A “escassez de oferta organizada gera a procura desorganizada”



Cláudia Monteiro

 

É “muito fácil criticar grandes projectos turísticos, pois são os mais visíveis”, mas são as “pequenas construções que acabam por desorganizar o território”, acusa José Manuel Palma. Para o coordenador técnico do Estudo de Impacto Ambiental dos investimentos turísticos do Litoral Alentejano, “quando não há oferta organizada dá-se a procura desorganizada”. Opinião partilhada por Avelino Sousa, do Hotel Vila Park, que afirma que “quando há turismo de qualidade há organização”.

 

O presidente da Câmara de Grândola, concelho para onde estão previstos três empreendimentos turísticos (Tróia, Costa Terra e Pinheirinho), defende apenas que os habitantes da região “também têm direito a comer, a viver e a ter boas oportunidades” que lhes serão proporcionadas por estes projectos que visam captar “um turismo de qualidade”. Acrescenta ainda que “isto do turismo só diz respeito ao Instituto do Turismo e às autarquias”.

 

Mas a questão que se coloca, segundo o presidente da Quercus, “não é o fazer ou o não fazer, mas sim o como fazer”. Hélder Spínola garante que esta associação ambientalista “não está contra os empreendimentos turísticos no Litoral Alentejano”, mas quer “relocalizá-los devidamente”, para “fora da Rede Natura 2000 e para mais longe da faixa costeira”. Uma alternativa que permita que os que “visitam o Litoral Alentejano deixam lá o dinheiro, mas sem trucidar os valores da zona”.

 

Figueira Mendes, da Região de Turismo de Setúbal – Costa Azul, alerta também para  a necessidade de haver “formação de recursos que potenciem o desenvolvimento turístico da região”. Refere ainda o Hospital do Litoral Alentejano como uma “mais valia importante” naquela que é a “zona do país que mais tem sido estudada”.

 

Mas José Palma lembra que “não basta realizarem-se estudos”, é preciso “perceber a evolução da zona nos últimos 100 anos, as espécies que aí foram implementadas pelo Homem e as espécies doentes”, pelo que “é preciso um plano de intervenção não só para os projectos, mas também para a área natural”. Em Portugal “não existe natureza”, pois tudo o que existe é “em parceria com a mão humana”, conclui.

 

Os projectos da Herdade da Costa Terra e da Herdade do Pinheirinho são, no Litoral Alentejano, os que mais têm motivado críticas por parte dos ambientalistas, que contestam o facto destes empreendimentos se desenvolverem em zona reservada à conservação da natureza (Rede Natura 2000 Comporta/Galé). Mas durante o debate sobre os ‘Investimentos Turísticos no Litoral Alentejano’, promovido pelo “Setúbal na Rede”, a Quercus foi também alvo de críticas por “não ter intervido aquando do momento da discussão” e, por, “muitas vezes, defender o ambiente, mas não o proteger”.

 

O empreendimento da Costa Terra inclui três suites/hotéis, cinco aparthotéis, quatro aldeamentos turísticos, 204 moradias de turismo residencial, um campo de golfe, um centro equestre do cavalo lusitano, uma clínica de medicina desportiva, geriatria e talassoterapia, dois clubes de ténis e ginásios, um fórum comercial, um centro ecuménico, um centro de documentação da natureza, uma reserva ornitológica, um parque de flora mediterrânica, um borboletário e uma quinta e vinha biológicas com produções certificadas para consumo no empreendimento turístico. Quanto ao empreendimento da Herdade do Pinheirinho, inclui dois hotéis, três aldeamentos com 260 apartamentos e moradias em banda, 204 moradias e um campo de golfe.

 

Setúbal na Rede, 27/05/2006