| De acordo
com notícias vindas a público e informações obtidas pela Quercus,
o governo prepara-se para reconhecer razões imperativas de
interesse público aos projectos de loteamento da Costa Terra e
Herdade do Pinheirinho e respectivos campos de golfe. Esta
situação, a se concretizar, dá luz verde ao avanço destes
projectos turístico-imobiliários previstos para a freguesia de
Melides, concelho de Grândola, no sítio da Rede Natura 2000
“Comporta/Galé” (PTCON0034).
Despacho Ilegal
A Quercus considera que o Despacho que vier a reconhecer razões
imperativas de interesse público estará ferido de legalidade uma
vez que na área de implantação destes projectos está presente uma
espécie de protecção prioritária, a Armeria rouyana (espécie
incluída no anexo II da directiva comunitária 92/43/CEE). De
acordo com a Directiva Habitats “apenas podem ser evocadas razões
relacionadas com a saúde do homem ou a segurança pública ou com
consequências benéficas primordiais para o ambiente ou, após
parecer da Comissão, outras razões imperativas de reconhecido
interesse público”, o que não é o caso.
Incoerência total comparativamente ao caso PORTUCALE
O actual governo, com este despacho, assume uma posição totalmente
incoerente com a posição assumida no caso do abate de sobreiros na
Herdade da Vargem Fresca, em Benavente, relativamente ao
empreendimento turístico-imobiliário da PORTUCALE. Na altura, em
início de mandato em Março de 2005, o actual governo revogou o
Despacho Conjunto nº 204/2005, emitido pelo anterior governo, que
permitia o abate de 2605 sobreiros protegidos por lei. Na altura
considerou, de forma correcta, que não havia fundamento para
considerar o projecto da PORTUCALE como merecedor do
reconhecimento de razões imperativas de interesse público. Os
projectos de loteamento da Costa Terra e Herdade do Pinheirinho
têm a mesma natureza que o da PORTUCALE e portanto não se
compreende estes dois pesos e duas medidas utilizadas pelos
actuais governantes.
Quercus desiludida com equipa do Ministério do Ambiente
Com a concretização deste reconhecimento de razões imperativas de
interesse público para os projectos da Costa Terra e Pinheirinho,
a Quercus perde totalmente a esperança que mantinha até aqui na
equipa do Ministério do Ambiente do actual governo. Com este
desempenho ficamos a perceber qual a forma encontrada por este
governo para gerir as áreas protegidas e a Rede Natura 2000.
Quercus apresenta queixa na Comissão Europeia e avalia intervenção
através dos Tribunais portugueses
Após a confirmação do despacho anunciado, a Quercus apresentará
uma queixa junto da Comissão Europeia e avaliará a forma de
impedir este atentado à conservação da Natureza através de uma
intervenção junto dos tribunais portugueses.
Em Julho último terminou o processo de avaliação de impacte
ambiental destes dois grandes projectos. Em sequência deste
processo foi emitido, para ambos os projectos, declaração de
impacte ambiental favorável condicionada ao reconhecimento, por
despacho dos ministros competentes na matéria, da ausência de
soluções alternativas e da sua necessidade por razões imperativas
de reconhecido interesse público, incluindo de natureza social ou
económica.
Estes dois projectos ocupam uma área de cerca de 475 hectares e
representam a instalação de cerca de 10 mil camas turísticas e
residenciais. No seu conjunto estes dois projectos, numa extensão
de apenas 3 Km de costa, prevêem 410 moradias, 3 hotéis, 10
apart-hotéis, uma estalagem, 7 aldeamentos/apartamentos e 2 campos
de golfe, entre outras infra-estruturas, estando já construído na
mesma faixa um aldeamento e um parque de campismo.
A Quercus informou já em Outubro de 2005 a Comissão Europeia
relativamente a vários procedimentos que desrespeitam as regras
previstas na Directiva Habitats relativamente aos planos e
projectos que têm sido apresentados para o sítio Natura 2000
“Comporta/Galé”:
- Portugal não está a garantir a avaliação dos impactes ambientais
cumulativos dos vários planos e projectos que têm sido
apresentados para este sítio da Rede Natura 2000, contrariando o
disposto no nº 3 do artigo 3º da Directiva Habitats.
- O Plano de Pormenor das Fontainhas, no Concelho de Grândola,
onde se inserem os projectos de loteamentos Costa Terra e Herdade
do Pinheirinho, juntamente com os respectivos campos de golfe, foi
aprovado em Conselho de Ministros pela Resolução n.º 57/2003 de 11
de Abril sem o desenvolvimento de uma avaliação de impacte
ambiental, contrariando a Directiva Habitats que requer avaliação
de impacte ambiental dos planos integrados na Rede Natura.
- Para os planos e projectos acima referidos não foram avaliadas
alternativas de localização, nomeadamente fora da Rede Natura
2000, ao contrário do que prevê a Directiva Habitats.
- Tendo em conta que na área de influência dos projectos de
loteamento Costa Terra, Herdade do Pinheirinho e respectivos
campos de golfe está presente uma espécie de protecção
prioritária, a Armeria rouyana (espécie incluída no anexo II da
directiva comunitária 92/43/CEE), de acordo com a Directiva
Habitats “apenas podem ser evocadas razões relacionadas com a
saúde do homem ou a segurança pública ou com consequências
benéficas primordiais para o ambiente ou, após parecer da
Comissão, outras razões imperativas de reconhecido interesse
público” para aprovação dos projectos. Desta forma, o
reconhecimento de razões imperativas de interesse público,
incluindo de natureza social e económica, prevista nas declarações
de impacte ambiental emitidas, não pode ser utilizado para que
estes projectos sejam viabilizados dentro da Rede Natura 2000.
Lisboa, 13 de Janeiro de 2006
A Direcção Nacional da Quercus – Associação Nacional de
Conservação da Natureza
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