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China
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Pedro Jordão, Público 7, 8 e 10 de Setembro 2008
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China: mitos e
impacto global
07.09.2008,
Pedro Jordão
Quem
imagina a economia chinesa assente em baixa tecnologia e mão-de-obra primitiva
está atrasado 15 anos
Durante
décadas o Ocidente exortou a China a abrir-se e a integrar o comércio e a
política globais. Mas quando a China o fez o Ocidente apavorou-se com o impacto
dessa abertura. A miopia estratégica ocidental é pungente. O que poderia
esperar-se quando um país que contém mais de um quinto da humanidade se integra
na economia e na sociedade mundiais? O impacto global da China é profundo. E
irreversível.
Desde 1990 as exportações da China cresceram 17 vezes e o seu PIB quintuplicou.
Os excedentes comerciais criam gigantescas reservas de moeda estrangeira. Os
lucros das empresas geram sólidas receitas fiscais. O investimento externo tem
entrado a um ritmo de mil milhões de euros por semana.
As remunerações dos trabalhadores elevam-se. O crescente poder de compra criou
uma classe média de algumas centenas de milhões de chineses. A China era
essencialmente um produtor mas agora é também um mercado consumidor, inclusive
para produtos de luxo. Os cosméticos são já um mercado de 15 mil milhões de
dólares.
A liquidez nacional permite o financiamento de reformas a um ritmo alucinante,
desde a ciência às infra-estruturas e às condições sociais. Só em 2005 a China
comprou 215 aviões comerciais. Até 2020 serão construídos mais 55 aeroportos. Há
200 milhões de passageiros aéreos internos por ano. Dentro de três anos a China
produzirá anualmente mais doutorados em tecnologias que os Estados Unidos. Os
utilizadores da Internet são já 260 milhões e há 660 milhões de assinantes de
telemóveis. Em 2008 o orçamento da educação aumentou 45 por cento.
Quem imagina a economia chinesa assente em baixa tecnologia e mão-de-obra
primitiva está atrasado 15 anos. A China detém tecnologia de vanguarda e é já o
maior exportador mundial de tecnologias da informação.
Apesar dos êxitos, os problemas são ainda sensíveis. Embora toda a população
tenha beneficiado com as reformas, as assimetrias são acentuadas, entre zonas
rurais e urbanas e no seio destas. A luta contra a pobreza na China é o
ex-líbris da ONU. Apesar de persistirem muitos milhões de pobres, centenas de
milhões de chineses foram retirados da pobreza. Enquanto os Objectivos do
Milénio da ONU para a erradicação da pobreza não serão atingidos pelo mundo no
prazo estabelecido, 2015, a China ultrapassou-os com 14 anos de antecedência, o
que é a maior conquista na luta contra a pobreza na história da humanidade.
As condições sociais melhoraram mas muito falta ainda. O desenvolvimento tem
consequências positivas e negativas, incluindo poluição. A China introduz
ambiciosos programas ambientais, é já um dos líderes mundiais em tecnologias de
energias alternativas e aposta numa nova geração de automóveis híbridos.
A gestão urbana é um desafio crucial. Na Europa existem 35 cidades com mais de 1
milhão de habitantes, mas na China esse número será de 219 em 2025 e em 2030 mil
milhões viverão em cidades.
As mentalidades evoluíram radicalmente mas subsistem diferenças geracionais
entre alguns que foram formatados no regime comunista e os que se estruturaram
já na fase de abertura. Visões de vanguarda coexistem com casos de inabilidade e
de atraso conceptual, mas a tendência predominante é de modernidade.
O Ocidente justamente insiste com a China para que intensifique a
democratização. Mas é necessário manter-se a autoridade moral e a justiça na
avaliação dos progressos já produzidos.
A democracia chinesa carece de maturação. Mas estão os europeus conscientes de
que na Europa, perante um tratado que afectaria a vida de gerações, foi montado
um antidemocrático complot para impedir que os cidadãos europeus decidissem o
seu futuro? Esquece-se que um presidente europeu considerou um perigo
consultar-se os cidadãos e que, depois, os políticos poderiam ter que "corrigir"
essa decisão democrática?
A China deve respeitar mais os direitos humanos. Mas países pioneiros da
integração europeia mantiveram a pena de morte (e aplicaram-na) ainda durante
décadas e um membro da zona euro aboliu-a formalmente há apenas quatro anos.
Os europeus condenam os baixos salários chineses. Mas os salários aumentam com a
prosperidade. O custo da mão-de-obra na Noruega é cinco vezes superior ao de
Portugal, país que um norueguês deveria considerar como local atrasado cujos
cidadãos são explorados e auferem misérias.
Num país que durante milénios deteve uma superioridade científica, cultural e
tecnológica, as humilhações sofridas desde o séc. XIX induzem o anseio de
reassumir uma dignidade global.
A China e países como a Índia induzirão mudanças tectónicas na dinâmica
internacional. O mundo não voltará a ser o mesmo. E este é apenas o início desse
processo. Presidente do CINT (ped.jordao@gmail.com
Como a China
mudará a economia global
08.09.2008,
Pedro Jordão
Os 29
milhões de empresas privadas representam mais de dois terços da economia chinesa
Aascensão da
economia chinesa impressiona pelo enorme crescimento ao longo de muitos anos
consecutivos, mas também pela transformação qualitativa, que é uma das mais
vibrantes experiências económicas da história. Este processo ocorre num país com
um quinto da população mundial, o que torna inevitáveis as ondas de choque na
economia global.
Esta dinâmica da China insere-se na tendência mais geral da emergência económica
dos países em desenvolvimento. Esse vasto conjunto de economias emergentes,
apesar da conjuntura de crise internacional, deverá, em 2008, crescer
economicamente a um ritmo médio quatro vezes superior ao da zona euro. Neste ano
a economia da China deverá crescer 9,8 por cento (quase seis vezes o ritmo da
zona euro) e a da Índia 7,7 por cento.
O arranque económico da China, com as reformas iniciadas em 1978, surgiu num
país de economia agrícola com uma indústria atrasada. A falta de gestão moderna,
mão-de-obra especializada, recursos financeiros, tecnologia e experiência
internacional impôs um modelo de crescimento assente em indústrias de baixo
valor acrescentado e em mão-de-obra pouco qualificada e intensiva.
Mas os chineses aprendem depressa. Nas décadas seguintes a transformação da
economia foi inimaginável. As empresas chinesas elevaram enormemente o seu nível
tecnológico e muitas já lideram sofisticados segmentos de mercado
internacionais. No início, a economia era completamente controlada pelas
empresas estatais, mas agora os 29 milhões de empresas privadas representam mais
de dois terços da economia. Mesmo as empresas estatais, no passado
disfuncionais, tornaram-se agora rentáveis no seu conjunto, com lucros que nos
últimos três anos cresceram 223 por cento.
Os lucros das empresas conferiram-lhes capacidade financeira para adquirir a
mais avançada tecnologia do mundo. As receitas fiscais numa economia expansiva
permitiram financiar fortemente a educação, a ciência, a defesa,
infra-estruturas e programas sociais. A economia e o país mudaram
extraordinariamente.
A China possui agora algumas das maiores empresas e alguns dos maiores bancos do
mundo. A Lenovo é o segundo maior produtor mundial de PC e adquiriu toda a
lendária divisão de computadores pessoais da IBM. A China é o país do mundo com
o maior número de utilizadores da Internet e o número de assinantes de
telemóveis é muito superior a toda a população da Europa. Em 2007 o número de
registos de patentes chinesas aumentou 20 por cento, suplantando os Estados
Unidos e o Japão. Em 2003 a China passou a exportar mais tecnologias da
informação do que todos os países da União Europeia juntos. Em 2004 superou os
Estados Unidos e tornou-se no maior exportador mundial dessas tecnologias.
Na próxima década os chineses emergirão como uma potência nos serviços de alta
gama, captando uma quota crescente do mercado mundial de offshoring de serviços.
Este contexto induziu a maior prosperidade dos cidadãos em geral e o consumo
interno cresce explosivamente. A classe média de 300 milhões de habitantes é
ainda minoritária mas é numericamente idêntica a toda a população dos Estados
Unidos. Este mercado de consumo passou de irrelevante para o nível de um mercado
gigantesco, no qual quase todas as empresas globais competem para se implantar.
Em 2007 venderam-se 8,3 milhões de veículos e 40 milhões de turistas chineses
viajaram no estrangeiro. Nos produtos de luxo a China é já importante, sendo o
maior mercado de crescimento para grandes marcas globais enquanto absorve 15 por
cento da produção da Rolls Royce.
As assimetrias de desenvolvimento são acentuadas, nomeadamente entre zonas
rurais e urbanas. Todos beneficiam com as reformas, mas uns mais rapidamente que
outros. A China retirou da pobreza centenas de milhões de cidadãos, o que
configura o maior sucesso de erradicação de pobreza na história mundial.
As empresas chinesas passaram a ser fortes investidores no resto do mundo,
tendência que acelerará imenso nos próximos anos, inclusive com aquisições
aparatosas na Europa já em preparação. Nos últimos cinco anos o número de
aquisições de empresas no estrangeiro aumentou 10 vezes.
Embora o PIB per capita seja ainda baixo, a economia da China é (em ppp) já a
segunda maior do mundo e previsivelmente ultrapassará a norte-americana nas
próximas décadas.
Mas esta ascensão da China é apenas a ponta de um iceberg que é a imparável
competição e o consumo das economias emergentes. O que nas próximas décadas
alterará dramaticamente o modus operandi e as linhas de força da economia
mundial não é apenas a China mas esse conjunto de países. O mundo da economia,
da política e do poder, como o conhecemos no séc. XX, está a desaparecer
parcialmente.
Torna-se indispensável a inteligência estratégica de nos reinventarmos em tempo
útil. Presidente do CINT (ped.jordao@gmail.com). Segundo de uma série de três
artigos
O poder
militar chinês: a ameaça futura
10.09.2008,
Pedro Jordão
A China
planeia a muito longo prazo. É legítimo que nos interroguemos sobre os reais
objectivos do seu esforço militar
Diversos
países, designadamente os Estados Unidos, sentem um paranóico temor perante o
crescente poderio militar da China. Embora em matéria de segurança todos os
cenários devam ser previstos, são pouco plausíveis as visões mais pessimistas no
que se refere à China.
Logicamente, seria imprudente desvalorizar militarmente este país. A China é o
país mais populoso do mundo, possui as maiores forças armadas, com 2,3 milhões
de efectivos, é uma potência nuclear e desenvolve um consistente processo de
modernização das suas capacidades de combate, inclusive em domínios de
sofisticada tecnologia da próxima geração.
É iniludível a convergência entre a ascensão desta força militar e a
transformação da China numa futura superpotência económica, de que decorrerá um
grande peso político global. A China pensa e planeia a muito longo prazo. É
legítimo que nos interroguemos sobre os reais objectivos de todo este esforço
militar.
Os norte-americanos assustam-se pelo facto de o orçamento militar chinês ter
crescido 17,8 por cento em 2007 e 17,6 por cento em 2008. Mas devemos manter a
noção das proporções. Em valores absolutos, o orçamento de defesa dos Estados
Unidos é nove vezes superior ao da China e o poder militar norte-americano tem
já um avanço gigantesco e crescente relativamente a qualquer outro país ou à
Europa. Os EUA não só possuem uma enorme superioridade como também desenvolvem
já novas gerações de armas e tecnologias que lhes assegurarão uma supremacia
militar durante muitas décadas. O orçamento de investigação e desenvolvimento
militar dos EUA é superior a todo o orçamento da defesa da Alemanha. Nem a
Europa nem a China terão uma capacidade comparável num longuíssimo horizonte
temporal.
A China será a grande potência militar da Ásia e terá capacidade para intervir
noutras regiões do mundo, inclusive, se necessário, para proteger as suas fontes
e rotas de abastecimento de petróleo, alimentos e matérias-primas essenciais. A
forte aposta na capacidade naval tem esses propósitos mas também o de ser um
contrapoder à influência naval norte-americana na região. A China possui mísseis
balísticos intercontinentais, designadamente o DF-31, que podem atingir
território europeu e norte-americano.
A modernização chinesa privilegia os submarinos avançados, os aviões
não-tripulados, os mísseis ar-terra de alta precisão, as comunicações militares
de longa distância, os mísseis anti-satélite e a capacidade de rápido ataque da
Força Aérea a objectivos longínquos. Mas, inteligentemente, a China aposta em
novas tecnologias não-convencionais que poderão revelar-se cruciais em futuros
conflitos, sendo esse o caso da capacidade de guerra electrónica e informática e
de tecnologias como o impulso electromagnético (que poderia ter um efeito
determinante na fase inicial de um conflito com Taiwan).
As capacidades chinesas de ciberguerra são um exemplo da perspicácia com que
este país antecipa metodologias vitais em conflitos do futuro, planeando atingir
a superioridade de guerra electrónica em 2050. A China desenvolveu modelos de
ataque informático a frotas de porta-aviões dos Estados Unidos. Ciberataques
ensaiados a partir da China têm sido quase constantes, embora se negue o
envolvimento oficial. Desde 2005 foram registadas no Pentágono 79.000 tentativas
de intromissão informática, das quais 1300 com algum grau de sucesso. Um ataque
conseguiu fechar parte do sistema de computadores do gabinete do próprio
secretário da Defesa.
Toda esta preparação militar de vanguarda pode ser perigosa ou benigna. Ter
armas não é necessariamente um perigo. Um indivíduo pacífico com um míssil é
menos perigoso que um psicopata com um punhal. O que verdadeiramente define a
perigosidade de uma estrutura militar é a mente de quem a controla. É imperioso
avaliar o que motiva os chineses.
A China é uma civilização com 4 mil anos que geralmente deteve uma superioridade
perante o resto do mundo nos planos científico, tecnológico e cultural.
Habituou-se a olhar os outros povos como bárbaros. Em lugar de tentar controlar
o mundo "bárbaro" a China optou por isolar-se dele. A famosa muralha traduz essa
postura. Mas nos últimos 170 anos a China sofreu duras derrotas, ocupações e
humilhações. Na verdade, o mundo não está habituado a agressões da China, mas
ela sofreu agressões estrangeiras.
A China está determinada a exorcizar aquelas humilhações, a recuperar o estatuto
de grande potência e a inspirar respeito e dignidade. As mentalidades
pacificaram-se, não existe uma postura internacional agressiva, os contenciosos
com os vizinhos estão a ser resolvidos e mesmo com Taiwan o desanuviamento
progrediu imenso.
O poder militar chinês será muito mais provavelmente defensivo do que
aventureiro. A China não deseja tutelar o mundo. Simplesmente não aceita que o
mundo a tutele. Presidente do CINT (ped.jordao@gmail.com)
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