Supondo que se concede algum crédito ao resultado programático
desta longa análise, resta ainda, claro está, uma questão de primeira importância:
de que modo transitar da actual forma-partido para uma outra de estrutura e
cultura tão diferentes? Se, de uma ponta à outra, o objecto legítimo deste
livro é desenvolver abordagens de puro princípio, sem nos pensarmos capazes
por esse facto de determinar as modalidades concretas, esta reserva impõe-se
por maioria de razão quando se trata de encarar concretizações práticas. Mas
também aqui as considerações de princípio que expusemos podem, sem dúvida,
pelo menos desembocar em indicações metodológicas gerais, particularmente
duas. A primeira é que esta passagem terá certamente a ver com um processo
extenso e não com um acto breve. Porque o que está em jogo é muitíssimo
mais, e certamente de uma natureza muito diferente, do que uma enésima modificação
dos estatutos, da qual podemos eventualmente admitir que se toma verdade prática
logo que decidida. A tarefa, aqui, é a de fazer nascer nada menos do que uma
nova forma histórica de força política, e só pode ser comparada, sendo aliás
as coisas fundamentalmente opostas, à própria génese do PCF, depois da adesão
à lII Internacional e através de anos de "bolchevização". Uma criação
desta amplitude, ademais inteiramente inédita, pressupõe tanto a longa elaboração
do seu projecto por meio de muitos debates como a longa concretização dos seus
princípios por meio de muitos esforços. Mas isto não é tudo, já que se não
trata - e este ponto é capital- de uma pura transformação organizacional mas
sim , de uma mutação fundamental de conteúdo político, a nova forma não
pode corporalizar-se na realidade, nem mesmo certamente idear-se no pensamento,
a não ser em ressonância com o progressivo desenvolvimento das novas
actividades que ela tem por único objectivo servir e na ausência das quais
continuaria sem vida. É pois todo um complexo guião que deve ser construído,
e em parte improvisado em caminho, para organizar a vasta fase de construção
experimental que um : congresso pode decidir empreender e um outro, de concepção
ela própria inédita, pode transformar em acto fundador da nova organização
comunista.
O segundo ponto é que deveria tratar-se de um processo
simultaneamente lançado pelo PCF e desenvolvido com parceiros exteriores. Lançado
pelo PCF pela simples razão que continua vivo, apesar dos prognósticos de um
próximo fim tantas vezes feitos a seu propósito, e que os pesos que continuam
a condená-lo a um declínio em grande parte já consumado encontram agora,
dentro dele, em torno de uma renovação que a cúpula quer encorajar, contra
tendências ainda hesitantes - situação
Entre todos esses parceiros deveria ser encetada uma troca de
pontos de vista aprofundada e depois, tanto quanto possível, uma efectiva
concertação sobre os conteúdos e as formas que requer uma força política de
novo tipo e com um objectivo que se pode resumir assim: começar a superar de
modo concreto o capitalismo mais desenvolvido e, com ele, todas as grandes
alienações históricas nas suas formas actuais, trabalho de que não há
exemplo e é doravante de vital necessidade e para que aponta a própria palavra
comunismo. A elaboração de uma força deste tipo, sendo inseparavelmente
reflexão teórica e experimentação prática, obriga a uma extrema ousadia
tanto na crítica como na invenção, do mesmo modo que obriga a uma inteira
publicitação, tal como convém a um empreendimento que diz ao mais alto ponto
respeito à colectividade cívica e que responde ao desafio, não menos público,
dos gatos-pingados do comunismo. Sim, está em gestação um comunismo novo e
contra o qual o velho anticomunismo vai descobrir a sua impotência... A ousadia
não exclui, bem pelo contrário, recomenda, a prática associada do "princípio
de precaução" baseado nesta rude experiência da história comunista
recente: nesta matéria é bem mais fácil destruir do que reconstruir. Este
princípio é tanto mais oportuno quanto não há qualquer possibilidade de que
a formação deste comunismo de nova geração seja bem vista - e certamente
ainda menos em França do que noutras paragens, tendo em conta a sua peculiar
situação política - por aqueles que se arrogam o cuidar da boa ordem dos
assuntos nacionais e mundiais; seria imperdoável ingenuidade não ter consciência
disto. Quanto mais sólidas garantias se possui contra os riscos de um erro
fatal, tanto mais se é livremente ousado. E que melhores garantias se pode ter
contra o erro do que o pluralismo reflectido e a transparência democrática da
postura? A grande aventura da refundação comunista é uma parada demasiado
alta para que possa ser conduzida de maneira aventureira, tal como é demasiado
necessária para se acomodar com uma atitude timorata.
Mas, por muito cuidadosa que seja a audácia, não é sem uma
certa vertigem que se enfrenta um cometimento destes. Ele faz parte daqueles
cujo caminho não está escrito em livro algum em que, não há rede para
tranquilizar o funâmbulo. É por isso que se ouve distintamente exprimirem-se
inquietações de comunistas, e inquietações a que ninguém pode ficar insensível:
perda da identidade revolucionária, esquecimento da luta de classes, renúncia
ao espírito de partido... muitos são os que parecem traumatizados por uma
"morte do pai". Por aqui se mede a pesada responsabilidade de um
pensamento de direcção que, durante vinte anos, consubstanciou as necessárias
actualizações do comunismo francês em sucessivos abandonos, muito mais do que
em invenções coerentes... será de admirar que tenha produzido tantos órfãos?
Àquelas e àqueles que têm estas inquietações diríamos, não que se
inquietam em demasia, mas antes que o perigo é grave se nos inquietarmos num só
sentido. Porque, em suma, qual é o problema dos problemas que o século XX nos
deixa em herança? Ele reside na unidade dialéctica de uma evidência e de uma
exigência. Algo, a que ilusoriamente chamávamos «o comunismo», morreu de
modo trágico e irremediável: esta é a evidência. E, contudo, a humanidade
civilizada só pode escapar à gangrena provocada pela finança capitalista
reinventando a via para essa desalienação radical cujo nome histórico é
comunismo: esta é a exigência. Daqui decorre que há duas maneiras, com
atitudes opostas mas com efeitos possivelmente complementares, de ficar
impotente face ao drama dos nossos dias. Uma é imaginar que se preserva o
futuro do comunismo quando, por um erro de fidelidade, se defende contra tudo e
contra todos a sua falsificação passada, que precisamente o levou ao desastre.
Por patético que seja, um certo conservadorismo comunista pode tomar-se no pior
inimigo daquilo que apaixonadamente quer salvaguardar. A outra maneira é
declarar nulo este antigo «comunismo», reclamando vigorosamente um novo mas
sem lhe dar, com a rapidez e a força necessárias, consistência teórica e
operatividade prática. Neste sentido pode também haver uma retórica da
"mutação", um eclectismo da abertura que sirvam mal a causa que
muito sinceramente se quer fazer avançar - esta é toda a questão do XXX
Congresso do PCF: ainda promessa de mudança em vez de mudança prometedora,
como no XXIX Congresso, ou início, desta vez decisivo, das transformações
necessárias? Não se pode imaginar nada pior do que a entrada em ressonância
destas duas atitudes, cada uma acusando a outra. Mas pode-se trabalhar para algo
muito melhor, superando o que contém, uma de estéril crispação e a outra de
busca hesitante pouco produtiva. E pode-se fazê-lo com avanços, agora
decisivos, debatidos contraditoriamente e realizados colectivamente, quer na
elaboração imaginativa de uma política comunista quer na reconstrução de
raiz de uma organização que lhe corresponda. Muito mais do que esse morto que
nunca mais acaba de desaparecer, o que a todos deve obcecar - não no sentido de
uma desmoralização mas antes no de uma motivação - não deve ser o vivo que
tão terrivelmente tarda a nascer?
Vamos pois ao trabalho e com confiança? Confiança em que,
sendo o que é a relação de forças ao nível local e mundial, se poderá
realmente superar o capitalismo? Será sério dizer-se que se pode fazer
desaparecer as grandes alienações históricas, e que isso começa hoje? É com
seriedade que o digo: é possível, e pode começar hoje. É claro que, sendo a
relação de forças efectivamente o que é, ninguém escapa, penso eu, a
momentos de grande dúvida -«nunca conseguiremos...» -, especialmente na hora
desta ou daquela grave decepção - e estamos ainda num ponto terrível da decepção
dominante: uma tareia histórica como a da URSS não se apaga em dez anos, uma
janela histórica fica mais difícil de abrir do que um postigo perro. Mas
atente-se nisto: uma transformação da paisagem política da mesma ordem de
grandeza que a superação do capitalismo era ainda há pouco tida como o próprio
exemplo da impossibilidade, de tal modo que ninguém a conjecturava: era o
desaparecimento do socialismo tal como reinava de Berlim a Vladivostok. Ora,
esta impossibilidade aconteceu, de modo rápido e pacífico. Como pôde
acontecer? Como pôde desmoronar-se o Muro de Berlim sem a mínima efusão de
sangue? É muito simples: em suma, tinha-se lentamente desmoronado antes na alma
das pessoas, em particular dos jovens. A aspiração a acabar com ele, a voltar
a página do "socialismo real" tinha-se tornado hegemónica, e por
isso irresistível. Esta é, cada vez mais, a "arma absoluta" no século
político em que entramos. É ela, em última análise, que venceu um outro
"impossível": a superação do apartheid na África do Sul. Foram
tomadas de consciência e "tomadas" de iniciativa, no entanto ainda
bem longe de ser hegemónicas, que permitiram marcar alguns notáveis primeiros
pontos em assuntos do maior alcance - por exemplo, contra o poder sem controlo
da Comissão de Bruxelas ou contra o liberalismo sem limites no comércio
mundial, ou como o esboçar de uma era de mais alta responsabilidade humana em
matéria de ecologia ou de bioética. Não haverá aqui uma decisiva indicação
sobre o caminho a seguir? Cessar de subestimarmos nós próprios a amplitude das
desalienações que há que empreender sem demora. Cessar de restringir a
diversidade das forças que nisso podem tomar parte. Cessar de afastar do
combate emancipador, ao querer fazê-lo passar pelo alistamento num partido à
moda antiga. Cessar de empobrecer a mensagem não esgotada, e em grande parte não
ouvida, que pode ainda vir-nos de Marx.
É necessário dar, finalmente, uma oportunidade à ideia
comunista.
[pgs 206_212. “Começar pelos Fins - a nova questão Comunista; Lucien Séve; Campo das Letras Editores, S.A, 2001. www.campo-letras.pt. campo.letras@mail.telepac.pt]