Aquele «defensivo» soou-me um pouco como o «ainda acreditas
na filosofia», mas em versão agravada: decididamente, esta direcção, ciosa
de fazer verdadeira política viva libertando-se, e com razão, do velho
doutrinarismo "marxista-leninista", nada enxergava do núcleo racional
arqui-precioso que distraidamente lançava fora juntamente com este. Não, a
minha preocupação nada tinha de «defensiva», embora a sua realização fosse
ainda muito deficiente, uma vez que pela força das coisas era produzida numa
grande solidão de pensamento. E iria ter ainda mais consciência desta
imaturidade, quando no ano seguinte escrevi, com François Hincker e Jean Fabre,
Les Communistes et l'État, um livro que não foi decretado como defensivo, mas
que também não foi recebido lá muito ofensivamente. O XXIII Congresso, em
1979, Congresso de real invenção estratégica diferentemente dos que se lhe
seguiram, relançava duplamente a reflexão de alguém como eu, através desse
mesmo contraste entre riqueza política e indigência teórica: por um lado,
retomando à conta do PCF a sugestiva noção de «socialismo autogestionário»
que entretanto, por defeito crónico de aprofundamento, rapidamente iria
descambar em fórmula inoperante; por outro, purgando os novos estatutos, com
alguma razão, da referência tradicional ao marxismo em geral, para apenas pôr
em relevo o «socialismo científico», mas abstendo-se impavidamente de
explicitar, por pouco que fosse, o conteúdo de pensamento que sob esta denominação
se colocava doravante, no entanto, em destaque - sendo membro da comissão de
redacção destes novos estatutos, estava bem colocado para apreciar esta façanha.
Alargando então o meu campo de reflexão pessoal ao conjunto deste novo
objecto, comecei a entrever, pela minha parte, para que rumo se devia orientar
sem dúvida um comunismo do nosso país e do nosso tempo, coisa de que há traços
num artigo escrito nos finais de 1982 e publicado na Primavera seguinte por La
Pensée: «Em que ponto estamos relativamente ao socialismo científico?».
Mas o obstáculo a qualquer avanço parecia-me cada vez mais
residir numa concepção, num funcionamento, num modo de vida do Partido,
manifestamente retardatários. Sendo em 1981 o redactor do pequeno colectivo que
tinha a seu cargo a redacção do projecto de resolução do XXIV Congresso,
senti com vivacidade uma exigência de inovar com ousadia na questão do partido
e ao mesmo tempo uma impreparação profunda para o fazer. A maneira como a
Direcção ao mais alto nível se acomodava com este estado de coisas surgiu-me
pouco a pouco como uma confissão. E o seu tácito «não» a qualquer
verdadeiro questionamento neste domínio teve para mim, sem barulho, um efeito
decisivo. Não fechava só o círculo de uma indiferença teórica que abrangia,
constatava eu, todo o campo das questões fundamentais do famoso, socialismo
científico, incluindo a concepção do partido, coisa que já me parecia
extravagante. Fazia-me, sobretudo, tomar consciência de que o meu litígio com
a direcção ia bem mais longe do que eu supunha. Já que aquela recusa não
visava só a minha preocupação teórica em clarificar a situação em que nos
encontrávamos do ponto de vista de princípios relativamente ao leninismo em
matéria de organização; nessa recusa jogava-se a mais prática e política de
todas as paradas: o próprio Partido. Aquele «não» queria dizer que se não
queria mudar nele nada de importante. Encontrava-me, deste modo, em relação a
uma questão tão nevrálgica, em oposição política à Direcção do Partido.
Para mim, era um marco. Até ali, estava tão certo da minha razão no meu
contencioso teórico com ela, como continuava interiormente aberto à sua
contracrítica. Sendo cada qual contra si próprio o mais bem informado e o mais
penetrante dos acusadores, encontrava dez motivos para me dizer: eles é que têm
razão, estás a ser picuinhas com os conceitos, não fazes suficientemente
"poolítica". Porque, na linguagem oral das altas esferas do Partido há
duas palavras "política": só com um "o" para dizer política
no sentido corrente, e com dois "oo" para puxar as orelhas a quem se
mostrar ingenuamente político a mais -«é preciso fazer poolítica, camarada!».
Demasiada teoria filosofante, pouca poolítica a sério: não seria esse
exactamente o meu retrato? Durante muito tempo batalhei no partido, albergando
no meu íntimo aquela parte de crítico que me impedia de ajuizar negativamente,
de modo global, a direcção. Mas com aquela recusa, em minha opinião indefensável,
de mexer na questão crucial do Partido - como se se pudesse implementar uma
estratégia verdadeiramente nova com um partido à moda antiga -, chegava a
minha vez de dar um puxão de orelhas: já não simplesmente por carência nas
ideias, mas por imobilismo poolítico... precisamente, e devastador de que
maneira! Assim sendo, aquele «não» precipitou em mim uma verdadeira reconversão
do meu olhar sobre a direcção: esta fazia pior do que pensar pouquinho,
dirigia mal. Portanto, como considerá-la inocente no processo do começo de
afundamento histórico do comunismo francês?
Foi este abrir de olhos que, com alguma pugnacidade, a minha
intervenção mostrou no Comité Central em Junho de 1984 (cf Anexo III) - e foi
a vez da direcção ficar siderada. A minha passagem a uma atitude contestatária
de um tipo inédito em que a dissidência de pensamento de modo algum caminhava
para uma conspiração oportunista - a única lógica em que a direcção
entretanto quis acreditar para a diabolizar - mas, bem pelo contrário,
dirigindo-se para a ambição afirmada de tornar inevitável, a prazo, uma
grande mudança do partido para melhor, libertava de uma só vez todo o espaço
necessário para as necessárias reconsiderações. Era toda a perspectiva do
combate comunista que se tornava necessário repensar ousadamente. Neste sentido
dei início à preparação e depois à redacção de um livro que tive de
abandonar em 1986, não só por falta de tempo, mas também por excesso de
dificuldades. A abundância de temas não perdoa, e a incompetência era de
molde a desmoralizar o mais resoluto. O crescimento da contestação comunista
em sentidos à partida diferentes multiplicava as opções decisivas de orientação.
O desenvolvimento espectacular do gorbatchevismo avivava a vontade refundadora,
mas agudizava todos os problemas ao mais alto nível. Não seria necessária uma
completa inconsciência para se auto-instituir, mesmo que a título exploratório,
como determinador de rumos? Contudo, como andava a pensar nisto há mais de uma
década, chegava a uma concepção de conjunto que me parecia valer a pena ser
submetida à crítica pública. Aliás, vendo acentuar-se o declínio do PCF em
todos os domínios, era-se mesmo tomado por um sentimento de urgência. Quando
nos inícios de 1990, levei enfim ao que restava das Éditions Sociales, o
manuscrito de Communisme, quel second souffle? [Comunismo, que Segundo Fôlego?],
pareceu-me ter chegado, não ao fim de um processo de reflexão por essência
infindável, mas agora como uma hipótese global de real plausibilidade e
fecundidade para dar corpo, para além do processo de desmoronamento do
"socialismo real", a um comunismo potencial de nova geração.
[pgs 032_037. “Começar pelos Fins - a nova questão
Comunista; Lucien Séve; Campo das Letras Editores, S.A, 2001. www.campo-letras.pt.
campo.letras@mail.telepac.pt]