos teóricos que abordam a questão da comprovação, ou não, da
tendência para a queda da taxa de lucro, por seu lado, são
confrontados com uma dificuldade prática quase inultrapassável: é que
o objecto de que eles se socorrem para esse fim e donde retiram os
dados é a “economia-política realmente existente”, que não coincide
com o “capitalismo realmente existente” nem, muito menos, com o “modo
de produção capitalista”. Não admira, portanto, que não cheguem a
conclusões irrefutáveis, por mais elaborados e complexos que sejam os
modelos matemáticos a que recorram, porque os dados não são
consistentes com o modelo. Desejar confirmar ou infirmar, a partir da
realidade empírica complexa (aqui, complexa no sentido de ser
constituída por múltiplos modos de produção e formações
económico-sociais em inter-relação), uma contradição insanável de um
objecto teórico formal abstracto é como procurar comprovar o sexo dos
anjos ou a existência de Deus.
Quando se aborda este tema é necessário fazê-lo com a relatividade que
ele merece. Convém, portanto, não esquecer que a “economia-política
realmente existente”, ainda que dominada pelo “capitalismo realmente
existente” não se restringe a ele. Actualmente, em muitas bolsas do
mercado persiste ainda a produção artesanal independente ou familiar,
nomeadamente, no ramo dos meios de consumo (agricultura e serviços
pessoais e de manutenção), que, não estando sujeita à expropriação
coerciva de parte dos produtos do trabalho, como outrora, e usando as
categorias económicas do capitalismo (custo, lucro, etc.), não se
enquadra no modo de produção capitalista, porque não forma os seus
rendimentos pela exploração do trabalho alheio, isto é, pela obtenção
de mais-valia, mas com a qual a produção capitalista efectiva trocas
desiguais (embora decrescentes em volume e em desigualdade); e emergem
outras formas de produção, não exclusivamente baseadas no salariato,
nas quais os trabalhadores não vendem a sua força de trabalho nem
desenvolvem o trabalho subordinado ao comando do capitalista, mas
vendem produtos do seu trabalho, que organizam a seu modo. E estas
novas actividades, produzindo mercadorias inovadoras (a maior parte
delas informacionais), apresentam-se com a capacidade de gerar taxas
de lucro muito elevadas, por transferência de valor nas trocas com as
actividades produtivas industriais típicas do capitalismo. Não é por
mero acaso que a Microsoft, para dar apenas o exemplo mais notório,
que se organiza como compradora de muitos produtos produzidos por
trabalhadores independentes ou por pequenas equipas cooperativas,
obtém lucros fabulosos.
2-Decadência do capitalismo.
Todos os modos de produção são históricos — como tudo nesta vida, a
começar por nós, que nos armamos em dominadores do Mundo e da natureza
sem nos apercebermos da nossa pequenez e fragilidade, e,
simultaneamente, da nossa complexidade — e, como tal, constituem-se,
desenvolvem-se e acabam por desaparecer. Deste modo, eles emergem
porque são dotados de maior eficiência, expandem-se e desenvolvem-se,
revelando a sua maior eficácia, o que lhes permite alcançar o domínio
económico e social; à medida que a sua eficiência decai, a sua
eficácia reduz-se e perecem, sendo substituídos por outros. Com o
capitalismo e o domínio político da burguesia não será diferente.
Muita gente ainda se ilude, infelizmente, pensando que para um novo
modo de produção entrar em cena o que existe tem de fechar as portas.
Confunde a revolução social com a revolução política, esquecendo que
esta é apenas a outra forma da economia ultrapassar as barreiras que
lhe entravam o desenvolvimento; e confunde os protagonistas da
revolução social com as classes sociais pertencentes ao modo de
produção dominante numa determinada fase histórica, ou, mais grave,
com a sua classe explorada. Daí que nas profecias idealistas a
primazia seja dada à componente política da revolução social. A do
comunismo marxista ainda tentou justificar esta ilusão com as
contradições intrínsecas do capitalismo, mas também não escapou à
controvérsia: se as crises cíclicas não o fazem desaparecer, torna-se
necessário o empurrão da revolução política; se existe uma real
tendência para a taxa de lucro decrescer, o colapso será inevitável e
a revolução política assumirá foros de transição pacífica do poder. Os
próprios marxistas não se entendem sobre este magno problema, mas,
apesar dele, continuam a atribuir às massas exploradas o protagonismo
revolucionário, colocando a chave da transformação social na vontade
de acabar com o regime que as explora.
De há uns anos a esta parte sucedem-se as proclamações do fim iminente
do “capitalismo realmente existente”. Tais proclamações são de todo
desajustadas, por irrealistas e emocionais, e não é por acaso que são
provenientes dos inexpressivos partidos comunistas e da
intelectualidade marxista, sempre apostados em chamar a atenção para a
actualidade das profecias idealistas do Marx e em manter acesa a chama
da fé na revolução comunista, ou ainda da intelectualidade mais
radicalizada dos países desenvolvidos, que anima os movimentos
anti-globalização exprimindo os receios e a baixa dos rendimentos da
classe média e dos trabalhadores, provocados pela desestruturação do
emprego e da produção nesses países com a sua deslocalização para os
novos mercados emergentes abertos pela globalização da produção e das
trocas. Esperar que os impactos da mudança que está ocorrendo com a
expansão do “capitalismo realmente existente” não produzissem tais
clamores seria de grande ingenuidade.
O isomorfismo entre o objecto teórico "modo de produção capitalista" e
a realidade empírica "economia-política realmente existente" não é
completo, nem tão pouco o é entre aquele e o "capitalismo realmente
existente". A realidade empírica é muito mais complexa do que o modelo
teórico, e a sua dinâmica muito mais imprevisível. De qualquer modo,
as características gerais do objecto prático "capitalismo realmente
existente" e a sua lógica de funcionamento estão aceitavelmente
representadas pelo objecto teórico "modo de produção capitalista". As
crises cíclicas de sobreprodução são uma realidade, assim como a
sobre-acumulação é visível pelo volume crescente do capital
especulativo; o aumento da composição orgânica do capital é outra
realidade; a redistribuição do trabalho por actividades improdutivas
não tem compensado a quebra da relação activos/inactivos (que apesar
da redução da taxa de natalidade se agrava com o aumento da esperança
de vida). Falta ao modelo teórico a referência à política (através da
intervenção do Estado do capital) na regulação da realidade empírica,
nomeadamente, na regulação da taxa de lucro, mas aquela, como se sabe,
assume contornos muito variados.
Se a produção cresce e se os activos decrescem, gerando crises de
sobreprodução, a continuidade das condições de exploração só é
possível destruindo capital e operando a sua recomposição, assim como
alterando a taxa de mais-valia. Isto é efectuado através das velhas
receitas para as crises: redução dos salários, destruição de meios de
produção e guerra (que faz as duas funções simultaneamente e, depois,
expande o consumo). A recomposição do capital em cada crise, porém, é
feita numa nova base da produtividade, porque o capital fixo é
renovado imperiosamente, e estas recomposições, diferenciando-se das
renovações do capital calculadas em função das previsões da redução do
custo e das possibilidades de escoamento do aumento da produção,
têm-se traduzido por crescimento líquido da produção, que tem
forçosamente de encontrar consumo no mercado externo.
Quando não existir mais mercado externo, isto é, quando o mercado
coincidir com o mercado global, as crises terão o seu ciclo mais curto
e os seus efeitos ampliados, e a taxa de lucro descerá a níveis não
aceitáveis. É claro, no "capitalismo realmente existente" lá estará a
política (e o Estado do capital) para reconduzir a taxa de lucro a
níveis aceitáveis, recorrendo às velhas receitas. Rosa Luxemburgo
apercebeu-se de algumas destas questões, e da insuficiência do modelo
de Marx, mas formulou-as mal (identificou o mercado externo com o
mercado dos modos de produção pré-capitalistas) e avançou com
explicações incorrectas.
3-A superação do capitalismo.
A ausência de isomorfismo entre o modelo teórico e a realidade
empírica pode conduzir-nos a pensar, erradamente, que o "capitalismo
realmente existente" poderá ultrapassar indefinidamente as suas
contradições, identificadas no modelo teórico. O ritmo a que elas se
manifestam é lento, o prazo em que produzem efeitos irreversíveis é
longo e a intervenção do Estado procura atenuar esses efeitos, o que
agrava a nossa ilusão. A expansão global do "capitalismo realmente
existente" confere-lhe um novo fôlego momentâneo, que não anula as
suas contradições, mas vai diferir no tempo a sua manifestação. Só que
também as fará irromper de forma ampliada. Então, não haverá mais
mercado "externo" para onde escoar a sobreprodução e a intervenção dos
múltiplos Estados manifestar-se-á sob forma descoordenada, ou de
contradições entre Estados nacionais, podendo conduzir a conflitos
bélicos de consequências imprevisíveis.
É ilusório, contudo, pensar que num Mundo desigualmente desenvolvido,
no qual cada país sofre efeitos diversificados das contradições do
“capitalismo realmente existente”, a força de trabalho tornada
supérflua não encontre aplicação sob relações de produção novas, que
se constituam como alternativa às que provocam o seu desperdício. As
políticas keynesianas ou de capitalismo de Estado monopolista já
provaram que são meros paliativos, soluções transitórias para
situações de crise do capitalismo em países desenvolvidos ou de
bloqueio do seu desenvolvimento em países atrasados.
Em termos de evolução social, a alternativa ao “capitalismo realmente
existente” não residirá certamente no capitalismo de Estado
monopolista, sob que se apresentou a utopia comunista marxista. A
História demonstrou que este não passou de uma forma de acumulação
acelerada, que esgotou as suas virtualidades ao trazer para a
modernidade países atrasados. Também não residirá na rejeição da
mercadoria e do dinheiro (seja moeda ou simples titulo de valor), como
também previa a utopia marxista, nem no repúdio do trabalho abstracto,
como parecem pretender fazer crer os neo-marxistas mais radicais (por
exemplo, agrupados em torno das revistas alemãs Krisis e Exit).
O trabalho é a forma dos seres humanos existirem, e o trabalho
abstracto é o fruto da cooperação de múltiplos e diversificados
trabalhos concretos; a troca mercantil e o dinheiro, enquanto
mercadoria equivalente geral facilitador das trocas, são instrumentos
pré-capitalistas que ficaram constituindo progressos civilizacionais
assinaláveis. Não é sequer imaginável que o progresso social se
constitua através de um regresso à dádiva, em substituição da troca,
porque no Mundo moderno de há muito ninguém dá nada a ninguém.
Ao contrário do que Marx enfatizou, o que constitui um verdadeiro
fetiche no capitalismo não é a mercadoria ou o dinheiro: é a
mercadoria força de trabalho. É a sua existência que permite a troca
desigual da exploração e a alienação do trabalho. Ela, aliás, é uma
aberração no mundo das mercadorias capitalistas: o seu custo de
produção (e, logo, o seu valor) não é passível de determinação, sendo,
por isso, retribuído como se comportasse apenas matérias-primas; o seu
tempo de uso, no entanto, constitui a unidade de medida do valor das
restantes mercadorias, e a sua contabilização permite operacionalizar
eficazmente a troca desigual entre os produtores das mercadorias
capitalistas e os produtores da força de trabalho.
Um novo modo de produção poderá emergir sobre a ultrapassagem
histórica da forma mercadoria da força de trabalho, nomeadamente,
porque o capitalismo está esgotando a capacidade de continuar a
utilizá-la. Tal como no passado foi o desperdício da capacidade para
trabalhar pelo modo de produção tributário — devido ao crescimento da
produtividade, que esgotou a sua capacidade de a empregar como até
então — que proporcionou a emergência do modo de produção capitalista,
através da sua utilização sob a forma de mercadoria, também no futuro
será o desperdício da força de trabalho pelo capitalismo, esgotando a
sua capacidade de a empregar como até então, que ditará a sua
superação.
O futuro poderá não ser mais baseado na troca da capacidade para
trabalhar, através da sua transformação em mercadoria, mas na troca de
produtos do trabalho. Se tal vier a acontecer, constituirá um
progresso na repartição do produto social e na organização do
trabalho. Não se pense, porém, que novas relações sociais baseadas na
troca dos produtos do trabalho se constituirão por um retorno à
pequena produção individual. A grande produção cooperativa é outra das
conquistas civilizacionais que não será abandonada nas actividades em
que se manifestar necessária. E não se imagine que a perda do domínio
económico e social do modo de produção capitalista e da burguesia
acontecerá abruptamente. Um longo período de formas difusas de
entrelaçamento e de convivência, correspondendo à fase da lenta
revolução económica, e outro não menos longo de disputas ideológicas e
políticas, que poderá culminar em revoluções políticas violentas,
abarcando o que Marx designou por época de revolução social, espera a
humanidade, até que outras formas de repartição do produto e de
organização do trabalho alcancem expressão dominante na sociedade.
A História tem demonstrado que os modos de produção não se extinguem
do dia para a noite, e que a sua extinção não está ligada à quebra da
sua eficácia interna. Nenhum modo de produção se extinguiu devido a
uma crise económica mais prolongada, nem devido a qualquer colapso
económico; tanto assim é que têm persistido, embora como resquícios,
até muito tempo depois de terem perdido a relevância social de que
dispuseram e o domínio económico-social que exerceram. Esta
persistência deve-se ao facto de manterem a sua eficácia interna,
ainda que a sua importância no conjunto da produção social tenha ido
decaindo e, deste modo, tenham perdido eficácia social. Com o modo de
produção capitalista não irá ser diferente, e ele também não será
substituído enquanto modo de produção dominante por quebra da sua
eficácia interna — um determinado nível da taxa de lucro —, que poderá
ir mantendo enquanto lhe for possível a reconstituição das condições
necessárias para o efeito, mas por quebra da sua eficácia social, isto
é, quando a sua eficácia interna deixar de coincidir com a eficácia
necessária e possível no conjunto da sociedade.
A eficácia necessária e possível na sociedade e o modo de produção que
a realiza não decorrem de qualquer ideia pré concebida sobre o tipo
das relações sociais desejáveis para concretizar uma qualquer utopia,
nem de qualquer outro que se imagine possível, mas do tipo de relações
sociais que se vá afirmando com maior rentabilidade social na ocupação
das pessoas e na satisfação das suas necessidades. Isto ocorre quando
um novo tipo de relações sociais — isto é, uma nova forma de repartir
o produto e de organizar o trabalho — se manifesta capaz de realizar
com o modo de produção dominante trocas desiguais que lhe sejam
favoráveis. Por um lado, o novo modo de produção ocupa, sob novas
formas de repartição do produto e novas formas de organização do
trabalho, a força de trabalho que vai sendo disponibilizada pelo modo
de produção dominante, e, por outro, produz com maior eficácia
mercadorias que lhe permitem realizar com ele trocas desiguais,
efectuando transferências de valor.
Os produtos que constituem as mercadorias que o novo modo de produção
produz, ou as técnicas com que o faz, não são relevantes para o caso,
porque serão os produtos que a sociedade consumirá, quer sob a forma
de meios de produção para o modo de produção dominante, quer sob a
forma de novos meios de consumo, quer sob a forma dos seus próprios
meios de produção, produzidos com as técnicas já existentes, até que
sejam inventadas técnicas mais eficazes. Alguns desses produtos serão
do mesmo tipo dos produzidos pelo modo de produção dominante —
constituídos, por exemplo, por meios de produção e de circulação — e
que respondem às necessidades de expansão daquele, mas o que
distinguirá estas mercadorias é serem produzidas sob novas relações
sociais e em cada vez maior escala, de modo a irem constituindo o seu
próprio mercado.
Nada disto é novo. O modo de produção capitalista emergiu sem que o
modo de produção tributário entrasse numa grave crise ou em colapso
económico, e sem ser produto da invenção de novas técnicas. Antes pelo
contrário, o seu aparecimento em cena ocorreu durante a fase de maior
expansão do modo de produção tributário, numa altura em que o
crescimento da produtividade agrícola e agro-pecuária aumentava ainda
mais a produção e libertava cada vez mais força de trabalho, a qual
passou a ser ocupada em actividades existentes — por exemplo, na
produção artesanal de ferramentas, alfaias, veículos e utensílios,
etc., que já eram produzidos sob forma corporativa — ou em novas
actividades, mas sob um novo tipo de relações de produção, no caso, o
contrato de trabalho salarial em substituição do regulamento
corporativo e do tributo, que permitiram maior acumulação e o
desenvolvimento da produção, revolucionando as técnicas, a organização
do trabalho e a produtividade.
É este aparente paradoxo — aumentar a capacidade produtiva e a
eficácia interna e, simultaneamente, reduzir a eficácia social,
excluindo da produção cada vez maior número de pessoas que não
encontram como subsistir — que faz com que os modos de produção entrem
em decadência e sejam substituídos por outros. Para que tal ocorra,
basta a existência de três ingredientes: produto acumulado, para
adquirir meios de produção; força de trabalho disponível, que já não
seja rentável ocupar sob as relações de produção dominantes; e mercado
em expansão. A partir de então, a troca desigual de valor entre os
modos de produção permitirá ao novo modo de produção maiores taxas de
acumulação que facilitem o seu desenvolvimento progressivo, expandindo
gradualmente as novas relações de produção.
Esta concepção da transformação social difere substancialmente da
concepção marxista, que a concebe pela entrada do capitalismo em
decadência, provocada pela ocorrência de crises económicas cada vez
mais graves ou pelo colapso económico, e culminada pela conquista do
poder político através da acção das massas proletárias exploradas.
Qualquer das duas variantes do marxismo, seja a economicista e
reformista, que aceita a conquista do poder político pela via pacífica
e institucional, seja a voluntarista e revolucionária, que a propugna
pela via violenta e insurreccional, têm uma concepção da revolução
social restrita à revolução política, e parecem não compreender que
antecedendo a revolução política, e, depois, concomitantemente com
ela, ocorre uma lenta e longa revolução económica, através da qual se
produz não apenas a decadência do modo de produção até aí dominante,
mas também a emergência e o desenvolvimento de um novo modo de
produção.
Um novo modo de produção tem novos actores sociais, de entre os quais
surgirão os protagonistas da revolução política que conduzirá ao poder
uma nova classe social dirigente. Pretender que o protagonista de uma
nova revolução política seja uma classe social do modo de produção em
decadência, e não do modo de produção emergente, constitui um absurdo;
determinar, além do mais, que esse protagonista seja a classe
explorada do velho modo de produção, constitui um duplo absurdo. É
esse o drama das concepções marxistas sobre a revolução social e que
inviabiliza a realização da sua utopia. A revolução social é um
processo permanente de transformação, apesar da aparente estagnação
por longos períodos, que não se reduz à conquista do poder político,
nem depende da vontade das massas ou das elites. Ela é pura e
simplesmente necessária e ocorre, ainda que os actores sociais não
tenham consciência plena de que a estão realizando.
Isto em nada invalida o reconhecimento do mérito de Marx na análise da
realidade social do seu tempo e na criação de um vasto instrumental
conceptual de crítica do capitalismo. Apesar dos equívocos, dos erros
e das insuficiências, ele formulou conceitos riquíssimos, descobriu
relações escondidas, anteviu desenvolvimentos que se confirmaram,
enfim, abriu pistas inestimáveis, que os discípulos não souberam
continuar, mas que é necessário percorrer e ampliar, de modo a
podermos compreender melhor a realidade do nosso tempo. Para tentar
compreender o que já se ergue no presente sem que descortinemos, é
necessário olhar para as novas relações sociais que estão dando
aplicação ao trabalho disponibilizado pelo “capitalismo realmente
existente”, porque já não é rentável empregá-lo sob as relações de
produção que lhe são próprias. Um novo modo de produção não é
caracterizado pelos novos produtos nem pelas novas técnicas com que
sejam produzidos, mas pelas novas relações sociais com que o produto é
repartido e pela nova forma como o trabalho é organizado.
José
Manuel Correia