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O Alentejo e o turismo
O "Setubal na Rede" tem vindo a realizar um seminário, com o tema "O Futuro que Queremos para o Distrito de Setúbal", nos concelhos do Sul do distrito. A primeira sessão, realizada em Alcácer do Sal, foi pacífica e pouco concorrida mas a segunda sessão, que decorreu no dia 26, em Grândola, foi muito mais animada. É que o assunto abordado era de grande actualidade, os investimentos turísticos no Litoral Alentejano, onde se movem muitos e variados interesses, e que irão movimentar centenas de milhões de euros. Assim não admira o número e a qualidade dos debates.Baseado apenas nos relatos do seminário, que o Setubalnarede apresentou aos seus leitores, vou desenvolver a crónica desta semana. O provedor confessa que pouco percebe de turismo. É uma actividade que se desenvolveu muito, nos últimos dez anos, em todo o mundo e a sua abordagem não é acessível, com um mínimo de rigor, por curiosos. Tirando uns chavões do género “temos que apostar no turismo de qualidade” ou então “ vamos desenvolver um turismo sustentável”, muito do agrado dos nossos autarcas, pouco mais se lê na imprensa habitualmente. Daí a riqueza das intervenções que se apresentaram no seminário do Setubalnarede . Com efeito juntaram-se um conjunto de pessoas conhecedoras, uns , e interessadas, outras, que apresentaram um grupo muito completo de reflexões sobre o turismo no litoral alentejano. Vejamos alguns dos realces que um leitor mais atento poderá tirar da série de reportagens apresentadas pelo Setubalnarede. A primeira surpresa, que o leitor mais avisado teve, foi que saber que existe um “coordenador técnico do Estudo de Impacto Ambiental dos investimentos turísticos do Litoral Alentejano”, que por acaso já foi ambientalista ferrenho, no passado, mas depois voltou-se para o campo contrário, mais compensador do ponto de vista remuneratório. Tem ainda a particularidade, o coordenador, de ter formação superior na área da psicologia, disciplina muito ligada ao ambiente e à natureza como todos sabemos... O concelho de Grândola tem previsto três empreendimentos turísticos que são Tróia, Costa Terra e Pinheirinho . Para avaliarmos o valor destes investimentos basta dizer que o empreendimento da Costa Terra inclui três suites/hotéis, cinco aparthotéis, quatro aldeamentos turísticos, 204 moradias de turismo residencial, um campo de golfe, um centro equestre do cavalo lusitano, uma clínica de medicina desportiva, geriatria e talassoterapia, dois clubes de ténis e ginásios e um fórum comercial. Quanto ao empreendimento da Herdade do Pinheirinho, inclui dois hotéis, três aldeamentos com 260 apartamentos e moradias em banda, 204 moradias e um campo de golfe. Num discurso realizado em 18 de Janeiros, deste ano, o Secretário de Estado do Turismo, na apresentação das linhas orientadoras do Plano Estratégico Nacional do Turismo, afirmou que “Os dois projectos recentemente desbloqueados para o Litoral Alentejano representam mais de 670 milhões de euros, dos quais 75% de capital estrangeiro. Falamos, juntamente com Tróia, de mais de 1.000 milhões de euros de investimento e da criação de cerca de 4.000 novos postos de trabalho directos para a Região.” Daí a afirmação de presidente da Câmara de Grândola sobre a “fixação de população jovem, a criação de riqueza com pólo em Grândola, criação de empregos directos, indirectos e induzidos”. Palavras compreensíveis da parte de quem, no dia a dia, se debate com as dificuldades da situação económica da população. No entanto há opiniões mais cautelosas sobre estes empreendimentos e na sua intervenção o presidente da associação Quercus disse que “não está contra os empreendimentos do Litoral Alentejano’, mas deseja paralelamente que ‘o ambiente e os valores naturais sejam preservados”. Mais à frente a Quercus pôs o dedo na ferida quando afirmou que “esta área do Litoral Alentejano ‘é atractiva exactamente por ser preservada’, uma área que não está estragada por uma construção desenfreada como acontece na Costa Algarvia e no Litoral Norte”. Palavras simples e sensatas mas como se poderá conciliar “o ambiente e os valores naturais” quando estamos na presença de 670 milhões de euros e a criação de milhares de postos de trabalho? É uma batalha perdida certamente. Aliás o próprio representante do sindicato da Hotelaria e Turismo afinou pelo mesmo diapasão do desenvolvimento quando disse que “Os investimentos turísticos ‘não são inimigos dos trabalhadores’, a forma como se realizam, ‘sem ordenamento para a região’, é que representa o verdadeiro problema.” Foi muito interessante ler as intervenções dos representante do poder central. Como é habitual foram ditas numa linguagem técnica, com alguns chavões da moda e sem qualquer comprometimento oficial. O chamado estilo “ julga-se não haver inconveniente” . A presidente do Instituto do Turismo citou números e acabou por tentar o impossível quando conclui “Mas acima de tudo, e para que haja um ‘desenvolvimento sustentado do turismo’, é preciso haver ‘consenso entre os representantes locais, investidores e defensores do ambiente”. Depois tivemos o representante do Instituto da Conservação da Natureza que proferiu uma conciliação geral de interesse, que tudo pode permitir, quando afirmou “o princípio geral’ deve ser o da ‘não afectação dos valores naturais’, salvo as excepções de ‘ausência de alternativas, se o interesse público estiver em causa ou se verificarem medidas de compensação exteriores ao projecto’, mas sempre tendo em atenção a ‘estrutura do ecossistema e a dinâmica dos processos naturais”. Com tal política bem pode a natureza esperar por melhores dias. Quem investe 670 milhões de euros pode pagar um pouco mais a um especialista e este encontrará sempre umas “medidas de compensação exteriores ao projecto” e assim se obterá a respectiva aprovação do ICN. Encaramos com curiosidade e alguma apreensão o desenvolvimento destes projectos. E aconselhamos os leitores interessados, nestes assuntos, a copiarem o conjunto de reportagens do Setubalnarede sobre esta sessão do seminário e os seus desenvolvimentos. Daqui a dez anos poderemos comparar o que foi dito com o que foi cumprido. Será que teremos uma Torralta número dois? Esperemos que não pois esta poderá ser a última oportunidade que o litoral Alentejano, do sul do distrito , terá para o seu desenvolvimento turístico .
Setúbal na Rede, 30/05/2006
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