Este livro não foi escrito para os que encaram os planos de
despedimento ditados pela taxa de lucro como uma evidência terrível mas
perfeitamente necessária, nem para os que chamam “anti-americanismo” à
recusa da hegemonia universal do dólar, do Pentágono e da CIA, que não
compreendem o que se pode censurar aos fundos de pensões, que preferem sempre a
segunda esquerda à primeira, a terceira à segunda, e assim por diante, até à
direita se necessário for – ou seja, os que vêem no capitalismo o fim da
história e se resignam. Este livro foi escrito para quem sente estas coisas, e
muitas outras semelhantes, de modo bem diferente e que além do mais, fartos das
mezinhas políticas amargas e do desalento das noites eleitorais para a esquerda
da esquerda, consideram demasiado longa a operação de reabertura em pensamento
e em acto das perspectivas do revolucionar social e a isso não se resignam. Na
indispensável reconstrução conceptual de um futuro e de um presente de
emancipação, não será tempo de começar a fazer com ousadia esboços mais
acabados do conjunto? Este livro assume o risco de propor um.
Mas, já que o que está em jogo não poderia ser mais amplo,
porquê focalizar o nosso exame na questão comunista? Como se o século do
estalinismo não devesse recomendar-nos abstinência quanto ao uso da palavra
comunismo. Como se, aliás, uma visão do século XIX, embora genial, pudesse
ser de grande pertinência para o século XXI. Como se, para além disso, o
estado presente das questões mundiais permitisse atribuir alguma verosimilhança
a semelhante utopia. Três verdadeiras e cruciais interrogações, se se quiser
hoje abrir uma via plausível para uma transformação maior da sociedade.
Interrogações que devemos enfrentar, sem lhes fugir. Na sua tripla dimensão
de drama histórico, de herança teórica e de potencial político, não será o
comunismo o inevitável ponto de cruzamento de todas as reflexões críticas e
antecipadoras, reflexões a fazer para que uma humanidade que se liberta do
capitalismo seja de novo um objectivo prático? Contudo, teremos poucas hipóteses
de levar a bom termo um reexame sério da questão se não passarmos por uma
questão prévia, tão decisiva quão pouco conhecida: a desmontagem da
armadilha que nos montaram com esta expressão global de aparência tão
inocente, e na realidade tão mistificadora a vários níveis: «o comunismo».
Para bem apreender este extraordinário imbróglio na sua génese,
nada melhor que velhos recortes de jornais. Recomendo uma pilha do Le Monde dos
últimos dez anos, ou mais ainda - coisa que vai dar corpo ao nosso vinho político.
Ocupando-me há pouco das colheitas de 1988 a 1993 de diversos quotidianos e
revistas, encontrei precisamente por todo o lado, sob a poeira, os anúncios
necrológicos debruados a negro do comunismo. «Agora a coisa está clara: o
comunismo morreu»;, decretava Robert Maggiori no Libération (19 de Janeiro de
1990), o que abria a agradável possibilidade, segundo ele, de «tratar Marx
como um grande filósofo qualquer». Não que «a esperança comunista no
sentido filosófico», vivaz desde Platão, seja de natureza a esgotar-se, mas,
acrescentava Stéphane Courtois no Panorama (Janeiro de 1993), «já não há
qualquer hipótese de ela passar por estas organizações comunistas que chegarão
dentro em pouco ao término da sua agonia». Por seu lado, Jacques Julliard, já
em Maio de 1988, anunciava no Le Nouvel Observateur este «prognóstico sem
apelo: o PCF entrou na sua fase terminab». Só o previdente François Furet no
Le Figaro (8 de Setembro de 1990) matizava certos pontos deste anúncio jubilatório,
nomeadamente porque a ideia comunista «morre com efeito diante dos nossos
olhos, escrevia ele, mas essencialmente sob a forma em que a União Soviética a
encarnou desde 1917». Prudência susceptível de nos levar bem longe, mas que
no fim de contas não impedia o próprio François Furet de falar do comunismo
no passado, dando-se mesmo o prazer de acrescentar que «toda a gente sentiria
um pouco a falta do comunismo».
Será que passados dez anos vou procurar o efeito polémico fácil
exibindo algumas notórias manifestações da vitalidade do morto: o túmulo do
PCF que continua vazio, resultados eleitorais estabilizados, e até em ascensão
em mais do que um dos partidos que persistem em querer ser, ou mesmo
intitular-se comunistas, da Europa meridional à Escandinávia, passando por
Berlim e pela Alemanha Oriental, da África do Sul à Índia e ao Japão? Ou
ainda, a propósito do 150º aniversário do Manifesto Comunista, exibindo as múltiplas
retomas da investigação crítica e prospectiva sobre o que pode ser no nosso
tempo uma superação do , capitalismo? Seria legítimo, sem dúvida; bom método
é que não seria. Seria, antes, opor um tratamento não menos superficial da
conjuntura de hoje aos prematuros prognósticos baseados na conjuntura de ontem.
Tudo o que se pode dizer a partir da constatação actual das coisas é que os
gatos-pingados do comunismo se precipitaram outrora um pouco nos seus bombásticos
anúncios, coisa sobre a qual não parece que tenham reflectido muito até
agora. Dito isto, em que pé estará o Partido Comunista Francês daqui a dez
anos? Terá fracassado em travar um declínio que o conduzia a não ser mais que
um grupúsculo, ou, pelo contrário, ter-se-á metamorfoseado numa força política
que relança de uma maneira nova a sua trajectória? Sobre isto, só sei que
nada sei - embora tenha, claro está, as minhas conjecturas e as minhas esperanças
- e também sei que ninguém sabe. Actuando como se o soubessem de ciência
certa, os nossos futurólogos permitiram sobretudo entrever aquilo que amarra o
seu saber à ideologia. Mais uma razão para não lhes responder
ideologicamente.
Sobretudo, convenhamos que ficando-nos por aqui, escamotearíamos
o próprio fundo da questão, já que existe um diagnóstico histórico por
debaixo do prognóstico político. Movendo-se rapidamente do primeiro para o
segundo, é evidente que, quer Furet quer Courtois, tomaram depressa demais os
seus desejos por realidades. Mas será que alguém acredita que este erro retira
algo de essencial às impressionantes súmulas histórico-críticas que
produziram anos mais tarde, isto é, ontem, como provas do seu veredicto - O
Passado de uma Ilusão, O Livro Negro do Comunismo? Tais trabalhos não se
refutam com recortes de imprensa. O seu objecto é muito simplesmente a gesta do
século XX que mais acusatória é para qualquer quimera: dos entusiasmos
nascidos da Revolução de Outubro de 1917, passando pelos horrores do
estalinismo, até à glauca bancarrota final daquilo que podia ter sido vivido
como a aurora de um mundo melhor. Deste modo, a questão é muito diferente de
se saber se é ainda verosímil esta ou aquela formação que conserva a
etiqueta comunista; o problema está em questionarmo-nos com profundidade se
aquilo a que se chama o comunismo pode ter a audácia de se propor de novo para
pensar a história e mudar o mundo. Antes de responder, admitam avaliar
plenamente o que o desqualificou: eis aqui, no fim de contas, a interpelação
dirigida não só a quem se diz e sempre se quis comunista, mas também à
grande multidão daquelas e daqueles que, no despojamento teórico de hoje, se
interrogam sobre o nosso futuro como humanidade.
Este é o ponto de partida da questão que aqui me ocupa. Ela é
demasiado grave para que não se procure verificar com cuidado, antes de a
discutir, os termos em que a colocam François Furet em Le Passé d' une
illusion - Essai sur [' idée communiste au vingtieme siecle (Laffont, 1995) [O
Passado de uma Ilusão - Ensaio sobre a ideia comunista no século vinte], ou Stéphane
Courtois e seus pares em Le Livre noir du communisme - Crimes, terreur, répression
(Laffont, 1997) [O Livro Negro do Comunismo - Crimes, terror, repressão].
Considero aqui estes livros não no seu conteúdo histórico pormenorizado,
sobre o que já muito foi escrito, mas no seu processo argumentativo de
conjunto. E relevo, a propósito, uma característica comum de que os seus
autores parecem não ter consciência, enquanto que para um leitor como eu ela
se torna surpreendente e de tais consequências que não deixa dúvidas sobre a
totalidade da empreitada. Esta característica consiste na utilização
abertamente sincrética e infraconceptual que fazem do próprio termo que
pretende dar um sentido a toda a sua argumentação: «o comunismo».
Tomemos como exemplo o livro de Furet. O seu objecto declarado
é o que ele chama «a ilusão comunista», isto é, efectivamente, o
nascimento, o apogeu e a morte do «mito da União Soviética» (p. 709, ed.
fr.). Ora, o autor procede como se o tratamento histórico-crítico deste
objecto limitado o autorizasse ipso facto a tirar conclusões sem limites sobre
«o comunismo» no sentido mais abrangente da palavra. Através de uma frequente
liberdade de linguagem -e, à sucapa, de pensamento - de que em parte alguma é
dada uma justificação, o facto, por exemplo, de países do Leste passarem
depois da guerra para o campo soviético é descrito do seguinte modo: «A ideia
comunista é senhora de toda uma parte da Europa» (p. 645, ed. fr., sublinhado
meu); do facto de os serviços secretos estalinistas estarem muito activos nos
Estados Unidos nos anos cinquenta, dir-se-á: «A conspiração é uma das faces
do comunismo» (p. 692, ed. fr.). De análises muito pontuais arroga-se o pleno
direito de apresentar «o comunismo» como uma «crença» (p.198, ed. fr.), um
«licor particularmente forte em teor ideológico» (p. 210, ed. fr.), uma «alienação»
(p. 200, ed. fr.), e assim sucessivamente. Nesta súmula de oitocentas páginas,
só uma fórmula da mesma massa é rejeitada pelo autor como mistificadora: «O
comunismo ganhou a guerra» (p. 570, ed. fr.): isso é que não, isso é uma «ilusão»...
Em eco longínquo - e, acrescente-se, trivial - a «construção especulativa»
hegeliana cujo mistério Marx elucidou, «o comunismo» vê-se aqui promovido ao
estatuto de Ideia, aliás por demais conhecida para ser minimamente definida -«Procuro
menos analisar conceitos do que fazer reviver uma sensibilidade e opiniões»,
anuncia, não sem ousadia, Furet (p. 28, ed. fr.), tendo em consideração a
amplitude das conclusões conceptuais que pretende estabelecer - Ideia à qual
seriam imediatamente imputáveis, como atributos universalmente necessários, os
piores avatares da história singular em que se entrincheira.
Postulando por exemplo como evidente que os crimes estalinistas
são crimes de um regime «comunista», conclui-se através de uma simples
substantificação do adjectivo que «o comunismo» - portanto o que Khrutchev
ou Ho Chi Min, Pablo Neruda ou Waldeck Rochet podem também representar - é, em
si mesmo, criminoso -«Hitler é o irmão tardio de Lenine», ousa escrever
Furet (p. 339, ed. fr.) - o comunismo é ainda «fanático», «totalitário»,
«apocalíptico»... de modo que uma obra de que o autor faz questão de
sublinhar no início que não é de maneira alguma uma «história do comunismo»
(p. 13, ed. fr.), nem do «movimento comunista», nem do pensamento comunista (e
muito menos ainda, acrescentaria eu, das suas formas actuais), mas a de um
objecto passado, muito mais circunscrito, acaba, no entanto, por concluir em tom
que não admite qualquer objecção que «o que morreu sob os nossos olhos, com
a União Soviética de Gorbatchev, engloba todas as versões do comunismo», que
«o comunismo» está «condenado pela história a desaparecer a pique», e de
maneira ainda muito mais alargada, que «a ideia de uma outra sociedade se
tornou quase impossível de pensar»: «A história volta a ser aquele túnel em
cuja obscuridade o homem se embrenha, sem saber onde conduzem as suas acções,
na incerteza do seu destino, desapossado da ilusória segurança de uma "ciência"
da sua acção» (pp. 807, 808, ed. fr.).
Esta maneira quase mágica de, sem mais, pôr à conta da
entidade geral «comunismo» as conclusões de análises históricas específicas
encontra-se de modo idêntico na introdução e conclusão do Livro Negro de Stéphane.
Courtois: «crimes», escreveu por exemplo, logo no início, «o comunismo
cometeu imensos» (p. 13, ed. fr., sublinhado meu). Esta atitude é hoje
tranquilamente dominante na ideologia política em vigor. Do mesmo modo, Claude
Lefort, apesar de criticar a atitude de Furet, a ponto de evocar os seus
aspectos especulativos, não deixa no entanto de subintitular «Retour sur le
comunisme» o seu livro La Complication (Fayard, 1999) - cujo campo é
igualmente muito limitado - e tira logo na primeira frase a conclusão que
deveria em princípio ser demonstrada: «O comunismo pertence ao passado...»
(p. 5, ed. ,fr., sublinhado meu). Depois disto, não veremos nós as coisas a
uma outra luz? É certo que o carácter controverso do prognóstico político da
morte do comunismo nada retira ao formidável peso do diagnóstico histórico
invocado. Embora o presente livro não tenha por objecto um debate sobre esse
diagnóstico, direi apenas, se é que é necessário, que não lhe contesto o
grau de gravidade, nem, por conseguinte, a obrigação dura e durável que tem
de se confrontar com ele quem persevera em situar-se numa perspectiva comunista.
Mas agora é claro que o prognóstico avançado pelos nossos autores não é um
erro independente do seu diagnóstico: pelo contrário, é o seu corolário
directo, dado que este diagnóstico consiste precisamente em pronunciar
doravante a irrevogável caducidade de qualquer forma de comunismo. E como é
enorme o hiato entre a amplitude desta asserção inicial e os limites dos seus
considerandos reais, vê-se bem que a conclusão política precede na realidade
a sua suposta demonstração histórica.
Aos autores destes estudos histórico-críticos diremos que
podem, sem dúvida alguma, tirar conclusões mais ou menos esmagadoras sobre o
que foi o "mundo comunista", isto para aceitar muito provisoriamente
esta formulação já em si mesma mistificadora, como se verá; mas daí a
crerem-se autorizados a julgar e condenar implicitamente em bloco realidades tão
diversas como o papel do PCF na Frente Popular ou o conteúdo de pensamento dos
Cadernos da Prisão, de Gramsci, o combate anti-apartheid dos comunistas
sul-africanos ou a figura do Che, a Primavera de Praga ou o actual esforço de
refundação comunista iniciado em tantos países, e centenas de outras coisas
da mesma ordem que também constituem «o comunismo», digo-vos tranquilamente
que isso não, não o podem fazer. E mais: esforçarem-se por criminalizar de
maneira genérica uma implicação militante na história, que em alguns países
capitalistas como o nosso consistiu na sua maior parte ao longo de todo o século
- e ainda hoje consiste - em combater com abnegação políticas humanamente
escandalosas, e por mais do que uma vez criminosas, eis o que a meus olhos não
é motivo de orgulho. Sem negar às vossas obras um certo valor científico,
constato que estão profundamente penetradas de ideologia, partindo, sem o
dizer, de uma pré-noção, eminentemente contestável, do que quereis chamar «o
comunismo», e que esta pré-noção não criticada e muito criticável surge,
para quem lê com atenção, como a chave dos vossos trabalhos, desde a divisão
do objecto até às vossas liberdades de linguagem, passando pelo vosso modo de
tratamento da matéria histórica.
Logo que acabei de escrever isto, uma dúvida me assaltou: não
seria excessiva esta querela de vocabulário sobre «o comunismo»? Qualquer que
seja a nossa visão da história, o modelo soviético de regime, o totalitarismo
estalinista, não terão estado no próprio cerne do fenómeno comunista? E não
terão imprimido a sua marca em todos os seus aspectos, a tal ponto que assiste
o direito de dizer: na realidade dos factos, isto é «o comunismo»? Pois bem,
não o creio; não exagero se falo aqui de fraude intelectual; e se dúvidas
houver, reforcemos a demonstração. Não contesto naturalmente que, directa ou
indirectamente, o estalinismo marcou profundamente todos os aspectos do facto
comunista que regeu: a revisitação crítica desta marca está mesmo, como se
verá, na base deste livro. No entanto esta palavra amalgamante, «o comunismo»,
para a qual tudo se remete, embora se evite cuidadosamente defini-la, não tem
aqui outra função a não ser a de organizar a amálgama entre as muito
diferentes ordens de realidade que ela conota e a de permitir passar as graves
conclusões que, com justeza, se tiram sobre certas realidades para outras
realidades que assim se evita estudar - quer seja a obra tão diversa dos
partidos comunistas no poder, ou o contributo tão marcante de forças
comunistas na oposição - quando o seu estudo poderia muito bem levar a
contradizer radicalmente estas conclusões. Focando o olhar sobre a "tragédia
soviética" (cf o livro de Martin Malia, La Tragédie soviétique (Le
Seuil, 1995) [A Tragédia Soviética] e atribuindo, em tom de evidência, a
autoria desta «ao comunismo», quer Furet quer Courtois reduzem sem
dificuldades este último a uma realidade intrinsecamente trágica, através da
qual sairia desqualificado quem pretendesse considerá-lo de outro modo. Aí
reside a brutal simplificação do problema sobre o qual Claude Lefort nada diz
em La Complication. [A Complicação].
E assim o veredicto político adquire miraculosamente a consistência
de uma constatação histórica. Basta proceder como se «o comunismo» tivesse
por conteúdo exclusivo, na sua essência, o que não só deixou nele de viver
mas ainda mereceu, de certo modo, morrer. E aqui está a definição escamoteada
que, quer Furet quer Courtois, tacitamente pressupõem: «o comunismo» é essa
utopia de um futuro que pertence irrevogavelmente ao passado. Por isso, não tem
futuro... "Quod erat demonstrandum"! Como escreve Furet no seu prefácio,
«o comunismo (...) acaba numa espécie de nada» (p. 9, ed. fr.) - e não
admira: eliminaram-lhe, por construção, o ser vivaz. Mas com isso
eliminaram-lhe também os problemas mais verdadeiros: por debaixo do exagero polémico
irrompe a indigência crítica. É que, fazendo depender toda a análise desta
entidade indefinida que é «o comunismo», fica-se cego para as questões
nascidas precisamente da sua definição real. Assim, a União Soviética nunca
se apresentou a si própria, aliás como nenhum outro país do "campo
comunista", como uma formação social comunista, mas tão-só socialista,
distinção terminológica que abrange enormes diferenças sociopolíticas. E
como compreender, precisamente, que após mais de meio século "de edificação
do socialismo, a URSS de Krutchev e depois de Brejnev não tenha por fim passado
ao comunismo? Uma simples questão como esta, totalmente oculta pelo recurso sem
rigor a esta "noção onde tudo cabe" que é «o comunismo», pode
conduzir a uma interrogação infinitamente mais fecunda do que toda a conversa
anticomunista convencional. Não será também algo de muito enigmático que se
tenha podido tirar do Manifesto Comunista a doutrina classicamente denominada
"socialismo científico"? Pura questão de palavras? Expliquem-me então,
se me é permitido aqui invocar uma experiência pessoal, por que é que, quando
nos finais dos anos oitenta lutei no Comité Central do PCF para contestar nos
seus fundamentos o objectivo oficial do «socialismo à francesa», valorizando
vigorosamente aquilo a que chamei o «desígnio comunista», fui objecto de
tantas recusas veementemente acompanhadas das mais ofensivas acusações? Quando
vejo um homem como François Furet, outrora membro efémero do PCF e agora
historiador de talento com uma enorme erudição na sua área, passar, sem
sequer os notar, por cima dos problemas cruciais implicados neste tandem semântico
socialismo/comunismo, como poderia eu deixar de concluir que ele terá, apesar
de tudo, permanecido terrivelmente exterior aos problemas vivos do comunismo sem
aspas? Em suma, toda a função desta indefensável maneira de tratar o
estalinismo, chamando-lhe «o comunismo» sem pestanejar, consiste em esconder
onde se situa aquilo a que chamarei a nova questão comunista, exactamente
aquela a que é consagrada a obra que se irá ler. Isto porque a unidade nominal
da questão comunista cobre na verdade dois temas de reflexão intimamente
conexos, mas muito diferentes: a questão retrospectiva do que foi, nas suas múltiplas
dimensões, aquilo a que confusamente se costumou chamar no século XX «o
comunismo» - conjunto de onde são muito selectivamente retirados os objectos
de que O Passado de uma ilusão ou O Livro Negro do Comunismo se ocupam -, e a
questão prospectiva do que pode ser nas suas diferenças profundas um comunismo
do século XXI - exactamente aquela de que nos vamos ocupar. Questões
intimamente conexas, e nos dois sentidos, uma vez que uma muito bem informada e
meditada avaliação crítica do «comunismo» de ontem é propedêutica
indispensável para qualquer esboço plausível de um comunismo de hoje - é com
este espírito que insiro no Anexo I deste volume observações críticas sobre
o Lénine de Hélene Carrere d'Encausse (Fayard, 1998), e que se estendem de
seguida a certas teses de Nicolas Werth sobre o mesmo Lenine - esboço de um
novo desígnio comunista de que as dificuldades encontradas apontam por sua vez
o que deve ser de novo questionado com mais acuidade na experiência anterior.
Todavia, são simultaneamente questões muito diferentes, até pelo estado em
que se encontram, dado que a primeira nos remete para uma matéria histórica
imensa de que trata uma literatura não menos imensa, embora também muito
insuficiente sob vários aspectos; na segunda é pelo contrário impressionante
o contraste entre tantos problemas da mais alta importância e a ainda raridade
das elaborações prospectivas de grande alcance nas quais se possa confiar para
enfrentar esses problemas.
Porque há que ter consciência da tarefa que corresponde àquilo
a que chamo a nova questão comunista: quase tudo o que nasceu de 1917
desapareceu; dissolveu-se um grande número de forças comunistas; a própria
confiança dos comunistas no comunismo está corroída pelas dúvidas; O
estalinismo será para sempre um selo de infâmia; o leni- nismo está para
julgamento; o próprio Marx foi, em parte, encerrado para inventário; aliás, já
nem estamos literalmente no mesmo mundo: as classes já não são as mesmas, os
homens não são os mesmos, os conceitos já nada têm a ver com os nossos
conceitos...
Sendo assim, vá-se lá pensar com amplitude e firmeza de vistas
o conteúdo global de um Manifesto Comunista para o próximo século!
Limitem a ambição, deixem de lado o pormenor. Expliquem-nos só
em que pé estamos com a história, em que é que o comunismo é um processo
mais do que nunca na ordem do dia, de que modo ele será radicalmente diferente
do que vimos no século XX, de que maneira se pode avançar desde já nesta
direcção, e o que é preciso fazer urgentemente para arrancar em grande com a
coisa... Será que estou mesmo metido na escrita de uma obra que se propõe um
tal programa? Custa-me a acreditar. Para ser franco, mais do que me pôr a
escrever, leria com enorme interesse um livro que fosse escrito por alguém
muito mais versado do que eu em história, sociologia, economia, ciência política,
e ainda vários outros domínios... Mas, estando todos, aparentemente, neste
tipo de atitude, que possibilidades haveria de serem escritos os esboços do
livro com que sonho e de que estou seguro que temos uma gritante necessidade, até
mais do que aquela que sentimos?
Ao dizer isto não perco de vista o contributo, para quem quer
reflectir sobre a nova questão comunista, de livros tão diversos como Une
certaine idée du communisme, de Denis Berger e Henri Maler (Éditions du Félin,
1999) [Uma Certa ideia do Comunismo], cujo primeiro objecto consistia em dar uma
réplica de fundo (e de maneira aperitiva) a François Furet, ou ainda
Communisme, un nouveau project, de Robert Hue (Stock, 1999) [Comunismo, um Novo
Projecto], que diz com calor o que são, a seu ver, as áreas de trabalho
essenciais para uma superação do capitalismo, ou ainda Le Communisme,
autrement, de Roger Martelli (Syllepse, 1998) [Comu- nismo, de Outro Modo], cujo
conteúdo crítico e prospectivo está tão próximo do que eu próprio penso
sobre o tema anunciado pelo título. A que acrescento tudo o que as nossas
reflexões devem às elaborações colectivas que começam a multiplicar-se em
diversos locais: dos congressos e seminários da Actuel Marx, até aos dossiers
da "Fondation Copernic", passando pelas análises plurais de Futurs,
pelas mesas-redondas de Regards, os contributos da Attac ou as iniciativas de
Espaces Marx. Todavia, parece-me que há qualquer coisa de absolutamente
essencial que fica em grande parte por pensar, se trabalhamos, como é desde
longa data o meu caso, para re-constituir teoricamente ,um desígnio comunista
do nosso tempo. A meu ver, essa qualquer coisa é, para além de qualquer conteúdo
programático algo pormenorizado, o conjunto coerente de tal desígnio, dos
conceitos estruturantes que mobiliza e, ainda mais a montante, dos considerandos
primordiais que ele pressupõe. Investigação de certo modo erudita, mas de que
o essencial deve ser dito em linguagem de todos, para fazer frente a esta
pergunta que todos se põem: que pode significar hoje a palavra comunismo, na
sua dupla acepção de combate político presente e de forma social futura?
Convenhamos que está ainda por fazer um difícil trabalho que possa propor uma
resposta simples para esta simples e premente questão.
Assim, lancei-me à água para nadar à minha maneira de filósofo.
Isto significa que a única coisa de que me vou ocupar aqui de uma ponta à
outra é do sentido claramente pronunciado de que deverá preencher-se no século
XXI a palavra comunismo, que muitos desejariam tornar completamente impronunciável.
É claro que, não sendo o universal outra coisa senão o singular coniderado na
sua essência, tocaremos forçosamente, durante o nosso percurso, em temas específicos
tão desmesurados quanto o mercado e a propriedade, o trabalho e o indivíduo, o
Estado e a política...
Mas previno o leitor: estas realidades não ficarão com
contornos muito mais precisos - serão até talvez mais discutivelmente tratadas
- do que as pessoas e as árvores dos desenhos de arquitecto. É que não é
esse o objecto do livro - sem o que nem sequer teria certamente começado a
redigi-lo. O seu único propósito, insistamos, é a hipotética consistência
geral de um projecto comunista renovado, tal como a ele nos conduzem ao mesmo
tempo as experiências terríveis do século XX e as exigências fabulosas do século
XXI, vistas na óptica revolucionária de Marx em todo o seu vigor e o seu
rigor. Por isso, não se trata de fazer avançar dossiers, mas de fazer com que
os que não desistem da transformação social profunda reencontrem pontos de
referência: é esta a sua finalidade. E como a essencial liberdade crítica que
se oferece ao leitor, face aos pontos de referência que se lhe propõem,
depende também dos pontos de que dispõe para situar a demarche própria do
autor, não receio aqui e ali referir algumas experiências políticas pessoais,
por vezes ásperas, mas que pouco contam na concepção renovada de comunismo
para a qual me orientei. É por isso que ao ler este livro se sentirá
certamente, não o nego, mais o calor de uma exortação do que a frieza de uma
tese.
Abril-Setembro de 1999
[pgs 009_022. “Começar pelos Fins - a nova questão Comunista; Lucien Séve; Campo das Letras Editores, S.A, 2001. www.campo-letras.pt. campo.letras@mail.telepac.pt]