|
“Assalto ao Litoral Alentejano”
A eventual atribuição do
estatuto de utilidade pública aos empreendimentos turísticos Costa Terra e
Herdade do Pinheirinho revoltou a Quercus, que aponta irregularidades ao
processo e pondera accionar judicialmente o Estado e formalizar uma queixa
na Comissão Europeia.
Carla Teixeira
A
associação ambientalista Quercus garante que está em curso um “assalto ao
Litoral Alentejano” e frisa que o eventual reconhecimento do estatuto de
utilidade pública aos dois empreendimentos turísticos recentemente
anunciados pelo Governo para a costa vicentina configura um atropelo à
legislação em vigor, já que se trata de uma zona da Rede Natura 2000 em
que subsiste uma espécie vegetal de protecção prioritária – a armeria
rouyana –, circunstância que pressupõe que aquele estatuto só poderia ser
conseguido mediante a existência de “razões relacionadas com a saúde do
homem, a segurança pública ou com consequências benéficas primordiais para
o ambiente”, ou, após parecer da Comissão Europeia, de “outras razões
imperativas de reconhecido interesse público”, que no caso em análise não
se verificam.
Em declarações a O PRIMEIRO DE JANEIRO, o presidente da Quercus explicou
que aqueles dois empreendimentos turísticos fazem parte de uma área
incluída no Plano de Pormenor das Fontainhas, que foi aprovado em Conselho
de Ministros, em Abril de 2003, sem ter sido feita a avaliação de impacto
ambiental obrigatória à luz da Directiva Habitats. Hélder Spínola garantiu
que a sustentabilidade daquela área protegida está ameaçada, e avisou que
a associação ambientalista está a preparar a formalização de uma queixa na
Comissão Europeia, aguardando também a divulgação do despacho
governamental sobre a utilidade pública para, depois de analisar aquele
documento, decidir se põe em tribunal uma acção contra o Estado. No
seguimento de um primeiro contacto com Bruxelas, em Outubro do ano
passado, em que se denunciava algumas situações irregulares naqueles e
noutros projectos previstos para a costa alentejana, a Quercus diz ter
recebido “algum feedback” da Comissão, estando disposta agora a apresentar
uma queixa formal.
Hélder Spínola garantiu que seria “uma queixa plenamente justificada”,
fundamentada no facto de ali existir e se desenvolver uma espécie de
protecção prioritária e de terem sido violadas, ao que tudo indica, as
regras da Rede Natura relativas à atribuição do estatuto de utilidade
pública. Neste caso, Bruxelas teria de aprovar esse estatuto, mas o
executivo comunitário nem sequer foi ouvido neste processo. O
ambientalista frisou que, se os dois empreendimentos avançarem, a
integridade do Sítio da Rede Natura Comporta/Galé está ameaçada, já que a
pressão excessiva provocada pela existência dos dois projectos é
“incompatível” com a preservação daquele ecossistema. Frisando que “a
Quercus não está contra o projecto”, e reconhecendo que o mesmo “terá
valias que se mantêm se for construído noutro local”, o responsável aponta
a deslocalização dos empreendimentos “alguns quilómetros para o interior
de Melides”.
------------------------------
Bruxelas é esperança
“Erros muito grosseiros”
A Quercus garante que, se os dois empreendimentos turísticos previstos
para a costa alentejana avançarem, o sítio da Rede Natura 2000 da
Comporta/Galé sofrerá “várias consequências irreversíveis”, já que aqueles
projectos, a juntar a outros já anunciados para a mesma zona, constituem
“ameaças à integridade da Rede Natura 2000”. Para a associação
ambientalista, a esperança reside na Comissão Europeia, mas Hélder Spínola
assegurou ao JANEIRO que o processo está “ferido de ilegalidade” e contém
“erros muito grosseiros que facilmente justificarão uma acção judicial a
nível nacional”. Porque até ao momento a discussão tem sido meramente
política e sem valor jurídico, a Quercus aguarda que seja publicado o
despacho governamental, para depois actuar.
Primeiro de Janeiro,
13/02/2006
|